Crime e Castigo
Avança a noite e os relogios de Chypre dão pausada e gravemente as dez badaladas.
Na alcova de Desdemona, a joven e bella esposa do governador da ilha dispunha-se a deitar-se ajudada carinhosamente pela mulher de Yago, tão fiel e leal servidora, como falso e traidor era para o general africano o infame marido.
—Emilia, disse com voz de infinita doçura a filha de Brabancio; enfeita-me muito e põe-me bonita para dormir. Tenho um presentimento estranho, tão extranho como doloroso, que não me abandona desde esta tarde, e que me annuncia que este vae ser o meu ultimo somno.
—Que loucura! exclamou a criada, tratando de se mostrar alegre aos olhos da ama. Desprezai, senhora, esses tristes e lugubres presentimentos e pensai sómente, pelo contrario, em que vos esperam dias cheios de aventura, pois sois ainda muito nova e a vida começa agora para vós.
—Sim, respondeu melancolicamente Desdemona, mas has de concordar que começa de maneira bem dolorosa! Que será de mim sem o amor de meu esposo?
—Vosso esposo, disse Emilia com gesto de convicção;—não tardará em arrancar pelas proprias mãos a negra venda que hoje lhe tapa os olhos, e que o impede de ver todo o thesouro de virtudes e de felicidades que em vós possue! Então voltará ainda mais enamorado do que nunca, e depois vereis, minha querida ama, como esses maus pensamentos que hoje vos atormentam, não tardarão a converter-se em sonhos côr de rosa.
—Queira Deus que não te enganes! respondeu Desdemona, soltando um profundo suspiro, que pareceu aliviar-lhe um tanto o coração opprimido pela angustia.
—Não me engano, tenho a certeza,—insistiu Emilia alegremente.—Vereis como esta mesma noite o vosso esposo virá ver-vos e implorar o vosso perdão, e ao contemplar-vos tão formosa como os anjos de céu, cahirá de joelhos ante vós arrependido da sua conducta. Como estaes linda, minha senhora!—continuou olhando para a joven com sincera admiração, depois de dar-lhe uns ultimos toques no toucado.—Agora, dormi e sonhai com dias melhores, porque os bons sonhos trazem comsigo a ventura, segundo affirmam.
Dizendo estas palavras, Emilia ajudou a joven a deitar-se; apanhou em seguida as roupas que estavam cahidas, pelo aposento, e olhando cuidadosamente em torno de si, para convencer-se que tudo ficava em ordem, deu as boas noites e abandonou em silencio o quarto, que apenas ficou illuminado pela vaga e febril luz de uma lampada de azeite.
Haviam transcorrido dez minutos, e já os preciosos olhos da joven começavam a cerrar-se, vencidos pelo somno, quando a mesma porta por onde sahira Emilia se entreabriu suave e lentamente, e na hombreira appareceu a alta e soberba figura de Othello.
O mouro avançou com lentidão até ao leito onde repousava a esposa que, ao advinhar, melhor do que via, a sua presença, deu um debil grito de alegria e estendeu os nús e marmoreos braços ao marido, exclamando amorosamente:
—Tu aqui! meu querido Othello! Vens dar-me o teu perdão pela desgraçada perda do lenço?
—Rezaste esta noite, Desdemona? perguntou o general com gravidade meiga e triste, que tinha algo de tragica.
—Sim, esposo meu, respondeu a innocente Desdemona; esta noite, como todas, fiz as minhas orações do costume. Mas, porque me fazes tal pergunta?—interrogou a infeliz começando a sentir-se presa de vago terror, ao ver a sombria e implacavel expressão retratada no semblante do marido.
—Porque vaes morrer depois de findarem os cinco minutos que te concedo para encommendares a Deus a tua alma!—respondeu Othello inexoravel.
—Deus! Que dizes? exclamou a joven, sentando-se no leito, como surprehendida pelo espanto e julgando ter ouvido mal.
