Palacio e jardim Fronteira

Entre as mais notaveis vivendas destes sitios de Bemfica sobresae o palacio Fronteira com os seus lindos jardins e fresco hortejo, singulares obras d’arte e historicas recordações.

Dizem que o primeiro marquez de Fronteira, D. João Mascarenhas, mandou fazer na sua propriedade um pavilhão de caça para receber a visita del-rei D. Pedro II, e esse foi o núcleo do palacio: isto pelos annos de 1670 a 1681. Antes certamente havia outras construcções porque a elegante capella é de 1584. O terremoto de 1755 arruinou o palacio de Lisboa; foi a familia Fronteira residir para Bemfica, e então ampliaram o tal pavilhão formando-se o palacio actual. O grande jardim, a monumental galeria e cascata, devem ser do fim do século XVII, com grande influencia do estylo italiano.

Os azulejos da magnifica sala do pavilhão referem-se á batalha do Ameixial. É pena não se conhecer bem a formação d’esta vivenda porque se póde affirmar notavelmente conservada, exemplo rarissimo em Portugal.

O jardim é um enlevo, no genero antigo, com as suas estatuas, fontes artisticas, grande peça d’agua, grutas, escadarias, varandas de balaustrada, elegantes pavilhões.

Muito regular, taboleiros geometricos e symetricos, com ruas e travessas, e pequenas praças, sendo maior a central onde se ergue artistica fonte de taça alta, ostentando em pinaculo os escudos dos Mascarenhas.

A poente a fachada do palacio, a sul a galeria dos reis; norte e nascente moldura ou parede de arvoredos, com vista para o campo; compridos assentos azulejados.

Ha estatuas no jardim, na parede do tanque, dentro do tanque, na varanda da galeria, em nichos, nos vertices dos pavilhões!

Entre matizes de flores e aromas riem faunos, dançam nymphas, os deuses teem sorrisos benevolentes.

Brilha ao sol o paganismo.

Na gruta maior que abre para o tanque está o Parnaso, um monte com o Pégaso alado e galopante, e em roda, a variadas alturas, Apollo e as Musas, estatuetas em fino marmore.

Na parede da galeria quadros de azulejo com figuras de cavalleiros, doze na frente, dois nos lados, os cavallos a galope, parecendo que vão entrar em renhido torneio.

Á esquerda, olhando para a galeria, ha muitos retratos, em azulejo, dos Mascarenhas, condes de Obidos, Torre, Santa Cruz, marquezes de Fronteira; á direita, fronteando os retratos, estão representados os brazões.

Na galeria em nichos forrados de azulejos hespanhoes, de reflexo metallico, uns acobreados, alguns de tom azul, bustos dos reis de Portugal, entrando o conde D. Henrique, e o infante D. Fernando o santo. Os ultimos bustos d’esta galeria, os de Affonso VI e Pedro II, são os de melhor trabalho. Uma porta communica para o jardim alto ou moderno; segue a segunda galeria dos reis, D. João V, D. José, D. Maria I e D. João VI. Sobre a porta entre as galerias um busto do imperador Tiberio, talvez copia de busto authentico.

Estatuas mythologicas, faunos prasenteiros, gentis nymphas dançantes, ornam plinthos no jardim, e as balaustradas. Azulejos estranhos, hespanhoes e hollandezes, fazem rodapés, representando scenas familiares, caçadas, episodios agricolas.

Embrechados finos de buzios e conchas, fragmentos de louças orientaes, vidros pretos, cristaes de rocha, bocados de escorias, em complicados desenhos, forram paredes das cascatas. N’uma grande parede do jardim molduras e ornatos em faiança, folhagens, flores e fructos no genero chamado dos Della Robia.

Neptuno e o seu cortejo, em grande quadro de azulejo; outro em relevo de alvenaria infelizmente em grande estrago, cumprimentam um rio, o Tejo, provavelmente.

Num quadro de azulejo o ratão do artista representou Jupiter, e pintou ao lado o nome assim: Ghvptre.

No jardim moderno, entre fetos magnificos e grande collecção de camelias, ha uma fonte central, de taça, com a estatua de Venus. O pé da taça é um grupo de golphinhos lavrado num lindo bocado de marmore com laivos avermelhados.

