Primeira viagem de Vasco da Gama á India

1497 a 1499

Julgam profundos historiadores que os descobrimentos além do cabo Bojador, posto que encetassem para o reino uma grande epocha de gloria e prosperidade, foram talvez a causa capital da rapida e angustiosa decadencia a que chegámos nos fins do seculo XVI. Entretanto não seremos nós que condemnaremos esse espirito aventuroso e intrepido, que levou os nossos marinheiros e soldados a practicarem[{116}] tantos feitos assombrosos de ousadia, de abnegação, de patriotismo. Das victorias que alcançaram já nem existem tropheus, das nações que se prostraram ao seu esforço indomavel são outros hoje os senhores, do respeito e temor em que os tinha o mundo apenas resta a lembrança, e todavia a maravilhosa narração das façanhas d'aquellas eras, das homericas batalhas de poucos homens contra exercitos, das expedições e conquistas que ergueram uma nação pequena e pobre ao fastigio da soberania e da opulencia, ainda nos alvoroça o coração de enthusiasmo e amor patrio, não obstante as preoccupações prosaicas e calculadoras do seculo em que vivemos.

O descobrimento do caminho maritimo para a India é, sobretudo, um d'aquelles factos extraordinarios, de[{117}] que o espirito mais penetrante mal póde medir a extensão. Não fallando já dos paizes e regiões incognitas que acrescentámos á communhão europea, do aperfeiçoamento da navegação e do commercio, do novo e immenso mercado que abrimos a todas as industrias, do ascendente da classe média que eficazmente fomentámos, basta dizer-se que ás victorias dos portuguezes na India deve talvez a Europa não ter succumbido ao jugo mahometano. Ao passo que nós e os castelhanos nos preparávamos para dilatar os ambitos do mundo conhecido, hastear por toda a parte a cruz, e estabelecer em redor d'ella uma transformação social; ao passo que as outras nações christãs, agitadas por muitas e diversas causas, se entretinham em luctas feudaes de castello com castello, e de paiz com paiz; os mussulmanos[{118}] iam crescendo em poder, as suas dynastias radicavam-se desde o Indostão até o Mediterraneo, os seus navios sulcavam todos os mares, o monopolio do commercio asiatico constituia os povos em vassallagem dos seus mercados, e os seus exercitos, animados pelo amor da guerra e pelo fanatismo da crença, ameaçavam de nova invasão os estados da christandade. Veneza, a rainha do Adriatico, ousava a custo contrastar em parte a influencia de Constantinopla, mas esse obstaculo depressa desappareceria se as conquistas dos portuguezes não viessem produzir no mundo completa metamorphose mercantil e politica. Malaca e Ormuz, os dous principaes emporios das producções indianas, abriram seus portos sómente aos novos dominadores; as armadas turcas e as do Achem e Jaoa,[{119}] os exercitos de Cambaya e Cananor, as forças do Samorim, dos reis de Dekan, do Hidalcão e do soldão do Egypto não conseguiram arrancar das nossas mãos o imperio da Asia; e as nações mussulmanas, perdido o principal elemento da sua força, foram-se desmembrando, fundindo, esvaecendo, e eil-as as que restam, fracas e decrepitas, alongando humildemente os olhos para o occidente, na esperança de que os filhos do christianismo estendam um braço que ampare os representantes e sectarios do propheta.

Foi essa a epocha da nossa gloria mais esplendida. Quem examinasse então um mappa cosmographico, desde a linha que distingue a Europa e a Africa até ao cabo da Boa Esperança, quasi não encontraria ilha, promontorio, costa, golpho ou enseada, onde a fama do nome portuguez não guardasse[{120}] por si só a conquista; e montando o cabo veria tremular o pendão das quinas nos pontos mais importantes do Oriente, e ainda nos remotos archipelagos que depois se deviam chamar a Oceania. Antes d'essa epocha, porém, houve uma lucta, que durou perto de um seculo, e que votou ás paginas da historia universal e ao applauso da posteridade a memoria d'esses homens valorosos, que alteraram os destinos do mundo em proveito do christianismo, da civilisação e da politica. Os descobrimentos de Gonçalves Zarco e Tristão Vaz, de Gil Annes, de Nuno Tristão, de Gonçalo de Cintra, de Lançarote, de Gonçalo Velho, de Antonio de Nolle, de João de Santarem, de Pedro d'Escobar, de Diogo da Azambuja, de Diogo Cão, de Bartholomeu Dias e João Infante foram como que os preliminares[{121}] dos grandes commettimentos. D. Manuel, subindo ao throno no anno de 1495, resolveu continuar a empreza de seus antecessores, porfia magnanima que tantos sacrificios tinha já custado. Ao infante D. Henrique haviam-se devido os primeiros trabalhos e tentativas que prepararam o descobrimento da India; D. João II fundára na Africa o imperio portuguez, e deixára ao seu successor abundantes materiaes para o estabelecer na Asia; ao monarcha venturoso estava destinada a missão de traduzir n'um facto estupendo este vasto projecto.

Vigorosa foi, comtudo, a resistencia que D. Manuel encontrou nos seus conselheiros. Reprovavam estes o descobrimento como origem infallivel de ruina, lembrando os riscos de mar e terra, o acanhamento do reino e de[{122}] seus recursos, a vastidão e difficuldade da conquista, e propondo que a vida energica da metropole se applicasse exclusivamente a explorar as possessões adquiridas, o que aliás era já difficil encargo para um povo tão pouco numeroso. Mas nem duvidas nem suggestões abalaram a vontade do monarcha, que, na febre do enthusiasmo que o incitava á tentativa, como que antevia a aurora do triumpho. Encarregou, pois, de executar a empreza a Vasco da Gama, filho do alcaide mór da villa de Sines, Estevão da Gama, e, entregando-lhe em acto publico a bandeira, determinou a partida.

Prestes a armada, que se compunha de duas naus, S. Gabriel e S. Raphael, da caravella Berrio, e de um navio de mantimentos, embarcaram-se em Restello todos os que deviam ir na[{123}] expedição, e que seriam cento e sessenta homens entre marinheiros e soldados. Magestoso espectaculo offereceram então aquellas praias. Era o dia 8 de julho de 1497. O sol esplendido banhava de luz o Tejo, as suas margens e a pobre ermida da Senhora da Invocação de Belem, ermida que o infante D. Henrique mandára construir para animar a devoção dos maritimos, e que depois tinha de converter-se no grandioso templo dos Jeronymos. D'ahi sahia uma procissão, guiada pelos freires da ordem de Christo, e seguida de grande concurso de povo, que consternado tinha vindo despedir-se dos audazes navegadores. O fito que attrahia a multidão provinha do enlevo que excitam sempre as tentativas arrojadas, e esse sentimento achava-se ahi concentrado como no seu grande fóco, ancioso pelas contingencias[{124}] da viagem, afflicto pela probabilidade das catastrophes, engrandecido pela communicação rapida, electrica, fascinadora, irresistivel de tantos espectadores. Tristes estavam todos, excepto os que partiam, porque a esses animava o fervor e alvoroço da empreza, não obstante irem cruzar mares nunca navegados, dobrar promontorios, evitar restingas, resistir a tempestades e correntes, domar barbaros de Africa, combater os mouros, procurar, emfim, o desconhecido com todos os seus encantos e esperanças, mas com todos os seus assombros e perigos.

