I
Para a presente edição, além do que corria impresso, servi-me:
1) de duas collecções pertencentes á bibliotheca de S. M. o Imperador, as quaes pertenceram a Innocencio Francisco da Silva e foram adquiridas do seu espolio. A primeira, que mostra ser de lettra mais antiga, tem o titulo:
Vida, e Morte
do Doutor
GREGORIO DE MATTOS
GUERRA.
I Tomo.
De obras Sacras,
e Divinas
I. e II. Part.
É um volume no formato de 4.ᵒ, contendo 2 ff. inn., 214 pp. num., e mais 1 inn., 4 ff. de Index.
As poesias que occorrem nesta collecção da pg. 172 á 214 são do p. Eusebio de Mattos, irmão do poeta.
A outra, que fez parte de mais ampla collecção, é assim intitulada:
As Obras Poeticas
do
D.ᵒʳ GREGORIO DE MATTOS GUERRA
Divididas em 4 Tomos
Em que se contem as Obras Sacras, Jocoserias, e
Satiricas, que a brevidade não permittio separar.
Tomo 2.ᵒ
Bahia anno de 1775.
In-4.ᵒ de 1 fl., 456 pp. num.
2) de outra collecção em dois volumes, que pertencem ao sñr. Luiz de Carvalho, ambos de boa lettra do XVIII seculo e sem titulos. São in-4.ᵒ, contendo um 329 pp. com as primeiras 73 num., e o outro 351 pp. innumeradas.
3) finalmente de mais outra collecção tambem em dois volumes, pertencente ao sñr. dr. João Antonio Alves de Carvalho, distincto bibliophilo fluminense. É cópia moderna feita pelo punho do grande amador de livros Manuel Ferreira Lagos. Os volumes são in-fol. peq., contendo o primeiro 374 pp. num. e o segundo 47 ditas num. Não trazem titulo e o primeiro é precedido da Vida do poeta, sem comtudo trazer o nome do auctor, que é o licenceado Manuel Pereira Rebello.
D’estas quatro collecções manuscriptas que me serviram para fazer a edição que ora apparece pela primeira vez, visto se acharem algumas poesias repetidas, notam-se muitas variantes, umas devidas ao proprio poeta e outras que parecem defeitos dos copistas. Das mais notaveis farei uma relação no final do ultimo volume. Nas composições que andam em collecções impressas existem egualmente outras tantas variantes. Tanto de umas como de outras acceitei aquellas que me pareceram mais apropriadas á vista dos manuscriptos, e para isso consultei o dr. Teixeira de Mello, que me prestou valioso auxilio com as suas luzes.
Outras collecções manuscriptas das obras de Gregorio de Mattos existem e existiram em bibliothecas e em mãos dos curiosos d’este genero de litteratura.
Varnhagen possuia dois codices differentes; um, de «excellente lettra» em quatro tomos, que já tinha ao publicar em 1850 o primeiro volume do seu Florilegio da poesia brazileira; e outro «de lettra contemporanea, muito mettida e em um só volume, bastante grosso, enquadernado toscamente, porventura na propria Bahia, ha mais de seculo e meio.» Esta ultima collecção é accusada pelo illustre historiador no tomo III==Appendice (Vienna, 1872) do seu mencionado Florilegio. O visconde de Porto Seguro, referindo-se á sua primeira collecção em 4 tomos, accrescenta: «E em quatro volumes deviam arranjar-se as suas obras todas, segundo a vontade do proprio poeta, que na dedicatoria satyrica, que d’ellas faz ao governador citado, Camara Coutinho, diz:
D’esta vez acabo a obra,
Porque este é o quarto tomo.
A vóz illustre Tocano,
Mal direito e bem giboso,
Pernas do rollo de pau
Antes que se leve ao torno.
A vós dedico e consagro
Os meus volumes e tomos.
Varnhagen, quando esteve pela ultima vez no Rio de Janeiro, offereceu á Bibliotheca Nacional as suas duas referidas collecções das obras de Gregorio de Mattos, ficando de remette-las logo que tornasse á Europa. Infelizmente, o historiador brazileiro ao chegar á Vienna d’Austria foi surprehendido pela morte, não chegando assim a realizar o seu importante offerecimento.
A Bibliotheca Nacional de Lisboa possue um grosso volume in-4.ᵒ, que contém boa porção de poesias, conforme diz Innocencio da Silva.
A Bibliotheca publica Eborense descreve no seu Catalogo dos manuscriptos, tom. II (1868), pg. 80:
Poesias de Gregorio de Mattos. Cod. cxxx/1-17 as ff. 183, 232, e 328 v.
E tambem no mesmo catalogo, pg. 194, accusa uma «Carta que escreveu Gregorio de Matos ao Conde do Prado, estando na Bahia com seu pae o Marquez das Minas.» Com.==Daqui desta praia grande==. Cod. cv/1-9 a fl. 29 v. 2 ff. in-4.ᵒ
O conego Januario da Cunha Barbosa diz que as poesias de Mattos correm manuscriptas em 6 grossos volumes de 4.ᵒ, accrescentando que alguns dos quaes possuia.
José Maria da Costa e Silva tinha um volume d’ellas.
O sñr. commendador Joaquim Norberto, quando, em 1843, publicou algumas linhas acêrca de Gregorio Mattos nos seus Estudos sobre a litteratura brazileira durante o seculo XVII, teve em mãos dois volumes.
Francisco de Paula Brito tambem teve em seu poder dois volumes in-4.ᵒ, e d’elles apenas publicou uma producção na sua Marmota de 11 de Março de 1855, promettendo todavia dar outras, o que não realizou. Estes dois volumes pertenceram ao visconde do Rio Vermelho, que os deu na Bahia a Ignacio Accioli de Cerqueira e Silva.
Muitas producções pouco decorosas escreveu Gregorio de Mattos, occorrendo algumas nas collecções manuscriptas de que me utilisei para a presente edição. A ellas porém, pela minha parte, não dou nem darei curso. É verdade que grande parte das satyras de Gregorio de Mattos estão entresachadas de termos e expressões inconvenientes; mas no acto de publica-las substitui-as por signaes, deitando tantos pontos quantas as lettras supprimidas.
Das obras obscenas diz Rebello que Mattos as escreveu em tanta quantidade, que das que possuia «tão indignas do prelo, como merecedoras da melhor estimação» se podia constituir um grande volume.