—Digo que vaes morrer e que aproveites o tempo que te dou para encommendar a tua alma a Deus, repetiu o mouro com frialdade que fazia tanto damno como o de uma folha de aço. E accrescentou logo: Se o proprio Deus houvesse baixado á terra para me annunciar que morrerias ás minhas mãos, teria duvidado de Deus; já vês se tinha ou não fé no teu carinho! Mas tu atraiçoaste essa fé, e por isso mereces a morte. Sim—continuou implacavelmente o terrivel mouro, exaltando-se á medida que fallava, e sem fazer caso do tremor e da mortal lividez que se viam na desventurada e innocente Desdemona;—sim, mereces e vaes justamente morrer. Mas, por que ainda te amo, apezar de tudo, e vim sem armas, porque não quero derramar o teu sangue, que sempre será precioso para mim, morrerás estrangulada ás minhas mãos, entre estas mãos que com tão ardente amôr te acariciaram nos dias felizes para mim. Vês como te amo, Desdemona? Sim, amo-te, e ainda te perdoaria, se tanto fosse possivel! Mas não é! Não, não é, porque atraiçoaste o meu amôr com um amigo desleal e infame, e porque, não contente com tal crime, para o qual não existe misericordia possivel, urdiste, de cumplicidade certamente com o miseravel, uma indigna traição no intuito de que me chamassem a Veneza e vos deixasse aqui a ambos em completa liberdade para gosarem a infamia praticada.
«Ah! ah! ah! gargalhou o formidavel africano, rindo como um louco.
«Já vês que, apezar da nobre ingenuidade do meu caracter, que me entregou de corpo e alma nas tuas mãos, não é tão facil enganar-me, e que immediatamente advinhei tudo. Sim, proseguiu, recobrando a terrivel expressão de implacavel dureza, advinhei, mas o vosso plano não dará o exito appetecido. Ouves?—perguntou, interrompendo-se para escutar as badaladas dos relogios que marcavam a hora. São onze horas e n'este momento cae o teu amante sob o punhal de um fiel servidor meu! E como passaram os cinco minutos que te concedi para que encommendasses tua alma, chegou tambem para ti a hora da morte!
A infeliz Desdemona quiz fallar, pedir, supplicar misericordia ao terrivel esposo, fazer protestos da sua innocencia, salvar a vida, emfim, porque a morte horrorizava-a e a tal ponto que a fazia tremer e bater os dentes como se tivesse febre; mas tudo foi inutil, porque só teve tempo de lançar um grito desesperado, estridente, horrivel e que havia de se ouvir em todos os aposentos do immenso palacio, alterando com a infinita angustia das suas dolorosas vibrações o profundo silencio da noite.
Os férreos dedos do mouro apertavam ferozmente a delicada e branquissima garganta da innocente vitima, quebrou-se a columna vertebral com um estalido horrivel e o precioso corpo, abandonado instantaneamente a si proprio, sob o impulso do invencivel horror que ao ouvir o espantoso estalido acommetteu immediatamente o verdugo, cahiu pesadamente sobre o leito flexivel e desarticulado, como pesada massa.
Aterrado da propria obra, com os cabellos erriçados e os olhos horrivelmente dilatados pelo espanto, Othello retrocedeu ante o cadaver da infeliz esposa, tratando, talvez, de fugir para apagar da vista o tremendo espectaculo. Mas, n'esse instante abriu-se com violencia a porta do aposento e appareceu Emilia que, desolada e quasi nua, correu para o leito de Desdemona, gritando;
—Senhora! Que vos aconteceu? Respondei, por Deus, respondei!
—Para traz, miseravel encobridora! rugiu Othello, recobrando toda a sua selvagem crueldade, á vista da mulher que julgava cumplice no supposto adulterio da victima. E continuou, agarrando por um braço Emilia: Sim, morreu, e morreu ás pressões de minhas mãos vingadoras, como tu agora vaes morrer, infame, para que não fique no mundo nenhuma testemunha, da minha deshonra!
E o vingativo africano dispunha-se a sacrificar tambem ao terrivel odio aquella nova victima que o destino lhe deparava. Mas, por fortuna para a fiel criada de Desdemona, n'aquelle momento e attrahidos, primeiro por o grito que lançou ao morrer a innocente esposa de Othello, e depois pelos que havia soltado a mulher de Iago, penetraram no quarto Graciano e os tres companheiros da embaixada, o traidor alferes, causa de toda essa espantosa tragedia, e, por ultimo, entraram varios soldados amparando nos braços Cassio, ferido e que havia exigido que o levassem a todo o transe á presença de Othello sem perda de um minuto, pois em breve morreria e queria fallar com o general antes de exhalar o ultimo suspiro.
