Jaime de Magalhães Lima
Do que o fogo não queima
Composição e Impressão
Emprêsa Gráfica A UNIVERSAL
111, Rua Duque de Loulé, 131
PORTO
DO QUE O FOGO NÃO QUEIMA
JAIME DE MAGALHÃES LIMA
Do que o fogo
não queima
PORTO
Empresa Gráfica A UNIVERSAL
111, Rua Duque de Loulé, 131
1918
[PROLOGO]
A guerra prossegue na sua impenitencia sinistra, junta os seus dias em mêses e os seus mêses em anos, e as heresias que a aborrecem e lhe negam a legitimidade e os beneficios, não se rendem e nem sequer esmorecem, não obstante a insistencia do flagelo que lhe dá visos de necessidade e condição natural. E eu, que dessas heresias fiz colheita e esperança[1] no primeiro momento, suspeito a conveniencia, senão a obrigação, de as repetir e corroborar quando o tempo e a perseverança entre vicissitudes contrarias as fortificaram e disseminaram.
Daí este opusculo.
«Heresias» não será talvez o termo proprio; melhor diria se lhes chamasse «crenças». «Heresia é uma palavra que as tiranias do fanatismo fizeram aviltante e criminosa para justificar as atrocidades de um dominio insaciavel e da intolerancia, sem aliás alcançarem discriminar, e muito menos provar, onde residia a piedade e a injuria, se em quem usava os poderes da terra para oprimir a consciencia, se em quem se prevalecia da robustez de consciencia para afrontar os poderes do mundo. No fim, ambos encontrarão porventura que fizeram acto de fé a seu modo—indubitavelmente muito mais glorioso no que por acusação de heresia sofreu o martirio. Este será, na realidade, o crente, quem mais de perto tocou a divindade e mais inteira e fielmente lhe obedeceu.
Aquilo que desse drama hoje vemos, e é objecto da vida politica e do estado, não desmente o que de ontem sabemos e foi arrebatamento do dogmatismo eclesiastico absolutista. Duas especies de patriotismo se encontram em conflicto, e, nenhum conseguindo vencer ou convencer o adversario, ambos e mutuamente se reputam herejes:—o patriotismo de servir e o patriotismo de combater: o de espada e carabina, que tem por acto bom afastar e eliminar o proximo, e o de martelo e charrua, que tem por missão e dignidade fecundar a terra e agasalhar aquele mesmo proximo que o outro abomina; o que ama o peregrino e o que detesta o estranho; o que é um impulso de exclusão e aversão, uma avareza, e o que é uma confissão de bem querer e um anseio de proteger, uma caridade. Ha duas especies de patriotismo, como ha dois modos e duas aspirações de cultura do homem, conduzindo a atitudes politicas divergentes, de que as concepções do patriotismo correlativas são apenas uma das suas multiplices manifestações:—ha uma cultura que consiste em nos aprestar para calcar e escravisar os outros, e ha uma cultura que se esforça por nos fortalecer para calcarmos as nossas proprias paixões e as ordenarmos e disciplinarmos sob uma regra sobrehumana; ha a cultura que olha para o chão e a que olha para os céus, a que é uma tarefa de sordidez, em que se degrada, e a que se eleva no desprendimento, em que exulta. O que nestes tempos de guerra se tem passado com os que por imposição da consciencia se recusaram a combater, particularmente o procedimento dos poderes constituidos da Inglaterra com as centenas dos seus conscientious objectors, o patriotismo inquisitorial, cujas torturas e penas vão desde o fusilamento puro e simples, tanto da feição peremptoria do rigor continental, até á prisão, trabalhos forçados e perda dos direitos politicos, que são as soluções predilectas, menos severas mas por igual mortais, da tradicional liberdade insular,—isto nos manifesta, dolorosamente, não só quanto são profundos os antagonismos essenciais e latentes de que as sociedades modernas se compõem, mas tambem quanto é morosa a jornada no caminho e na ambição daquela liberdade e respeito mutuo, quando amor não seja, para os quais não ha heresias.
Embora! Essa escabrosa jornada não cessa. Ali mesmo onde sofre terriveis assaltos inimigos, aí assinala triunfos e progressos. Um momento de «brutalidade hunica e de baixeza desenrolando as suas ondas sobre as nações que participaram na guerra, rebarbarisando toda a civilização por alguns anos», na expressão violentamente exacta de Carlos Liebknecht, que paga com desoito mêses de prisão a audacia insubmissa das suas heresias, isso não bastou para aterrar ou desalentar as consciencias certas dos seus direitos e imperio, e inabalaveis na segurança de um eterno renascimento e vitoria final.
Os sintomas são claros.
Não conseguiu a Camara dos Comuns, por uma minguada maioria, um voto favoravel á perda dos direitos politicos do conscientious objector, sem que não tivesse de lutar com uma oposição veemente, na qual se juntaram homens de todos os partidos politicos, não excluindo os mais acentuadamente conservadores. Foi então que, sem embargo do seu declarado e esclarecido conservantismo, Lord Hugo Cecil, em uma oração magistral, combateu «a idolatria do estado», que, tornando-o superior á lei moral, perdeu a Alemanha na confiança das nações civilizadas; foi então que, em palavras memoraveis, se ouviu a reivindicação da preeminencia do dever perante a consciencia sobre a obrigação perante o estado. «É na crença naquela região de obediencia superior que nos impõe qualquer cousa mais do que aquilo que o estado nos póde pedir, e que nos dá qualquer cousa mais do que o estado jámais nos poderá dar, que nós temos de sustentar a grande causa em que nos empenhámos. Ás vezes dizemos que combatemos pela civilização.» Mas aquele em quem o dever da consciencia sobreleva á obrigação com o estado «dirá antes que combatemos para que a civilização se mantenha uma civilização cristã, e, por certo, em uma civilização cristã é mal violentar a consciencia dos sinceros, é mal impôr-lhes uma obrigação que eles julgam corruptora e contagiosa.»
Emquanto isto se proclama em voz alta, apaixonadamente e apaixonando as legiões de crentes a que se comunica, uma outra ordem de factos se apressa a dar-lhe uma confirmação eloquente. A falencia retumbante das artes politicas dos estados que desencadearam a mais mortifera e ruinosa das guerras, para ao fim confessarem que pela guerra não teem solução os problemas que ela era chamada a resolver; a derrota do intelectualismo politico, que, em boa logica com todo o intelectualismo e suas naturais insuficiencias, se embriagou na vaidade das suas limitadas forças e, desconhecendo as do caracter moral, considerou os homens meras quantidades e energias mecanicas alheias a toda a influencia das forças intimas espirituais; esta estreiteza que tinha de rematar na incapacidade demonstrada das diplomacias profissionais ortodoxas para assegurar, não direi já a felicidade dos homens mas a paz das nações, induz a procurar em outros poderes a fortuna que estes muito contingentes e mesquinhos não souberam dar-nos.
É nesta angustia que mais uma vez se nos revela em seu intacto resplendor aquela lei pela qual a consciencia soube que «nem só de pão vive o homem», que a historia e a garantia unica da civilização é o alargamento progressivo dos limites da espiritualidade á custa da restrição dos limites das materialidades, e que os combates a que o nosso tempo teve o triste privilegio de assistir, não são mais do que um momento de conflicto e de violencia entre isso que não é pão e é vida e se sente oprimido, e aquilo que, sendo pão, sendo repasto do corpo, seu sustento ou seu prazer ou sua força, todavia e cada vez mais se mostra alento insuficiente e mesquinho para aquele outro banquete etereo e intangivel, que os sentidos não tocam, e se chama simpatia, amor, humanidade ou caridade, e sempre e afinal essencia da vida.
Preparemos para esse banquete o nosso animo.
Eixo, 15-1-1918.
Do que o fogo não queima
Se da onda temerosa que começou a assolar a Europa e o mundo em 1914 consideramos apenas a espuma enxovalhada, não ha maior infamia, nem maior crime e indignidade. É uma degradação de incomensuravel profundeza, é a terra lavada em sangue pela ganancia abjecta das tiranias da sordidez.
Um publicista de notavel merecimento e admiravel imparcialidade, G. Lowes Dickinson, compreendendo a opinião de milhares de homens, o desalento de muitos dos mais sinceros e cultos, a revolta de alguns e o cinismo inalteravel de uma minoria poderosamente armada, resume neste esboço a situação:
«A guerra veio da rivalidade entre os estados na disputa do poder e da riqueza. Isto é universalmente aceite. Sejam quais forem as diversidades de opinião que prevalecem nos diferentes paises interessados, ninguem pretende que a guerra tivesse origem em qualquer necessidade da civilização, em qualquer impulso generoso ou ambição nobre. Conforme o conceito popular da Inglaterra, nasceu a guerra unica e exclusivamente da ambição da Alemanha, vinda á conquista de territorio e poder; e, conforme o conceito popular alemão, nasceu da ambição da Inglaterra, correndo a atacar e destruir a riqueza crescente da Alemanha e a sua força. Assim, para qualquer dos beligerantes, a guerra mostra-se como imposta por uma pura perversidade, e sob nenhum aspecto tem justificação moral de especie alguma. Estes conceitos, na verdade, são demasiado simples quanto aos factos; mas... a guerra procedeu da rivalidade de imperio entre as grandes potencias, em toda a parte do mundo. A contenda entre a França e a Alemanha no governo de Marrocos; a contenda entre a Russia e a Austria no governo dos Balkans; a contenda entre a Alemanha e outras nações no governo da Turquia—foram estas as causas da guerra.
