S. Domingos de Bemfica
(1905)
Na falda norte da serra de Monsanto está o logar de S. Domingos de Bemfica; um antigo mosteiro em parte abandonado, rodeado de quintas fidalgas com seus palacios, jardins, cascatas e alamedas de secular arvoredo; e uma pinha de pequeninos predios antigos a entestar com o maninho da serra.
O nome de Monsanto feriu-me a attenção e procurei se por aquelles sitios haveria vestigios de templo ou edificio de remota antiguidade, tão raros no aro da capital. No meu segundo passeio deparei um grande marmore lavrado, provavelmente parte superior de uma ara romana, encostado á parede da quinta do sr. marquez de Fronteira.
Ha duvidas todavia sobre a proveniencia da pedra; julga-se não ter sido encontrada alli, sim na Ribeira velha, no antigo palacio Fronteira, por occasião de certas obras; e removida para Bemfica ha uns 40 annos.
O achado incitou-me a continuar na indagação, e num pittoresco retiro agora mal tratado da cerca monastica fui encontrar uma estatua que parece de arte romana; é na fonte do satyro, que fr. Luis de Sousa descreve na chronica do seu convento.
O celebre dominicano já conheceu a estatua e a fonte na disposição actual; lá estão ainda as cinco ardosias, duas quadradas e tres ellipticas, com o lettreiro latino, que elle tambem menciona.
Póde affirmar-se que o logar está qual estava então, apenas descurado. Ora os estragos que a estatua apresenta não teem explicação facil na posição actual. O satyro nada tem da rudeza gothica, nem das imitações classicas da renascença. O rosto apesar de muito gasto ainda tem singular expressão de alegria; segurava nas mãos uma taça ou urna que depois mutilaram para collocar uma torneira. Na cabeça e nas coxas grandes madeixas ondeadas; os musculos bem estudados nos hombros e braços. Parece uma estatua romana.
Junto da fonte estão avulsas algumas pedras lavradas, dois fechos de abobada com a esphera de D. Manuel e a cruz de Christo, parte de um friso e dois pelouros medianos.
É um encanto aquelle sitio de S. Domingos; o terreiro com seu antigo arvoredo dispõe bem o visitante da egreja, uma pobre egreja que é um ninho de recordações portuguezas.
Entrando, á esquerda, o sarcophago de «Vasco Martins da Albergaria, cavalleiro fidalgo da casa do sr. infante D. Henrique e seu camareiro mór, filho de Affonso Lopes da Albergaria, o qual passou da vida deste mundo das feridas que houve na tomada e no descerco de Ceuta aos... dias do mez de dezembro da era de Jesus Christo, de 1436 annos».
É um pequeno sarcophago de tampa alta; o letreiro na facha anterior da tampa e da arca. No meio o brazão com a cruz de Aviz sanguinha, aberta e floreteada, com oito escudetes azues das quinas reaes. Aos lados do escudo uma fita em relevo onde se lê a divisa porêm vede bem.
Á direita o tumulo de João das Regras, encimado pela estatua onde evidentemente o esculptor quiz reproduzir o aspecto do famoso jurisconsulto. Tem barrete e habito de lettrado; a gola larga segura por tres botões. Na mão direita sobre o peito segura um livro. Os cabellos um tanto ondeados cahindo sobre a fronte. Á esquerda da figura a espada com o cinturão enrolado. A espada está tratada com minucia, o punho lavrado em linhas, o extremo com sua flor; é uma espada direita, larga, curta. O cinto é lavrado tambem de flores, tendo bem definidas a fivella e a ponteira.
Aquella estatua é um documento precioso de indumentaria.
O tumulo tem inscripção, escudos; assenta sobre quatro leões de marmore. Não é este o unico varão illustre cujo nome se encontra no mosteiro; fr. Vicente (1401), outro amigo do mestre de Aviz, e Diogo Gonçalves Belliago (1410) teem alli as suas inscripções sepulcraes, assim como fr. Arnáo (1502).
Na capella de S. Gonçalo de Amarante ha algumas estatuas em marmore de Carrara, de valor artistico.
O sacrario é de madeira entalhada, de grande elegancia, principalmente no corpo superior.
Bons azulejos vestem as paredes, assignados por Antonio de Oliveira Bernardes.
No cruzeiro jazem muitas pessoas distinctas, principalmente da casa Fronteira e Alorna; o ultimo que alli foi repousar o célebre D. Carlos de Mascarenhas, fallecido em maio de 1861.