Desfraldadas as velas partiram-se de foz em fóra, aportaram a Cabo Verde, entraram na bahia de Sancta Helena, e depois de montarem o cabo da Boa Esperança com menos tormentas e riscos do que os marinheiros temiam,[{125}] e de passarem pela aguada de S. Braz, pela costa do Natal, pelo rio dos Bons Signaes, chegaram, no fim de quasi oito mezes de viagem, a Moçambique, d'onde logo desaferraram algumas barcas, ahi chamadas zambucos, que vieram abicar ás naus. Guarneciam-n'as muitos indigenas, e entre elles alguns brancos que pelos trajos e linguagem se conheceu serem mouros. Por um d'elles, natural de Fez, mandou Vasco da Gama ao xeque d'aquella terra, dizendo que se dirigia á India, e que para esse fim lhe pedia um piloto. Prometteu o xeque satisfazer o pedido e veiu visitar os navegantes, porque, a despeito das informações obtidas, cuidava ainda que seriam turcos; conhecendo, porém, que eram christãos, determinou destruil-os, e quando, desfeitos os varios ardis que para a traição empregára, se viu constrangido a[{126}] entregar um piloto, instruiu-o para que em vez de guiar os navios procurasse perdel-os. A fortuna, todavia, que no meio dos seus caprichos se inclina a proteger os que muito ousam, salvou os portuguezes, que no dia 7 de abril de 1498 chegaram a Mombaça, cidade importante e para esses tempos civilisada, onde tambem escaparam a graves perigos. Em Melinde, em fim, o rei, não obstante o antagonismo de crenças e de raça, entendeu que devia soccorrer os estrangeiros, e com esse intuito acolheu-os sem perfidia e deu-lhes um habil piloto que os levasse á India.

Vinte e tres dias depois de terem partido de Melinde suppozeram os marinheiros ver terra. Já por vezes, em dias anteriores, se lhes tinha affigurado o mesmo, e haviam estremecido de contentamento e esperança; mas o[{127}] tempo mostrára sempre que taes imagens eram apenas hallucinação, e a alegria se lhes transformára em profunda tristeza, porque cousa alguma abate mais os animos do que essas alternativas de illusões e desenganos, que são como os sarcasmos do destino. Desalentados, pois, e fitos sombriamente os olhos no horisonte, os mesmos homens, que com tão escassos recursos, e estando ainda na infancia a arte nautica, se haviam affoutado aos abysmos com desassombrada resolução, trepidavam agora, e quasi que sentiam as angustias do desespero. D'esta vez, porém, apresentava-se a realidade incontestavel, e não tardou muito que distinctamente se conhecesse a proximidade de um continente vastissimo. Appareciam afinal essas praias da India, que eram já para os atrevidos navegadores o sonho, o enlevo,[{128}] a paixão que a todos avassallava, paixão que fôra crescendo com os obstaculos até constituir a idéa fixa, o pensamento constante d'aquellas almas energicas.

Chegada a noite tornou-se necessario virar de bordo, porque fôra perigoso no meio das trevas entestar com a terra, mas no dia seguinte, ao romper da manhã, corria a armada ao longo da costa com vento bonançoso. Uma cadeia de montanhas, tendo por corôa as nuvens, sobresahia em distancia; por entre florestas de palmeiras divisavam-se soberbos edificios; o Oriente, emfim, o recesso dos mysterios, a região dos prodigios, cujas fabulas nebulosas eram ainda inferiores ás maravilhas que já se presentiam, patenteava-se com toda a magestade da sua vegetação opulenta. Avisinhavam-se n'aquella costa tres povoações: Calecut,[{129}] Capocate e Pandarane. Os marinheiros, tomando a segunda pela primeira, por engano de Canacá, o piloto indiano, dirigiram as naus a Capocate, pobre aldeia de pescadores; mas, sabendo ahi qual das povoações era Calecut, foram lançar ferro na enseada da cidade.

Considerava-se n'esse tempo Calecut uma das mais importantes escalas commerciaes da India, e era sem duvida a mais poderosa de todas as terras do Malabar. Viam-se girar no seu commercio os diamantes e pedras preciosas das ricas minas de Narsinga e do Pegú, as perolas de Kalckar, o oiro de Sumatra, o ambar das Maldivas, o marfim, a porcelana, as sedas e damascos da China, o sandalo de Timor, o algodão, o anil, o assucar, as especiarias mais apreciadas, tudo, emfim, quanto póde contribuir para o uso e[{130}] delicias da vida. Capital do reino do mesmo nome, constituia Calecut a séde do sacerdocio e do imperio; tinha, além de innumeraveis casas feitas de madeira e cobertas de palma, muitos palacios, templos, arcos e torres soberbas; e estendia-se por largo espaço, contendo, segundo o computo dos naturaes, cerca de duzentos mil habitantes. Fundada com pouco poder, havia ganho dentro de breve tempo aquelle grande esplendor, e o seu rei, a que chamavam o Samorim, era o mais respeitado e temido entre os monarchas do Indostão.

Annunciada a vinda dos portuguezes, recebeu-os o principe com affago, deu audiencia a Vasco da Gama, e declarou acceitar a alliança do rei de Portugal, promettendo que na frota lhe enviaria embaixadores. Os mouros, porém, costumados de longo tempo[{131}] aos lucros commerciaes d'aquella terra riquissima, e receiando que a influencia dos portuguezes não lhes consentisse de futuro nem protecção, nem accordo, nem tregoas, nem misericordia, começaram a urdir traições, tentando persuadir o Samorim de que os navegantes eram piratas miseraveis que levariam o terror do seu nome aos confins do imperio, como já em Moçambique e Mombaça tinham deixado vestigios de crueldade e perfidia; e de que ainda quando fossem subditos de monarcha poderoso, eram decerto homens orgulhosos e ávidos, que não pretendiam, sob as apparencias de paz e amisade, senão a conquista e posse exclusiva do solo descoberto. Convenceu-se facilmente o principe indiano, e desde logo se lhe transformou a boa vontade, dissimulando apenas o seu odio para encontrar ensejo favoravel[{132}] de colher ás mãos os estrangeiros.

Debellados, todavia, os tramas pela intrepidez e astucia de Vasco da Gama, levantaram ancora as naus, e depois de quasi tres mezes de demora n'esse paiz inimigo, seguiram viagem para Portugal, tendo que vencer de novo graves perigos, e perdendo tantos a vida com as febres, que dos cento e sessenta homens que partiram poucos mais de sessenta regressaram á patria.

Em Portugal a noticia do descobrimento da India encheu de enthusiasmo todo o reino. Estavam depostos os temores, patente o caminho, encetada, em summa, a nova cruzada de religião, de guerra, de industria e de gloria, que ia devassar as barreiras da antiga civilisação oriental. Justificára-se o firme proposito que vencêra[{133}] as apprehensões anteriores, e D. Manuel, depois de premiar Vasco da Gama e os famosos companheiros, [acrescentou aos titulos do seu dictado os de senhor da conquista, navegação e commercio da Ethiopia, Arabia, Persia e India].

O soberbo mosteiro dos Jeronymos foi o padrão erguido á grandeza do emprehendimento, á fortuna do resultado, ao favor da providencia; a torre de S. Vicente de Belem, edificada quasi no mesmo periodo, tornou-se a testemunha gloriosa do immenso poder que depois alcançámos, e que ao passo que avassallava o imperio da Asia, vencia na Berberia as bellicosas turbas agarenas, cravava marcos de posse em quasi tres mil legoas da costa oriental da Africa, e dava á Europa a primazia entre as outras partes do mundo, abrindo caminho á grande revolução[{134}] intellectual, moral, politica, mercantil e guerreira, que tornou o seculo XVI talvez a epocha mais maravilhosa da historia da civilisação.[{135}]

[IX]

[Descobrimento do Brazil]

1500

No anno seguinte ao da volta de Vasco da Gama encarregou D. Manuel a Pedro Alvares Cabral, senhor de Belmonte e alcaide mór de Azurara, o mando de uma armada de treze velas, que devia na sua derrota correr a costa de Sofala, visitar o rei de Melinde, chegar a Calecut, e proseguir na empreza, a um tempo mercantil e guerreira, iniciada com tanta fortuna pelo primeiro descobridor. Era[{136}] a frota magnifica e poderosa, e tinha como capitães entre outros, além de Pedro Alvares Cabral, Nicolau Coelho, que fôra na anterior expedição, e Bartholomeu Dias, o primeiro que ousára dobrar o cabo da Boa Esperança, e que no seio das suas tormentas ia encontrar d'esta vez o perpetuo somno da morte.

