II

Minto:

no meio do escuro e do silêncio morto, de vez em quando, ora duma banda ora doutra, de vez em quando uma cantiga forte, de bicho vivente, furava o ar; era o téu-téu ativo, que não dormia desde o entrar do último sol e que vigiava sempre, esperando a volta do sol novo, que devia vir e que tardava tanto já…

Só o téu-téu de vez em quando cantava; o seu — quero quero! — tão claro, vindo de lá do fundo da escuridão, ia agüentando a esperança dos homens, amontoados no redor avermelhado das brasas.

Fora disto, tudo o mais era silêncio; e de movimento, então, nem nada.

III

Minto:

na ultima tarde em que houve sol, quando o sol ia descambando para o lado para o outro lado das coxilhas, rumo do minuano, e de onde sobe a estrela d’alva, nessa ultima tarde também desabou uma chuvarada tremenda; foi uma manga d’água que levou um tempão a cair, e durou… e durou…

Os campos foram inundados; as lagoas subiram e se largaram em fitas

coleando os tacuruzais e banhados, que se juntaram, todos, num; os passos cresceram e todo aquele peso d’água correu para as sangas e das sangas para os arroios, que ficaram bufando, campo fora, campo fora, afogando as canhadas, batendo no lombo das coxilhas. E nessas coroas é que ficou sendo o paradouro da animalada, tudo misturado, no assombro. E era terneiros e pumas, tourada e potrilhos, perdizes e guaraxains, tudo amigo, de puro medo. E então!…

Nas copas dos butiás vinham encostar-se bolos de formigas, as cobras se enroscavam na enrediça dos aguapés; e nas estivas do santa-fé e das tiriricas boiavam os ratões e outros miúdos.

E, como a água encheu todas as tocas, entrou também na da cobra grande, a — boi-guassú — que, havia já muitas mãos de luas, dormia quieta, entanguida. Ela então acordou-se e saiu, rabiando.

Começou depois a mortandade dos bichos e a boi-guassú pegou a comer as carniças. Mas só comia os olhos e nada, nada mais.

A água foi baixando, a carniça foi cada vez engrossando, e a cada hora mais olhos a cobra grande comia.

IV

Cada bicho guarda no corpo o sumo do que comeu.

A tambeira que só come trevo maduro, dá no leite o cheiro doce do milho verde; o cerdo que come carne de bagual nem vinte alqueires de mandioca o limpam bem; e o socó tristonho e o biguá matreiro até no sangue tem cheiro de pescado. Assim também, nos homens, que até sem comer nada, dam nos olhos a cor dos seus arrancos. O homem de olhos limpos é guapo e mão aberta; cuidado com os vermelhos; mais cuidado com os amarelos; e toma tenência doble com os raiados e baços!…

Assim foi também, mais de outro jeito, com a boi-guassú, que tantos olhos comeu.

V

Todos — tantos, tantos! que a cobra grande comeu —, guardavam entranhando e luzindo, um rastilho da ultima luz que eles viram do último sol, antes da noite grande que caiu… E os olhos — tantos, tantos! — com um pingo de luz cada um, foram sendo devorados; no principio um punhado, ao depois uma porção, depois um bocadão, depois, como uma braçada…

VI

E vai,

como a boi-guassú não tinha pêlos como o boi, nem escamas como o dourado, nem penas como o avestruz, nem casca como o tatu, nem couro grosso como a anta vai, o seu corpo foi ficando transparente clareado pelos miles de luzezinhas, dos tantos olhos que foram esmagados dentro dele, deixando cada qual sua pequena réstia de luz. E vai, afinal, a boi-guassú toda já era uma luzerna, um clarão sem chamas, já era um fogaréu azulado, de luz amarela e triste e fria, saída dos olhos, que fora guardada neles, quando ainda estavam vivos…

VII

Foi assim e foi por isso que os homens, quando pela primeira vez viram a boi-guassú tão demudada, não a conheceram mais. Não conheceram e julgando que era outra, muito outra, chamaram-na desde então, de boi-tátá, cobra de fogo, boi-tátá , a boi-tátá !

E muitas vezes a boi-tátá rondou as rancherias, faminta, sempre que nem chimarrão. Era então que o téu-téu cantava, como bombeiro.

E os homens, por curiosos, olhavam pasmados, para aquele grande corpo de serpente, transparente — tátá, de fogo — que media mais braças que três laços de conta e iam alumiando baçamente as carquejas… E depois, choravam. Choravam, desatinados do perigo, pois as suas lágrimas também guardavam tanta ou mais luz que só os olhos e a boi-tátá ainda cobiçava os olhos vivos dos homens, que já os da carniça enfaravam…

VIII

Mas, como dizia:

na escuridão só avultava o clarão baço do corpo da boi-tátá , e era por ela que o téu-téu cantava de vigia, em todos os flancos da noite.

Passado um tempo, a boi-tátá morreu; de pura fraqueza morreu, porque os olhos comidos encheram-lhe o corpo mas não lhe deram sustância, pois que sustância não tem a luz que os olhos em si entranhada tiveram quando vivos…

Depois de rebolar-se rabiosa nos montes de carniça, sobre os montes pelados, sobre as carnes desfeitas, sobre as cabelamas soltas, sobre as ossamentas desparramadas, o corpo dela desmanchou-se, também como cousa da terra, que se estraga de vez.

E foi então que a luz que estava preza se desatou por aí.

E até pareceu cousa mandada: o sol apareceu de novo!

IX

Minto:

apareceu, sim, mas veio de sopetão. Primeiro foi se adelgaçando o negrume, foram despontando as estrelas; e estas se foram sumindo no coloreado do céu; depois foi sendo mais claro, mais claro, e logo, na lonjura, começou a subir uma lista de luz… depois a metade de uma cambota de fogo… e já foi o sol que subiu, subiu, subiu até vir a pino e descambar, como dantes, e desta feita, para igualar o dia e a noite, em metades, para sempre.

X

Tudo o que morre no mundo se junta à semente de onde nasceu, para nascer de novo: só a luz da boi-tátá ficou sozinha, nunca mais se juntou com outra luz de que saiu.

Ainda sempre se arrisca e só, nos lugares onde quanta carniça houve, mais se infesta. E no inverno, de entanguida, não aparece e dorme talvez entocada.

Mas de verão, depois da quentura dos mormaços, começa então seu fadário.

A boi-tátá , toda enroscada, como uma bola — tátá, de fogo! — empeça a correr pelo campo, coxilha abaixo, lomba acima, até que horas da noite!…

É um fogo amarelo e azulado, que não queima a macega seca nem aquenta a água dos manantiais; e rola, gira, corre, corcoveia e se despenca e arrebenta-se, apagando… e quando menos se espera, aparece, outra vez, do mesmo jeito!

Maldito! T’esconjuro!

XI

Quem encontra a boi-tátá pode até ficar cego… Quando alguém topa com ela só tem dois meios de se livrar: ou ficar parado, muito quieto, de olhos apertados e sem respirar, até ir-se ela embora, ou se anda a cavalo, desenrodilhar o laço, fazer uma armada grande e atirar-lha em cima, e tocar a galope, trazendo o laço de arrasto, todo solto, até a ilhapa!

A boi-tátá vem acompanhado o ferro da argola… mas de repente batendo numa macega, toda se desmancha, e vai esfarinhando a luz, para emulitar-se de novo, com vagar, na aragem que ajuda.

XII

Campeiro precatado! reponte o seu gado da boi-tátá : o pastiçal, aí, faz peste…

Tenho visto!

*A SALAMANCA DO JARAU* A Alcides Maya

O Serro do Jarau 1
A salamanca 2