«É a cobiça de mercados, concessões e colocação de capitais que está por detraz da politica colonial conduzindo ás guerras. Os estados concorrem ao direito de explorar os fracos, e nesta concorrencia os governos são movidos e tutelados pelos interesses financeiros. O inglês foi ao Egito por causa dos prestamistas, o francês foi a Marrocos por causa do minerio e da riqueza. Em todo o Oriente, no mais proximo como no mais distante, são as concessões, o comercio e os emprestimos que levaram á rivalidade das potencias, a guerra sobre a guerra, ás expedições punitivas e, ironia das ironias! ás indemnisações, extorquidas como uma nova forma, e especial, de roubar os povos que se levantam esforçando-se por se defenderem dos roubos. Por um momento, as potencias combinam suprimir a vitima comum; no dia seguinte, lançam-se umas sobre as outras a disputar o espolio. Estes são realmente na sua nudez os factos sobre as questões entre os estados a respeito da politica comercial e colonial. Emquanto a exploração dos paises menos desenvolvidos fôr dirigida por companhias, não tendo outro fim senão os dividendos, emquanto os financeiros determinarem a politica dos governos, emquanto as expedições militares acabando em anexações forem postas aos hombros do publico por motivos que não podem confessar-se, hão-de acabar em guerra as nações que começaram pelo roubo, e milhares e milhões de vidas inocentes e generosas, as melhores da Europa, hão-de perder-se inutilmente, sem fim algum, porque interesses sinistros jogaram na sombra a paz do mundo em proveito do dinheiro das suas algibeiras.»[2]
Sordidez, miseria, crueldade, uma tirania de scelerados sacrificando a ruins paixões de dominio, avareza e sensualidade as multidões inocentes, o trabalho, a candura, a honestidade e o heroismo—cifra-se nisto a historia militar do mundo. Estas seriam as causas da guerra, as da ultima como as de quantas a precederam, esta a sua unica e eterna maldição. Só o que se viu com as companhias de navegação, e é publico, desilude os menos crentes nas infamias da guerra. Quando as familias dos que combatiam e morriam nas trincheiras, para gloria e proveito dos que os mandavam, sofriam fome e frio, havia emprezas de navegação, e tambem dos que mandavam, que faziam dividendos de 65 por cento, á custa da anciedade e atribulações daqueles que criaram os filhos imolados nas batalhas. As monstruosidades economicas alimentam-se daquele mesmo sangue que as monstruosidades da soberba derramam desapiedadamente no chão esteril dos combates.
Não duvidemos, a guerra e a ignominia são filhas do mesmo ventre.
Mas não duvidemos tambem de que, onde a guerra se peleja e a ignominia corre a fazer as suas presas; outras forças se erguem que as dominam e confundem. E sobre os destroços da politica, de ordinario infame, floresce de continuo a consciencia moral, tão pura na aspiração como lenta mas inflexivel no crescer.
Estranha sujeição das potestades! Essa fortaleza satanica não é só por si tão robusta que prescinda da protecção do bem dos povos, da isenção, do patriotismo, da fortuna moral dos homens e das nações, e de outras e infinitas sombras etereas que vivem, desarmadas e fracas, apenas em os nossos sonhos. Para que as ambições da sordidez prevalecessem e colhessem o seu quinhão na guerra em que nos crucificaram, foi-lhes necessario invocar interesses urgentes da liberdade e da dignidade humana. Pressentiram que só por esse compromisso levariam os exercitos ás batalhas. Por uma singular escravidão, a sordidez sujeitou-se á nobreza. Talvez mentindo astuciosamente, com uma astucia vulpina, toda de impostura; mas sujeitou-se, não sem ignorar de que por força terá de cumprir muito daquilo que por mentira assegurou. A sordidez tem em seu poder as armas e o fogo, quanto é necessario para devastar a terra e a embeber no sangue. E essa mesma sordidez armada, sentindo fugir-lhe o poder perante qualquer cousa que o fogo não queima, aceitou a tutela e imperio de forças imponderaveis e jurou-lhes fidelidade. A força fisica na sua maior opulencia destrutiva não sabe combater, sente-se insuficiente, se não tem em seu apoio um principio moral que a legitime. Para que os soldados marchassem contra a Alemanha, tornou-se necessario convencer os povos de que a Alemanha praticava um crime e meditava as atrocidades de um despotismo avaro, absorvente, insaciavel.
Eis aí o facto capital de cuja compreensão depende a determinação do caracter e mais profunda significação desta ultima fatalidade que pôs as nações em guerra—não são os principios que dependem das armas, são as armas que dependem dos principios. Pelo gráu em que as armas dependem dos principios se afere a altura da civilização de uma comunidade e de uma época, e pelo desrespeito ou pela corrupção dos principios se julgará da profundeza da sua degradação. O progresso da humanidade é puramente materia de desenvolvimento e natureza do espirito que a penetrou e rege. Disso dependem as guerras; os seus incendios dependem do que o fogo não queima. Se se ateiam, é porque aquela essencia eterea lhes falece; se abrandam ou se apagam, foi porque ela os envolveu. «Por muito que condenemos os chefes negligentes e as castas desapiedadas que vivem pela guerra, a fonte real do mal é o sentimento popular em que se apoiam. A lição que aí temos a aprender, é que as doutrinas e paixões enraizadas, de que essas desgraças provêm, só podem ser removidas por um lento e firme labor das forças espirituais. Aquilo de que principalmente se carece é a eliminação dos sentimentos cujas instituições alimentam a inveja e o odio, e preparam os homens para a desconfiança e para a agressão.» (Lord Bryce).
Incapaz de queimar, ou sequer prejudicar ou interromper a vitalidade essencial dos principios, o fogo das batalhas apenas reduz a cinzas as sarças que os ocultam e que por os ocultarem nos transviam; é um arrojo de sinceridade, é um processo terrivel e crudelissimo de pureza, desprendendo os principios, a suprema razão de ser da humanidade, das miserias infinitas que os contrariam e envolvem. Alguem disse, pondo essa aparente contradicção em uma imagem feliz, que só de noite as estrelas brilham.
Se «ha certas cousas eternamente belas que subsistirão quando a guerra passar, tais quais eram antes da guerra começar e tais quais serão sempre, e se o nosso dever é concorrer para as manter vivas, compreendendo-as e amando-as» (Gilbert Murray), a guerra que nos angustía seria talvez perante «essas cousas eternamente belas» uma experiencia, um transe de morte precedendo uma ressurreição esplendida, de esplendor mais alto que todo aquele que precedentemente as houvesse coroado. Porventura a guerra veio a combater pela violencia uma civilização turbada e enlouquecida pela sensualidade, uma civilização que nem soube acautelar-se pela persuasão nem corrigir-se pela experiencia pacifica; será a febre de uma infecção que a higiene não foi capaz de prevenir, por debilidade de animo e cegueira de inteligencia, que não por escassez de recursos.
O que vimos á luz desse brazeiro e que não viamos claramente antes que ele se acendesse, embora surdamente minasse a terra e a felicidade, é como uma aurora de redenção e esperança, como uma certeza divina.
Agora vemos, como nunca vimos, que de que o mundo carece, não é de inteligencia, é de caracter. De que o mundo carece não é de uma nova ordem nas cousas e nas instituições e inventos que as regulam; a antiga muito bem lhe satisfazia todas as necessidades. De que o mundo carece é de melhor ordem nos corações; o passado lho revelou pela sua historia e o presente lho confirmou pelas provações. De que o mundo carece, para sua luz e ventura, é de mansidão, dessa eternidade que o fogo não queima; não é de oficinas que as chamas arrazam e o fumo lança ao vento.
De facto, uma lei de identidade inviolavel faz que a guerra não possa gerar senão a guerra, por mais subtil que seja o esforço para a transmudar em benignidade. A paz, como obra politica, ou diplomatica, ou militar, ficará por nascimento sujeita á concepção inseparavel do ventre de soberba e avareza que a gera; sómente será efectiva e fecunda quando derivar de um renascimento da politica, da diplomacia e dos exercitos no espirito religioso que se lhes insinuar. Fóra disso será uma ficção e uma ilusão, transitorias e mentirosas como todas as ficções e ilusões que os cataclismos infernais das criações humanas se encarregam de dissipar com a maior dureza. É inutil cogitar combinações, tribunais e semelhantes subterfugios para protelar em esperanças vãs o que só ao espirito pertence e só ele póde dar. As civilizações vulgarmente chamadas decadentes e decaídas, porque minguaram em poder militar ou de todo o perderam, são bastas vezes as que predominam, embora destituidas de bens e forças temporais. Avassalaram pelo espirito aqueles e aquilo que pelas armas as venceram. Nos individuos como nas raças são os mortos que governam, como o filosofo pretende. A eternidade das ideias e das aspirações, e das energias morais em que essa eternidade se revela, sobrepõe-se ás vicissitudes efemeras do tempo e completamente as subordina, ainda que essas vicissitudes importem a morte de milhares de homens e a aniquilação de riquezas inumeraveis. A Grecia inspirando-nos a liberdade, Roma disciplinando-nos na ordem ou Israel prostando-nos na piedade foram superiores a toda a corrupção, ruina ou escravidão, governam hoje mais ampla e firmemente do que na hora em que o poder politico as servia; como, modernamente, a França no fulgor da sua inteligencia, ou a Inglaterra na acuidade dos instintos morais, ou a Russia na abdicação religiosa, ou a Alemanha na intuição das temporalidades, são imperios fundados de uma vez para sempre, insubmersiveis no dominio do nosso espirito e na pratica da nossa existencia, sejam quais forem as vicissitudes politicas que o futuro lhes tenha reservadas. A vida dos estados é nada, um instante passageiro, comparada com a vida das civilizações que, se realmente o são, se realmente significam o desenvolvimento e afirmação progressivos de uma alma, de uma relação com o infinito na existencia sensivel, não admitem perda nem retrocesso, e nem sequer quebra de expansão. A riqueza do espirito, porque não é deste mundo, embora neste mundo habite, não depende das contingencias politicas das nações; a todas é superior, e porque é superior, por nenhuma foi ou será vencida. Só pela riqueza do espirito os povos se engrandecem e vencem ou serão vencidos; o resto é acidental.
O que o espirito ganhou nas batalhas sangrentas em que a politica ultimamente precipitou os estados e as nações é qualquer cousa como um terramoto. O abalo moral confunde pelos efeitos proximos e remotos as ruinas de que os canhões cobriram a terra. Uma revolução social se efectuou durante a guerra. O direito de propriedade foi de todo abolido por instancia de interesses colectivos. E o que mezes antes parecia a maior iniquidade e levantaria as pedras das calçadas, subitamente foi admitido como o mais justo e natural dos acontecimentos. O estado monopolisou o pão e o fogo, e os povos submeteram-se; todos os interesses individuais e de classe foram indistintamente imolados a obrigações sociais, demonstradas ou hipoteticas, e, embora no tumulto proprio de semelhante radicalismo se insinuassem as torpezas inseparaveis do remexer das riquezas, os povos consentiram pacientemente na dolorosa e inaudita expoliação. Naufragaram na tormenta liberdades que haviam custado o sacrificio de gerações inumeraveis e o martirio de centenas e centenas de vidas, e as vitimas desta renovação de despotismos curvaram-se sem lamentos á fatalidade que lhes vinha em nome da salvação publica. Evidentemente, se não houve a criação instantanea de novos deveres, houve, pelo menos, uma revisão pratica e efectiva da escala e amplitude dos deveres e dos direitos, a qual não pode fundar-se em outra cousa senão na transformação da consciencia moral das sociedades.