Na escura passagem do cruzeiro para a sacristia uma campa singelissima com um nome que illumina os espiritos, fr. Luis de Sousa.
E no claustro proximo, muito tranquillo e fresco, convidando a serena meditação, a capella e o jazigo de D. João de Castro.
É um grupo incomparavel de recordações portuguezas.
Isto escrevi eu na Revista Archeologica de Borges de Figueiredo (vol. 3.ᵒ, de 1889, pag. 99). Querido amigo! Infeliz espirito, tão maltratado na lucta da vida!
Era archeologo, latinista e epigraphista de alto merecimento. Corpo enfermiço, franzino, tez pallida, mortiço o olhar, fraca a vista; bella intelligencia cultivada, com solida erudição e fina critica. Os seus ultimos tempos foram de doença e desgosto. Por tres vezes, se bem me recordo, visitámos juntos o sitio de S. Domingos de Bemfica; elle levava sempre a filha, nos seus passeios; uma menina delicada, debil no aspecto, cheia de meiguice. Eram inseparaveis, ella queria estar sempre junto, bem junto do pae. O meu pobre amigo falleceu na manhan de 15 d’outubro de 1890; tinha feito na vespera 37 annos. Foi professor na Escola Rodrigues Sampaio, por algum tempo ensinou num collegio particular; durante annos foi laborioso bibliothecario da Sociedade de Geographia. Escreveu livros muito apreciaveis; Coimbra antiga e moderna, O Mosteiro de Odivellas, a Geographia dos Lusiadas; em todos os seus trabalhos se revéla bem o espirito de investigação, e a sã critica historica. Parecia impossivel aquella actividade em tão fraco organismo. Na Revista Archeologica deixou entre varios trabalhos bons, um de alta importancia sobre as inscripções em verso leonino em Portugal. A filha morreu um mez depois do pae; não soffreu aquella ausencia, finou-se a pobre creança debil, asphyxiada de morte pela saudade amarga.
Quantas mudanças na egreja de S. Domingos de Bemfica fez depois o bem intencionado architecto Nepomuceno! A urna do Albergaria foi para o ante-côro sombrio, para cima de duas misulas ou cachorros, á maneira de deposito de agua para não visto lavabo. O tumulo de João das Regras foi para o meio do côro, onde está bem para ser visto. A estatua jacente do insigne doutor soffreu concerto, a mão direita aperta um livro sobre o peito; a esquerda tinha desapparecido. Segundo a chronica cahia sobre o coração, como se elle estivesse orando. Nepomuceno mandou fazer a mão que faltava, erguida, segurando um papel enrolado. E parece agora que o inclito doutor está indeciso entre o livro e o rolo de papel.
Ha pouco tempo, já depois da obra a que se procedeu, visitei a egreja tomando notas mais minuciosas.
No cruzeiro da egreja ha inscripções sepulcraes de interesse historico. Na parede entre o arco da capella mór e a porta da sacristia estão dois letreiros; o superior menciona Fr. Vicente, da ordem dos prégadores, fundador, fallecido em 1401; foi prégador de D. João 1.ᵒ e autor de muitos livros.
Sob este está==Fr. Diogo Gonçalves Belliagua, frade da mesma ordem, primeiro povoador do mosteiro, isto é, o primeiro que residiu aqui, fallecido em 31 de agosto de 1410.
Estes letreiros são relativamente modernos; na Chronica se podem ver as inscripções primitivas.
Á direita da capella mór, na parede, está a==Sepultura de fr. Arnáo, da mesma ordem, fallecido em 2 de maio de 1502.
Proxima a lapide de==D. Carlos de Mascarenhas, segundo filho dos 6.ᵒˢ marquezes de Fronteira. N. em 1 d’abril de 1803. F. em 3 de maio de 1861.
A seguir==D. Maria Constança da Camara, marqueza de Fronteira e de Alorna. N. em 14 de julho de 1801. F. em 11 de setembro de 1860.
No chão está a campa da==Marqueza de Fronteira D. Helena Josefa de Lencastre. F. em 14 de março de 1763.
Perto==O sargento maior Manuel Carrião de Castanheda, cavalleiro da ordem de Christo, f. em 22 de dezembro de 1676, e sua mulher D. Sebastiana Dias Fialha.
