I
Para estar de acôrdo com o horario dos trens deviamos chegar ás oito horas e alguns minutos á estação, e estou certo de que assim teria acontecido se não fosse o folgado e paciente atrazo de duas horas e meia, que tivemos de aturar dentro dos compridos wagons de primeira classe, nada inferiores ao carcere duro.
Desde as quatro da manhan, quando deixei o tecto paterno, sahindo para a nevoa dos campos frios, até áquella hora, andava meu pobre corpo aos solavancos, primeiro no dorso nédio da ruana, mais tarde nos bancos do expresso, tendo por fronteiros dois homens terriveis, de idéas contrarias—um rotundo, conservador e catholico, saudoso do monarcha, bramando contra a indifferença do povo, que deixara partir para o exilio o velho soberano, sem um protesto, sem um tiro ao menos; o outro, de pêra, esgalgado e nervoso, livre pensador, formidavel em theorias republicanas, contando que, nos muros da sua casa, na Januaria, havia despojos de escaramuças contra sebastianistas: chuços, arcabuzes, facas, fazendo panoplias e cercaduras em volta dos retratos dos martyres mineiros: e discorria sobre as revoluções, reclamando um baptismo de sangue, como o de 89, em França, sem o que a republica nunca chegaria á consolidação perfeita.
O conservador pacato, abrandando o diapasão, atacava o procedimento dos revolucionarios de Novembro, que haviam banido os altares, rechassando os santos—a Virgem, a consoladora, a misericordiosissima Conceição, Mãi de Deus e Amparo dos Afflictos. Podiam ter feito tudo, mas deixassem a crença de cada um.
—A crença é a republica. A Conceição é a Patria. Qual Deus! Qual Igreja, meu caro... o tempo dessas coisas passou. Havendo Constituição e Justiça, para que diabo queremos nós santos? Deixemo-nos de sentimentalismos piégas!
Veiu á questão o militarismo. O conservador impugnava a farda, queria o civil. O esgalgado investiu.
—Mas onde encontral-o? Mostre-me um homem capaz de tomar a responsabilidade do governo... Mostre-me, entre os casacas, um cidadão á altura de exercer esse cargo. E, escancarando os braços, escancellando a boca, os olhos esbogalhados: Não ha! Vamos muito bem assim, não acha o senhor? Era commigo. Encolhi os hombros para fugir á discussão. Elle tomou de uma botelha e offereceu.
O conservador, com um gesto nobre, rejeitou; eu rejeitei; e uma mocinha triste, que vinha derreada, a olhar melancolicamente a paisagem, como se por ali lhe ficassem pedaços do coração, teve um sorriso adoravel, rejeitando, por sua vez. Seus olhos castanhos, entre grandes cilios, alumiaram-me, e travámos palestra, em tom subtil e discreto, vindo eu a saber, pelo cicio dos seus labios, que era professora em Sabará, na fazenda de um tal Souza Gordo. E disse-me a sua patria—a Italia, e o seu nome, já celebre no idyllio—Graziella. E eu, a ouvir-lhe as suaves palavras, via as arvores passarem vertiginosamente, como se os campos e os montes assustados fugissem diante do comboio rapido. Emquanto andámos, não lhe percebi um movimento, um olhar que não fossem do mais candido recato. Lia—um livrinho minusculo, capa de percaline roxa e letras de ouro. Em Juiz de Fóra, offerecendo-lhe uma corbelha de figos, aproveitei a sua distracção para surprender o nome do poeta favorito—Leopardi. Era pessimista com tão angelico sorriso! Amargo seculo em que as deusas trazem philtros no bolso e seguem a seita sombria dos desesperados. Era, de certo, a idéa da morte que lhe punha nos serenos olhos tanta melancolia. Na Barra, porém, tive uma surpresa—voltando ao wagon, encontrei-a sem luvas, o véusinho levantado, trincando, com voracidade, uma côxa de frango. Corou ao ver-me, mas a fome venceu-a; e, até Mendes, fartou-se regaladamente, escorropichando, por uma calha de papel, a farofia de manteiga e ovo.
Trevas de tunneis, verduras de campos, rampas, viaductos, desfiladeiros, tudo vencemos em corrida vertiginosa, aos trancos, ás vezes beirando abysmos, ou rolando sobre pontilhões, por cima d’aguas encachoeiradas. Passavamos pelas estações num ápice; mal se podiam ver as luzes dos lampiões e os vultos na platafórma. Quando, atravéz da tela lucida dum aguaceiro copioso, avistámos os primeiros fogos da cidade, bonds, carros, todos se puzeram de pé, arranjando malas, espanando chapéus. O esgalgado respirou, safando o guarda-pó. O conservador dormia beatamente e foi preciso que o sacudissem para que despertasse.
—Chegámos, senhor barão.