Preparado tudo para a partida, levantaram-se ancoras, desfraldaram-se velas, e cortando as aguas sahiu a armada de mar em fóra no dia 9 de março, e seguiu viagem próspera até ás alturas de Cabo Verde, onde um temporal desfeito de tal modo agitou os mares, que os navios, envolvidos entre serras de ondas, ora eram alçados no cume das vagas como se ellas os quizessem expellir de si, ora quasi se submergiam na concavidade do abysmo. Acalmada a procella, juntou-se[{137}] toda a frota, á excepção de um navio que depois arribou a Lisboa, e continuaram os doze restantes pelo oceano, affastando-se das costas d'Africa, ou para evitarem as calmarias de Guiné, como já o practicára Vasco da Gama, ou porque para o proseguimento de tal rumo influisse de algum modo o espirito aventuroso e obstinado d'esses homens energicos, que tudo arrostavam e a tudo se atreviam com o ardor que só deriva do verdadeiro enthusiasmo.

As plantas maritimas encontradas no dia 21 de abril, as aves redemoinhando nos ares ou pousando sobre as aguas, um halito perfumado impregnando a atmosphera, annunciaram aos navegantes a proximidade de regiões desconhecidas; e por isso, na manhã seguinte, apinhavam-se todos nos chapiteus da proa, fixa a vista no extremo[{138}] dos mares, onde já se divisava como que um ponto escuro que gradualmente ia crescendo. Afinal a voz do gageiro da nau capitania bradou no cesto da gavia—terra!—, e durante minutos só esse grito de contentamento indisivel resoou em todos os navios. A ligeira nevoa avultára no horisonte, a frota surdia sempre ávante, e por fim já distinctamente se observava um monte de fórma arredondada, largas serranias para o sul, e ao longe uma extensa planicie, vestida de sombrios arvoredos. Aproaram então as naus á terra, que pela ignorancia d'aquellas eras julgaram os pilotos que só podia ser uma grande ilha, como alguma dos Açores ou das Antilhas, ancoraram perto da costa, e na manhã seguinte sulcavam as aguas em direcção á praia.

Grupos de homens, de mulheres e[{139}] de creanças appareciam por entre as arvores, e ora se adiantavam a medo ora se retrahiam, testemunhando nos gestos o espanto que lhes causavam as embarcações, as velas, as vergas, os mastros, cousas como que animadas e sobrenaturaes, que pareciam obedecer ao impulso de uma vontade unica. Não tinha essa gente os caracteres phisicos das raças africanas ou europeas, e apenas se semelhava com as da India na côr baça e no cabello comprido e corredio. Os corpos eram altos e robustos, as feições regulares, a physionomia franca e benevola; e apesar das armas que traziam mostravam-se de indole pacifica, ditosos com seus costumes singelos, e satisfeitos com o que o solo espontaneamente lhes offerecia.

Não podendo desembarcar ahi, porque o mar quebrava então muito na[{140}] costa, seguiram os portuguezes na volta do norte, buscando á feição do vento algum porto seguro onde surgissem; e de feito, tendo navegado cerca de dez leguas, encontraram no dia 24 de abril uma enseada, onde logo entraram os navios menores, ficando ao principio as naus fóra dos recifes, por não se conhecer se havia dentro sufficiente fundo. Entretanto alguns marinheiros aproximaram-se em bateis á praia, e conseguiram tomar de sobresalto dous indigenas, que andavam n'uma jangada ou almadia, formada a seu modo de tres traves unidas, e que nem tentaram resistir, não obstante trazer um d'elles arco e frechas, e poderem ser facilmente soccorridos. Levados á presença de Pedro Alvares Cabral, procurou este de alguma fórma interrogal-os, deu-lhes o que indicaram desejar, enviou-os no dia seguinte[{141}] para terra afim de evitar suspeitas ou receios, e estabeleceu assim as primeiras relações com os habitantes d'essa parte do novo mundo que o acaso nos sujeitava, como o acaso entregára a Colombo as costas occidentaes da America.

Não tentaremos descrever as varias scenas de curiosidade e de innocencia por parte dos indigenas, de contentamento, de enthusiasmo e de nobreza por parte dos descobridores, que tiveram como theatro essas praias emquanto ahi se demorou a armada. O quadro que apresentassemos seria apenas um esboço desenhado a largos traços, que mal conseguiria trasladar a narração synchrona de Pero Vaz de Caminha, onde miudamente se representam os factos e circumstancias, e como que resurgem os proprios protogonistas. Cingir-nos-hemos, pois, a dizer[{142}] que, tendo o capitão mandado reconhecer o paiz, e sabendo que era fertil, retalhado de rios caudaes, coberto de arvores fructiferas, e povoado por gentio docil, com o qual se mostrava facil a entrada, resolveu tomar solemnemente posse d'essa região, oceano de soberbas e virginaes florestas em que parecia reproduzir-se o eden dos livros sanctos.

Designado para aquelle acto o primeiro dia de maio, assistiram á missa em terra os navegantes, ataviados das melhores telas e de lusidas armas; e debaixo d'aquelle céo puro, n'aquella atmosphera balsamica, perante aquelles horisontes explendidos, um profundo sentimento de confiança em Deus devia animar esses homens ajoelhados em frente do mesmo altar, esquecidos dos perigos e fadigas, e enlaçados pelas recordações, pelas crenças, pelos trabalhos[{143}] e pelo pensamento de gloria, que mais ou menos se erguia em todas aquellas almas de bronze. Em seguida, no meio do resoar das charamellas e tambores, das acclamações da marinhagem e dos gritos festivos dos indigenas, levantou-se perto da praia uma grande cruz, feita com madeira d'aquellas selvas, padrão glorioso da nobre empreza, que nenhum acto de crueldade deshonrára.

Não quiz Pedro Alvares Cabral demorar noticia tão extraordinaria, e expediu Gaspar de Lemos para a transmittir a el-rei, partindo elle proprio d'aquellas praias no dia 3 de maio, e deixando em terra dous degredados, vivo testemunho de posse incontestada. A fortuna, porém, que até então lhe fôra propicia, depressa o desamparou. Assaltada a frota por uma tempestade horrorosa proximo ao cabo da[{144}] Boa Esperança, abysmaram-se no oceano, com a gente que levavam, quatro dos onze navios que se dirigiam á India.

Passados mezes Gaspar de Lemos transpõe de novo a foz do Tejo, e vem annunciar a Lisboa, ao reino, ao mundo o novo descobrimento. A febre do enthusiasmo exaltou então todos os animos, dando-lhes a energia e confiança que até essa conjunctura faltára a muitos. O pendão das quinas, que tremulava na Europa e na Africa, nas ilhas do Atlantico e nos mares da India, ia alongar-se pelo occidente, e Portugal podia dizer com legitimo orgulho que tomára o primeiro logar entre as nações.

Hoje o Brazil é vastissimo imperio, vivido, esperançoso e livre. Emancipado da metropole não só pelos successos politicos, que se realisaram no[{145}] primeiro quartel do seculo em que vivemos, mas ainda pela logica natural do progresso das sociedades, está destinado, pela sua posição geographica, pela excellencia do clima, pelas riquezas que possue e pelo patriotismo dos seus habitantes, a desempenhar um grande papel na historia do novo mundo. Possa o povo infante, filho e em tudo descendente de uma nação pequena mas nobilissima, viver e prosperar por muitos seculos, dando exemplos de sabedoria e de humanidade ás velhas monarchias da Europa, que se julgam mais civilisadas, e que só têm mais poder ou fortuna.[{146}]

[{147}]

[X]

[Matança nos christãos novos de Lisboa]