Foi um progresso que nos abre reinos novos de grandeza economica e moral, ou é uma ruina na qual vão sepultar-se os melhores sonhos que nos alentavam a coragem para suportar as miserias do mundo?
O conde Hermann Keyserling, em um artigo publicado na Atlantic Monthly de abril de 1916, e intitulado Juizo de um Filosofo sobre a Guerra, responde a esta interrogação com uma precisão e profundeza devéras notaveis. Quanto dessa lucida apreciação das duvidas angustiosas que a guerra provocou veio ao meu conhecimento, pela transcrição feita na Public Opinion[3] onde as fui buscar, aqui procurarei traduzir e guardar, pois melhor condensação da suprema e decisiva influencia dos problemas morais deste momento da nossa civilização não encontrei na torrente de escritos que a preocupação dos aspectos morais da guerra suscitou, interessando os mais altos e nobres espiritos do nosso tempo.
«A causa dos Alliados vencerá», diz o conde Hermann Keyserling, «de uma forma ou de outra, mais tarde ou mais cedo, mediata ou imediatamente.»
«É inconcebivel que possa sobreviver o sistema de politica internacional que provocou esta catastrofe; é inteiramente inverosimil que os novos tratados que teem de se fazer, não sejam uma reflexão das aspirações e esperanças de todo o mundo; o purgatorio desta guerra terá de consumar a decadencia, transmudar em novas as velhas formas, acelerar o seu desenvolvimento, aclarar o espirito-das nações.»
«Nem mesmo uma Alemanha vitoriosa, no seu antigo modo, ousaria ditar a paz em termos reaccionarios; jámais seria aceite pela opinião publica, e não duraria se a violentasse. Mas a Alemanha de amanhã será muito diferente da Alemanha de ontem; a experiencia deste transe te-la-ha mudado muito. Como a França, como a Inglaterra, como a Russia, ou terá encontrado a sua nova alma ou, pelo menos, não estará longe de a encontrar. E essa alma será a de uma nação intensamente democratica.
«Não ha pois razão para pessimismo, apesar do horror da situação presente. A guerra não póde ser senão horrenda, quando pelejada nas proporções gigantescas e com a intensidade de paixão que agora se mostraram. Se os melhores entendimentos parecem cegos e os melhores corações se deixaram turvar pelo odio, a condição da maioria deve ser pavorosa.
«Mas os factos, por mais angustiosos que eles sejam, significam muito pouco, desde que os homens durante a febre não são o que são; e a maior parte dos horrores serão logo esquecidos, tal qual como com as pessoas mais sadias que, depois de terem escapado de uma doença mortal, pensam pouco nos sofrimentos por que passaram.
«Não esqueçamos nunca que esta guerra significa uma crise constituicional e que nesta conformidade temos de a julgar. Só então seremos capazes de compreender as suas fases.
«Digo que a causa dos Aliados tem a vitoria certa. Isto não implica, todavia, que seja consumado, qualquer dos fins concretos que ela se propôs.
«Será impossivel assegurar uma paz de tal modo duradoura que de uma vez para sempre impeça a violação dos tratados; uma nação sósinha não terá possibilidade de decidir a sua propria sorte mais livremente do que um individuo póde desprender-se dos laços sociais e de parentesco e seguir exclusivamente a sua boa vontade; o principio nacionalista não tem possibilidade de triunfar desde que a maior parte dos paises estão habitados em comum por diferentes raças. Mas, em vez disto, teremos melhoria em outras cousas.
«Muito provavelmente, a ideia tradicional de um estado que autorisava uma nação a oprimir outras nações, será condenada, dando logar a uma nova ideia, baseada exclusivamente sobre considerações economicas e militares, e deixando plena independencia a todas as nações quanto aos termos da sua cultura. Muito provavelmente, o equilibrio futuro da Europa dependerá, mais do que dantes, da colaboração sobrepujando a oposição, o que só por si tornará menos frequentes as guerras.
«Mas são inuteis as profecias sobre o que desconhecemos. A unica cousa certa é que esta guerra do mundo, sendo uma crise constituicional, ha-de acelerar na vida interna das nações e nas relações internacionais aquelas transformações que cada ano se teem mostrado mais urgentes e cujas formulas ninguem, por agora, póde encontrar.
«Ha uma intenção no labor cego da Historia.
«Não quero dizer que todos os resultados desta guerra hajam de ser bons; muito longe disso. Os seus efeitos materiais imediatos não podem deixar de ser desastrosos. A morte prematura de milhões dos mais robustos e melhores não poderá beneficiar o remanescente. Os odios e ressentimentos semeiados hão-de estorvar por algum tempo toda a convivencia internacional.
«O que Romain-Rolland disse, mostrar-se-ha muito verdadeiro no primeiro momento:—Quelque soit le vainqueur, c'est l'Europe qui será la vaincue. A um tão longo e terrivel esforço ha-de seguir-se uma reacção, uma depressão temporaria tanto mais acentuada quanto maior fôr o levantamento. Podemos perder por algum tempo tudo aquilo que moralmente ganhamos nas horas de perigo. No primeiro instante, todos os efeitos imediatos desta guerra poderão ser francamente negativos.
«Todavia, não retirarei uma só das palavras de esperança que escrevi, nem que eu soubesse que nos estão reservados acontecimentos peiores ainda do que aqueles por que temos passado.
«Porque o progresso que realmente importa é o progresso no idealismo, e este não póde ser suspenso por periodos de retrocesso material, por mais longos que eles sejam.
«Em que sentido promoveu o bem o advento de Cristo ou o da Revolução Francesa? Materialmente não, nem em principio nem depois. Ainda mais: mesmo hoje se póde pôr em duvida se é consideravel o beneficio da condição material do mundo derivado de qualquer daqueles acontecimentos. Mas mudaram o espirito dos homens, mudaram a sua consciencia das cousas; e isto é que é superiormente importante, porque só uma mudança de consciencia das cousas é capaz de mudar intimamente as proprias cousas.
«O espirito afeiçoa a materia muito lentamente. É isso certo. Mas, por isso tambem, nenhuma outra cousa a afeiçoa absolutamente.
«A lei só começou a ser o reflexo da rectidão no dia em que os homens começaram a conceber o que a rectidão significava.
«As instituições, só por si, são nada. As mais perfeitas que se possam imaginar, são meramente uma crosta prestes a cair ao mais pequeno impulso da paixão, se não exprimem um grau correspondente de compreensão espiritual.
«Assim, a civilização perfeita da antiga Roma não pôde subsistir porque apenas exprimia uma compreensão limitada; e, pelo contrario, o germen de uma penetração mais profunda lançado pelo Evangelho de Cristo nas almas barbaras tornou-as aptas para um infinito progresso.
«Nunca como agora se encontraram em o mesmo nivel a penetração espiritual e a exteriorisação. No principio da nossa era a penetração era profunda, mas o estado de cultura externa era inferior; hoje, esta parece infinitamente superior áquela. Isto explica o incomparavel horror desta guerra. Isto revelou a disparidade monstruosa entre a nossa civilização externa e o estado das nossas almas. Mas este horror abre-nos os olhos do espirito.
«Nunca mais e em parte alguma a opinião publica suportará os processos tradicionais e profundamente imorais das relações internacionais; nunca mais admitirá conscientemente que o poder é o direito. A nossa consciencia das cousas ha-de mudar, e esta é a unica especie de progresso a tomar em conta. Não ha desastres materiais que anulem essa conquista.
«Só o progresso no idealismo cria uma base segura de desenvolvimento material. Demais, tarde ou cedo esse progresso se exprimirá, por si mesmo, em sua face externa. Ora esse progresso ha-de inquestionavelmente caber-nos depois da guerra, seja qual fôr o caminho que os acontecimentos materiais tomem.
«Nós, os contemporaneos da guerra mais destruidora que o mundo viu, julgamos muitas vezes injusto que fossemos nós os escolhidos para esta terrivel experiencia.
«Console-nos a ideia da retribuição deste sacrificio.
«Não fossem os nossos sofrimentos, não fosse a desgraça que nós ao mesmo tempo padecemos e causamos, e aqueles que hão-de vir depois de nós não seriam capazes de conhecer nem de viver vida melhor do que a nossa. Se o conhecimento ha-de incarnar um dia, inevitavelmente, em acção e vida, não é menos verdade que só as acções consumadas dão origem, em regra, a novas realizações.
«Um mundo novo nunca nasceu senão da agonia do que o precede.»
Nem porventura será necessario esperar o fim da guerra e das suas calamidades, para que possamos sentir o alvorecer da transformação salutar que a rapida mas profunda analise do conde Hermann de Reyserling agoura em termos de evidencia. Alguma cousa ha mudada desde já; alguma cousa dessa redenção se mostra já fundada e inabalavel.
Se o mundo se acha ainda entregue á violencia estupida e cruel da força puramente fisica, se ainda abundam os que nela crêem com um fetichismo barbaro, e a tomam pela prova ultima da civilização, entretanto a propagação de um sentimento vigoroso de desprestigio da força a condena, senão á miseria de um facto de abominação, pelo menos a um estado de sujeição e escravidão sob o dominio de poderes mais altos. Não será propriamente o desprestigio da força esse julgamento dos seus feitos e crimes ao qual temos assistido, mas é desde já, e claramente, o sentimento das responsabilidades da força. O imperialismo e as suas armaduras de aço e as suas tiranias e magistraturas vão a retemperar-se em um novo baptismo. Secretas leis da alma dos povos lhe exigem, por titulo de admissão, que de apanagio e privilegio, instituido em proveito da riqueza e do orgulho dos estados, das dinastias e das classes, se converta em instrumento da paz e da prosperidade dos povos. Depositario da força, e não o seu livre possuidor, o imperialismo moderno, para legitimar e manter a sua existencia e o seu poder, cede a impulsos que já de longe lhe vinham turvando a liberdade e o absolutismo, e tem de cohonestar a ambição do dominio, e os interesses dos que dominam e regem, com a consciencia zelosa e praticamente fecunda das responsabilidades impreteriveis que ele importa para a alegria e fortuna das nações e das gentes que compreender no seu ambito e tiver, mais sob a sua protecção e guarda do que sob a sua autoridade retribuida. De um simples instrumento de mandar e de usufruir riquezas, de um processo de avareza terá de passar, por efeito do progresso moral e das obrigações politicas correlativas, a um modo de servir isentamente. E essa transformação que a evolução moral das sociedades vinha reclamando lentamente, incitando e conquistando a custo, foi agora subita e singularmente apressada pela violencia da guerra, pelas suas dores, pela experiencia e desenganos de que ela se tornou portadora sinistra, todas inclinando a crêr que o imperialismo, para ser um processo de ordem politica e como tal escapar aos impetos de uma reacção anarquica, terá de fundar-se em nobreza, probidade, desinteresse e inspiração de altos e generosos deveres. Só por estes e pela fidelidade com que os observar, só pela actividade e pela soma de bens concretos que importar para a felicidade dos povos, será aceite e querido. Confiado apenas ao prestigio das armas e á ostentação da soberba e da crueldade, da avidez e da injustiça, erguidas estas em seus tronos de riqueza, jámais irá além das criações gigantescas que a historia nos mostra dissolvendo-se invariavelmente na corrupção do seu proprio sangue. A desilusão tornou-se completa no meio da catastrofe.