Dizem que a esta Venus se refére Tolentino na satyra intitulada A funcção.

Musa basta de rimar
...................
...................
... sincera velha
Pondo contra a luz a mão
E crendo que nesta rua
Está São Sebastião
De Venus á estatua nua
Faz mesura e oração.

É bem interessante a historia dos jardins; conhecem-se exemplos do Egypto, da Assyria; celebres entre os romanos os de Plinio e de Sallustio, ornamentados de terraços, fontes, estatuas.

Cultivavam rosas, lyrios, violetas, malvas, algumas arvores e arbustos cortados e aparados em feitios caprichosos, como o louro e o buxo; estimavam muito o esguio cypreste, e a vinha como planta decorativa.

E neste ponto tinham muita razão porque a parreira faz lindo ornato, com mudança de tons, gracilidade de curvas, além do encanto do cacho, quer se applique a edificios ou se enrosque em arvores.

Mas os jardins conservaram-se regulares e symetricos durante seculos.

O jardim irregular, de imprevistos, o jardim-paisagem é mais moderno.

Ha muitos livros sobre jardins e construcções architectonicas especiaes, fontes, repuxos e grandes jogos d’agua, cascatas, terraços, caramanchões e pavilhões. Merece ver-se o livro de Alicia Amherst, intitulado: A history of gardening (London, 1896), e L’art des jardins por Jorge Riat, que faz parte da Bibliothèque d’Enseignement des Beaux-Arts; qualquer d’estes livros indica sufficiente bibliographia.

Em Portugal ha bonitos jardins modernos e ainda alguns antigos conservando os seus engenhosos desenhos; a invasão moderna de plantas exoticas prejudica bastante o jardim antigo, araucarias e chamerops não harmonisam bem nas combinações geometricas e symetricas, não podem substituir as cevadilhas, as balaustras, de pequeno porte, de brilhante folhagem e vistosa florescencia. Uma alta araucaria pyramidal destoa nos bordados jardins de Caxias e Queluz. Arvores variadas, exoticas ou naturaes, empregavam-se em fazer parede ou moldura de jardins, em alamedas de horta ou laranjal.

No Diccionario dos Architectos, vasto trabalho do sr. Sousa Viterbo, por vezes apparecem architectos encarregados de obras em jardins, o que não admira porque todos os jardins antigos tinham obras d’arte importantes, terraços, escadarias, balaustradas, cascatas enormes e complicadas, com jogos d’agua, pavilhões, etc. (Dicc. dos Architectos, vol. 1.ᵒ, pag. 62 e 395; 2.ᵒ, pag. 350 e 379).

Póde dizer-se que o jardim antigo é principalmente architectonico, e que o moderno é filho da pintura.

Na Bibliotheca Nacional de Lisboa, a respeito de jardins ha livros antigos notaveis, especiaes; e tambem em obras que não tratam de cultura ou architectura dos jardins por incidente se topam vistas e desenhos interessantes.

Um certo in-folio grande, impresso em Roma, adornado com boas gravuras, e o titulo Villa Pamphilia ejusque palatium cum suis prospectibus, statuae, fontes, vivaria, theatro, areolae, plantarum viarumque ordines apresenta-nos grande numero de estatuas proprias para jardim e minuciosos desenhos dos terreiros ajardinados, que parecem imitar salvas de prata repoussée; sem uma arvore saliente; arbustos talhados, não muito altos, ornam os extremos. Era o jardim italiano, classico.

Numa obra de numismatica I Cesari in metallo raccolti nel Museu Farnese, por Pietro Piovene (Parma, 1727), ha lindas gravuras com muitos aspectos e detalhes dos jardins da Villa Madama, e do Palazzo di Caprarola (no tomo 1.ᵒ), mostrando bem a magnificencia, a nobreza d’essas bellas vivendas italianas.

Um allemão, Hirschfeld, escreveu uma vasta obra, de que ha versão franceza, em 4 volumes, Theorie de l’art des jardins (Leipzig, 1779-1783).

