Notas de transcrição:
O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1908.
Foi mantida a grafia usada na edição original de 1908, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura do texto, e que por isso não foram assinalados.
HISTORIA DE PORTUGAL
TOMO I
J. P. OLIVEIRA MARTINS
OBRAS COMPLETAS
I. Historia nacional:
HISTORIA DA CIVILISAÇÃO IBERICA, 4.ª ed. (1897), 1 vol., br. 700 rs. Enc. 900.
HISTORIA DE PORTUGAL, 7.ª ed. (1908), 2 vol., br. 1$400 rs. Enc. 1$800.
O BRAZIL E AS COLONIAS PORTUGUEZAS, 4.ª ed. (1888). 1 vol., br. 700 rs. Enc. 900.
PORTUGAL CONTEMPORANEO, 4.ª ed. (1907). 2 vol., br. 2$000 rs. Enc. 2$400.
PORTUGAL NOS MARES, (1889), 1 vol., br. 700 rs. Enc. 900.
CAMÕES, OS LUSIADAS E A RENASCENÇA EM PORTUGAL, (1891). 1 vol., br. 600 rs. Enc. 800.
NAVEGACIONES Y DESCUBRIMIENTOS DE LOS PORTUGUESES, (ed. do Ateneo de Madrid, 1892). 1 vol. (não entrou no commercio.)
A VIDA DE NUN'ALVARES, 2.ª ed. (1894). 1 vol., br. 2$000 rs. Cart. 2$400. Enc. (folhas doiradas) 3$200.
OS FILHOS DE D. JOÃO I, 2.ª ed., 2 vol., br. 1$400 rs. Enc. 1$800.
O PRINCIPE PERFEITO, (1895), 1 vol., br. 2$000 rs. Encad., folhas doiradas, 3$200.
II. Historia geral:
ELEMENTOS DE ANTHROPOLOGIA, 4.ª ed. (1885), 1 vol., br. 700 rs. Enc. 900.
AS RAÇAS HUMANAS E A CIVILISAÇÃO PRIMITIVA, 2 vol., br. 1$400 rs. Enc. 1$800.
SYSTEMA DOS MYTHOS RELIGIOSOS, 3.ª ed. (1895), 1 vol., br. 800 rs. Enc. 1$000.
QUADRO DAS INSTITUIÇÕES PRIMITIVAS, 2.ª ed. (1893), 1 vol., br. 800 rs. Enc. 1$000.
O REGIME DAS RIQUEZAS, 2.ª ed. (1894), 1 vol., br. 600 rs. Enc. 800.
HISTORIA DA REPUBLICA ROMANA, 2.ª ed., 1897, 2 vol., br. 2$000 rs. Enc. 2$400.
O HELLENISMO E A CIVILISAÇÃO CHRISTÃ, 2.ª ed., 1 vol., br. 800 rs. Enc. 1$000.
TABOAS DE CHRONOLOGIA E GEOGRAPHIA HISTORICA, (1884), 1 vol., br. 1$000 rs. Encadernado 1$200.
III. Varia:
A CIRCULAÇÃO FIDUCIARIA, 2.ª ed., 1 vol., br. 800 rs. Enc. 1$000.
A REORGANISAÇÃO DO BANCO DE PORTUGAL, opusculo, (1877), br. 150 rs.
O ARTIGO «BANCO», no Diccionario Universal Portuguez, (1877), 1 vol., br. 500.
POLITICA E ECONOMIA NACIONAL, (1885), 1 vol., br. 700 rs.
PROJECTO DE LEI DE FOMENTO RURAL, apresentado á camara dos deputados na sessão de 1887, 1 vol., br. 300 rs.
ELOGIO HISTORICO DE ANSELMO J. BRAAMCAMP, ed. part. (1886), 1 vol. (esgotado).
THEOPHILO BRAGA E O CANCIONEIRO, opusculo, (1869) (esgotado).
O SOCIALISMO, (1872-3), 2 vol., br. 1$200. (Esgotado)
AS ELEIÇÕES, opusculo, (1878), br. 200 rs.
CARTEIRA DE UM JORNALISTA: I. Portugal em Africa, (1891), 1 vol., br. 400 rs.
A INGLATERRA DE HOJE, CARTAS DE UM VIAJANTE, 2.ª ed., 1 vol., br. 600 rs. Enc. 800.