==S. de Diogo Antunes. 1662.
==S. de Maria Coelha.
==D. G.ᵒ Velozo d’Araujo, cavalleiro fidalgo da Casa delrei N. S. e de sua molher Joanna de Bulhão, f. a 3 de março de 1603.
==S.ᵃ de João Velho Lobo... Travassos... Algumas destas campas estão incompletas, ou gastas.
Na capella do Senhor Jesus, esquerda do cruzeiro, está uma pedra com brazão; diz-nos que o instituidor foi Antonio de Freitas da Silva, fidalgo, etc., com sua mulher D. Jeronima Paes d’Azevedo, em 1677.
No corpo da egreja, segunda capella á esquerda==Capella de Enrique Mendes de la Penha, fidalgo de solar conhecido, e a comprou sua filha D. Lionor Enriques, viuva de Luis Pereira de Carvalho, em 1663.==Tem brazão.
Olhando para a capella mór, a porta á nossa esquerda abre para uma passagem que serve o côro e a sacristia, o ante-côro. Ahi, no chão, proximo dos degraos que levam ao côro, está uma campa singela.
Aqui jaz
frei Luiz de Souza.
nasceu em 1553
morreu em 1632
a seguir, na mesma campa:
Mandou collocar
esta lapida
o padre Joaquim
Pinto de
Campos
natural de
Pernambuco
(Brazil)
aos 4 de junho de
1878.
Na mesma sombria casa de passagem, ou ante-côro, na parede, sobre duas misulas, vê-se uma urna brazonada. Estava antes da ultima obra, á esquerda da porta d’entrada; agora alta como está, e na casa quasi sem luz, é difficil lêr o letreiro.
Desdobrando as abreviaturas, diz: Aqui jaz Vasco Martins da Albregaria cavalleiro fidalgo da casa do sr. infante dom Anrique e seu camareiro moor filho de A.ᵒ Lopes da Albregaria o qual passou da vida deste mundo das feridas que houve na tomada e no descerco de Cepta aos... dias do mez de dezembro da era de J. C. de 1436 annos.
Além do escudo dos Albergarias, conforme o que vem no Thesouro da Nobreza, tem escudos com sua divisa que me parece ler Porém vêde bem.
A meio do côro está o tumulo de João das Regras; o letreiro occupa o friso da caixa.
==Aqi: jaz: joan: daregas: cavaleiro: doutor: em: leis: privado: delrei: dom: joan: fundador: deste: moesteiro: finou: III: dias: de: maio: era: M: IIIIᶜ: XL: II: ans:==É um lettreiro, em gothico, bem lavrado; as palavras todas divididas por dois pontos.
Na parede exterior da casa que ora serve á irmandade da S.ᵃ do Rosario está cravada uma pedra com a inscripção:
Esta sanchristia man
darão fazer os irmãos
de Nossa Sra do Rozario
a sua custa p.ᵃ a fabrica
da sua irm.ᵈᵉ em maio de 1680.
Na sacristia uma grande campa sem lettras, com o brazão da casa de Bellas, isto é, quatro flores de liz nos angulos de uma cruz.
O Thesouro da Nobreza descreve assim o brazão dos Correias de Bellas==em campo vermelho uma cruz de oiro firmada no escudo entre quatro flores de liz do mesmo metal.
No côro ha duas grandes campas sem brazões nem letreiros; diz a Chronica que está alli o carneiro ou deposito funéreo dos Botelhos.
No cruzeiro, á direita, ao canto, ha uma porta encimada por um brazão; abre para a capellinha onde está a imagem do Senhor Jesus dos Passos. Mas o pequeno e rico edificio é dedicado a S. Gonçalo de Amarante. Uma inscripção latina declara que em 1685 o bispo fr. Manuel Pereira mandou fazer a capella. É de muito e apurado trabalho, em lindos marmores. Estatuetas de finissimo Carrara povoam os nichos. Preside S. Gonçalo de Amarante tendo aos lados a S.ᵃ do Rosario, S. José, S.ᵃ Appollonia, S. Thereza, S. João de Deus, S. Felippe, S. Domingos e S. Thomaz d’Aquino.
As columnas salomonicas aos lados de S. Gonçalo são de pedra fina da Arrabida de um trabalho apuradissimo.
Parecem-me de origem italiana estas lindas estatuetas em marmore de Carrara, delicadamente esculpidas, com a maneira usada na época.