Empoados, como nos tempos galantes dos Luizes, puzemos pé na platafórma da estação, claramente alumiada pelas grandes lampadas foscas que dão ao sitio uma luz de luar, pallida e triste. Dizem que os cães que ali vão errar, á noite, estacam, levantam o focinho e uivam lamentosamente. Pierrot seria capaz de enganar-se se não tivesse, como eu, prevenido o espirito com uma leitura sobre a cidade e as suas maravilhas. Entretanto, deixando o meu wagon, assoalhado de cascas de frutas e de queijo, copiosamente cuspinhado, uma variedade infinita de pontas de cigarros, algumas estripadas pelos pés barbaros e entorpecidos dos viajantes que sapateavam, despindo o guarda-pó, senti deslumbramento tal, que tive de fechar os olhos. Se eu sahia de uma sombra propicia e somnolenta para esse plenilunio de Jabloskoff! Quando abri os olhos, assombrado, estava entre homens de blusa parda e boné branco, marcados no peito com algarismos negros, que me empolgavam, que me berravam numeros e nomes, procurando arrebatar-me das mãos a bengala e a maleta. Tive um assomo de energia e repelli com um murro um «12» que se aferrara a mim, teimosamente, propondo-se. O repellão e o socco valeram-me algumas palavras más, que resolvi deixar sem resposta para tranquillidade de todos. Os homens abalaram em tumulto, correram a outro ponto. Quando vi perdidas na multidão as blusas pardas, resfolguei e, corajosamente, deitei a caminho, á luz lactescente das lampadas, bem melhores do que as da minha villa, pobre terra de barbaros, alumiada ainda pelas estrellas de Deus e pelas candeias de colza que a intendencia manda pendurar em postes, para que as estradas tranquillas não fiquem de todo abandonadas á treva, propicia aos duendes e aos ladrões de gallinhas.
Quasi á porta alguem, debruçando-se amorosamente sobre o meu hombro, segredou-me palavras doces, mas tão intimas, tão leves, que me passaram, ficando-me apenas, no lobulo da orelha, o calor acariciante do sopro que as trouxera. O que pensei em um segundo!... Quantos sonhos idyllicos passaram pelo meu espirito!... Que vasta e interessante aventura imaginou minh’alma nesse tempo rapido!... «a mocinha de Italia a dar-me o seu endereço, ou outra linda mulher...» Mas uma idéa feriu-me violentamente—o conto do vigario. Levei a mão ao relogio e voltei-me rapidamente. Era um latagão de barba ruiva e oculos: tinha a cabeça núa, uma grande fronte tostada, com um calombo ao meio, purpureo e estriado. Curvou-se com a cartola nos joelhos, um sorriso affavel no grande rosto picado de bexigas, e balbuciou, com enternecimento, como se effectivamente dissesse coisas ternas:
—Quer o patrão um carro fechado?
Tive impetos de o repellir, mas lembrei-me de que, para chegar ao meu destino, era mais prudente confiar-me ás bestas de um cocheiro do que á providencia do acaso em horas tão adiantadas.
E, aqui na intimidade inviolavel deste canhenho, confesso que admirei o homem vigilante que sahira ao meu encontro com tanta affabilidade, offerecendo-se para conduzir-me á casa. Calculei que toda a gente devia estar enfronhada no morno leito, gozando a delicia incomparavel do somno, nessa noite fresca e de chuva. Além, nesse eremiterio onde repousa o meu umbigo, ás dez horas, a não ser em casa de Marianno Gomes, onde se cartêa impudentemente o lansquenet, com pequenos intervallos de maledicencia e gole, toda a povoação, beatamente ceiada e rezada, dorme. De longe em longe, uma luzinha treme, traçando no pó soalheiro dos caminhos uma risca luminosa—é algum jogador, que se recolhe despojado e tropego, ou o sanctissimo padre Coriolano, que anda a correr o aprisco, a ver se alguma ovelha bale, roída pelo arrependimento do peccado, que é uma chaga terrivel que a gente cura com as drogas da philosophia ou com a boa e sadia camponia, que, mais do que os santos, sabe levar os seus eleitos ao Paraiso, por um caminho bem differente desse que a igreja conspicua e austera manda que se trilhe—ninguem mais.
Ás dez horas o somno parece cahir do céu sobre todas as cabeças justas.
E não é só o homem que dorme no leito antigo, largo e raso, de columnas torcidas, com flores e folhagens classicas, forrado d’alvos lençóes, que trescalam como moutas de hervas de cheiro ou na palha secca e crepitante, entre os milhos, com o cão aos pés e os grillos cantando perto; é o gado forte e é a ovelha mansa, é a ave meiga, é a mesma arvore, é a mesma agua, é a mesma estrella, é o mesmo luar porque, se a agua murmura e se as folhas sussurram, bem se póde dizer que são vozes do sonho das coisas. Velam apenas o caboré piando no tronco secco ou cruzando os ermos e as feras bravas que descem para velar, ou a farandulagem que assalta gallinheiros ou outros sitios de maior recato e perigo.
Imaginem o meu espanto, a minha surpresa quando o cocheiro, fazendo uma zumbaia e rastejando um gesto para que eu passasse, deixou-me ver uma fila de carros molhados, reluzentes, e, em todas as boléas, sob guardas-chuva lustrosos, braços que acenavam para mim, num delirio, e gente, gente a valer, como eu jámais vira na villa onde passei o grosso da minha vida, nem mesmo nos dias de feira. Imaginem o pasmo que me tomou!
Deixei-me levar pelo cocheiro, que correu a abrir a portinhola, vindo buscar-me debaixo do seu guarda-chuva, amplo como uma tenda. Quando afundei nas almofadas atirando ao homem o numero da casa de meu tio, na praia do Russell, sahiu-me dos labios tremulos esta exclamação profana, mas que exprime admiravel e eloquentemente o assombro dos meus olhos, diante de tanto guarda-chuva, de tanta luz, sem falar no rumor que me ensurdecia:
—Com seiscentos diabos! isto é que é terra! E com força puxei a portinhola. O ruivo cacarejou ás bestas e rodámos.
No toldo a chuva torrencial rufava.