Tomada de Ceuta
1415
Rica mais do que nenhuma em homens e feitos grandiosos é a historia da gente portugueza. Quem, lançando os olhos para um mappa da Europa, divisa ao occidente da Peninsula este paiz, encerrado na estreiteza de breves limites, imperceptivel quasi no meio dos grandes imperios da terra; e considera que ahi existe ha sete seculos uma nação independente, e que chegou a estender o seu dominio por uma[{70}] parte da Asia, da Africa, da America, e até ás regiões encantadas e indefinitas do Oceano Austral, antevê logo n'esse povo grandes virtudes politicas e guerreiras, e nos seus fastos uma excellente escola de enthusiasmo e heroicidade. E se depois d'isso volta o pensamento para as recordações bellas e puras, para os tropheus e monumentos honrosissimos d'esta mimosa e abençoada região, que não deixou parte alguma no mundo onde não chegasse um ecco das suas glorias de todo o genero, o resultado d'esse estudo é a confirmação incontrastavel das primeiras impressões.
Pequeno e fraco na origem, Portugal é apenas um condado, que ameaçam ao mesmo tempo o já então vastissimo imperio de Leão e Castella, e o poder ainda formidavel dos bellicosos sarracenos, e todavia não só lhes[{71}] resiste com intrepidez e constancia, mas até ousa invadir o territorio dos seus dois temiveis inimigos, conservando sempre hasteado o pendão da nacionalidade. Depois, logo no começo da monarchia, os portuguezes, movidos pelo amor da patria, affecto que amadurecêra e se radicára nos animos de um modo indestructivel, conquistam uma grande parte da Hespanha mussulmana, terra abundante de população, enriquecida pela industria, cheia de villas e cidades importantissimas, fortificada por todos os meios que a experiencia d'aquelles tempos ensinava, e defendida por homens naturalmente esforçados, e aos quaes o aferro á terra natal e o fervor religioso ainda, como é de crer, multiplicavam os brios. Depois estabelecem-se em larga escala os concelhos; promove-se a vinda de colonos; povoam-se granjas[{72}] e aldeias; arroteam-se charnecas e mattos; repairam-se e abastecem-se castellos; organisa-se a milicia, a administração, a magistratura judicial, a fazenda publica; consolidam-se intimas allianças com algumas das maiores nações, e dá-se sufficiente vigor ao espirito municipal, que em parte alguma talvez, durante a edade media, teve mais viva influencia no progresso da civilisação. Em seguida, apenas Portugal se vê collocado vantajosamente com relação aos varios povos da Peninsula, já não lhe basta a certeza da sua inviolabilidade, e confiado nas proprias forças e destinos, eil-o que se apressa em ir pagar ao islamismo, no solo abrazado de Africa, a divida da invasão e os trances do jugo estranho.
Reinava então em Portugal D. João I. Ao monarcha inconstante e frivolo, cujos defeitos como homem bastam para[{73}] escurecer os actos do legislador, succedêra o principe mais popular que se encontra nas nossas dynastias de imperantes; a um rei hereditario um rei eleito. Ganha a victoria de Aljubarrota, recuperadas uma a uma as praças de guerra, de que o soberano estrangeiro se havia assenhoreado; firmada, emfim, a paz com Castella depois de longos annos de lucta frenetica, começaram os infantes a instar com D. João I para que emprehendesse conquistar Ceuta, a famosa cidade que desde o tempo dos romanos até ao fim do reinado de Witiza fôra dependencia de Hespanha; conquista que lhes daria ensejo de alcançarem com honra o grau de cavalleiros, e que dilataria ao mesmo tempo os limites do imperio e os da fé. Folgou com a idéa o monarcha, a quem os annos não haviam amortecido o pensamento[{74}] fixo de gloria, a que devem attribuir-se quasi todos os actos da sua vida, mas não quiz resolver-se sem pesar cuidadosamente os perigos e vantagens do commettimento, que não se limitava ao assalto de uma praça, aliás bem defendida e guardada, mas que era de feito um repto aos infieis, que, inflammados em brios nacionaes e em fanatismo ardente, formariam cem exercitos poderosos e intrepidos contra os temerarios invasores.
