I

La femme est l'etre le plus parfait entre les créatures; elle est une création transitoire entre l'homme et l'ange
BALZAC

Ser extraordinario, tu só, rainha absoluta do coração do homem, sabes por elle ser adorada, nunca, porém, aborrecida! Quando as tuas faces estão ainda cobertas com o veu da innocencia, vês a teus pés um cortejo de escravos que só acham ventura em merecer-te um sorriso. O nobre orgulhoso, se julga feliz ao ouvir-te uma palavra, que lhe faça sorrir uma lisongeira esperança; o avarento, julgando-se pobre, vê em ti um thesouro,{10} que o faria feliz; o pobre, que te ama, se rala de ciumes ao ver-te rodeada d'homens que não como elle te saberiam amar. Do nobre não fujas, se não receiares que o amor que no peito lhe ferve, se póde gelar com ambição de brazões.

O avarento evita, porque ao possuir-te, esconderia 'num canto essas galas da natureza herdadas, profanando assim o que o Creador soube formar para admiração do homem. Do pobre não rias porque tem coração.

Mulher, doce fructo do amor da divindade, se vires o homem abraçado ao feio scepticismo, eleva, com sorriso angelico, aos ceus os olhos, e farás renascer 'num coração frio o fogo das crenças.

Se quizeres que umas faces sêccas se cubram de pranto, chora, e verás umas novas lagrimas unidas ás tuas.

Se quizeres que o moribundo conheça todo o fogo da vida, senta-te á cabeceira d'esse leito da morte, e elle julgará, ao ver-te, um anjo de Deus que o vem consolar; e se o não revocares á vida, é maior o teu triumpho; não terá elle necessidade de orar, porque acreditará que tu, o seu anjo da guarda, o vens visitar, para o acompanhar contente á morada dos justos.

Mulher, para que fostes criada? Nem tu o sabes! Quando pura sahiste das mãos do Eterno, foi-te confiada uma missão sublime. Nasceste para consolar{11} o homem das fadigas da vida, para lhe lembrares que ha um Deus, para lhe apontares com um sorriso a estrada da felicidade, quando o espinho cruciante da mágoa lhe houver trespassado o coração. Nasceste, em fim, para dizeres, sorrindo, ao homem—queres ser feliz? Ama.

Oh! mulher, se esse sorriso te cobre de bençãos, para que abusas algumas vezes d'elle?

O sorriso que dá ventura, collou-t'o Deus nos labios; mas o do desdem, que leva ao fundo d'alma todo o fel da desgraça, só t'o podia ensinar um demonio! Quando com aquelle encaras o homem, podes vêl-o louco de amor, podes apontar para um ferro, que elle contente rasgará o peito, e ao aproximar-se da campa pronunciará religiosamente o teu nome! Quando, porém, com este ris sarcasticamente do seu amor, não lhe aborreces ainda; ama-te, mas com esse amor alimentado de ciumes e vivente de desenganos! O homem então crê não merecer-te, forceja por adquirir meios de ser amado, e quando 'nisto pensa, o seu amor é mais intenso; se é criminoso, julga ser o crime o que de ti o aparta, e é então que abraça a virtude; se ainda assim o não chamas com um sorriso, e o seu amor não acha raias a occupar, vêl-o-has morrer, definhado pela dôr e victima de uma paixão louca e não correspondida!

Mulher sabes quando és grande? Quando apertando{12} ao seio um filho, pareces querer suffocal-o com caricias, e lembrar-te só de teu filho e de Deus.

És grande tambem, quando a morte rouba de teus braços esse mesmo filho, e com os olhos no ceu, e banhados de lagrimas, exprimes só—saudade. És grande, em fim, és sublime, não pareces mulher, és um anjo, quando ebria do amor cahes, como de fadiga nos braços de teu esposo, e pareces querer articular, sem forças, essa palavra, inventada pelos anjos—amor!

Oh! Quanto é bom ser feliz!

Como o viver é delicioso quando se encontra no mundo uma mulher a quem idolatramos, a quem adoramos e prestamos homenagens, como se fôra a propria Divindade!...

No alvorecer da vida, o coração do homem tem necessidade d'amar, d'amar com todo o fogo, com toda a loucura d'uma alma verdadeiramente apaixonada!...

E é tão bello amar! é tão delicioso contemplar a belleza e os encantos da mulher que adoramos, e por quem sentimos o coração pulsar docemente a todos os instantes! E que fôra o mundo se n'elle não existisse a mulher?...

Supponde—diz um dos nossos mais profundos e distinctos escriptores—todos os contentamentos, todas as consolações que as imagens celestiaes e a crença divina podem gerar, e achareis que estas não{13} supprem o triste vácuo da soledade do coração. Dai ás paixões todo o ardor que poderdes, aos prazeres mil vezes maior intensidade, aos sentidos a maxima energia, e convertei o mundo em paraiso, mas tirai d'elle a mulher, e o mundo será um ermo melancólico, os deleites apenas o preludio do tedio. Muitas vezes, na verdade, a mulher desce arrastada por nós ao charco immundo da extrema depravação moral; muitissimas mais, porém, ella nos salva de nós mesmos, e pelo affecto e enthusiasmo nos impelle a quanto ha bom e generoso.

Quem ao menos uma vez, não creu na existencia dos anjos, revelada nos profundos vestigios d'essa existencia impressos 'num coração de mulher? Porque não seria ella na escalla da criação, um anel da cadeia dos entes, presa d'um lado á humanidade pela fraqueza e pela morte, e do outro aos espiritos puros pelo amor e pelo mysterio? Porque não seria a mulher o intermedio entre o ceu e a terra?



E quem ha ahi, que não tenha amado, ao menos, uma só vez na vida; que não tenha sentido as doces e suaves emoções de uma verdadeira paixão; que se não tenha curvado submisso, como um escravo, ante essas mulheres, cuja belleza e attractivos magicos e fascinadores, sabem fazer nascer em nossos peitos um affecto ardente e sem limites?!...{14}

Oh! ninguem, de certo; porque no alvorecer da vida, 'nessa risonha quadra da existencia, em que vegetam e brotam todas as nossas esperanças, o homem tem precisão d'amar, sente a necessidade de unir a sua vida á d'uma companheira affectuosa e desvelada, que partilhe assim das suas tribulações e penas, como dos seus prazeres e gozos, e que derrame em sua alma o precioso balsamo de consolação.{15}