1506

Até o principio do seculo XVI os hebreus portuguezes eram considerados como nação á parte, com magistrados, leis, usos e até bairros separados; mas á força de intelligencia, de estudo, de actividade, de astucia, de perseverança e de união, e a despeito das leis mais ou menos oppressivas a que sempre estiveram sujeitos, haviam conquistado no reino irresistivel preponderancia. Essa preponderancia,[{148}] de que, como é natural, frequentemente abusavam, desafiára o rancor das multidões, que não podiam vêr sem inveja homens desamparados de Deus possuirem grandes riquezas, e exercerem por toda a parte uma especie de senhorio. Depois de executada a fatal lei, que expulsou de Portugal os judeus não convertidos, o furor popular conservára-se por algum tempo latente. Era o vulcão que socegava depois de violenta erupção, mas cuja chamma inextinguivel se escondia debaixo das cinzas, para se alçar de subito com mais força n'uma explosão tremenda. Aquelles, portanto, que, vencidos e não convencidos, enervados pelo medo, sedentos de ouro, detidos pela execução de algum grande plano, ou presos pelos laços do amor patrio e das affeições de familia, tinham trahido as suas opiniões,[{149}] e renegado a crença de seus avós sómente para se conservarem na terra natal, não alcançaram em paga de tantos sacrificios senão uma tranquilidade equivoca e pouco duradoura. Detestados pelos christãos posto que na apparencia membros da mesma egreja, despresados como apostatas pelos instigadores da sua apostasia, envilecidos a seus proprios olhos pela vergonha de uma falsa conversão, tragando humilhações e aleives, sujeitando-se a toda a especie de gravames, receiando a cada hora perder a fortuna e a vida, e como que suffocados com a mascara da hypocrisia, é provavel que esses homens acolhessem na sua alma, como direito imprescriptivel, um odio profundo contra os seus tyrannos, e que não perdessem occasião alguma de o satisfazer, ou por via da usura, vicio aliás commum[{150}] da raça hebraica, ou até por meios violentos, quando podessem ser empregados sem imminente risco. Essas vinganças, porém, exacerbavam ainda a irritação dos animos, e tudo denotava que a cólera popular, agitada pelo fanatismo, ia em breve rebentar impetuosa e feroz.

Era na primavera de 1506. A peste assolava Lisboa, tornando ainda mais dura a triste condição dos seus habitantes, muitos dos quaes, no meio de sobresaltos, de desalentos e de agonias, já a custo resistiam ao flagello da fome. Faziam-se preces publicas, e no dia 19 de abril, domingo de Paschoela, ao celebrarem-se os officios divinos na egreja de S. Domingos houve quem visse ou suppozesse vêr uma luz extraordinaria, que illuminava a imagem do Redemptor na capella chamada de Jesus. Realisára-se o milagre[{151}] em dias anteriores; muitos dos circumstantes, porém, mostravam-se incredulos, e entre elles um christão novo, ao qual escaparam sobre o caso algumas palavras imprudentes. Tanto bastou para alborotar o povo, porque á devoção associára-se o terror; e o desditoso blasphemo foi arrojado para o adro, onde o assassinaram e queimaram, ao passo que dous frades dominicanos, erguendo nas mãos impias um crucifixo, clamavam contra a heresia. Accendeu-se mais com este estimulo a furia da plebe, e crescendo o numero dos amotinados com a marinhagem de muitas naus estrangeiras ancoradas no porto, cresceu em todos a ousadia. Os conversos, que andavam desprevenidos pelas ruas, eram mortos ou mal feridos, e arrastados indistinctamente para as fogueiras, que se haviam preparado no Rocio e na[{152}] Ribeira. A côrte e a nobreza estavam fóra da cidade, e os poucos officiaes publicos que não se tinham retirado e que tentaram apasiguar a revolta, apedrejados e perseguidos, só escaparam com a fuga ao impeto irresistivel das turbas.

Com as trevas aggravou-se a desordem. Na segunda feira as scenas da vespera repetiram-se com maior crueza. Já não apparecia nas ruas nenhum christão novo, mas aquelle tropel de canibaes não estava satisfeito de matança. Foram acommettidas as casas suspeitas, das quaes, depois de saquearem tudo, traziam para fóra os habitantes, e vivos ou mortos os lançavam nas fogueiras. Mulheres, velhos e creanças eram postos a tormento para confessarem onde havia que roubar; os templos, os altares, as imagens dos sanctos, os sacrarios não livravam da[{153}] morte os que á sombra d'elles se acolhiam; e muitos christãos velhos, sacrificados á cubiça ou á vingança, cahiam promiscuamente com os neophytos ás mãos dos assassinos.

A noite veiu cobrir com o seu veu aquelle longo drama de exterminio, que se renovou no dia seguinte, porém mais frouxamente, porque já faltavam as victimas. [O numero dos mortos n'esses tres dias orçava por dous mil]; um silencio sepulchral abrangia a vasta área da cidade; e apenas a intervallos o rugido já cançado dos algozes reboava por entre os gritos afflictivos das victimas. Emfim, pela tarde, o regedor da justiça, Ayres da Silva, e o governador da casa do civel, D. Alvaro de Castro, entraram em Lisboa acompanhados de guardas; os estrangeiros acolheram-se aos navios; e o socego restabeleceu-se.[{154}]

D. Manuel estava em Aviz quando lhe deram a execravel noticia. Indignado pelas atrocidades commettidas, mandou logo o prior do Crato e o barão de Alvito com largos poderes para inquirirem dos crimes e castigarem os culpados. Presos os mais notaveis e julgados summariamente, foram muitos condemnados á morte, e entre elles os dous frades, que haviam promovido e patrocinado aquella festa de sangue. As auctoridades, que por negligencia ou temor não procuraram conter os revoltosos, e os habitantes da cidade, que de algum modo intervieram no motim, dando-lhe favor e ajuda, tiveram por pena o confisco. Finalmente um decreto, expedido a 22 de maio, extinguiu a casa dos vinte e quatro, e condemnou Lisboa a perder grande parte dos antigos privilegios. Debalde a camara supplicou a el-rei[{155}] misericordia para a capital. D. Manuel respondeu que era preciso dar ao mundo aquelle exemplo de rigor, por um lado contra a fereza dos maus, por outro contra a pusillanimidade dos que não o eram.[{156}]

[{157}]

[XI]

[Conquista de Goa]

1510

«A cidade de Goa, diz Barros, está situada em a terra a que os portuguezes chamam Canará, em uma ilha por nome Tiçuary, que quer dizer trinta aldêas, porque tantas havia n'ella quando os mouros a conquistaram, e tantas lhes pagavam direitos da novidade que colhiam.» Os geographos modernos consideram-n'a a mais importante possessão das que ainda temos na Asia, e todavia apenas conserva[{158}] um pallido reflexo da grandeza antiga. Ruinas sobre ruinas, marcadas com o cunho solemne da historia, e um resto de actividade commercial que os desvarios dos governos não têm podido destruir, eis quasi só o que existe da que foi capital das Indias, quando ensinámos aos demais povos da Europa o caminho do poderio e da gloria.

Era Goa, ao tempo em que os portuguezes a commetteram, excellente ponto maritimo, e a principal entrada dos reinos de Narsinga e Dekan. A segurança do porto, a brandura do clima, a fertilidade do territorio adjacente, e a altura das muralhas, assentadas á beira do rio, tornavam-n'a um dos mais ricos emporios do commercio asiatico, e talvez o logar mais adequado para se estabelecer a metropole das nossas conquistas no Oriente. Accrescia[{159}] ter sido, havia pouco, avassallada pelos mouros, e não estarem os indigenas ainda de todo submissos ao jugo dos vencedores.

Com estas circumstancias é natural que Affonso de Albuquerque, logo que tomou posse do governo da India, resolvesse no seu animo apoderar-se de Goa; outros cuidados, porém, e por ventura a consciencia das poucas forças de que dispunha, far-lhe-hiam espaçar a tentativa para occasião favoravel. Esta em breve se offereceu, e accommodada maravilhosamente aos seus designios. Partido de Cochim com vinte e tres velas e pouco mais de mil combatentes, e encaminhando-se a destruir a grossa armada que o sultão do Cairo apparelhava em Suez, encontrou-se proximo a Onor com Timoja, antigo corsario d'aquella costa e já então nosso alliado, que o dissuadiu[{160}] de expedição tão longinqua, quando tinha perto a ilha e cidade de Goa, que n'aquella conjunctura podia invadir com vantagem, por estar o Hidalcão muito desviado d'esses sitios, e detido a conter o fogo da revolta, que lavrava nos seus subditos, e ameaçava devorar-lhe o throno. Aproveitando um aviso tão conforme aos seus desejos, Albuquerque não quiz, comtudo, decidir por si só a opportunidade da empreza, ou porque receiasse a má vontade de alguns dos seus companheiros, ou por outros quaesquer motivos ignorados hoje; e convocando a conselho os principaes capitães, ahi assentou com elles o dirigirem-se a Goa, onde de feito surgiu a frota no dia 27 de fevereiro de 1510.

