XXV
Subi ao cerro agreste onde encontrei a morada da morte. Estava aberta a meus pés a sepultura e cavado na rocha o ataúde.
Em torno Deus espalha a formosura, alvorôço o tumulto da beleza que me engrandece a alma e alegra os olhos:—rosais e sebes repartindo a terra, os campos, os caminhos e os vilares, como se aroma e viço fossem donos, soberanos doadores munificentes e ríspidos juizes dos bens que a terra cria;—os lares encastelados nas encostas, fumegando, estrelas de humildade e caridade recatadas, acesas entre os colmos;—seáras e pomáres;—as ermidas orando piedosas, a interceder por nós lá nas alturas, rogando a Cristo e a sua Mãe Santissima, e aos bemaventurados que a sonharam e para a sua presença renasceram que a ama-los nos ensinem e nos conduzam, e aos seus pés nos levem e ajoelhem;—as frondes dos carvalhos;—a soberba robusta dos pinhais;—os indómitos píncaros dos montes;—as águas apressadas pelos vales, de rocha em rocha a abrirem a sua estrada e cobrindo de verdura os seus haveres;—e as urzes de montado que preferiram, sem invejarem sorte mais feliz, vestir de encantos a braveza do chão e ungir a aspereza transmudando em çarças floridas a indigencia;—e, como balsamo do poder divino, tal qual fosse uma briza, emanação que descida dos céus nos acordasse o peito endurecido por morbidos torpôres em que a indiferença séca e corrompe a vida em sua imortal essência, em seu amôr; mais alta do que a voz da natureza, dominando-a, vencendo-a e consagrando-a, a voz do coração, dizendo ali murmurios de carinhos remansosos, ali nos libertando por instantes da dureza do mundo e das suas penas, para erguer-nos aos reinos que o mundo não alcança e sómente o coração possue e nos concede.
Mas, aberta a meus pés a sepultura e cavado na rocha o ataude, a sedução de morte, sem temer quanta beleza ali me extasiava, de súbito acendendo o seu lúgubre facho e iluminando a formosura que era meu enlevo, repete-me aos ouvidos as tentações da sua redenção. E serena, na brancura dos anjos, lançando para longe o véu sinistro e o manto negro em que surgira involta, mansamente me diz, consoladora:
—«A ventura suprema e toda a gloria só por mim serão tuas! Em meu seio é cinza quanto avistas, o roble e a rosa, como o poder humano e a sapiência; a féra, o santo, o crime, e vileza e candura; quanto te atrái, fascina e tu procuras, e quanto por aversão foges e temes. Tempos e espaços, o edificio mais alto e o maior feito, o heroismo, a dôr, a herva e o cédro, o ódio e a paixão, o mármore e o vérme, e os sóes mais luminosos que convertem a noite em esplendôr, todos em cinza acabam e em cinzas guardo na profundeza infinda do meu seio. E a todos restituo a vida e o ser, para sempre isentando-os do temôr, do pecado e da incerteza, a todos eu conduzo à vida eterna, à vida imarcescivel da saudade!»