A atrocidade dos combates imprimiu com uma profundeza desconhecida esta feição de serviço do proximo, não só ao imperialismo politico, ao que usa canhões, palmas e estandartes e aterra pela morte, mas tambem a todos os demais imperialismos seus parceiros, parentes e aderentes, aos imperialismos das oficinas como até aos simples imperialismos domesticos. Por força da dolorosa eloquencia de um momento que revelou na sua nudez a miseria de todo o isolamento orgulhoso dos homens e das nações, sucede a urgencia da solidariedade e da cooperação áquele apetite de dominio, exploração, sujeição e posse que tem sido a alma de todas as escravidões e servidões. Nesta lugubre escola, o capitão de armas aprendeu a respeitar o soldado, como o patrão o operario, e o amo o seu servo. A ideia de propriedade, dos homens como das cousas, a razão do dominio pulverizou-se para ser refeita em nova liga. Isentou-se de estranheza o clamor de Tiberio Graco, quando clamava ás multidões que o cercavam: «Os animais bravios que estão espalhados pela Italia teem suas tocas e cavernas onde podem abrigar-se, e os que combatem, que derramam o seu sangue em defesa da Italia, não teem outra propriedade senão a luz e o ar que respiram; sem casa, sem morada certa, vagueiam por todos os lados com as mulheres e com os filhos. Os generais enganam-se quando os exortam a combater pelos seus tumulos e pelos seus templos. Em tão grande numero de romanos haverá um só que tenha um altar domestico e um tumulo em que os seus antepassados repousem? Não combatem e não morrem senão para manter o luxo e a opulencia dos outros; chamam-lhes os senhores do universo, e não teem de seu um palmo de terra.»
Vinte séculos passaram desde que o mundo jazendo na servidão desmentiu na ironia e na crueldade dos factos a violenta aspiração do tribuno; mas, feita daquelas cousas que o fogo não queima, prevalecia e durava atravez de toda a derrota, e hoje vemos o que a justiça das gerações lhe guardava. Porque as plebes do nosso tempo, caminhando para a guerra, já aprenderam a preguntar porque e para que é que lá vão, e os que as mandam já não sentem em seu poder arte de engano ou energia de captação que lhes dê segurança bastante para negar e roubar aos que combatem o seu quinhão na patria. Com pasmo vimos a Inglaterra estabelecer o serviço militar obrigatorio, mas talvez na surpreza muitos se esquecessem de considerar que essa violencia feita ás liberdades tradicionais daquele país era a democracia continental com o seu cortejo de igualdades passando o Estreito, e, se não derrubava de um golpe o remanescente do feudalismo insular, o que o futuro dirá, suspendia-lhe, pelo menos, todas as garantias de estabilidade. O exercito deixou de ser o servidor assoldadado dos governos e das aristocracias, obediente á sua voz; tornou-se em obrigação de defesa, comum a todas as classes e para cumprir a qual se confundiram nas fileiras os plebeus e os nobres, e imediatamente, de burgo em burgo, alguma voz misteriosa apregoou a nova lei:—«Cada homem, cada voto». É a igualdade do poder politico, preludio certo e sabido das reivindicações igualitarias continentais, ameaçando as desigualdades monstruosas da fortuna economica, que na Inglaterra, com a liberdade de testar e a liberdade mercantil, mantinham o poder das velhas aristocracias e criavam aristocracias novas, diferentes pela origem das antigas mas com elas emparceirando no dominio politico. Meses depois de estabelecido o serviço militar obrigatorio, aparecia na camara dos comuns uma proposta abolindo todos os privilegios hereditarios, e o Times dava fóros de cidade á discussão da conveniencia da constituição de um partido republicano na Inglaterra, que esse jornal aliás combatia mas discutia, o que só por si é sinal dos tempos.
Por outro lado, a pressão dos confrontos proprios de toda a angustia em que as provações nos incitam a considerar a sorte dos que de semelhantes desgraças teem sido menos atormentados, levava-nos a verificar, em sentimentos menos platonicos dos que aqueles que até agora prevaleciam nas academias, que emquanto a Europa se enleiava em tradições e prejuizos, com um passado tanto mais pesado para a liberdade do seu espirito quanto mais longo e acidentado nos anos e nas vicissitudes insinuando-lhe o tumulto e turvação do conflicto de diversissimas aspirações, algures a situação era diferente. Emquanto a Europa arrastava entre fadigas e penas infinitas esse fardo que é a sua gloria e a sua grandeza, e tambem, bastas vezes, o residuo morto da sua vida e o estorvo fatal da sua vitalidade, além do Atlantico filhos seus, que ela criou e amamentou com o melhor do seu sangue, tinham fundado nações opulentas de riqueza e felicidade, e regendo-se por principios assáz diferentes dos que nos preocupam e governam, e emancipadas em larga escala do que a nós nos causa dano.
Nós, europeus aferrados a todas as aristocracias, de espirito como de bens, destituidos de elasticidade moral e economica, facilmente nos envergonhando da pobreza, tardos em sentir como sem prejuizo da dignidade e até da alegria um homem passa de magistrado a caixeiro e de caixeiro a magistrado, não raro inclinados a tomar por honra a hierarquia social e a profissão, rebeldes a perceber que a honra é um facto de consciencia e não depende da condição economica e da classe,—com qualquer coincide e a todas póde ser alheia,—temos visto com frequente desconfiança o desenvolvimento da grande Republica Norte-Americana, suspeitando da sua nobreza e temendo, senão mesmo aborrecendo, a rudeza das suas energias violentas, desprendidas de todos os moderadores que entre nós lhes minguariam a expansão e os impetos. O governo da multidão e a paixão mercantil afiguram-se-nos por vezes uma degradação, quando os referimos ás hierarquias tradicionais e hereditarias que nos andam no sangue, e a velhas e equivocas fidalguias de desprendimento dos bens da terra que essas fidalguias desprezam por ignominiosos, sem embargo de consentirem que o seu desprezo sirva tanto á elevação da alma e á generosidade como á ociosidade indigente e ao desamor do trabalho.
Mas, chegados a um momento de calamidade, como o presente, e atentando mais uma vez na condição dos que nos aparecem melhor armados de espirito e corpo para afrontarem as horas de desvairamento e ansiedade, não podemos furtar-nos a duvidas, e preguntamos se de facto não haverá constituição social mais simples e feliz do que esta, muito confusa, das velhas civilizações europeias, e se aqueles nivelamentos e liberdades democraticas que desde Platão tivemos por portadores de depressão, não redundam afinal na supressão de todas as superioridades e excepções, compensando-a amplamente pela elevação economica e mental da mediania e do comum. Sem embargo dos muitos descontos que necessariamente ha a fazer em todas as prosperidades, o certo é, e evidente, que os Estados-Unidos da America, dentro das suas formulas democraticas e seja qual fôr o muito mal que das democracias possa dizer-se e verificar-se, alcançaram uma situação politica admiravel, emquanto os Estados-Unidos da Europa, tão orgulhosos de saber, experiencia, ordem, categorias e tradições, são ainda do reino da utopia, para o maior numero, e uma vaga esperança, para um reduzido optimismo que teima em não descrêr do progresso moral da humanidade. Não sem boas razões, a democracia europeia pregunta-nos se o imperialismo capitalista transatlantico, precario, a praso, sujeito á sorte da inteligencia e dos bons negocios, será mais funesto e menos cruel do que o imperialismo militar dinastico, nascido e mantido por ordem do acaso hereditario, sem obrigação de capacidade mental nem dependencia das contingencias mercantis. Alguem mesmo quereria saber dos mestres da sciencia social e politica das nossas terras se os Estados-Unidos da America viveriam entre si na paz em que vivem se, em logar de se organisarem democraticamente, tivessem fundado monarquias com as respectivas dinastias. E os factos recentes, particularmente o que se tem passado nos Balkans, e estes opressivos e indeclinaveis confrontos semeiam perplexidades, demasiado bastas para nos deixarem caminho aberto e plano pelo qual possamos sair afoitamente de semelhante labirinto.
Nem mesmo será de prevalecer o argumento usual contra a legitimidade da comparação da Europa e da America, alegando que as tradições da Europa e a juventude da America não autorisam aproximações. Não, as tradições da Europa são as tradições da America, e a idade da consciencia e da razão de um e outro continente é a mesma; quem fundou as nações de além do Atlantico foram europeus repassados do que as civilizações europeias tinham de mais profundo. A diferença, onde a haja, depende apenas de descriminarmos em que ramos da tradição, que muitos eram, se fundou a civilização americana, e em que ramos da tradição se manteve a civilização da Europa. E, feito isto, teriamos ainda, para tirar as ilações praticas do confronto, de saber se foi a Europa ou a America que se desenvolveu nos ramos sadios, qual dos dois continentes teve a infeliz sorte de se aferrar aos ramos decrepitos, invadidos de toda a casta de musgos e liquenes, continuamente sujeitos a inumeraveis doenças parasitarias.
