O milagre das lagrimas

A estrada, a duas horas de Sichem, pelos montes, larga e suave, com acceitosas sombras de sycomoros e de amendoeiras, era toda orlada de anemonas vermelhas e de margaridas brancas e amarellas.

Os khans succediam-se sempre abrigados em hortos frondosos, com a cisterna ao lado ou perto de alguma fonte, com a alpendrada reverdecida pela vinha, debaixo da qual os mercadores, que desciam de Tyro ou do Libano ou subiam [{56}] de Joppé, comiam uma febra de anho regando-a com o vinho fresco de Engaddi, emquanto os dromedarios soltos iam e vinham vagarosamente ou deitados, ruminando, cerravam os olhos nostalgicos á vivida fulguração do sol.

Casas miserrimas, de muros de lodo, cobertas de palha, confundiam-se com a ramagem dos eloendros, perdiam-se nos olivaes.

Caravanas desfilavam—os homens a cavallo, com as lanças altas, o albornoz ao vento; as mulheres em jumentos ou em carros, entre fardos e alcofas, agasalhando crianças sob as pontas dos mantos.

Por vezes um canto suave rompia da turba, rufavam tamboris, kinnareths vibravam, frautas desferiam e os cavalleiros alegres faziam caracolar os ginetes, as mulheres punham-se de pé nos [{57}] carros olhando as muralhas que se aprumavam ao longe, fechando cidades, cujas casas, em cubos brancos, semelhavam tumulos. [{58}]

José evitava os pousos, fugia aos rumorosos aduares, mettendo por atalhos para evitar a chacota da gente nomade.

Justamente atravessavam uma trilha deserta quando ouviram um choro triste e deram de rosto com uma moça morena que trazia nos braços uma criança inerte.

Pós ella uma pequenita, já com abundancia de flores, ainda varejava os mattos procurando anemonas.

Vendo-os, a misera susteve o pranto e, fitando em José os olhos rasos d'agua, perguntou:

«Se ainda distava muito Endor, onde vivia Baruc, o nazir, que conhecia a virtude das hervas e realisava curas maravilhosas. Vendera as suas ovelhas e levava oito cyclos de prata e um collar de ouro comprado em Jerusalem e, se tanto não bastasse, dar-se-ia como escrava pela saude do filho.» [{59}]

José estendeu o braço na direcção do Levante:

—Era além, muito longe, atravez da montanha, num valle sombrio, a horas do Jordão.

Maria, commovida, quiz vêr o infante.

A mãi descobriu-lhe o rosto.

Era lindo!

Os cabellos rolavam-lhe em cachos louros, os olhos jaziam como dois mortos sob as cupulas tumbaes das palpebras, com os longos cilios repontando como a herva que viça no abandono.

A boca, de labios cerrados, livida, era como o leito secco de uma torrente que o sol exhauriu e estalou.

Não se movia e, tão rigido, tão frio estava que só a illusão do amor podia ainda emprestar-lhe vida.

A pequenita continuava a rebuscar anemonas cantando. [{60}]

—Ides debalde a Endor com o vosso filho, disse commiserado o patriarcha, accrescentando: Baruc póde sarar enfermos, mas só Elias resuscitava os mortos.

—Quereis dizer que elle está morto!? exclamou a mulher tremendo. Se, ainda hontem, embalei-o nos braços... Se ainda estou com os peitos cheios de leite, manando copiosamente como as ribeiras das collinas.

Ai! de mim... Bem que eu não queria cantar a cantiga tristonha! Foi o canto triste que o fez fugir dos meus braços. Ai de mim!

Adormeci-o para sempre.

E agora? quem terá piedade da minha solidão? Era elle só...

Nasceu em noite de luar, finou-se em manhan de nevoa. E hei-de o deixar na terra justamente agora quando o inverno chega! Ai! de mim... A saudade mudará [{61}] o leite dos meus peitos em lagrimas para os meus olhos. Pobre de mim! Coitada de mim!

E a moça deixou-se cahir á beira do caminho apertando nos braços o corpo do filho morto.

A pequenita continuava a rebuscar anemonas.

Maria inclinou-se compadecida sobre o cadaver e duas lagrimas da sua piedade rolaram na fronte gelida do defunto.

Logo abriram-se os olhos da criança. Eram azues, côr do ceu; renasceram-lhe as rosas das faces, os bracinhos inertes estenderam-se e, lindo, com o esplendor da vida, o pequeno sorria afogando a cabeça no collo materno.

O espanto emmudecera, immobilisara a moça.

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Subito, ergueu-se com um grito d'alma, [{63}] poz-se a rasgar a tunica na pressa sofrega de amamentar o filho.

Os peitos saltaram tumidos. O pequeno abocou avidamente e a mãi, sentindo-o sugar, contente e com lagrimas, ajoelhou-se e, d'olhos no ceu, ficou como petrificada.

Maria chorava por vêl-a chorar venturosa e, como as suas lagrimas cahissem na terra, a pequenita não teve mãos para colher as flores que nasciam, brotando como acima d'agua borbulham, ás mil, as bolhas de ar. [{64}]

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