No Varatojo

Na sala do capitulo vi dois lettreiros:

Aqui descansão
as cinzas do Ven.ˡ
P. F. Antonio das
Chagas. Miss. Apost.
e instituidor deste
Semin.ᵒ faleceu a
20 de outubro de 1682.


Fr. Joaq.ᵐ do Espirito Santo
restaurador deste
Seminario
Fal. em Santarem
3 d’agosto 1878

Na quadra, perto da porta que deita para a matta:

Aqui jáz Felipa do
Reguo molher de Nuno
de Sampaio... 1530

Reparei na egreja nas seguintes pinturas:

Na capella-mór:

Annunciação
Adoração dos reis
Adoração dos pastores
Noli me tangere.

Na sacristia:

Milagre de Santo Antonio. O burro ajoelhado ante a sagrada particula
Pentecostes.

Na ante-sacristia:

presepe, pequeno quadro em madeira, de trabalho fino, um tanto estragado.

A quadra, arcada e varanda coberta, o travejamento assente sobre columnellos, está bem conservada.

Para esta quadra ou pequeno claustro diz uma casa a que chamam dos retratos, que me parece ter sido uma aula ou casa do capitulo.

O portal desta casa é em manuelino, de trabalho apurado e em boa pedra; é uma peça nitida. Nesta casa está uma pintura em madeira, o Calvario.

A moldura do quadro é de pedra lavrada, tambem em manuelino; pareceu-me uma antiga porta ou janela aproveitada para alli.

Estes trabalhos teem intima relação com os portaes de S. Pedro, de S. Thiago, ediculo dos Perestrellos, etc. Vê-se que em Torres Vedras houve na primeira metade do seculo XVI artistas trabalhando com methodo e gosto.


A porta principal da egreja do Varatojo é ogival, singela, aos lados tem brazões com as armas de Portugal e o rodisio de D. Affonso V.

As ventanas da torre são ogivaes.

E vi n’uma córte contigua um portal antigo tambem de ogiva.

Por isto se vê bem que este antigo edificio soffreu reconstrucções.

A quadra deve ser da primitiva, apezar de não apresentar ogivas; o travejamento é singular; no todo singelo ha uma pureza, uma sobriedade que nos incute ideias de paz e recolhimento; como na matta, de vetusto arvoredo, frescas fontes murmurejantes, e clementes horizontes.

Bello sitio para dulcificar maguas e socegar corações attribulados. Por aqui passeou a sua grande dôr e cruel desesperança um rei, D. João II, depois do desastre de Santarem.