Em todo o caso, para os de mais desdenhosa ufania da civilização europeia, imaginando a America demasiado moça ainda para muito poder sentir e pensar, para quem apenas tenha observado na America a torrente do seu mercantilismo e a julgue destituida da alta espiritualidade que é o nosso brazão, convém notar que os livros de Tolstoi se vendem aos milhões nos Estados-Unidos da America, e os de Ruskin «são lidos mais largamente na America do que na Inglaterra.»[4] A mais alta elevação da alma de que a Europa foi capaz no século XIX e que esta personificou esplendidamente em seus profetas, é comum na sua disseminação e influencia ás praias de aquem e de além-mar, porventura mais querida na terra virgem do que no chão exausto. E quem hoje reler A Americanisação do Mundo, do extraordinario jornalista que foi W. T. Stead, irá encontrar ensejos de aplauso e de admiração de uma larga previdencia, nas mesmas paginas por onde ha alguns anos passou os olhos estimulado apenas pela curiosidade de conhecer os sonhos e devaneios dos publicistas. Na bagagem militar dos Estados-Unidos da America que os seus navios desembarcam na Europa, vem envolvida uma outra e muito volumosa bagagem politica e moral. Tenhamos isso como inevitavel e feito em grande parte. Não se amiudaram os momentos em que as palavras do presidente Wilson teem sido o texto da politica dos Aliados e nelas juraram os estadistas encanecidos do velho mundo?!...
Destas divagações do espirito em busca de melhores dias, uma cousa se salva, porém, intacta—a condenação da violencia como processo politico. Em toda a hipotese chegamos á certeza—e essa certeza constituirá um poder politico de suprema importancia—de que para a prosperidade dos estados e das nações valerá sempre mais organisar do que armar; mais se fortalecem as nações pelo desenvolvimento e coordenação das suas relações internas e externas do que pela invulnerabilidade restrictamente militar. Nas nações como nos individuos, a saude politica, como a saude fisiologica, será mais um facto de equilibrio e ponderação das suas energias do que o desenvolvimento sumo de qualquer delas, seja qual fôr, força militar ou capacidade muscular. Se os Estados Unidos da America não nos facultassem elementos decisivos nessa demonstração, bastaria para nos induzir em semelhantes conclusões o confronto da soberba e prolongada expansão pacifica da Alemanha antes da guerra com os destroços de varia especie, economica e moral, acumulados pela cegueira da sua febre guerreira, desde o dia em que se julgou capaz de manter e acrescentar a grandeza por efeito e graça da violencia militar. O seu imperio e prestigio, cujo alargamento participava da natureza dos prodigios do engenho humano, dissipou-se em uma extensão incalculavel na hora em que, desprendendo-se de toda a simpatia pelos povos que a acolhiam em termos de fraternidade, preferiu a arrogancia da força á insinuação do amor, ou mesmo ao simples comercio das comodidades mutuas. Na hora em que a Alemanha ateiou o incendio infernal que prostrou a terra e os nossos corações na desolação, nessa hora brilhou com um novo e imperecivel esplendor e que o fogo não queima; nessa hora nos convencemos, subjugados pela dôr e esclarecidos pela experiencia, que a essencia da vida das nações, o que torna os seus povos eleitos ou condenados, dignos ou infames, felizes ou desgraçados, ou até mesmo ricos ou pobres, é a sua alma, a sua aspiração, a sua fé e a sua crença, o seu caracter moral e religioso, perante o qual o saber e a força são unicamente uma ilusão e uma insidia, uma traição tarde ou cedo destinada a conduzi-los á vergonha e á miseria, se um instinto salvador não lhes ensinou a disciplinar e conter esse saber e essa força na obediencia a uma aspiração superior.
A fortuna dos povos é em ultima analise questão moral, questão de psicologia, traducção do idealismo de cada um e de cada epoca, acidente positivo de uma alma.
Um publicista eminente da Inglaterra, professor da Universidade de Londres, o sr. L. T. Hobhouse, examinando as causas da guerra e as suas consequencias, assim como as possibilidades e probabilidades de uma paz imediata e duradoura, acentuou este aspecto essencial de derivação psicologica da fortuna das nações em dois livros[5], que, a meu vêr, são das lições mais lucidas e serenas que o tremendo conflicto provocou.
Segundo o seu pensar e dizer, a culpa da calamidade que pagamos caro, com rios de sangue, e da qual as gerações futuras terão de resgatar por meio de incalculaveis e prolongados sacrificios as nações modificadas e de todo empobrecidas, não foi o Kaiser nem a diplomacia, modestos colaboradores e interpretes de sinistros desvairamentos. A guerra proveio das tendencias e desordens da psicologia dos povos; as cogitações da filosofia e as inquietações morais e politicas correlativas que precederam a catastrofe e se amiudaram durante largo tempo antes da guerra, traziam claramente no ventre as convulsões em que haviam de rematar. Durante estes ultimos doze anos, imediatamente antes de 1914, juntaram-se e cresceram na Europa os elementos de desgraça—«um grupo de estados inflamados pela consciencia da sua nacionalidade, avidos de grandes presas, descontentes com cada distribuição, emancipados de todo o senso do direito pelos seus novos guias espirituais, endoutrinados em todos os sistemas eticos da violencia, prontos a sujeitar-se á disciplina e ás fadigas por amor de esmagar os outros, e, se a confiança agressiva abrandava, sustentados na sua propensão pelo medo dos rivais que eles despresavam e todavia provocavam. Esta foi a dilatada condição de combate moral que vimos tomar corpo em sua traducção fisica, nos factos.»
Aqueles que ha trinta anos saíram das escolas impregnados de naturalismos, lutas pela vida e ambições e processos politicos consequentes, sabem perfeitamente a que especie de direitos e deveres essa sciencia e essa moral conduziam, e o que logicamente preparavam á Europa, quando das bibliotecas e dos compendios universitarios, todos revestidos da dignidade do amor á verdade, passassem a ser trocadas em moeda corrente na pratica da vida publica e do comportamento individual, em toda a escala das relações com o proximo, ou o proximo fosse uma nação de alguns milhões de habitantes, ou um simples mendigo que se nos atravessasse na estrada e despedissemos por vencido e inferior, ou um mercador que nos acotovelasse no caes da alfandega e atropelassemos para dar a precedencia ao nosso fardo. A sciencia e a filosofia, legitimando toda a casta de soberba e avareza, acharam natural a brutalidade. Era o colapso absoluto da simpatia, do respeito, da caridade e da justiça, de todos os velhos bordões, apoiados nos quais tinhamos feito uma jornada honesta de mais de vinte e cinco séculos, para fundarmos as criações singulares a que chamamos a familia, a nação e a religião do amor dos homens.
Simplesmente, a sciencia e a filosofia, na rajada da invasão materialista, esqueceram, porêm, que a arvore tinha raizes e que, por muitos ramos que lhe partissem e queimassem, as raizes ficavam na terra, e ao primeiro alento da primavera novos ramos iam crescer do tronco e florir, em tudo semelhantes aos antigos. Esqueceram que as nações, como a nossa alma, teem uma historia e instintos alimentados e avigorados no correr dos tempos, e não haverá forças de raciocinio nem impetos de destruição que os arranquem do seu temperamento; esqueceram que a nossa civilização tem um caracter e esse caracter, residuo da fermentação de uma longa vida, constante em sua essencia, é que afinal ha-de marcar-lhe a linha de progresso atravez de todas as contingencias.
Mas não o esqueceu quem, desconfiando das indicações dos tubos de laboratorio e de todas as estreitezas que muito vaidosamente chamamos sciencia, procurou uma mais larga e exacta concepção da vida no exame da consciencia e nos livros do passado, aí descobrindo as razões do presente e as possibilidades e probabilidades do futuro. Para esse, o passado assegura-lhe que «as civilizações não morrem por calamidades externas, mas quando no intimo se lhes finou a alma. A civilização romana caíu, não porque os invasores eram mais fortes, mas porque no seu coração estava fraca.» «Antes disso, o genio do helenismo morrêra nas longas guerras intestinas que paralisaram as cidades livres e lhes arrancaram o coração daquela vida civica que era simultaneamente a fonte de inspiração do poeta, do artista e do filosofo.» O que criou o conflicto da Alemanha com as nações do Ocidente e com a Russia, foi uma divergencia de alma, porventura um atrazo. «Na realidade, a Alemanha pouco participou daquele novo impulso democratico, humanisante, que se ergueu na Inglaterra do século XVII e ainda mais vivamente na França do século XVIII. «Por differentes vezes e por diversos lados, desde a Holanda do século XVI até á Bélgica de 1914, as nações da Europa ocidental e os povos que delas vieram, contribuiram para este espirito de liberdade, democracia e humanidade. Povos pequenos e grandes deles tiveram a sua parte; pensadores, homens publicos e filantropistas para aí deram o seu quinhão. Mas este espirito é a criação do Ocidente, e foram elementos da sua escola que em maior ou menor gráu levedaram a estrutura politica e social da Europa central e oriental.» «Tocam tambem a estrutura da sociedade alemã, mas não se tem ponderado suficientemente que o corpo principal do pensamento alemão se conservou alheio a este movimento desde o começo do século XIX. Não foi assim ao principio: Kant, o maior dos pensadores alemães, manteve uma inteira simpatia com o humanitarismo do século XVII, e Fichte foi um idealista cujas lições representavam uma força de peso a favor da liberdade na luta com Napoleão. Mas, com o advento da filosofia hegeliana, o pensamento academico na Alemanha associou-se, e cada vez mais, com os poderes estabelecidos.» «O liberalismo que havia na Alemanha morreu em 1848. A Alemanha fundou então uma cultura propriamente sua, baseada em uma noção do estado e das suas exigencias, do individuo e dos seus direitos sobre o resto do mundo, que a civilização ocidental repudiava.»
«Ora, olhando pelas nações do mundo, com excepção da Alemanha, não vemos sinais alguns de quebra de fé naqueles principios. Pelo contrario, vemos que as nações, uma a uma, atentam no facto de que são aqueles principios que estão em risco. E, se assim é, não se trata de uma civilização mortalmente enferma por falta de crença nos seus principios, por falta de confiança em si, pelo pecado mortal de se atraiçoar.»[6]
De facto, nas trevas da catastrofe sentiu-se desde o começo o poder de uma aspiração que vem de longe e não se engana no rumo; sentiu-se a obediencia a um evangelho espiritual e moral, de que a politica com o seu cortejo de ambições e degradações será apenas um turvado espelho, um acidentado esforço de realisação, sujeito aos vaevens de toda a traducção concreta dos sonhos de nossa alma, da de cada homem como da de cada raça e da de cada momento da civilização, ora deformada e oprimida por virtude dos seus combates, ora vitoriosa e prospera, mas afinal, em derradeira sumula, invariavelmente progredindo e progressiva. Um alto e profundo idealismo determina muito daquilo que, no primeiro movimento de repulsão e de horror perante a guerra, nos poderá parecer sómente a assolação de uma torrente de abjecções e vilanias.
Clutton Brock, cuja autoridade de pensador cresceu com as considerações de elevado caracter moral que publicou sobre a guerra, incita o seu país a fortalecer-se na disciplina de uma filosofia, de que o acha desprovido.
