Batalha do Salado
1340
Reinava em Portugal D. Affonso IV, e em Castella seu genro Affonso XI. Protrahia-se com varia fortuna a guerra entre as duas nações, porque os laços de familia não tinham podido suffocar as discordias entre os principes, quando o rei de Fez, [Aly-Abul-Hassan], preparando-se para invadir a Hespanha, reuniu um dos mais famosos exercitos, que atravessaram o Estreito emquanto o crescente dominou[{46}] na Peninsula. Apparelhado tudo para a expedição, começou o embarque dos sarracenos, e no decurso de cinco mezes quasi não se passou um dia, sem que as galés muslemicas viessem lançar nos portos de Gibraltar e Algeziras novos esquadrões de soldados. Reuniram-se a estes as tropas do rei de Granada, Jusef-ben-Ismail, e sitiou-se logo Tarifa, povoação importante e excellente ponto estrategico para proseguir a invasão e conquista.
Defendia-se energicamente a guarnição da fortaleza. A presença da armada christã, que fundeára proximo á cidade, impedia de algum modo o transporte de viveres e munições para o campo dos mussulmanos; e dava ao mesmo tempo aos cercados a esperança de soccorro ou de refugio. Em breve, porém, uma terrivel borrasca destruiu-a completamente, e tudo então[{47}] pareceu annunciar que ia bater a derradeira hora do dominio da cruz n'aquellas terras, regadas já com o sangue de tantos martyres.
Em presença do perigo, o orgulhoso Affonso XI tractou de celebrar pazes com o sogro e de lhe sollicitar a alliança, a fim de resistir á procella que ameaçava rebentar sobre os seus estados. Cedendo á força das circumstancias, e humilhando-se perante aquella que tanto offendêra e ainda odiava, enviou sua mulher a el-rei de Portugal, rogando-lhe prompto e poderoso auxilio; e depois veiu elle proprio pedil-o, ponderando a multidão dos barbaros, o aperto do sitio em que estava Tarifa, o risco com que se defendiam os cercados, e o muito que importava a brevidade de soccorro, da qual dependia talvez a sorte de toda a Hespanha. Satisfez D. Affonso IV a instante[{48}] supplica, e dentro de breve tempo partia para Sevilha, á frente de uma lustrosa companhia de gente escolhida, posto que pouco numerosa, adiantando-se ao grosso do exercito, que tinha de marchar mais lentamente por causa dos petrechos de guerra e provimentos.
Juntos os dous monarchas, convocaram-se os prelados, os barões, os mestres das ordens militares, os ricos homens, e entre todos se disputou a conveniencia de soccorrer Tarifa. O susto fez ahi seu officio, e muitos aconselharam se entregasse a praça aos mouros como condição de paz, evitando-se uma lucta, que n'aquella conjunctura só por milagre não seria funesta. Venceu, porém, o voto contrario, que foi o do rei portuguez e o dos seus vassallos, e depressa o enthusiasmo substituiu pela confiança o[{49}] temor. Achavam-se ali reunidos os principaes cavalleiros das duas nações rivaes; tinham de ser julgados uns pelos outros; tinham de se julgar mutuamente; e tanto bastou para que a emulação d'esforço se accendesse em todas as veias, exaltasse todos os animos, dominasse todas as vontades. Resolvida, pois, a guerra, dirigiram-se sobre Tarifa os dous monarchas, fazendo pequenas jornadas por esperarem as tropas que de instante a instante engrossavam o exercito; e no dia 27 de outubro, ao cahir da tarde, avistaram, emfim, a multidão dos infieis, cujas tendas, derramadas pelas raizes dos montes e pelos cimos dos outeiros, formavam como que uma cidade vastissima, cercada por selva de lanças.