O resultado foi feliz como o previra Timoja. Tanto que os habitantes e governadores da cidade viram aquella[{161}] floresta de navios ancorar no seu porto, prepararam-se para a defensa não obstante o sobresalto do nome portuguez; mas a audacia com que os invasores arremettiam ás muralhas, ou pelejavam no campo peito a peito, depressa os desanimou, agigantando-se-lhes o perigo á força de o temerem. Era gente collecticia, a maior parte sem aquelle despreso da vida que nasce do exercicio da guerra, e por isso não admira que logo aos primeiros revezes desesperassem da victoria. Resolveram, pois, capitular com o partido das vidas e fazendas, e propozeram n'este sentido as condições da entrega. Incitado pelos generosos impulsos da sua alma, Affonso de Albuquerque accedeu á proposta, querendo antes recusar aos seus soldados o promettido despojo do que protrahir inutilmente os horrores da guerra; e no dia seguinte[{162}] entrou em Goa, no meio das acclamações festivas dos indigenas, que lhe entregaram as chaves da cidade, como homens que já não se julgavam inimigos, mas só vassallos do rei de Portugal.

Entretanto o conservar este dominio não era cousa tão facil como tinha sido adquiril-o. Os indios, naturalmente pacificos e já de certo modo affeitos ao despotismo estranho, contentaram-se quasi todos com a segurança e amparo que lhes garantiu o vencedor; mas os mouros, nossos implacaveis adversarios por odios de crença e de raça e por emulação de conquista, conspiraram desde logo contra o poder das quinas com a actividade incançavel, com a perseverança e talento de quem não attenta nos obstaculos senão para completamente os vencer. Por outro lado o Hidalcão, apenas soube a fatal[{163}] nova, celebrou pazes com muitos reis seus inimigos, os quaes determinaram logo auxilial-o, mandou tropas numerosas a fim de reconquistar Goa a todo o custo, e elle proprio se preparou para as seguir, resolvido a dar aos intrusos uma pesada demonstração de que pagava com usura as offensas recebidas.

Ao principio resistiram os portuguezes com alguma vantagem, repellindo constantemente os successivos assaltos, e fazendo grande estrago no exercito dos mouros; mas quando chegou o Hidalcão com sessenta mil soldados, e entre elles cinco mil cavalleiros, conheceram os mais valentes como a situação era impossivel, e instaram com Albuquerque para que, abandonada por em quanto a empreza, tentasse a fortuna por outro meio, temerario muito embora, mas não de tal sorte[{164}] imprudente, que o resultado só podesse ser funesto. De mau grado annuiu a isto o animo de ferro do heroe da India; faltando-lhe, porém, os soccorros que mandára vir de Cochim, vendo-se rodeado de traições, e conhecendo que os cercadores pretendiam queimar-lhe as naus, unico refugio com que contava no caso de extremo perigo, mandou embarcar a gente e recolheu-se á frota por entre os tiros dos inimigos, que, ao retirarem-se os portuguezes, os saltearam de improviso, furiosos pela inopinada resolução, que lhes frustrava, acaso para sempre, os planos de vingança.

Seguiu-se durante alguns mezes um combate incessante e terrivel, cujas diversas phases deixaremos de memorar por não valerem para o nosso principal intuito. Baste saber-se que[{165}] nos principios de agosto sahiu a frota da barra de Goa, e que aos 22 de novembro ahi surgiu outra vez, trazendo cerca de dous mil homens entre portuguezes e malabares.

Com esta gente determinou Affonso de Albuquerque rehaver Goa ou acabar na contenda. Reconhecendo, todavia, a insufficiencia dos seus recursos militares para tomar á escala vista uma cidade tão fortificada e guarnecida de defensores, meditou n'um ardil, que equilibrasse até certo ponto a desegualdade de forças. O engenho natural e a experiencia da guerra depressa lh'o suggeriram; e o logar tenente de D. Manuel, que via realisarem-se uns apoz outros quasi todos os seus planos, contou de antemão com a victoria, não esquecendo, todavia, nem as mais leves precauções para o bom exito do commettimento.[{166}] Era isto, era a audacia nos projectos junta á prudencia nas combinações que tornavam invencivel o insigne capitão. Quanto, pois, o systema offensivo dos assedios em taes casos recommendava, quanto os petrechos e provimentos de que dispunha podiam subministrar, tudo foi por elle empregado para que a tentativa, que parecia desatino, tivesse por termo a desaffronta e a gloria.

No entanto os soldados, convictos do proprio esforço, pediam com enthusiasmo o combate. Não tardou elle muito. Fixado para o assalto o dia 25, e reunidos na vespera os capitães da armada, decidiu Albuquerque que se investisse a cidade pelo lado da ribeira, em quanto alguns bateis com gente e artilheria simulavam o ataque por differentes partes, e distrahiam d'esse modo a attenção dos sitiados.[{167}] A empreza assustou os nossos, não por si, mas pelo general que declarou querer expôr-se ao balanço da aventura. Supplicaram-lhe, por isso, que deixasse a elles sós o risco, e aguardasse o resultado, para que, se cahissem, houvesse quem os vingasse, e não se perdesse de todo o que se possuia na India. Resistindo, porém, Albuquerque ás reiteradas instancias, e conhecendo-lhe todos o caracter inflexivel, prepararam-se para aquelle feito, que já então seria indecoroso deixar de levar a cabo.

A fortuna favoreceu mais uma vez a audacia dos conquistadores. Os mouros, ao sentirem o rumor dos bateis que vogavam ao longo da praia, correram á frontaria da cidade, suppondo que por alli queriam os cercadores tomar terra; e só reconheceram o engano, de que já não era possivel resguardarem-se,[{168}] quando, ao romper d'alva, ouviram o som dos instrumentos bellicos na ribeira e pela costa acima. Entretanto não desanimaram com isto, mas comparando o seu numero com o diminuto dos sitiadores, e a vantajosa posição com a de quem, apesar de tudo, só debaixo dos pés os poderia investir, offereceram resistencia desesperada, e tanto mais terrivel, quanto o rancor entre os dous exercitos se accumulára por largos dias sem poder resfolegar. Por outra parte os portuguezes, trepando pelas tranqueiras, não obstante choverem sobre elles milhares de tiros e arremeços, pelejando braço a braço com os cercados, luctando e rolando de pedra em pedra para de novo subirem, e cada vez com mais denodo, conseguiram a final arrombar uma das portas, por onde se arrojaram destemidos, como homens aos[{169}] quaes a febre dos combates exaltára até o delirio.

Despedaçado o dique, começou na apertada senda um fluxo e refluxo dos dous bandos contendores, combate indeciso e accerrimo que apenas durou instantes. Era denso o enxame dos que vedavam a entrada, mas aquelles mesmos, que ao principio tinham mostrado impetuoso esforço, tomaram-se de repentino susto ao experimentarem de perto a tempera das espadas inimigas, e desamparando tumultuariamente os postos, acolheram-se ao interior da cidade, onde os invasores, cegos de ira, se entranharam apoz elles. Então teve logar nas ruas e praças de Goa a maior força da refrega, porque os mouros eram dez vezes mais numerosos, e pelejavam enraivecidos por terem cedido o passo a tão poucos; mas isto não impediu que os soldados[{170}] de Albuquerque, soccorridos a cada instante pelos companheiros que chegavam, constrangessem, emfim, os defensores da cidade a deixal-a para sempre.

