Piedade

Com um rebanho que recolhia levado por um pastor coberto de pelles, as pernas enroladas até os joelhos em vello sórdido, entraram em Jerusalem pela porta do mercado, á hora em que as buzinas romanas troavam nas torres.

José procurava distrahir Maria mostrando-lhe as grandes bellezas, a magnificencia da cidade; nomeava os edificios, alguns longinquos, esfumados nas primeiras sombras da noite.

A Virgem, porém, seguia calada, sem [{92}] animo de levantar os olhos, o coração cerrado em tristeza invencivel.

Gentes diversas cruzavam-se nas ruas: homens abaçanados do deserto, com o albornoz ao vento, o punho esmaltado das adagas reluzindo á cinta; phenicios cobertos de jóias, com enormes collares de contas de ouro e braceletes de marfim; gregos ágeis passando ligeiros entre a multidão, com a tunica colhida ao braço, as pernas enlaçadas em tiras de couro.

Mulheres mostravam-se ás portas das casas, encostadas languidamente aos umbraes, olhando em extase, com um sorriso nos labios côr de purpura.

A algumas viam-se-lhes os peitos pela abertura das tunicas; outras, reclinadas em leitos marchetados, cerravam mollemente as palpebras gosando o frescor dos flabellos que escravas agitavam. [{93}]

Errava no ar denso um cheiro forte de aromatas.

Estranhas musicas soavam e, como os albergues estavam cheios, era um babariso alegre sob as frescas latadas, por entre as quaes, em corridinha airosa, moças iam e vinham com amphoras e crateres.

O pastor falara-lhes em uma modesta estalagem em Bezetha, para o lado do forte, onde podiam encontrar agasalho seguro.

A casa era dirigida por um velho de Siloeh e tinha, fama pelo seu anho tenro e pelo seu vinho puro. Lá achariam pousada e, como ficava longe e não recebia mulheres, não seriam incommodados pelos legionarios que, á menor agitação, invadiam as casas brutalmente levando tudo a conto de lança.

Era um rancho pauperrimo, entre sebes de espinhos, onde aboletavam-se [{94}] mesteiraes e homens dos montes que traziam ao mercado favos de mel, resinas, balsamos e raizes.

O velho acolheu-os de boa sombra, serviu-lhes a refeição na sala lobrega que uma candeia alumiava.

Rusticos bebiam, jogavam e fóra, junto a um monte de pedras, um velho resmungava raspando, com voracidade, o fundo de uma escudella.

Era um leproso nojentamente abostellado de ulceras.

Ás chufas dos homens, que lhe atiravam cascas, bagaços de frutas, respondia aos regougos, bramindo maldições e, como prorompesse aos berros, apanhando pedras para defender-se, os homens revoltaram-se.

O hospede tranquillisou-os e, sahindo ao terreiro, poz-se a assobiar.

Enorme cão saltou da sombra rosnando, o taverneiro açulou-o contra [{95}] o leproso que se encolhera estarrecido.

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Vendo o cão investir, Maria cahiu de joelhos, juntou as mãos frias e, tremula, d'olhos no ceu, implorou pelo infeliz.

O animal raivava, aos saltos; os homens vociferavam incitando-o. Alguns riam no ante-gosto da scena cruel, mas como o leproso, tentando correr, tropeçasse rolando na terra e ferindo o rosto no pedregulho, o cão, que o alcançara, poz-se a ganir e, sacudindo a cauda, ficou de rastos, lambendo mansamente o sangue que escorria da cicatriz do mendigo.

E Maria, extactica, não via a doce misericordia que immobilisara em espanto os hospedes do albergue. [{97}]