Reflectiu, pois, em todas essas circumstancias; ponderou o voto dos guerreiros illustres, a censura dos conselheiros leaes, as preoccupações populares; avaliou com exacção a importancia dos esforços e a escacez dos recursos; viu que ia travar uma lucta em que todo o odio e valor da raça inimiga haviam de empenhar o ultimo alento; mas lembrou-se de[{75}] que era preciso não deixar esquecer aos seus soldados o duro mister da guerra, de que o unico systema consequente e legitimo de engrandecimento para o reino era alargar-lhe os limites pelas fronteiras costas africanas, de que celebraria assim com um feito memoravel o occaso da sua venturosa carreira, e decidiu-se por fim á expedição mais determinado, mais perseverante, mais enthusiasta do que os proprios filhos. Conciliando, todavia, a confiança na sua fortuna com as admoestações da prudencia, tratou dos apercebimentos adequados á magnitude da empreza, e para evitar suspeitas que de certo trariam raiz de taes preparativos, resolveu que se aproveitasse o pretexto da pirataria com que os hollandezes infestavam as nossas costas, e se reclamasse satisfação do conde de Hollanda com ameaças de guerra.[{76}] Fernão Fogaça, veador do principe, homem astuto, cauteloso e atrevido, foi enviado a Hollanda para proclamar em embaixada publica os aggravos e exigencias do soberano portuguez, e revelar secretamente ao conde a verdadeira causa da sua vinda. Prestou-se este ao disfarce, lisongeado pela demonstração de confiança, ou por ventura aterrado com a lembrança de que as ameaças podessem ainda traduzir-se em factos, e o artificio produziu o desejado effeito de socegar até certo ponto as populações de Hespanha e Africa, posto que não tanto que os reis de Castella, de Aragão e de Granada não mandassem immediatamente embaixadores a Portugal, renovando todas as garantias de paz e amizade.
Preparado tudo, levantou ancora do porto de Lisboa a poderosa armada aos 25 de julho de 1415, não obstante[{77}] haver fallecido poucos dias antes D. Philippa de Lencastre, chamada pelo povo a boa rainha, e a cujas virtudes e desvelos deveu acaso Portugal a mais generosa prole, que tem rodeado um throno. Partiu em demanda das praias sarracenas; em desaffronta dos gravames n'outro tempo padecidos; em nome da raça romano-gothica contra o islamismo que lhe lançára a luva; da supremacia da civilisação christã contra as caducas instituições politicas, estribadas nas doutrinas falsas ou incompletas do koran. Partiu, sem que nem um leve estremecimento pelo futuro quebrantasse o enthusiasmo dos que iam participar dos riscos da empreza; o excitamento religioso, o espirito aventureiro, a emulação de esforço, e em muitos ainda a cubiça, menos hypocrita que n'estes nossos tempos, erguiam com demasiada força[{78}] aquelles animos para que lhes consentissem vacillar.
O mysterio da expedição, na qual tomavam parte os grandes, os nobres, os infantes, o herdeiro do throno e o proprio monarcha, assustou de novo toda a costa de Africa, e não menos a de Hespanha, que ainda occupavam mouros; mas sobretudo as terras de Gibraltar, por se verem abertas e mal defensaveis. Em breve, porém, se dissiparam esses receios, porque, consultados em Algeziras os principaes capitães, foi fixado o dia 12 de agosto para se caminhar contra Ceuta.
Ahi de feito surgiu a frota no dia designado, mas depois de duas tentativas de desembarque, que o temporal estorvou, foi constrangida a voltar para Algeziras. O contratempo desanimou alguns. Eram esses de voto que não se tentasse outra vez o desembarque[{79}] em Ceuta, que para gloria bastava já o arrojo da empresa, e que se não deviam tornar ao reino sem tingir as mãos em sangue inimigo, se dirigisse a armada a Gibraltar, que n'aquella conjunctura se offerecia como facil conquista, e que daria campo aos valentes para mostrarem esforço, ao passo que satisfaria as ambições do povo e os interesses da patria. Nenhuma consideração, todavia, dissuadiu D. João I do intentado proposito. Perseverante como o homem que, apontando fixamente ao alvo, não desvia nem por um momento a arma senão depois de acertar, desprezou os avisos cautelosos, que aliás já não poderiam ser acceitos sem desaire, e, como é facil de suppor, foi a vontade do monarcha que afinal prevaleceu.
Entretanto os mouros, attribuindo a medo a demora dos portuguezes, trataram[{80}] de despedir as tribus numidas que os tinham vindo auxiliar, Soldadesca indisciplinada e feroz, que nem só entre os inimigos deixava largos vestigios de ruinas e estragos; mas ainda ellas mal tinham sahido, quando no dia 20, ao declinar da tarde, se dirigiu contra a cidade toda a armada christã. Confiados na fortuna, os habitantes de Ceuta pareciam desprezar a procella que de perto os ameaçava, e quando a noite desceu com denso manto de trevas, illuminaram-se as casas em signal de torva alegria.
