OS PORTUGUEZES EM TANGER.

Oh! ditosos aquelles que poderam
Entre as agudas lanças africanas
Morrer, em quanto fortes sustiveram
A santa Fé nas terras Mauritanas:
De quem feitos illustres se souberam,
De quem ficam memorias soberanas,
De quem se ganha a vida por perdel-a
Doce fazendo a morte as honras d'ella.
CAMÕES—C. VI.—E. 83.ª

Foi no dia 6 de março de 1503.

Apenas rompia a madrugada quando appareceu sobre as colinas dos arredores de Tanger o poder mouro em força de 12:000 cavalleiros e muito maior numero de infantes. Era o proprio rei de Fez que commandava as suas tropas, e que julgava tomar de assalto aquella praça pelo segredo e velocidade com que cahia sobre ella.{26}

A Providencia, porém, ja havia denunciado este facto traiçoeiro aos portuguezes com assás antecipação, para que estivessem prevenidos contra o ataque brutal de feras ainda mais brutas.

Os antigos davam o nome de destino ou fado a esta influencia occulta, absoluta, e irresistivel de Deus sobre a humanidade; os modernos povos chamam-lhe Providencia, expressão mais significativa, mais religiosa, e mais de Deus.

E a providencia nunca deixa de favorecer as boas causas.

Assim já na noute anterior a este dia de recordação e saudade, soube D. João de Menezes, governador de Arzilla, por espias que trazia no campo, os intentos e maquinações d'aquelle rei.

Era-lhe portanto impracticavel avisar a D. Rodrigo de Monsanto, que então governava Tanger, porque estas duas praças distavam uns quarenta kylometros uma da outra, e além d'esta distancia accrescia a impossibilidade de fazer a viagem por terra, por estarem occupados os caminhos por troços do exercito inimigo, e por mar nem uma embarcação havia aprestada para esse fim.

No entretanto reluziam nos arraiaes mouriscos as lanças e os escudos, e atroavam os ares os sons guerreiros das trombetas e outros instrumentos barbarescos.

Parecia que os mouros preparavam nos seus{27} arraiaes em canticos e folgares mais uma corôa de gloria para os portuguezes.


Em quanto isto se passava nos arredores de Tanger, sem que os portuguezes o advinhassem, esforçava-se D. João em Arzilla por achar um meio de communicação com aquella praça. Tal era o amor com que queria salvar seus irmãos d'armas.

Saudosos tempos de gloria nacional foram estes, em que o povo portuguez era admirado no mundo civilisado pela audacia e grandeza de commettimentos! Mas esse povo era de si mesmo grande porque tinha fé em Deus, fé em si, e fé no futuro!

Hoje porém, chorâmos esses tempos.... nada mais............



E como não estremecer de mágoa e de orgulho a um tempo ao recordar essas paginas d'ouro em que a nossa historia se espelha, reproduzindo-nos a toda a hora, a todo o momento os feitos maravilhosos dos conquistadores de Ceuta, Tanger, Anafa, Mazagão, Azamor, Alcacer-Seguer, Tetuão e Azafa?

Como não pasmar á vista deslumbrante d'este panorama de nobres recordações e eterna saudade, que nos mostra as acções façanhosas de um punhado de homens, que levados do amor da patria e do brio nacional penetravam as lapas mais escuras,{28} subiam os pincaros mais elevados, rompiam bosques, desciam fragas e alcantís medonhos, e atravessavam os sertões mais intransitaveis, e perigosos, sem recuarem diante da natureza, dos homens ou das feras.

E será raro hoje encontrar homens como D. Fernando, D. João de Menezes, D. Vasco Coutinho, Nuno Fernandes de Athayde, Lopo Barriga, D. Duarte, denominado o Achilles africano, e o Conde D. Pedro?

Não o sabemos.

O que é certo é que todos estes combatiam sem descanço, e nunca as terras da Africa os viram voltar ao costas, a não ser já sem vida.

E não será honroso descender de taes heroes?

De certo.


Estava portanto D. João em grande apêrto quando lhe occorreu um meio verdadeiramente providencial.