Por esse motivo e com o fim de traçar os fundamentos essenciais dessa renovação espiritual escreveu um opusculo[7], onde pretende que uma das grandes vantagens da Alemanha na guerra foi encontrar-se robustecida pela insinuação organica de uma filosofia que inteiramente lhe repassou todas as actividades—uma filosofia má, pervertida, conduzindo ao crime em vez de conduzir ao bem, mas, sem embargo, uma filosofia, a concepção de um sistema das relações do mundo e dos homens, crente na sua justiça e nobreza, e só por isso uma fonte incomparavel de energia, uma arma formidavel de combate, senão a mais eficaz das armas de combate, aquela sem a qual todas as demais são frouxas. E isso teria faltado aos Aliados.
Os alemães «fizeram um estado que é um perigo para o mundo, porque o fim desse estado é ruim; mas o estado da Inglaterra não tem um fim. Usaram todas as suas virtudes com um fim material, e não viram que ele era material; mas nós (os inglêses) deixamos as nossas virtudes ao acaso. Se os alemães veem no seu país um absoluto falso, nós não temos absoluto algum, nem verdadeiro nem falso. Ha gente, e não é só alemã, que crê que a cultura alemã póde salvar o mundo e que por isso anseia por uma vitoria alemã. Para ela, a cultura alemã é qualquer cousa positiva, qualquer cousa na qual os homens se esqueceram de si por amor do estado, e, procedendo assim, se erguem acima das suas forças naturais; e crêem que os alemães podem ensinar-nos todo este segredo de abandono do interesse meramente individual, de modo que todos nós faremos a nossa obra tão sistematica e completamente como os alemães. Mas em nós não encontram inteiramente nada de positivo, e parecemos-lhes combater meramente pelos metodos do passado, da mão á boca, e com esses metodos. Não teem razão, sem duvida; combatemos, pelo menos, contra um egotismo que o mundo nunca suportará, seja qual fôr a limpeza que ele possa trazer; porque com essa limpeza impõe a escravidão. Mas carecemos de tornar bem claro ao nosso entendimento que combatemos por um abandono do interesse puramente individual muito mais alto e completo do que o que prepondera no espirito alemão. Os alemães põem o valor da Alemanha acima de todas as cousas; mas nós, o que é que nós aprendemos a apreciar acima de todas as cousas? Toda a nossa sociedade sofre da falta de valores, de uma desvairada mundaneidade que nem sempre está contente comsigo. Este descontentamento e este desvairamento envolve esperanças, mais esperanças do que a intencional perversidade da Alemanha; mas nem o descontamento nem o desvairamento são bons só por si, e não conduzirão ao quer que seja, se nós não formos capazes de encontrar valores, e os justos valores.»[8]
Na verdade, embora a afirmação categorica de que carecemos de uma filosofia da vida se ache singularmente moderada onde o exame do moralista reconheceu que «carecemos de tornar bem claro ao nosso entendimento que combatemos por um abandono do interesse puramente individual muito mais alto e completo do que o que prepondera no espirito alemão», a acusação não será de admitir-se em toda a extensão. As suas proprias palavras a combatem, confessando que a questão é de clareza de entendimento e de consciencia, e não de escassez de causa intima ou ausencia de uma filosofia fundamental.
Essa filosofia, que o critico quereria sentir na gente da sua patria, de facto subsiste desde já e activamente. Trazemo-la no sangue, neste sangue que é o legado de muitas gerações, e no qual se fundiram e consubstanciaram, em uma tenacissisima aspiração, aquela liberdade que a Grecia sonhou, a ordem que Roma fundou, e, coroação maravilhosa do pensamento politico constituido pela antiguidade greco-romana, o nacionalismo acalentado pela Renascença, movendo-se e medrando dentro daquela catolicidade que uma vez nascida do poder e governo do imperio romano viveu na igreja catolica, prevalecendo-se de um momento de unidade religiosa, e hoje se prolonga nas aspirações do internacionalismo, fundando na comunidade humanitaria o que algum tempo foi resultado da unidade religiosa—sem muito querer persuadir-se, diga-se de passagem, que, ou se fale em nome de Deus, ou em nome da Humanidade, ou se invoque a Razão, ou nos inflamemos na Fé, a conclusão moral é em toda a hipotese una e invariavel, e o racionalismo e o cristianismo juntam-se na mesma concepção da ordem humana, nas mesmas liberdades e responsabilidades, nas mesmas aspirações e deveres de igualdade e amor.
De filosofia não carecemos, realmente. Temos enraizada no peito toda aquela, e profundissima, que a tradição e a experiencia de muitos séculos nos legaram. O que nos afasta da Alemanha não é a mingua de uma razão intima, da mesma natureza daquela que a alenta e move; o que nos afasta é apenas o grau de consciencia e a forma pratica correlativa em que o mundo latino e o mundo germanico sentem essa razão e os termos em que lhe obedecem. A Alemanha cultivou e definiu a sua filosofia, aparentemente oposta de todo á nossa, em circunstancias apontadas por Hobhouse nas passagens que acima traduzi, mas entretanto nós, descuidadamente, sem nos esforçarmos por definir e sistematisar os motivos do nosso esforço, fomos vivendo a nossa vida e seguimos por instinto o nosso caminho, sem o errarmos, não obstante não preguntarmos para onde iamos e porque. Ao fim, quando o conflicto nos iluminou tragicamente a jornada, é que vimos onde estávamos e que especie de filosofia nos tinha conduzido até ali. Claro está que mais seguros se encontravam em seus baluartes os que com mais paciencia e metodo os haviam edificado; mas nem por isso os nossos reductos deixaram de se mostrar inexpugnaveis. Se o não fossem, se uma filosofia muito diversa da que animou a Alemanha e lhe deu força e coesão não nos inspirasse, se aspirações muito diferentes não nos arrebatassem, a guerra ter-se-hia reduzido a uma marcha triunfal dos exercitos teutonicos, portadores de um genero de civilização pelo qual todos os povos da terra estavam suspirando, ansiosos por abdicarem das suas aspirações ingenitas no seio do povo eleito. A invasão alemã teria sido uma benção recebida de joelhos e com hinos de louvor; não significaria a violencia, para nos libertarmos da qual sacrificamos vidas e bens, o melhor da nossa riqueza e da nossa alegria, e comprometemos por largos anos a sorte dos que nos vão suceder e nos hão-de herdar encargos tremendos.
Ainda mais. Não só traziamos no peito uma filosofia e lhe obedeciamos, embora o prolongado habito de a seguir nos tivesse em grande parte dispensado de lhe reconhecer e cultivar intencionalmente o poder, mas o desenvolvimento dessa filosofia não deixou de se operar de continuo e nos termos da sua essencia. E chegados ao momento de dar contas do passado no presente, de revelar as ideias e paixões em que nos criamos e mostrar pelos resultados ultimos a sua legitimidade, verifica-se que temos sido fidelissimos servos dos principios da nossa civilização, bastas vezes contrariados e oprimidos pela adversidade do destino mas sempre renovados, e ressurgidos e maiores, pela constancia da nossa crença.
Para compreendermos como atravez de todas as obscuridades e reacções de uma fermentação mental e material prodigiosa houve um progresso, uma logica, uma direcção e um adiantamento em uma linha invariavel, bastará considerarmos esta lenta renovação psicologica que graduou em diferente altura o valor militar e o valor do trabalho, por virtude da expansão dos germens inoculados em a nossa organisação pelo pensamento democratico tradicional. «Já aprendemos», disse W. J. Bryan, antigo secretario de estado nos Estados-Unidos da America, «que é mais vantajoso alargar a terra que possuimos, duplicando-lhe a producção, do que acrescentar-lhe por conquista uma nova área. ... Ha mais inspiração em uma vida nobre do que na morte heroica.» Entre tantas cousas que as convulsões politicas e militares destruiram e arruinaram no correr dos séculos, sempre cresceram aquelas que o fogo não queima, certa essencia espiritual, a razão de ser e proceder das sociedades, que inflexivelmente as encaminha, quer na paz, quer na guerra, ainda mesmo quando a sua acção se ignora ou parece aniquilada para sempre.
Heroismos de hoje, todos constituidos pela força de servir e criar, expressão ultima de uma actividade de amor e de uma compreensão da virtude dos homens, lentamente elaborada dos germens da nossa civilização, vão a eclipsar as glorias de ontem, inflamadas no impeto de conquistar e no arrebatamento de esmagar e vencer, paixões do odio, por vezes fecundas e grandes pela coragem e até pela isenção que significaram, mas invariavelmente barbaras pela crueldade dos impulsos, inseparavel da sua força intima. O trabalho que algum dia foi vileza e escravidão e arrastou o carro dos capitães de armas em seus triunfos, converteu-se agora em uma religião, e é ele que pouco a pouco vae subjugando os capitães de armas ao serviço da sua defesa e culto. Emquanto as balas cobriam de cadaveres as trincheiras de Verdun, fumegavam as fabricas no seu labor sob a metralha, os arados sulcavam o chão sem temor da morte que pairava sobre as leivas, e a consciencia duvidava, sem saber a quem mais glorificar e engrandecer, se aos que sucumbiam heroicamente nas batalhas da morte, se aos que, não menos sagradamente, ofereciam o peito e o sangue nas batalhas da vida. Alguma cousa sentimos, senão mudada, pelo menos crescida, por certo apenas crescida, visto que nasceu comnosco, com a nossa civilização, em todos os seus modos a encontramos vivaz e alargando-se, a dizer-nos que, «é tão digno ser ferido ou morto trabalhando pela saude e bem-estar de uma nação como combatendo por ela.»[9]
«A gloria militar só pode ser iniqua. Por cada heroi que ela regista, quantos morrem desconhecidos, e todavia tão grandes que nem sequer tiveram a ideia da gloria... O heroi maior é o que não conhece o seu valor. Morre sem a si mesmo se conhecer, desconhecido dos homens, e a terra absorve o seu corpo anonimo. Mas quanto é grande a grandeza de ser humilde! O soldado mais humilde é o maior, aquele que se submeteu á regra até á morte, sem imaginar que é notavel o que ele fez. Faz o que tem de ser feito. Faz o seu oficio de soldado. A pura grandeza do homem reduz-se sempre a bem fazer o seu oficio. O que é necessario, não é o entusiasmo; é a consciencia profissional. O entusiasmo é apenas uma desigualdade de temperamento.»