É trabalho notavel: trata dos jardins em varios pontos de vista, da sua historia e da historia das plantas, do aproveitamento das arvores segundo o seu effeito ou aspecto, das combinações, dos planos differentes. No 4.ᵒ volume vi a noticia de Guilherme Kent o criador da arte dos jardins em Inglaterra; era pintor e architecto. Descreve os trabalhos de Le Notre, grande jardineiro francez. N’isto de jardins ha escólas, muito bem definidas. Foi economica, principalmente, a razão porque a escóla de Kent venceu a de Le Notre; o jardim á antiga era de grande custeio; para se conservar bem era preciso trabalhar constantemente. Só admittia flores finas, raras; na Hollanda o enthusiasmo pela tulipa, a tulipomania, attingiu excessos. Kent introduzindo arvores e arbustos fez grande economia. Ha o jardim agradavel, o risonho, o majestoso, o romanesco; o jardim fidalgo, o burguez, o campestre, o publico, o academico, o monastico, finalmente o funebre.

O tal allemão chega mesmo a projectar jardim para de manhã, do meio dia, e da tarde; jardins para effeitos crepusculares. A cultura e a disposição do jardim variam com os climas, e com a abundancia das aguas.

É impossivel imitar nos paizes frios os jardins de Hespanha ou de Italia; querer implantar nos paizes do sul os arrelvados inglezes é arrojado. A relva nada custa em Inglaterra, e em Portugal a murta, o lirio, o cravo e a rosa não precisam cuidados.

A leitura do Hirschfeld, me parece, é ainda hoje util a quem deseje tratar de jardins publicos ou particulares.

Porque ha uma esthetica de jardins, e tambem merece attenção a questão economica. Em Portugal, por exemplo, não se usa da laranjeira ou da vinha em jardins; e estão os jardins cheios de palmeiras monotonas. Vê-se gastar muito dinheiro para ter bocadinhos de arrelvado, que o sol de verão cresta numa hora.

Vêmos formar talhões com uma só essencia, o que parece esthetica de hortelão, quando as alamedas ou avenidas são muito mais pittorescas e vistosas variando a qualidade das arvores.

O jardim publico de Evora tem effeitos bonitos; foi planeado e plantado pelo scenographo Cinatti, que calculou os aspectos que arbustos e arvores dariam quando desenvolvidos. Infelizmente depois não seguiram, completamente, as indicações do artista; todavia ainda é manifesto o fino criterio que presidiu á disposição do arvoredo.

Il reale giardino di Boboli nella sua pianta e nelle sue statue com o Alticchiero (Padua, 1787) é livro pouco vulgar.

Muitas estampas finamente gravadas mostram os planos, os aspectos, e principalmente as estatuas.

O jardim Boboli, em Florença, tinha amphitheatro, casino, palacetes, jardim botanico, o pequeno jardim de Madama, o dos ananazes, o da ilha, o da fortaleza, e a grande pesqueira de Neptuno. No jardim de Oeiras havia tambem pesqueira; até ahi pescou á canna a rainha D. Maria I, na famosa visita que lá fez, no tempo do segundo marquez de Pombal.

Neste jardim Fronteira as tropas miguelistas em 1833 entraram sanhosas, todavia parece que o estrago não foi consideravel. Diz-se tambem que se tratou aqui da formação da Arcadia Lusitana, que os tres poetas Antonio Diniz da Cruz e Silva, Theotonio Gomes de Carvalho, e Manoel Nicolau Esteves Negrão por estes caramachões de rosas e jasmins discutiram as bases da famosa academia litteraria. O snr. Theophilo Braga (pag. 180 de A Arcadia Lusitana) conta que os tres poetas se reuniam em Bemfica; mas ha tradição de que era na quinta dos Fronteiras que elles frequentavam, e de que mesmo um d’elles perto morava.

José Maria da Costa e Silva, no seu poema O Passeio, diz que em Portugal se chamavam jardins de D. João de Castro, aos irregulares, por ter sido o famoso heroe o primeiro que os plantou na Europa:

Vêde Castro, o terror dos reis do Oriente
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E o primeiro mostrar d’Europa ás gentes
Dos chinezes jardins a variedade.

Em outra parte escreve:

Dos chinezes jardins chistoso typo!