Havia ficado em Arzilla uma cadella de um morador de Tanger, e assim, lembrou-se D. João de lhe amarrar ao pescoço uma carta com a noticia do que se passava, e de a espancar de modo que fugisse em busca do dono. Assim aconteceu.

Foi levado o bom do animal para a praia de Arzilla e alli açoutado, até que desappareceu para o lado de Tanger, para onde o instincto o guiava, a dôr o conduzia.{29}

No dia seguinte, ao romper d'alva, chegou o novo mensageiro ás portas de Tanger, lasso do caminhar constante e longo.

Era de vêr como foi festejada e admirada a lembrança feliz de D. João, bem como o instincto fino da cadella.

Começava já então a mover-se o exercito mourisco, que distava dez tiros de canhão.

Foi immediatamente posta em armas toda a guarnição, e em todos ardia o fogo ambicioso da gloria.

Mandou D. Rodrigo formar um esquadrão mais luzido do que numeroso, que sahiu ao campo a esperar os inimigos, que julgavam colhêr os portuguezes descuidados.

Mas não succedeu assim.

Dêmos mais uma lição a estes barbaros,—exclamou D. Rodrigo ao sahir as portas de Tanger—mostrêmos-lhes que sômos os mesmos portuguezes que os temos vencido sempre.

As tropas portuguezas ouviram estas palavras com um excesso d'enthusiasmo, e sahiram a encontrar as hordas barbarescas.

Chegaram finalmente os mouros.

Mal se poderá avaliar o assombro que os acommetteu logo que encontraram, contra a sua expectativa, tropas portuguezas fóra dos muros, á sua espera.

Travou-se o combate, asperissimo combate foi{30} elle, em que os nossos sustentaram por espaço de duas horas e meia o peso enorme de tão grande exercito.

Estavam todos os campos vizinhos juncados de tropas inimigas. E nós eramos um contra cem!! A pequena guarnição de uma praça contra o poder de um exercito commandado pelo proprio rei em pessoa!!!

Foi então que mais uma vez obraram os portuguezes acções que hão-de em todos os tempos deixar muda a eloquencia.

Os mouros combatiam como tigres selvagens que irrompem das suas jaulas de ferro, mas vinham enfiar-se nas espadas e nas lanças dos briosos defensores de Tanger.

Lucta encarniçada foi esta.

Esteve por momentos duvidosa a peleja, mas finalmente foi tal a multidão de Kabylas que acudiram de refresco que os nossos capitães julgaram mais acertado ir cedendo campo aos infieis.

Era demasiadamente grande a desigualdade do numero.

Foram-se portanto recolhendo os portuguezes em boa ordem e sempre com a frente para os mouros, mas houve alguma difficuldade nas portas de Tanger, porque estes fizeram esforço para entrarem de envolta com os nossos.

Custou muito detêl-os, por cambaterem então{31} mais furiosos, mas as adagas portuguesas souberam fazel-os recuar.


Teve então lugar um acto de valor; practicou-o Ruy Martins, soldado de reconhecido merito militar. Foi este o ultimo que entrou, deixando a porta meio aberta, pelo que instaram seus companheiros que a fechasse de todo, ao que respondeu elle com a arrogancia militar, digna de um bravo:—não convém essa medrosa prevenção ao brio portuguez; que eu só defenderei a toda a mourama o que resta por fechar.

Mal soltou estas palavras, já estavam ellas reduzidas a factos.

Os mouros intentaram forçar a entrada, mas repelliu-os elle por tal arte, que acharam mais prudente o retirarem-se.

Eis aqui como ha mais de tres seculos eram temidas as quinas portuguezas nas terras d'Africa.

Hoje porém representam outros povos no grande drama da civilisação.

E lá está a Hespanha a braços com a Mauritana, como para continuar a obra gloriosa de D. João I e D. Affonso V.

Eia, hespanhoes, é tempo de apagar a opinião desfavoravel em que ereis tidos pelas grandes potencias, com o aniquilamento d'esses barbaros que ahi jazem á beira da europa, ennodoando a moderna{32} civilisação com as atrocidades mais inauditas, mais revoltantes, e mais selvagens.