CARTAS PENINSULARES, (1895), 1 vol., br. 600 rs. Enc. 800.[{pg. III}]
HISTORIA
DE
PORTUGAL
POR
J. P. Oliveira Martins
Setima edição
TOMO PRIMEIRO
1908
PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
LIVRARIA EDITORA
Rua Augusta—44 a 54
LISBOA[{pg. IV}]
Composto e impresso na typographia
DA
Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA
Rua Augusta, 44 a 54
LISBOA[{pg. V}]
Á
MEMORIA
DE
ALEXANDRE HERCULANO
mestre e amigo[{pg. VI}]
[{pg. VII}]
[ADVERTENCIA]
«Antigamente foi costume fazerem memoria das cousas que se fazião, assi erradas, como dos valentes & nobres feytos. Dos erros porque se delles soubessem guardar: & dos valentes & nobres feytos aos bõos fezessem cobiça auer pera as semelhentes cousas faseram.»
Coronica do Condestabre.
A historia é sobre tudo uma lição moral: eis a conclusão que, a nosso vêr, sáe de todos os eminentes progressos ultimamente realisados no fôro das sciencias sociaes. A realidade é a melhor mestra dos costumes, a critica a melhor bussola da intelligencia: por isso a historia exige sobretudo observação directa das fontes primordiaes, pintura verdadeira dos sentimentos, descripção fiel dos acontecimentos, e, ao lado d'isto, a frieza impassivel do critico, para coordenar, comparar, de um modo impessoal ou objectivo, o systema dos sentimentos geradores e dos actos positivos.
O desenvolvimento do criterio racional e o predominio crescente dos processos proprios das sciencias, baniram os modelos antigos e fizeram da historia um genero novo. Nem os discursos moraes ou litterarios sobre a historia, á maneira do XVII[{pg. VIII}] seculo, nem o doutrinarismo secco do XVIII que sobre factos e instituições mal conhecidos construia systemas geraes chimericos, nem a opinião, muito seguida em nossos dias, de considerar a historia unicamente nos seus phenomenos exteriores, averiguando eruditamente as epochas e as condições dos successos, merecem, a nosso vêr, imitação.
Todos estes systemas, porém, ensaios successivos para determinar o genero de um modo definitivo, teem um lado de verdade aproveitavel. Os modelos classicos fizeram sentir o caracter moral da historia; os modelos abstractos, a necessidade de comprehender os phenomenos n'um systema de leis geraes; os modelos eruditos, finalmente, a condição imprescriptivel de um conhecimento real e positivo da chronologia e dos elementos que compõem o meio externo ou phisico das sociedades.[[1]]
Nada d'isto, porém, é ainda realmente a historia, embora todas essas condições sejam indispensaveis para a sua comprehensão. O intimo e essencial consiste no systema das instituições e no systema das idéas collectivas, que são para a sociedade como os órgãos e os sentimentos são para o individuo, consistindo, por outro lado, no desenho real dos costumes o dos caracteres, na pintura animada dos logares e accessorios que formam o scenario do theatro historico.
Estes dois aspectos são egualmente essenciaes; porque a coexistencia independente dos motivos collectivos e naturaes, e dos actos individuaes, é um facto incontestavel na vida das sociedades.
Na Historia da civilização iberica tratámos de estudar o systema de instituições e de idéas da sociedade peninsular, para expôr a sua vida collectiva,[{pg. IX}] organica e moral. Tomámos ahi a sociedade como um individuo, e procurámos retratal-o phisica e moralmente. Agora o nosso proposito é diverso. Tratando da historia particular portugueza, somos levados a encarar principalmente o segundo dos aspectos essenciaes da historia geral. A sociedade portugueza, como molecula que é do organismo social iberico, peninsular, ou hespanhol—estas tres expressões teem aqui um alcance equivalente—obedeceu, nos seus movimentos collectivos, ao systema de causas e condições proprias da historia geral da peninsula hispanica. Por isso procurámos sempre, na obra referida, indicar o modo pelo qual as leis geraes se realisavam simultaneamente nas duas nações hespanholas: duas, porque a historia assim constituiu politicamente a Peninsula.
Metade da historia portugueza está, portanto, escripta na Historia da civilisação iberica: a metade que trata da vida da sociedade, como um ser organico. Comprehender-se-ha, pois, que nos abstenhamos agora de repetir o que está dito, e que nos limitemos a enviar o leitor para esse livro; indicando, quando fôr necessario, o logar onde poderá encontrar a explicação das causas geraes a que no texto se tem de alludir.