Se os mouros levavam, fugindo, perda e desar, a victoria não sahira incruenta aos portuguezes; poucos havia que não estivessem feridos, e Albuquerque, abraçando um d'elles, exclamou: «Filhos, que não sei que vos faça senão que romperei as vestiduras diante de el-rei, porque vos faça mercê, que vos honrastes a vós e a mim.» Assim sabia o varão extraordinario, que a providencia parecia ter creado para perpetuar nas nossas mãos o imperio da Asia, adquirir a affeição dos seus soldados, aos quaes com o exemplo infundia esforço, com as revelações luminosas do genio uma confiança sem limites, com a severidade[{171}] talvez excessiva o respeito e a obediencia.

Albuquerque, porém, não era sómente guerreiro. O homem que fundou e firmou o imperio portuguez do Oriente, subjugando Ormuz, Goa e Malaca; que planeou a ruina completa do poder mussulmano com o desviar o curso do Nilo e destruir a casa de Meca; que deixou, emfim, tal memoria entre os vencidos, que elles vinham depois diante do seu tumulo invocal-o, pedindo-lhe justiça, era uma d'essas intelligencias eminentes, que abraçam por inspirações subitas e fecundas todos os ramos do saber humano; era um desses nobres espiritos, que, perseguidos pela incredulidade, pela inveja, pelo terror, pelo odio, por todas as paixões mesquinhas dos que os não podem comprehender, conseguem, todavia, elevar-se radiantes acima de tudo quanto[{172}] os cérca. Profundo conhecedor das boas doctrinas politicas não quiz confiar á sorte das batalhas o emprehendimento de novas conquistas antes de assentar o dominio de Goa em bases seguras e duradouras, começando assim a realisar o programma pacificador, que devia pôr magestoso remate á nossa grandeza na Asia. Admittiu, pois, vassallagem aos indigenas; prometteu segurança e protecção aos mercadores estrangeiros; recebeu embaixadas e homenagens da maior parte dos soberanos indiaticos; mandou cunhar moeda em nome de D. Manuel; melhorou e refez as fortificações; promoveu com dadivas e promessas casamentos entre os portuguezes e as mulheres da ilha; dirigiu de tal modo as cousas que dentro de pouco tempo esta povoação importantissima parecia que desde muitos annos estava sujeita ao[{173}] imperio portuguez; e só depois de lançar á terra essas sementes de grandeza e de prosperidade é que continuou a cadeia de feitos de armas, que lhe mereceu dos adversarios o nome de leão dos mares, e que o eleva, no conceito dos historiadores, com Cesar e Bonaparte, á altura d'esses gigantes de acção, a que chamâmos heroes.[{174}]

[{175}]

[XII]

[Defensa de Mazagão]

1562

Portugal, chegado ao fastigio do poder no reinado de D. Manuel, não podia escapar ás leis da humanidade e ás vicissitudes dos grandes imperios. A seiva da arvore social exhauria-se no bracejar immoderado, e nessa lucta temeraria contra nações poderosas e soberanos traiçoeiros, contra linguas, costumes, interesses, religiões e preconceitos diversissimos, o que admira, attenta a nossa pequenez e a extensão[{176}] illimitada das conquistas, é que a estrella das nossas victorias não declinasse mais depressa do zenith para o occaso. Não foi, todavia, sem gloria essa mesma decadencia, porque os poucos portuguezes, que dispersos pelo mundo defendiam as colonias, animosos na desgraça como na fortuna, só as cederam depois de porfiada lucta, e diante de adversarios contra os quaes não vale audacia nem esforço; acabando de se gastar mais por fomes de assedios que por armas de peleja, e buscando honroso tumulo nos rotos pannos de muros das desmanteladas fortalezas.

Mas não é da prolongada agonia do imperio portuguez na Asia e na Africa, que por ora temos de tratar; chamam-nos factos e successos realisados n'uma épocha em que ainda a nação se julgava cheia de vitalidade e vigor,[{177}] posto que os primeiros symptomas de decrepidez já fatalmente se tivessem apresentado na perda de Cabo Aguer, e sobretudo no desamparo de Safim, Azamor, Arzilla e Alcacer em tempo de D. João III.

Sabendo o scherif Muley-Abdalá, rei de Marrocos, de Fez, de Terudante, de Suz, e de muitos reinos e provincias d'Africa, que a fortaleza de Mazagão estava mal provida de artilheria e munições de guerra, e guardada apenas por poucos arcabuseiros, determinou conquistal-a. Era nesse tempo Mazagão um ponto verdadeiramente importante. Situada nas praias do Atlantico, o mar banhava-lhe os muros, deixando-lhe nos fossos sufficiente altura de agua, e tornando-lhe facil receber da metropole soldados, viveres e toda a especie de soccorros. Podia, pois, considerar-se excellente base[{178}] de operações, e o padrasto mais de receiar para a visinha cidade de Marrocos.

Com estas circumstancias as tentativas dos sarracenos para se apoderarem da fortaleza, tentativas frequentemente repetidas e sempre mallogradas, eram faceis de explicar. Desta feita, porém, parecia certa a victoria, e por isso o scherif encarregou a seu filho Muley-Hamet, moço brioso e valente, o mando de numerosas tropas, que um historiador italiano desse tempo avalia em duzentos mil homens, mas que, conforme calculam escriptores tambem coevos, a poucos mais poderiam subir de cento e cincoenta mil. Fosse como fosse, era espantoso o numero em comparação com o dos portuguezes, e havia sobretudo entre essa gente, em parte collecticia e desordenada, muitos cavalleiros e infantes[{179}] habituados á guerra e á disciplina, e habeis capitães encanecidos nos cargos da milicia e no tumulto dos combates.

Acampado o exercito a curta distancia de Mazagão, começaram os trabalhos do cerco, e com tal actividade e enthusiasmo, que em poucos dias se elevou defronte da fortaleza uma grossa trincheira, onde os mouros assentaram as baterias com grave damno dos cercados. Estes por seu lado não estavam ociosos, e Rui de Sousa de Carvalho, capitão mór na ausencia de seu irmão Alvaro de Carvalho, accudia com diligencia a remediar o que faltava na fortificação, mandando ao mesmo tempo jogar a artilheria contra os trabalhadores do campo, e determinando por vezes sortidas e escaramuças, em que o impeto dos portuguezes, repentino e devastador, conseguia[{180}] sempre assombrar a turba dos inimigos.

Soou depressa no reino a noticia do cerco, e desde logo muitos cavalleiros e soldados quizeram participar dos riscos da empreza. Posto que os habitos de luxo e as riquezas adquiridas na Asia tivessem de certo modo amortecido as virtudes politicas dos nossos maiores, não estava o caracter portuguez ainda gasto, como moeda velha, cuja marca o roçar de muitos annos houvesse já extincto; e o ardor de patriotismo, que então se revelou, recorda os actos mais heroicos da nossa edade média. Moços illustres, a quem os brios sobrepujavam os annos, embarcavam-se furtivamente; fidalgos velhos, exaltados por bizarria sublime, emprehendiam a jornada de que aliás estavam isentos pela edade e longos serviços; muitos[{181}] imploravam como mercê e recompensa affrontarem os combates e a morte; outros, reputando em pouco o sacrificio da vida, levavam ainda á sua custa navios cheios de soldadesca e munições. Havia como que uma embriaguez de enthusiasmo, o esforço convertêra-se em delirio, e o espirito religioso associado á cubiça de renome abrazava com tal intensidade os animos, que foi preciso que a rainha D. Catherina, regente na menoridade de seu neto D. Sebastião, prohibisse com penas severas novos embarques, e desse terminantes ordens para que não partissem mais navios.

Entretanto os mouros preparavam-se para o assalto, disparando a artilheria contra a fortalesa, e procurando ao mesmo tempo cegar o fosso com faxina; e supposto que os tiros, os arremeços e as materias escandecentes,[{182}] que sem tregoa choviam das ameias, ferissem e inutilisassem muitos dos que se empregavam n'aquelle trabalho, venceu, afinal, a constancia dos sarracenos, que conseguiram não só entulhar a cava, senão levantar proximo á muralha um grande terrapleno, que emparelhou com a maior altura do baluarte, a ponto que assaltantes e defensores pelejavam corpo a corpo, braço contra braço, á espada e lança varada, como em desafio ou batalha campal. Nem assim, porém, poderam os mouros entrar na fortaleza. Alvaro de Carvalho, que fôra dos primeiros que chegára do reino, combatia á frente dos seus soldados, onde mais acceso ia o fervor da batalha, sem todavia esquecer o officio de capitão; e o nobre exemplo e a emulação de esforço tornavam invenciveis os portuguezes.

