Epiphania
Pastores, que faziam a vigilia no campo, contemplavam embevecidamente a estrella maravilhosa, quando ouviram cantares e rumorosa estropeada como se festiva e densa turba viesse pela encosta do cerro mais alto.
Ergueram-se estranhando a caravana e viram romper, á luz de archotes, cujo clarão tingia sanguineamente a noite, um cortejo brilhante e desusado.
Os animaes pareciam ajaezados de ouro, com recamos de pedrarias, tamanho [{180}] era o fulgor que irradiavam nos cabeios ardegos em que vinham.
Onagros, tangidos por negros, trotavam sacolejando fardos e tres dromedarios enxairelados caminhavam entre lanças garbosamente empunhadas por cavalleiros robustos.
Tamborinos e anafis soavam em concerto, regulando o rythmo da marcha; vozes bradavam e a turba descia assustando as ovelhas e os grandes bois que trasmalhavam mettendo-se pelos mattos.
Os cães de guarda, attentos, d'orelhas fitas, conservavam-se silenciosos como se reconhecessem os chegadiços.
Por vezes as lanças chocavam-se, tinindo, e cerrada, na claridade fulva dos archotes, a caravana aproximava-se.
Na planicie, ao rouco estrugir de uma buzina, estacou em ordem.
Ligeiramente, destros e açodados negros desfizeram grandes rolos, fincaram [{181}] cepos e, em pouco, tendas retesaram-se.
Os animaes, alliviados da carga, deitavam-se na herva fresca, espojavam-se contentes e, em volta das tendas, como uma sebe de guerra, os cavalleiros cravaram as lanças pelos cantos ficando os ferros luzindo como estrellas.
Os pastores, esgueirando-se na sombra, procuravam chegar ao acampamento para vêr de perto os chefes da hoste que com tanta grandeza se movia.
Um d'elles, mais ousado, foi descoberto por um grande negro que trazia ás costas, suspenso d'uma corrente, um dardo de ferro.
Sem tempo de fugir cahiu em poder do vigia que logo o conduziu á tenda mais sumptuosa, toda alfaiada de seda e purpura e nublada de aromatas.
Lampadarios de ouro illuminavam-na. A herva desapparecia sob tapetes [{182}] altos, escudos lampejavam e, como o negro o impellisse, viu-se o pastor na presença de tres homens ricamente paramentados, com fotas na cabeça rutilantes de gemmas.
Eram magos das terras remotas.
Um alvo, a barba negra e farta espalhada no peito scintillante de pedrarias; outro da côr amarellada dos filhos das extremas da Asia; o terceiro negro, com immensas camandulas de ouro em volta do pescoço, braceletes nos punhos, argolas nas orelhas e na fronte alta, preso por um nastro, um diamante que coruscava.
O pastor ajoelhou-se e, medroso, esperava ouvir palavras severas, quando um dos homens tranquillisadoramente perguntou:
—Se sabia em que paço, por ali perto, nascera o rei dos judeus. O rustico, sem entender a pergunta, ficou arvoado, [{183}] imaginando-se victima de uma zombaria. Lembrando-se, porém, dos anjos e de todos os prodigios da noite messianica, respondeu vagamente:
—Perto d'aqui nasceu—e os ceus festejaram o seu natal—um menino, filho de pobres, vindos de terras longinquas. Ainda lá está no mesmo tugurio, ao collo da mãi, que é uma linda moça, sob a guarda de um ancião veneravel. É bem perto d'aqui, na caverna do outeiro sobre o qual paira e brilha a estrella alada que appareceu no ceu.
Levantaram-se os tres homens—o pastor sahiu da tenda e, estendendo o braço na direcção do outeiro, disse:
—É ali, sob a estrella.
—Deve ser, disse o negro. E os dois outros concordaram. E, despedindo o pastor com uma bolsa de moedas de ouro, ficaram de pé, em silencio, contemplando adorativamente a estrella que resplandecia. [{185}]