S. Sebastião do Paço do Lumiar

A ermida de S. Sebastião está isolada em alegre terreiro, moldurado de bons predios, alguns antigos, no logar do Paço do Lumiar.

Este logar é continuação do Lumiar propriamente dito, para o lado da Luz e Bemfica.

Partindo do amplo largo da Luz segue-se uma estrada entre boas quintas á Horta Nova; já proximo do Paço ha boas construcções modernas á beira do caminho.

A ermida é muito simples; chama principalmente a attenção a porta em estilo manuelino, elegante e bem conservada.

O exterior da pequenina egreja mostra que a primitiva obra do começo do seculo XVI, soffreu grandes concertos depois. Na cruz de azulejos que está no lado norte lê-se Anno 1628; a mesma data se mostra no azulejo que fórra o interior; houve pois grande obra alli n’esse tempo. As volutas d’alvenaria e os pinaculos lateraes do frontispicio levam-nos a crer que mais tarde, no meado do seculo XVIII, talvez depois do terremoto de 1755, houve novo e importante concerto.

Temos aqui azulejos datados d’uma época interessante, do periodo philippino, 1628. São de desenho geometrico na maioria, emquadrando porém bons trabalhos em figura.

O corpo do templo é dividido da capella por um arco e na face d’este arco estão as imagens em azulejo de S. Francisco, S. Pedro, S. Antonio e S. Paulo; sobre a porta lateral está um famoso S. Christovão empunhando respeitavel bordão, com o Menino sobre o hombro. O artista empregava varias tintas, amarello, roxo, além dos tons vulgares. Nas paredes da capella ha pequenos quadros tambem em azulejo, azul sobre branco, representando phases da vida de S. Sebastião, muito mais modernos que os do corpo do templo.

É nos azulejos do arco divisorio, infra, que está em grandes algarismos a data 1628, quasi encoberta pelos estrados de madeira.

No alizar d’este arco, ha flores pintadas com mimo; assim como no pequeno côro se vêem caixotões com pinturas.

O ladrilho é antigo e bom; com azulejos brancos entre os tijolos vermelhos. As portas são de excellente madeira, em almofadas de boa execução.

O tecto da ermida soffreu alguma ruina, talvez pelo terremoto, mas conserva ainda boas pinturas antigas, entre estuques mais modernos.

Tem alguns lettreiros em sepulturas, uns bem legiveis, outros gastos pela passagem dos devotos, o que mostra que em tempos foi esta ermida frequentada; agora poucas vezes ha alli missas.

Transcreverei algumas inscripções.

—Aqui jaz sepultado o padre Joaquim Jorge faleceo a 9 de novembro de 1783.

—S.ᵃ do P.ᵉ Antonio Pinheiro capelão que foi d’esta hirmida o qual faleceu na era de 1705.

—S.ᵃ do capitão Estevão Soares de Alvergaria cavaleiro da ordem de Christo faleceu a 11 de dezembro de 1644 e de sua molher Anna de Masedo da Maia e de sua mãi Madalena da Maia....

Tem seu escudo gravado; a cruz fioreteada, com orla de escudos, elmo e paquifes.

Outra campa é do—P.ᵉ Antonio Mamede bemfeitor desta irmida, que morreu em 1 de abril de 1791.

Em outra muito gasta pareceu-me vêr o nome Rodrigo Diniz Moreira.

Sobre a torre dos sinos ergue-se no eirado um campanario onde está o sino das horas; porque tem seu relogio a pequena ermida, com mostrador voltado para norte.

Ha na frontaria quatro argolas de ferro que serviam para segurar um grande toldo na occasião das festas.

Quando fiz o esboceto do frontispicio estive a conversar com um velhote que antigamente tratava do relogio, e armava o toldo, que era quasi sempre uma vela de navio emprestada pelo arsenal de marinha.

Embora humilde e acanhado tem o pequeno templo uma certa importancia por ser anterior ao grande terremoto de 1755, e por nos conservar além do gracioso portal manuelino, pinturas e azulejos do seculo XVII, em bom estado de conservação.