Frustradas as tentativas de assalto,[{183}] começaram os cercadores a minar o principal baluarte; presentido o perigo pelos de dentro, procedeu-se logo á contramina; e desta maneira as duas estradas subterraneas desembocaram uma na outra, e os sitiadores topando ahi com os sitiados travaram renhida lucta, em que por algum tempo se ouviu sómente o tinir das espadas e alfanges, o bater das alavancas e alviões, e rapidos gemidos de agonia abafados pelo praguejar dos que pelejavam. Quem quer que, todavia, olhasse para os dous grupos, poderia facilmente prever a qual delles pertenceria a victoria. De um lado os mussulmanos, transbordando de colera por verem descoberto o ardil de que se tinham valido, mais cuidavam de ferir que de guardar-se; do outro os christãos, aproveitando a estreiteza das galerias, que de algum modo neutralisava[{184}] a desproporção de forças, combatiam com a serenidade e confiança de quem evita o perigo sem o temer. Era a lucta do furor e da intelligencia; indubitavel, pois, o desfecho. Não conseguindo quebrar aquella muralha de homens, ligados pela cadeia fortissima da disciplina e do renome, os sarracenos recuaram desesperados; e os portuguezes, ficando senhores da obra, utilisaram-n'a desde então em damno dos cercadores.

Seria longo descrever todas as scenas desta defensão heroica, lances e episodios pasmosos, que a muitos parecerão hoje fabulas sonhadas. Baste saber-se que durante quasi dous mezes os defensores da fortaleza, combatendo peito a peito nos adarves, sustentaram o apertado cerco, e detiveram no repetido acommettimento os innumeraveis assaltantes. Estes, quebrados os[{185}] animos pelas difficuldades imprevistas, fallavam já de levantar o sitio, mas Muley-Hamet, que na sua soberba tinha crido facil o triumpho, quiz proseguir na empreza, e no dia 1 de maio deram os mouros ultimo assalto.

Durou elle largas horas, mais ardido e sanguinolento, mais bravo, mais atroz, mais pavoroso do que nenhum outro tinha sido. Ao principio diante dos sitiados, firmes e immoveis como rochedos, cahiram e despedaçaram-se os esforços successivos dos esquadrões da mourisma; depois as duas hostes, revolvendo-se, enlaçando-se, confundindo-se como as ondas em sorvedouro profundo, formaram quasi um grupo unico, ennovelado, convulso, monstruoso; emfim, já o sol se inclinava para o occaso, e ainda a victoria estava indecisa. Assaltantes e defensores, julgando-se instrumentos de missão divina,[{186}] tinham um só pensamento, uma esperança, uma vontade, um intuito, o da gloria da sua crença se triumphassem, o da palma do martyrio se morressem.

A noite veiu pôr termo ao combate e juntamente ao cerco. Baldadas todas as tentativas para submetter a fortaleza, o desalento apoderou-se dos sarracenos, e Muley-Hamet, sem tentar mais fortuna nem feito de importancia, levantou o campo d'ahi a poucos dias.

Desde então até que o poderoso ministro de el-rei D. José a cedeu por tractado aos marroquinos, foi sempre Mazagão o ponto a que se dirigiram as correrias, os acommettimentos, os asfaltos da flor das tropas muslemicas; mas o nome dos defensores que luctaram como heroes, e em frente de cuja firmeza expirou constantemente a furia dos adversarios, jazem ignorados ou esquecidos,[{187}] porque a guerra que durante tres seculos sustentámos em Africa, theatro onde até mais tarde se patenteou nobre e desinteressado o esforço portuguez, não teve Barros nem Coutos que a escrevessem.[{188}]

[{189}]

[XIII]

[Desastre de Alcacer-quibir.—Reinado do cardeal D. Henrique.]

1578 a 1580

As recordações da patria são como as memorias de familia; tem o quer que é saudoso e sancto, que occupa suavemente as largas horas da solidão, que attenua muitas dores do espirito, que povoa a alma de mais entes para amarmos, e que engrandece e vigora o sentimento de nacionalidade, suscitando, com as virtudes e façanhas dos nossos antepassados, o altivo e nobre desejo de imital-os. Ás vezes, porém,[{190}] esse fallar de avós comprime-nos de amargura o coração, quando nos commemora certas epochas, em que a patria, ludibriada e abatida, viu desfazerem-se uma apoz outra todas as suas grandezas; epochas tanto mais desastrosas, quanto a degeneração e ruina, que assignalam, contrasta com o poder e fortaleza de outros tempos. A historia portugueza, aliás tão formosa e invejada, não está isenta dessas paginas de luto, e uma dellas, e por certo a mais triste, é a que lembra os reinados immediatamente anteriores á dominação castelhana, espaço de poucos annos que bastou ás glorias de Portugal para descerem do apogeo ao occaso.

O reinado de D. Sebastião é notavel por um facto unico, a derrota de Alcacer. O projecto de submetter as terras da Berberia, berço das nossas[{191}] conquistas de alem-mar, não era tão louco como a desgraça o apresentou, e devia encontrar favor na vontade popular, porque assentava nas tradições e rancores de uma guerra de seculos, e na conveniencia incontestavel de se alargar o territorio portuguez pelas fronteiras costas africanas. A nação, comtudo, sentia-se cançada e pobre para a ousada tentativa, e ainda que assim não fosse, invalidavam-lhe as probabilidades de victoria, por um lado a cega vaidade do monarcha, por outro a tenebrosa politica de D. Philippe II, cuja desregrada cubiça contava por alliadas uma astucia e actividade inexcediveis.

Em tal estado de cousas, esmorecidas as grandes virtudes guerreiras da edade média, julgou-se necessario que o monarcha, antes de se aventurar longe da patria á sorte das batalhas,[{192}] aguardasse que a febre da discordia consumisse politica e moralmente as forças dos sarracenos; mas até nisso foram mal logrados todos os bons planos de fortuna, porque o imperio de Marrocos, apesar das luctas intestinas, e das perturbações e males causados pelas oppostas parcialidades, não decahira a tal ponto, que não podesse resistir com vantagem a uma invasão estrangeira. Muley-Moluk, homem de extraordinarios talentos militares e politicos, e de um denodo a que a escola do infortunio associára a prudencia, tinha derrubado do throno seu sobrinho Muley-Hamet, que, frustradas todas as tentativas para recuperar o poder, implorára por fim o soccorro dos portuguezes. Essa alliança, porém, convertêra uma contenda domestica n'uma lucta de religião e de liberdade, guerra sancta que dava aos soldados africanos[{193}] a força que resulta sempre do fanatismo religioso e do amor da independencia, natural em todos os povos; e Muley-Moluk fizera-se depressa estimado da maior parte dos mussulmanos, não tanto pela firmeza com que restabelecêra a ordem e administração do estado, como pela repugnancia que, conforme é facil de suppôr, excitára nas multidões a liga do rei desthronisado e dos seus parciaes com um povo inconciliavelmente inimigo por antagonismo de crenças e de raças.