Resta fazer a segunda metade: resta caracterizar o que ha de particular na historia portugueza; resta fazer viver os seus homens, e representar de um modo real a scena em que se agitam: tal é o programma d'este livro, cujas difficuldades de execução excedem em muito as do anterior. N'esse, bastavam o conhecimento e o pensamento: um para nos dizer como foram as cousas, outro para nos indicar o principio e o systema da civilisação. Agora carece-se do faro especial da intuição historica, e d'um estylo que traduza a animação propria[{pg. X}] das cousas vivas. Toda a longanimidade do leitor será pois necessaria para desculpar as imperfeições da obra.
É mistér indicar ainda outro assumpto e prevenir uma impressão, natural em quem ler successivamente as duas obras. A Historia de Portugal consiste n'uma serie de quadros, em que, na maxima parte das vezes, os caracteres dos homens, os seus actos, os motivos immediatos que os determinam e as condições e modo porque se realisam, merecem antes a nossa reprovação do que o nosso applauso. Crimes brutaes, paixões vis, abjecções e miserias, compõem, por via de regra, a existencia humana; e por isso mais de um moralista tem condemnado o estudo da historia como pernicioso para a educação.—Por outro lado, a Historia da civilisação iberica respira um enthusiasmo optimista que, ao primeiro exame, pareceria contradictorio com o pessimo e mesquinho caracter que as acções dos homens apresentam. Um exemplo bastará para demonstrar este antagonismo: além considerámos as conquistas americanas e asiaticas uma obra heroica, e agora veremos que montanha de ignominias foi o imperio portuguez no Oriente.
Esta contradicção, real para o criterio abstracto, não existe, porém, para o criterio historico. Toda a boa philosophia nos diz que o homem real é a imagem rude de um homem ideal, que essa imagem vive no mundo inconscientemente, e que todas as acções dos homens, maculadas de defeitos e vicios, obedecem a um systema de leis, idealmente sublimes. É esta verdade que o povo consagrou quando formulou o adagio: Deus escreve direito por linhas tortas.
Pesada esta consideração, que não podemos agora desenvolver de um modo cabal, vêr-se-ha como na[{pg. XI}] historia de uma civilisação os caracteres particulares das acções dos homens, fundindo-se no systema geral de principios e leis que os determinam, perdem individualidade, e não valem senão como elementos componentes de um todo superior: que sejam humanamente bons ou maus, importa nada, porque só nos cumpre attender ao destino que os determina, e a moral é um criterio incompetente para a esphera ou categoria collectiva de que se trata.
Na esphera dos movimentos de instituições e idéas, na categoria da vida social, as acções dos homens são sempre absolutamente excellentes; porque a supremacia da sociedade sobre o individuo consiste no facto da existencia de uma consciencia superior da Idéa, no organismo que se diz sociedade. Os poetas épicos, seres privilegiados cuja voz não é propria, senão collectiva, são os orgãos vivos da consciencia de uma civilisação: assim Camões sente e exprime a grandeza historica do imperio das Indias, que na propria opinião particular do poeta são uma Babylonia, um poço de ignominias.
Esclarecido este lado do problema, embora de um modo incompleto e rapido, resta-nos dizer que na segunda metade da historia, na que trata dos individuos e dos episodios, na que pinta os costumes e os pensamentos, o criterio é outro: por isso affirmámos que a historia é uma lição moral. Nos vicios e nas virtudes, nos erros e nos acertos, na perversidade e na nobreza dos individuos que foram, ha um exemplo excellente. Na sabedoria ou na loucura dos actos politicos e administrativos passados ha um meio de prevenir e encaminhar a direcção dos actos futuros. A historia é, n'esse sentido, a grande mestra da vida.[{pg. XII}]
Se os vicios, os erros, o crime e a loucura predominam sobre as virtudes, os acertos, a nobreza e a sabedoria dos homens, como sem duvida predominam, iremos por isso condemnar a historia por perniciosa? Não, decerto. Apresentar crua e realmente a verdade é o melhor modo de educar, se reconhecemos no homem uma fibra intima de aspirações ideaes e justas, sempre viva, embora mais ou menos obliterada. Conhecer-se a si proprio foi, desde a mais remota Antiguidade, a principal condição da virtude.[{pg. 1}]
[[1]] V. Th. da hist. universal, nas Taboas de chronol., pp. VI-XXII.