Os combates que o trabalho combateu em França durante a guerra, igualam, onde não sobrepujam, toda a sua estupenda gloria militar. «Através da morte, através do fogo, os trabalhadores consumam tenazmente a sua tarefa. Este heroismo do trabalhador encerra uma grande esperança porque a força eterna da nação reside no trabalho. A guerra não é mais do que uma desordem momentanea. Sempre ha-de acabar pelo regresso ao trabalho.» «O campo, o trigo, o moinho conteem uma invencibilidade que a guerra não subjugará. Nem as ceifeiras tiveram medo dos obuses, nem o moleiro teve medo de servir de alvo. Sob a violencia passageira, a terra prossegue na sua eternidade, e vemos as mãos das ceifeiras ligarem as paveias com um gesto que é sempre o mesmo desde o começo do mundo. Ha na humanidade forças que a colera do homem nunca será capaz de prostrar, e é delas que se alimenta. Que poder domina tudo aquilo? O soldado sabe vencer o soldado. O trabalhador sabe vencer a morte.» «Ha um patriotismo guerreiro que é sublime, porque afronta a morte. Todos devemos inclinar-nos perante ele. Ha um patriotismo trabalhador que é ir para o trabalho.»[10]
Esse patriotismo que combate imperturbavel os combates do trabalho e que o critico comovido contemplou com orgulho na sua patria, esse foi e é invulneravel a toda a injuria do fogo, e, sentindo-o crescer na nossa alma e através da historia, sentindo-o avassalar-nos a consciencia, ilumina-nos e alenta-nos a esperança de que, sendo a maior força e o supremo padrão da gloria humana, só a esse está reservado todo o imperio em que as nações e as raças viverão para melhores destinos. Isso que permanece sob as cinzas, e não as cinzas que o vento leva, isso será o sustento e a razão de ser da humanidade. É mais do que uma esperança; é uma certeza e a mais vivificante das muitas que a guerra deixa erguidas entre os seus destroços.
O scepticismo desdenhoso, mais propenso a lidar com a miseria, de que faz seu lucro, do que a exaltar-se em visões que não lhe matam a sua fome de prazeres caracteristicos, está pronto a advertir-nos de que pouco importa que nos homens haja impulsos eternos de robustez, paz e nobreza. Outros, e de baixeza, os combatem; nestes temos de confiar, e destes havemos de nos socorrer, porque sempre os encontramos arrogantes e muitas vezes os vimos dominar, e sempre lhes sentimos a crueldade atroz. Esse scepticismo não desistirá de procurar convencer-nos de que toda a aurora de justiça e amor conhecida dos homens, e muitas teem sido, é invariavelmente entenebrecida por uma ruindade ingenita indomavel que logo a confunde em uma noite cerrada. Não ha que esperar paraisos da bondade humana; sempre existiu e nunca governou o mundo. É isso o que o scepticismo nos assegura, tal qual como se nos dissesse que não vale a pena semeiar a floresta nem crêr no seu crescer, porque sempre houve tempestades e as tempestades derrubaram muitas arvores, e sempre houve vermes e os vermes muitas outras corromperam, ás vezes das mais frondosas e melhores.
Em socorro dos scepticos e da sua filosofia comoda, isentando de muita obrigação, esforço e dever, viriam os homens praticos, esses de que Cristo foi a negação, quando julgou pratico morrer na cruz para ressurgir em espirito, no mais activo e criador espirito da humanidade.
Os homens praticos não se convencem com semelhante loucura, e esses pretendem que o unico modo eficaz de salvar a humanidade é organisar a sua vileza em vez de invocar a sua nobreza. Fazendo o inventario comparado das guerras e das aspirações de paz, acharão que as guerras teem prevalecido sobre as aspirações de paz e, porque assim aconteceu, não poderá acontecer diferentemente. No seu obstinado entender, a guerra para ser fecunda terá de preparar novas guerras, cogitando de continuo na força futura dos exercitos e no seu poder. Tudo o mais é utopia. Homo hominis lupus. A unica esperança de sustentação dos homens é avigorar-lhes as queixadas, afiar-lhes os dentes e banir-lhes do peito a piedade. Devorar e ser devorado será o ciclo infernal em que a politica tem de penar. Amar e ser amado é ilusão contraria á natureza e, mais do que perigosa, mortal.
Nem lhes abalará a firmeza o proprio testemunho da Historia que eles invocam e que aliás demonstra o progressivo desenvolvimento da boa vontade entre os povos e as nações, um declinar constante de aversões e incompatibilidades, até mesmo entre aqueles que ainda ha pouco eram inimigos e cruzavam armas. No fundo do desenvolvimento politico das sociedades humanas ha um alargamento e fortalecimento constante das suas faculdades de afeição, mas, como esse desenvolvimento é um facto de evolução e conquista gradual e não uma revolução ou um fenomeno de cataclismo, nunca poderá isentar-se totalmente de um remanescente de barbaria e crueldade que só progressiva e lentamente decáe. E porque esse remanescente persiste, o scepticismo, e a avareza, ambições, e até mesmo certo heroismo, que todos são os seus acolitos, exaltam-se na ilusão de que os homens não mudam; e por isso fazem da má vontade reciproca entre os povos uma lei e um sistema politico e uma moral publica. Mas, sem embargo, os factos frequentemente desrespeitam as suas profecias tenebrosas. Quando terminaram as guerras napoleonicas, todo o mundo imaginou que a paz era apenas uma tregua entre a Inglaterra e a França; não tardaria a renovação dos combates entre estas duas nações. Um dia, um homem publico eminente da Inglaterra repetia esses temores diante do duque de Wellington, e o duque, respondendo-lhe, aconselhou que «se mais tarde ou mais cedo tinham de entrar outra vez em combate, fizessem por todos os meios que fosse o mais tarde possivel.» O proprio guerreiro desejava a paz e suscitava uma politica conforme os seus desejos; e o futuro deu-lhe razão. Guerra não tornou a haver entre a França e a Inglaterra. Passados cem anos, encontramo-las aliadas. A solução pacifica mostrou-se mais pratica do que a solução belicosa.
Entre a maior violencia das batalhas ouvirão agouros de paz aqueles que os quizerem ouvir. Ao fim de dois anos de guerra entre a Inglaterra e a Alemanha, na hora de suma inimizade, o professor Munsterberg, alemão de uma alta autoridade, lembrava que a liberdade dos mares poderia ser eficazmente assegurada por uma aliança da Inglaterra, da Alemanha e dos Estados-Unidos da America. E a imprensa inglêsa, respondendo-lhe, abstinha-se de dar opinião sobre a justiça e praticabilidade de semelhante insinuação, advertindo apenas que as incompatibilidades suscitadas pela guerra eram um obstaculo formal a essa solução—o que equivale a dizer que, apagadas essas incompatibilidades, não será talvez uma utopia o alvitre. Pelo visto, o obstaculo é apenas de natureza moral, outro não ha de natureza politica ou economica. Não será de todo ilegitimo pôr esperanças em hipotese tão ousada, sobretudo se nos lembrarmos de quanto foi breve a inimizade entre a França e a Inglaterra, e se cremos, com muita boa gente, que, se não houvesse esse espinho da questão da Alsacia, talvez a Alemanha e a França fossem hoje aliadas em vez de inimigas, apesar da guerra de 1870.
Depois, a fatalidade da propensão logica insistentemente pregunta porque é que o internacionalismo, sendo um facto culminante do nosso tempo, não ha-de estender-se á politica, ou melhor, como é que a politica ha-de conservar-se alheia ao seu espirito e acção. Internacionalisou-se a sciencia, a arte, a religião, o capital e o proprio comercio, apesar das suas infinitas rivalidades; não se concebe que este impulso exclua a politica. Pelo contrario, é sabido até que ponto o internacionalismo penetrou nas oficinas, não são segredo nem pouca cousa as tendencias de solidariedade que por lá se insinuaram e medram. Admitamos que da oficina trasbordem e se espalhem nos campos, onde a sua disseminação tem de ser lenta por virtude da inercia caracteristica do espirito rural, sempre moroso em seus movimentos, cautelosamente conservador, mas nem por isso menos tenaz nas inclinações. E mais não carecemos para sinal de tempos novos, mais ou menos proximos, talvez mais proximos do que remotos, se considerarmos a intensidade da actividade mental dos nossos dias, a renovação da consciencia que ela importa, e a ordem social a que essa nova consciencia conduz inevitavelmente.
O progresso, sendo como é unicamente fundado na fortaleza do espirito e no seu desenvolvimento incessante, é indestructivel em sua constituição e nos seus orgãos, em toda a amplitude da sua expressão e expansão. O que nos dá a ilusão de retrocesso ou de irreductibilidade da barbaria, são as desordens de funcção, não é uma lesão essencial organica, que não existe; são as enfermidades acidentais, passadas as quais as sociedades voltam a ser o que eram anteriormente ao acidente morbido—tal qual o homem doente recuperando o equilibrio normal quando findou o delirio da febre, reatando a vida no ponto em que a tinha no momento de ser perturbada, naquela edade, estatura fisica e capacidade mental que lhe eram proprias e caracteristicas. Nem porque adoeceu e se curou voltará o velho a ser moço e o adolescente ressurgirá criança. Uma identidade especifica se mantem com seus momentos de eclipse, ao fim vitoriosa de qualquer opressão passageira que por acaso sofreu. E assim o entendeu um esclarecido internacionalismo, pela voz dos seus chefes mais autorisados insistindo em nos assegurar que não renunciou, nem tem razão para renunciar, ás suas aspirações e esforços. Negando que a guerra o houvesse enfraquecido, tira das responsabilidades que lhe exigem e dos feitos que lhe atribuem a demonstração da sua força e vitalidade. As acusações de falencia com que a diplomacia dos politicos de profissão procura estigmatisa-lo e afasta-lo do caminho, no qual essa diplomacia serve as cobiças dinasticas e capitalistas, seriam em ultima analise um tributo á importancia que lhe assiste nas relações entre os povos e ao alargamento e amplitude progressiva do seu poder. Confessando que o nacionalismo agressivo teve um impeto de tresloucada ambição envolvendo nas suas paixões o mundo inteiro, crê cada vez mais profundamente na missão de paz que o zelo profetico dos seus mestres e o trabalho paciente dos discipulos tem exercido nestes ultimos cincoenta anos com tão religioso ardor como manifesta eficacia. As dificuldades que o assaltavam e os transes por que passou no desvairamento momentaneo dos seus apostolos e soldados, iludidos pela astucia dos que governam, não lhe abalou o fundamental optimismo, proprio da fé com que prosegue nos seus combates e vitorias.