Eram 4 de agosto de 1578 quando o moço rei portuguez, despresando o voto cauteloso dos principaes capitães, determinou romper a peleja contra o poderoso exercito dos mouros. Ao principio conseguiram os nossos manifesta superioridade. A cavallaria que acompanhava o rei, intrépida posto que pouco numerosa, e o terço de aventureiros[{194}] romperam e desbarataram, logo do primeiro impeto, a vanguarda dos adversarios, que, incapazes de sustentar o violento embate e de resistir frente a frente, se dispersaram, fugindo, pela extensão da planicie; Muley-Moluk, buscando com heroico esforço reanimar os seus, cahira moribundo nos braços dos alcaides; e os clamores de alegria com que os christãos se arremessavam á refrega, como se o dar e receber a morte fosse o prazer de um torneio, diffundiam o temor no centro dos infieis, que mal obstariam á furia da torrente, se o grosso das nossas tropas, aproveitando o ensejo, se empenhasse com egual denodo n'aquelle repto tremendo. Mas em vez d'isso uma voz de desalento, produzindo nos cavalleiros e peões um daquelles terrores panicos, de que não faltam exemplos nem até entre os soldados[{195}] que uma severa disciplina prepára para a victoria, mudou n'um instante o aspecto da batalha. Os arabes, conhecendo a desordem no arrayal contrario, e cobrando novos brios com o auxilio das forças de reserva, voltaram a disputar o terreno, que quasi haviam cedido sem combate, e em breve o sangue europeu regou abundantemente os aridos campos de Alcacer.

Então, quando as fileiras dos velhos soldados de Castella, da Italia e da Alemanha já debalde tentavam ordenar-se, e era grande a confusão e o susto nos terços dos portuguezes, precipitaram-se contra o nosso exercito as ondas dos cavalleiros mahometanos, e apoz elles a turba dos alarves, que do alto dos visinhos montes observavam o resultado da peleja, para baixarem, como aves carniceiras, sobre os restos dos vencidos. Desde esse momento[{196}] os signaes de derrota tornaram-se dolorosamente certos para os nossos, que, todavia, ainda combateram só com o fito na desesperada empreza de soccorrerem o soberano, facilitado-lhe os meios de retirar-se a salvo.

D. Sebastião, porém, nascera com animo altivo e coração generoso. Os mimos com que fôra tratado desde o berço; a educação acanhada que recebêra na adolescencia; as maximas de castidade que o privaram dos affectos puros e sanctos de familia, affectos que suavisam os caracteres mais duros; as suggestões dos validos, que, despertando-lhe pensamentos ambiciosos, lhe devoravam o socego, a reflexão e a mocidade; e finalmente, como é certo, as intrigas e mesquinhos enredos da côrte haviam excitado as más paixões, que fermentaram terrivelmente no seu coração de mancebo,[{197}] mas não tinham de todo prevertido os nobres sentimentos da sua alma. Vendo a batalha perdida, não quiz sobreviver aos seus, e, arrojando-se como leão onde quer que o combate era mais acceso, recusou sempre com altivez o entregar-se ou fugir. Afinal cahiu ou desappareceu no meio da multidão, e com a sua falta expirou o vigor nos peitos mais esforçados. O resto foi uma larga carnificina com que os mouros, senhores do campo, saudaram o triumpho, humilhando a intrepidez e constancia dos cavalleiros e homens de armas portuguezes.

Chegada a Lisboa a noticia do tragico desfecho da jornada de Africa, e duvidosos os animos sobre o destino do monarcha, foi entregue o governo do reino ao cardeal D. Henrique, velho insensato e timido, tão sequioso como incapaz do poder; e Portugal[{198}] despenhou-se então sem amparo na mais afflictiva phase da sua longa existencia. As virtudes militares e politicas de nossos maiores, e sobretudo as antigas leis do paiz, em completa harmonia com as suas necessidades e indole, haviam-nos até esse tempo conservado livres do jugo de Castella, cuja tenaz ambição nunca deixára de olhar para esta pequena faixa de terra como para uma provincia rebellada; mas o estabelecimento do regimen absoluto sobre as ruinas da monarchia liberal da edade média; o espirito de intolerancia, que, perseguindo e expulsando os judeus, privou todos os dominios portuguezes do trabalho, do conselho e dos capitaes de uma raça intelligente e activa; a sede do ouro, que fez desestimar a agricultura e industria do solo natal pelo engôdo das faceis riquezas[{199}] que se adquiriam na India e no Brasil; os desacertos economicos e administrativos do governo da metropole, e dos seus delegados na Asia, na Africa e na America; e por fim a ultima catastrophe nos campos de Alcacer-quibir tinham produzido a irremediavel e extrema decadencia, que nos obrigou a curvar o collo ao despotismo estranho.

Durante o curto reinado do cardeal D. Henrique, os animos estiveram sempre alvoroçados com os receios, cada vez maiores, ácerca da successão. O prior do Crato, o duque de Bragança e D. Philippe II eram os pretensores que contavam maior numero de probabilidades, mas nenhum dos dous portuguezes possuia as forças necessarias para tomar sobre os hombros a empreza de D. João I, em quanto que o rei de Hespanha, dotado de caracter[{200}] energico e de uma perfidia sem limites, tinha todo o poderio de vastissimos dominios para combater e debellar as resistencias que encontrasse. Essas não foram longas nem obstinadas.

O velho cardeal rei, pouco favoravel no principio a D. Philippe II, em breve mudou de resolução, compellido não menos por apprehensões pusillanimes, do que pela cubiça e pelo odio, que foram as paixões permanentes dos largos annos da sua vida. A principal aristocracia, antepondo os calculos interesseiros ao nome illustre de seus avós e á propria dignidade, não duvidou pactuar com os procuradores de Castella, que, á força de ouro e promessas, arrastaram a nacionalidade portugueza ao mercado das traições infames, dos enredos miseraveis, das torpes vinganças, das abjecções ignavas.[{201}] O povo, irreflectido e variavel como o mar, que ora freme colerico e se despedaça em vagalhões gigantes, ora se espreguiça brincando com os flocos de espuma que lhe saltam no dorso; o povo, dilacerado pela fome, pela peste e pelos desastres da guerra, não podia senão murmurar, porque os seus soldados, os seus capitães, os seus jurisconsultos, os seus magistrados, os seus bispos, os seus principes, tudo quanto no reino havia de nobre e rico por illustração e por linhagem, ou tinha já desertado para o partido estrangeiro, ou se conservava indeciso não obstante os riscos da patria. Finalmente a persuasão commum de que a paz, individual e domestica, só poderia conseguir-se com o sacrificio completo da independencia politica tirava ás almas mais robustas aquella tenacidade fria, aquella firmeza de[{202}] vontade, que não mede os obstaculos e para a qual não ha impossiveis.

Debalde nas côrtes, que se reuniram primeiro em Lisboa e depois em Almeirim, côrtes que já eram apenas pallido reflexo de representação nacional, alguns homens intrepidos e probos protestaram eloquentemente contra a imbecilidade e corrupção dos poderes publicos; debalde a voz auctorisada de Phebo Moniz, alto exemplo de virtudes publicas no meio da prostituição geral, instou com os procuradores dos povos e com o moribundo monarcha para que não se entregasse o reino ao dominio estrangeiro, e se respondesse com energia ás ameaças de D. Philippe II; debalde, emfim, a plebe, que é a ultima onde se desvanece o aferro á terra da patria, dava visiveis signaes de supportar de máo grado a ruina que lhe[{203}] preparavam; a força moral da nação tinha desapparecido, e a força material, que aliás é sempre illusoria quando falta a unidade do pensamento e o ardor do enthusiasmo, havia-se dissipado, a pouco e pouco, na extensão desmedida das conquistas, até acabar de todo nas planicies d'Africa.

Assim, apenas fallecido D. Henrique (31 de janeiro de 1580), os governadores do reino, nomeados anteriormente, dissolveram as côrtes, receiando que podessem ser o centro onde se alimentasse energica resistencia aos interesses de Castella; e a acceitação do filho de Carlos V para rei de Portugal foi definitivamente resolvida. Pouco depois um exercito de vinte mil homens, capitaneados pelo duque de Alva, o sinistro pacificador dos Paizes Baixos, entrava no Alemtejo para lavrar com a espada o epitaphio[{204}] das liberdades portuguezas; e o monarcha odioso, denominado o demonio do Meio-Dia n'uma epocha em que os progressos da civilisação ainda não tinham diffundido a brandura do tracto entre os homens, conseguiu tomar posse do seu novo reino, tendo só que vencer a fraca opposição de uma parte do povo, e desses raros cavalleiros que, no meio de gente gasta e prevertida, conservaram sempre os nobres sentimentos de integridade e patriotismo.[{205}]