Com a primeira luz da manhã seguinte a gente da armada, mettendo-se nas fustas, dirigiu-se para a cidade, e os infantes D. Henrique e D. Duarte, saltando em terra com cento e cincoenta soldados, começaram a peleja com os mouros que fóra das portas os desafiavam, terçando lanças, arremessando[{81}] azagaias, e animando-se uns aos outros com pragas e insultos contra os invasores, intelligiveis para estes pelos gestos de rancor dos que as proferiam. N'aquelle primeiro impulso os alfanges sarracenos cruzaram as espadas portuguezas com todo o estrepito do enthusiasmo guerreiro, com todo o ardor do excitamento religioso, com todo o fogo de uma colera por muito tempo concentrada. Dir-se-ia, ao ver a furia do combate, que só adejaria a victoria sobre um dos campos quando tivesse cahido sobre o outro a total ruina. No entanto foram desembarcando mais soldados portuguezes, e, havendo já na praia trezentos homens escolhidos, apertaram estes com os mouros, que, levados mais pelo temor que pelo perigo, voltaram costas retirando-se para a cidade. Lembraram-se então os infantes[{82}] de que n'aquelle mesmo dia poderiam talvez dar fim á empresa, evitando assim o trabalho e combate incessante de semanas e mezes, que naturalmente resultaria de um longo assedio, e os perigos a que se expunham n'uma terra callidissima, onde de certo recrudeceria a peste que de Lisboa os seguíra. Decidiram, pois, entrar na cidade com os que fugiam, e, lançando mão do ensejo que o caso offerecia, perseguiram rijamente os mouros, arrancando-os de todas as posições, e fazendo-os apinhar sobre as portas.
Ahi foi terrivel o recontro e disputada tenazmente a victoria. O apertado revolver das armas formava uma selva de ferros, atravez da qual já quasi não era possivel abrir caminho sem galgar por cima dos cadaveres amontoados, que embargavam os passos[{83}] dos vivos; nem os invasores desistiam nem os da cidade affrouxavam, e de um e outro lado os contendores haviam chegado áquelle paroxismo de furor, que faz desprezar a vida para só cuidar em produzir a morte. Por fim, não obstante o muito que os defensores trabalharam, não poderam cerrar as portas, nem tolher entrarem os nossos de involta com elles. Os portuguezes dividiram-se então em dous bandos; D. Duarte, capitaneando um d'elles, foi subindo aos logares altos e fazendo-se senhor de todos até chegar á maior eminencia da cidade; D. Henrique tomou por outras ruas; e ambos encontraram porfiada resistencia, porque aos habitantes de Ceuta, reduzidos á defensiva, o affecto, que nos costuma prender ao lar domestico, redobrava alento e brios. Afinal, porém, essa mesma resistencia acabou; os vãos[{84}] esforços da população mussulmana para salvar Ceuta foram os clarões derradeiros da lampada que se extinguia. A audacia dos infantes e dos que os seguiam, a cobardia do chefe sarraceno, Salat-ben-Salat, que fugiu apenas soube ter sido entrada a cidade, e o habito da victoria, que, desde a batalha das Navas de Tolosa, os proprios mahometanos, consideravam como devendo tarde ou cedo pertencer definitivamente aos inimigos da sua crença, facilitaram a conquista de uma das povoações de Africa mais de receiar para os povos christãos do mediterraneo. El-rei, tendo posto em terra toda a sua gente, mandou fazer alto, e logo que soube estar a cidade de todo ganha, deliberou começar a combater o castello. Depois, impellido pelo enthusiasmo religioso, entrou n'uma mesquita, e ahi de joelhos agradeceu a Deus[{85}] esse feliz resultado de uma tentativa que a muitos parecêra loucura. Recebendo então a noticia de que o castello estava sem defensa e despejado, mandou arvorar na mais alta torre o estandarte real; e os raios do sol, que se escondia no occidente, já não encontraram a bandeira de islam, derribada n'esse dia para nunca mais se erguer sobre os muros da soberba Ceuta.
Assim, por meio de uma victoria alcançada em poucas horas, dilatou D. João I as fronteiras da monarchia pelos territorios africanos, principiando a realisar o grande pensamento dos reis chamados da primeira raça, e abrindo caminho aos vastos projectos, ás atrevidas empresas, aos descobrimentos e conquistas, que deram a esta nossa boa terra portugueza uma epocha de gloria e predominio, das maiores que o mundo tem visto.[{86}]