Depois ainda, esta ultima guerra veio demonstrar com uma clareza terminante que já não ha neutrais possiveis nos conflictos das civilizações. Não se arrasaram fronteiras nem será possivel, e muito menos necessario, arrasá-las, porque a natureza e a historia as ergueram por longos séculos, senão para sempre; mas cresceu a intensidade de transito através dessas fronteiras, e com ela cresceu a simpatia mutua e a comunhão politica dos que nelas transitam. As relações dos povos estreitaram-se de tal modo que, se uma calamidade flagelou uma nação, todas as demais sofrem nos seus interesses e afeições. Ora por Deus, ora por Satanaz, ora por amor do espirito, ora por ambição mundana, a terra vai a converter-se em propriedade de um possuidor unico—o homem, um só e não muitos, como no passado encontravamos e distinguiamos, sobretudo quando os viamos em combate. E, se o possuidor é um só e a propriedade se acha portanto indivisa, o conflicto é impossivel onde a unidade organica se tornou essencial.
A propria insolvencia da guerra pelos feitos militares, que em mais de trez anos de combates através de mil esforços, vitorias e derrotas não foram capazes de dar solução ao conflicto e, pelo contrario, demonstraram a sua inanidade como processo de solução dos antagonismos em oposição violenta, isso que fez que se chegasse á conclusão de que as nações teem força para fazer a guerra, mas não teem força para fazer a paz, isso significa um golpe profundo na doutrina da confiança militarista. Sobretudo a vitalidade dos interesses economicos mostrou-se superior a toda a ruina por mera violencia. Por seu poder e relações não tiveram força bastante para evitar a guerra, mas ficou de uma vez para sempre certo que a economia das nações, fruto da paz, e da inteligencia e dos afectos, não póde ser arrasada pela guerra. Essa economia subsiste apesar da guerra e durante a sua propria acção; não ha exercitos que possam com ela, e nem a dos aliados nem a dos imperios centrais fraquejaram e deram sinais de se submergir nesta pavorosa catastrofe, constituindo por essa maravilhosa resistencia uma prova formidavel do caracter de ociosidade cruel de todas as guerras na fortuna dos povos, que vivem de pão, não vivem de polvora. A arte de ser util emancipou-se das supostas necessidades de violencia, que algum tempo a fascinaram. «A violencia seduz porque nos dispensa de um esforço de reflexão, de um trabalho de razão. Porque é necessario um esforço para desfazer um nó. É mais facil cortá-lo.»[11] Mas desde que os homens e as sociedades chegaram á idade da razão, não só a sua honra mas tambem os seus interesses temporais os induzem a esperar da razão o que erradamente pediam á violencia.
Debalde essa tendencia, de que resulta a unidade de aspiração dos povos e o consequente declinar das guerras, tem até hoje procurado orgãos adequados que lhe sirvam eficazmente as funcções. É certo. Preponderante apenas em um mundo moral limitado, carece ainda da largueza de disseminação que lhe ha-de assegurar a consistencia, embora essa disseminação progressiva se mantenha na historia das sociedades cultas com uma constancia manifesta. Muitos tratados e tribunais de arbitragem, muitos compromissos de paz se reduziram a pedacinhos de papel, e logo se inflamaram e arderam mal se ouviram clarins de guerra. Outros, porém, se mostraram consistentes e rebeldes ao fogo em iguais circunstancias. Tambem é certo.
Aqueles que se rasgaram ou arderam, foi porque, significando unicamente uma esperança e uma tendencia, uma ambição e um fim, ainda não eram de facto uma lei, embora escritos fossem. Uma lei, para o ser com força executiva e real, carece de um estado de espirito em que se haja fundado e estabelecido antes de se estampar e consignar na definição verbal e nos contractos selados. Essa é a razão pela qual não se cumprem muitas leis que já foram cumpridas, e ainda não se cumprem outras que já foram apregoadas, e vigoram algumas que jámais foram traduzidas para o papel. É que as leis, antes de o serem e para o serem, hão-de viver no mero estado de aspiração do espirito; sómente são leis e prevalecem emquanto as aspirações dos povos as querem e confirmam. Como poder de criar o quer que seja nas sociedades e na consciencia dos homens, a lei escrita, nacional ou internacional, é de um valor nimiamente hipotetico; a lei será, muito mais do que isso ou muito diferentemente disso, uma verificação e explicação daquilo que natural e expontaneamente se criou. Quando vem antes da criação que pretendem representar, ou quando lhe sobrevivem, as leis vergam, cedem e anulam-se ao mais leve movimento contrario.
Ora, em materia de guerra entre os povos, as propensões pacificas, que são aliás uma força manifesta e crescente, não vão tão adiantadas que possam constituir-se em tribunais e sancionar-se em sentenças. Foi esta antecipação do desenvolvimento de um principio e de uma alta realidade que, mostrando-se o que na realidade era, revelando a fragilidade propria de uma constituição incipiente, deu a muitos a ilusão de que esse principio e essa realidade não existiam em absoluto e não eram uma força em acção, e, porque acontecera que se mostraram incapazes de afrontar as injurias de um momento adverso, jámais poderiam subsistir.
Quizemos talvez começar a casa pelos telhados, em vez de lhe dar principio pelos alicerces. E, muito provavelmente, o radicalismo socialista acerta quando, reconhecendo que o internacionalismo organisado anteriormente á guerra foi impotente para a conter, explica o desastre e confia no futuro, dizendo que, «emquanto os governos andarem divorciados dos povos, emquanto eles forem autocracias e plutocracias, emquanto os homens forem governados pela corrupção, pela violencia e pelo engano, não haverá garantia real de que a paz, mesmo quando nominalmente observada entre as nações, produza os frutos ou assegure as liberdades da paz de Deus. Emquanto os povos não dirigirem a politica dos governos, emquanto a democracia não for uma realidade, não haverá paz permanente, externa ou domestica; e, quando esse dia chegar, pouca necessidade haverá de uma força de policia internacional.»[12]
Se assim é, e a observação dos factos decorridos nestes ultimos anos de profundissimas convulsões sociais e progressiva consciencia das suas origens e remedios de todo confirma a esperança dos apostolos da renovação politica do mundo, se assim é, não podem vir longe os tempos de paz.
Porque a vitoria da democracia, ainda que na revolução da Russia não se houvesse mostrado triunfante ou não fosse carregação inevitavel dos navios vindos dos Estados-Unidos da America, republicanos e livres pensadores, afeitos incorrigivelmente á liberdade politica e religiosa, e naturalmente propensos a comunica-la aos povos aos quais se unirem por amizade, a vitoria da democracia tornou-se a sumula deste terramoto que foi a guerra de 1914. Obedecendo a impulsos politicos originarios da civilisação, mantidos e medrados em uma evolução muitas vezes secular, grande legado das cogitações filosoficas do século XVIII e da abundantissima experiencia do século XIX, a democracia é da essencia constituicional do latinismo e de quanto ele de perto ou de longe criou ou tocou, sem distincção de gentes ou de latitude para onde se transportasse. Diferentemente se organisará conforme as necessidades e tradições e acidentes da existencia dos povos sobre os quais impera; poderá ser aqui um sistema de fragmentação comunista, acolá a constituição de centralisações colossais, e além o livre jogo do individualismo; poderá ser na estrutura e na hierarquia das funcções uma monarquia, ou uma republica, ou um imperio, uma arregimentação despotica das plebes ou a associação livre das actividades sociaes. Mas em todo o mundo se tornou a tendencia irrefragavel e invencivel da constituição dos governos para servir os povos e a recusa indomavel da subjugação dos povos para servir os governos. No espirito das comunidades decaiu a ideia de serem possuidas e a obediencia correlativa, e a essa ideia sobrepoz-se, vencendo-a e condemnando-a, o pensamento de possuirmos a terra em comum e em comum obedecermos, não áqueles a quem a fortuna ou a audacia deu a força de mandar, mas sómente áqueles a quem a consciencia deu o talento e a obrigação de ser util e de proceder isentos de interesse proprio, em beneficio do proximo. Uma democracia, aquela democracia que persiste, cresce e ha mais de vinte séculos ressurge de cada revez mais poderosa do que era antecedentemente, «não é uma mera forma de governo. Não depende de urnas ou de leis de sufragio popular ou de qualquer maquinismo. Isso é apenas o seu adorno. A democracia é um espirito e uma atmosfera, e a sua essencia é a confiança nos instintos morais do povo. Um tirano não é um democrata, porque crê no governo pela força; como não é democrata o demagogo porque crê no governo pela lisonja. Um país democratico é um país onde o governo tem confiança no povo e o povo tem confiança no governo e em si, e onde todos se unem na fé de que a causa do seu país não é materia apenas de interesse individual ou nacional, mas está de harmonia com as grandes forças morais que governam os destinos do genero humano.»[13]
Essas forças morais que governam a humanidade, não as queima o fogo. E essas são as que hão-de fazer a paz, a presente como a futura, e a futura mais robusta do que a presente.
Uma noite, em uma igreja, ficaram alguns soldados de sentinela a guardar a urna de uma eleição politica.
Havia no altar mór dois anjos magnificos, empunhando tocheiros, e a sua grandeza e resplendor dominavam o templo.
Para encurtar o enfado da vigilia, os soldados vestiram de guerreiros os anjos. Poseram-lhes aos hombros o capote e a mochila, cingiram-lhes as correias, ocultaram-lhes os cabelos no capacete e trocaram os tocheiros por carabinas. Ao fim, alguem deu a voz de «sentido», militarmente, e a companhia perfilou-se em continencia.
Havia alguma cousa de escarneo sinisiro no gracejo. Era um templo transmudado em caserna, a dureza expulsando a graça e a crueldade banindo a piedade.
Mas, quando amanheceu, o sonho de Satanaz havia passado, e os anjos, recuperando a liberdade das suas azas, de novo se ergueram áquela gloria que o menospreso desconhecera e ocultára sem poder destrui-la, porque era de sua condição indestructivel. Até sob o manto da injuria persistira.
Não é diferente desta a historia da humanidade—desta humanidade á qual todas as nações pertencem e que os tempos mostraram susceptivel de nobreza, de fé e de amor, de quanto constitue a gloria dos anjos. Póde um impulso impio perverte-la e tranfigura-la por um momento. Muitas vezes o tem feito e não poucas terá ainda, por certo, de o repetir. Mas a manhã sempre volta, porque o mover dos astros não cessou e, quando volta, logo fulge a gloria dos anjos. Nunca o fogo a queimou.