Logo que nas asperas cumiadas de Peña del Ciervo fluctuaram os pendões de Castella e de Portugal, juntos ao[{50}] estandarte da cruzada, as tropas mussulmanas, que se calculavam em sessenta mil homens de cavallaria e quatrocentos mil infantes, unindo-se com a rapidez do relampago e deixando o recinto das tendas, arrojaram-se para as margens do Salado, e ahi aguardaram firmes o acommettimento dos inimigos. A noite, porém, aproximára-se, e os principes christãos não quizeram no meio das trevas começar a terrivel batalha, em que a fortuna das armas tinha de resolver se os filhos da Peninsula deviam de novo curvar-se ao jugo dos africanos.
No dia seguinte já o sol ia alto, quando o som das trombetas, dos tambores, das charamellas, dos anafis, dos atabales deu o signal de combate. O exercito portuguez, entoando o psalmo Exurgat Deus, arremeça-se pela planicie, transpõe o rio por entre milhares[{51}] de frechas, que sibilam nos ares como saraiva espessa, e encontrando-se com a hoste do rei de Granada trava uma lucta implacavel, frenetica, vertiginosa. No meio da ebriedade do sangue, baralham-se amigos e inimigos; as espadas faiscam nas espadas; as lanças, topando em cheio nos escudos, nos capacetes, nos arnezes dão um som profundo, que se mistura com o estalar d'aquellas que voam despedaçadas; muitos ginetes correm á solta, nitrindo d'espanto e de terror; muitos cavalleiros pelejam a pé; e os elmos e cervilheiras rolam pelo chão fendidos e amolgados. A final os mussulmanos vacillam, e as suas fileiras, vergadas em semicirculos, recuam ante a gente portugueza, ondeam, espalham-se e abandonam o campo, procurando na fuga a salvação. Por outro lado as tropas castelhanas, capitaneadas[{52}] pelo principe de Vilhena D. João Manuel, dirigem-se contra o exercito de Abul-Hassan, e depois de renhida peleja conseguem romper aquellas grossas muralhas de homens, affoutos e impavidos no primeiro conflicto, mas incapazes de resistir tenazmente ao embate incessante dos cavalleiros christãos, que, poucos mas bem armados, investem como leões onde mais acceso vae o travar da batalha. Não ignoram elles que da sua audacia depende nessa hora talvez a sorte e a gloria da patria. Emfim a guarnição de Tarifa, sahindo da fortaleza, apodera-se dos arrayaes mouriscos; fere, mata, vence quasi sem combate os que encontra; e derrama assim a ruina entre os inimigos, que, no meio de completa anarchia, chegam a pelejar uns contra os outros, ou expiram sem defensa nem gloria debaixo[{53}] dos pés dos cavallos e dos troços de infanteria.
Então o terror consumma o desbarato; e, pela volta da tarde, apenas do brilhante exercito dos mouros de Africa e de Hespanha alguns milhares de fugitivos, acompanhando os reis de Fez e de Granada, correm desalentados diante dos cavalleiros christãos, que os perseguem incançaveis até perto de Algeziras.
Grande numero de mussulmanos ficaram captivos, e foi immenso o despojo em ouro, prata, armas e preciosidades de toda a casta. Convidado a escolher d'entre essas riquezas a parte que lhe aprouvesse, D. Affonso IV acceitou sómente alguns alfanges e bandeiras, e um clarim que pertencêra ao rei de Granada. Os despojos, porém, daquella famosa batalha constituiam o preço de menos valia para o[{54}] monarcha portuguez. Mais graves eram, sem duvida, os resultados de ordem moral. Sahindo victorioso da empreza em que nobremente se empenhára, D. Affonso IV cingira-se ás tradições, por tanto tempo esquecidas, das instituições wisigothicas, que consideravam como dever impreterivel do principe estar sempre á frente dos seus subditos, na hora dos grandes perigos e das grandes glorias; renovára o brado de guerra contra os infieis, que parecia ter de todo emmudecido desde a conquista do Algarve; patenteára ao rei de Castella qual era ainda a ousadia dos cavalleiros e homens de armas portuguezes; e sobretudo livrára a Peninsula da invasão dos africanos, e dera a estes uma aspera demonstração de que não era empreza facil, nem talvez possivel, subjugar de novo a Hespanha e o christianismo.[{55}]