Ao vêr entrar tanta gente no aposento, e especialmente ao encontrar-se em presença do veneravel Graciano, tio de Desdemona, Othello retrocedeu instintivamente alguns passos e deixou em liberdade Emilia.
Esta correu, como louca, para os recem-chegados, e gritou, rompendo em soluços:
—Matou a minha ama, senhores, o infame matou-a!
—Sim, confessou sombria e altivamente Othello, dirigindo um olhar de desafio a todos os presentes, matei-a, porque sou o unico juiz da minha honra e eu proprio sentenciei a culpada!
—Mentira! gritou de novo Emilia. Senhores, não acrediteis! A infeliz Desdemona era tão pura e innocente como os anjos do céu, e levava a incomparavel bondade de sua alma até ao extremo de amar com todas as energias do seu coração o seu proprio verdugo!
—Tu é que estás mentindo, infame impostora! rugiu Othello, que tremeu até ao mais intimo d'alma ao entrever a possibilidade da innocencia da esposa pela maneira convicta com que fallára a dama. E accrescentou tirando do bolso o lenço de seda, que guardava como prova accusadora: Atrever-te-has a negar que conheces esta prova do criminoso adulterio? Este lenço deu-o minha esposa ao amante, a esse infame Cassio, que o proprio inferno repelliu, pois que ainda o vejo aqui com vida!
Ao ver o lenço, Emilia ficou convertida em estatua; pôz-se livida como um cadaver, as pupilas pareceram querer-lhe saltar das orbitas, e exclamou horrorisada:
—O lenço de seda! O lenço que roubei a Desdemona!
—Que roubaste?—exclamou Othello enlouquecido e julgando ter ouvido mal.—É mentira! Foi minha esposa que o deu a Cassio como prenda dos seus criminosos amores!
—Proximo a entregar a alma a Deus interveio com debil e apagada voz o antigo official de Othello—Juro pela minha salvação que nunca vi semelhante lenço nas minhas mãos e que Desdemona te era tão fiel como póde ser a mulher mais pura do mundo!
«Juro tambem, continuou fallando com grande custo,—que morro victima de um erro teu, general, e assassinado por ordem d'esse infame, que não se atrevendo a atacar-me, enviou um instrumento seu, o qual logrou enganar por meio de outra calumnia, e que, depois de ferir-me, acaba de morrer ás minhas mãos, confessando tudo! Juro, por ultimo, accrescentou Cassio, cada vez com voz mais debil,—que sempre te amei como a um pae, como ao morrer te quero ainda, e que Desdemona, tão innocente e pura como um anjo, não foi outra cousa para mim do que foi para toda a gente; um coração cheio de bondade e de doçura! Juro-o por tudo quanto existe de sagrado!...
E o antigo tenente de Othello cahiu sem sentidos nos braços dos soldados que o amparavam.
—E eu juro—exclamou por sua vez Emilia, encarando Othello, que permanecia atonito, como se tivesse recebido um profundo golpe; juro que esse homem disse a verdade, que minha ama era pura como um raio de sol e innocente como uma criança; que Cassio nunca teve em suas mãos esse lenço, e que fui eu que o roubei a Desdemona, obrigada a tal acto por meu marido e fazendo-o jurar que com elle não prejudicaria ninguem! Juro-o pela memoria de meus paes!
Succedeu então uma cousa verdadeiramente horrivel.
Iago, ao vêr o caminho que tomavam para elle as coisas, fôra approximando-se lentamente da porta para se escapulir sem ser visto. Mas, no momento em que Emilia se calou, Othello saltou sobre elle com a agilidade e a força de um leopardo, e arrancando-lhe a propria espada, enterrou-lh'a nas entranhas até aos copos. Em seguida, voltando-se para onde estava Graciano, e tirando o punhal que o velho senador trazia pendente do cinto cravou-o no proprio peito até ao cabo e cahiu sobre o leito em que jazia o cadaver de Desdemona, á qual deu a alma n'um beijo com o ultimo suspiro.
A dupla acção do formidavel e ciumento mouro havia sido tão rapida, que quando os circumstantes, refeitos do assombro, quizeram intervir, já estava consumada a tragedia.
FIM