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Rompeu clara a aurora de dezembro. O vento da manhã desce dos montes difundindo a secura sôbre a terra. As neblinas alvas carinhosas, ásperamente proscritas pela briza que do oriente corre a perseguí-las, mal se suspeitam longe sôbre o mar, exiladas do rio em que vogavam, brandamente cobrindo as suas águas, e banidas do vale onde habitavam, tranquilas, seguras, resguardadas no repouso do prado entre os salgueiros.

Um translucido céo vem acordar a mais pequenina forma ignorada. É clara a montanha e o pinheiral, e a inquietação da água da levada e o ribeiro profundo em que ela amaina as serenadas ondas passageiras. É clara a encosta pedregosa, inculta, e a aldeia e o sobreiral em que se abriga. E os carvalhos da estrada e os pomares e a lhama prateada da oliveira, e o comoro espesso e a madresilva que nele tece a rede dos seus ramos, e o medronheiro verde reluzente, e o musgo do valado e os seixos brancos, esmaltando a charnéca escurecida pelas hastes das urzes lutuosas, todos teem seu quinhão na luz dos céus, de todos êle disse a formosura através do cristal dessa manhã, dessa aurora sem nuvem de dezembro. Aos olhos deslumbrados desvendou quanto a terra criou de mais altivo, quanto é soberbo, grande e magestoso, e quanto de mais humilde ela gerou, quanto timidamente se escondeu nas prégas mais sombrias do seu manto. Em seu triunfo a luz os tem igualados; um só esplendor os enaltece.

E entre tanta riqueza que ela ostenta, em tão pura glória fascinando, quis estranho mistério que a esquecesse e, rebelde ao encanto, apenas visse e sentisse e amasse, subjugado, a rosa solitária mal aberta, derradeiro murmurio do rosal que penitentemente vai sofrer sua nudez sevéra do inverno. Só ela me prendeu e cativou, só por vê-la adorei a claridade e tudo o mais senti como dormindo, distante, inerte e frio, silencioso.

É que, talvez, meu pobre coração e o ardor que o consome e êle alimenta, sejam pouco e não bastem para adorar a doce palidez de uma só rosa!… É que, talvez, prendido só à rosa e transportado todo em seu perfume, nem assim lhe pagou, mesquinho e misero, o tributo do amor que êle lhe deve!…