ACTO QUINTO

Uma casa vasta, de abobada de volta abatida, apparencia triste e arruinada. Ao fundo porta em arco, por onde se vê uma parte de um clausto. Á direita uma porta, á esquerda um grande crucifixo, sobre um altar de pedra tosca, objectos proprios para uso da igreja. A luz dos primeiros raios do sol entra já por uma pequena fresta alta, e pelo fundo, mas a scena está ainda alumiada por dois brandões, seguros por braços de ferro, defronte do altar.

SCENA I

D. Mendo (coberto de armadura, ajoelhado.) Um templario.

O TEMPLARIO

Daqui a uma hora estará tudo prompto.

D. MENDO

D. Guilherme virá tambem?

O TEMPLARIO

O grão-mestre dos templarios vem assistir á vossa profissão, D. Mendo.

D. MENDO

E el-rei?

O TEMPLARIO

El-rei tambem. D. Affonso quer-vos muito; tem mostrado grande interesse por vós.

D. MENDO

Meu bom, meu excellente principe! E fr. Bermudo, esse não póde demorar-se. Já me vae tardando.

O TEMPLARIO

Vou á igreja saber em que estado estão os preparativos para logo.

D. MENDO

Pois ide irmão; que eu aqui fico só, a pedir a Deus que me não abandone.

O TEMPLARIO

Quereis alguma cousa mais?

D. MENDO

Nada. (O Templario sáe.)

SCENA II

D. MENDO (SÓ.)

D. MENDO

É manha já, e Fr. Bermudo sem voltar! Sem me trazer uma palavra della para me dar força! Elle que me prometteu voltar cedo, logo que lhe fallasse! Ama-a, Fr. Bermudo tambem a ama! Quem sabe se nesta hora mesmo de suprema dor, elle ainda tem ciume dos seus prantos, e m'os quer roubar?!—O sangue delle é o meu sangue; é o irmão de meu pae; não póde ser traidor.—Para que quero eu mais ouvir fallar della? Que pode agora haver de commum entre nós ambos? A dor, a dor que é o mais intimo laço que póde existir entre dois corações que se amam. Fr. Bermudo não chega, meu Deus; e nem uma palavra consoladora de Violante me vem dar alento nesta tristeza, nesta solidão do espirito. Fr. Bermudo!... Violante... oh! estes dois nomes encontram-se ás vezes nesta lide maldita do meu pensamento, e esse encontro faz-me gelar toda a fé, mata-me toda a força... Se em mim ha força ainda: que não ha... não ha de certo. Eu já não vivo, que me senti morrer corpo e alma, quando de todo me vi separado della. Até aquella agitação convulsiva da desesperação acabou em mim... Já não tenho odio... e nem sei mesmo se ainda tenho amor! (Pausa.) Morri de todo e para sempre.

SCENA III

D. Mendo, e fr. Bermudo

FR. BERMUDO

Não percas assim o animo, Mendo.

D. MENDO

Bermudo!... E ella?!

FR. BERMUDO

Sempre a mesma.

D. MENDO

Tem padecido muito?...

FR. BERMUDO

Tem... muito.

D. MENDO

E tem fallado de mim? Tem-se lembrado... do que já acabou.

FR. BERMUDO

É um anjo, que não sabe senão amar; que não póde esquecer o seu amor.

D. MENDO

Olha... diz-me a verdade... que quer ella fazer!

FR. BERMUDO

Não t'o posso dizer... Sei só, que nunca baixou á terra alma, que mais soubesse sentir, alma capaz de maiores sacrificios!

D. MENDO

Conta-me o que se passou. Vistel-a? Que te disse?

FR. BERMUDO

Quando ha uma hora sai daqui fui logo direito á pousada de D. Pedro Framariz. Procurei a aia de Violante, que me levou ao oratorio, onde esta se fechára... para pedir, o que a todos nós vae faltando... forças para padecer.

D. MENDO

E Violante estava...

FR. BERMUDO

De joelhos, pallida, immobil, com os olhos erguidos ao ceu, o corpo dobrado pelo peso da dor, a boca semi-aberta como se a oração ao sair já fria e sem alento n'um ultimo suspiro, se lhe houvera petrificado nos labios.

D. MENDO

Morta?...

FR. BERMUDO

Morta, não. Violante estava viva ainda; sem dar quasi outro signal de vida, a não ser o lento baixar dos olhos sobre mim, e o murmurar baixinho das palavras; n'uma voz suave e angustiosa, Violante perguntou-me o que eu ia alli fazer? Se eu, se alguem ainda se lembrava della?

D. MENDO

Se me lembrava della?

FR. BERMUDO

Fallei-lhe só de ti, porque só assim me quereria ouvir. Que dor a da pobre Violante! E não ha, não ha remedio, para dores, como aquellas... Oh! os homens que teem descoberto tanto segredo da materia, não poderam comprehender ainda nem um dos mysterios do espirito, não poderam ainda curar nenhuma dessas enfermidades agudas, a que chamam paixões.—São tudo sonhos, são tudo illusões na terra; mas sonhos, mas illusões, que matam.

D. MENDO

A desgraça é uma realidade!

FR. BERMUDO

(Tranquillo). Escuta.—A desgraça é uma provação da alma, que a deve robustecer; que lhe deve dar essa grandeza, signal da sua immortalidade. É tempo de voltar para o ceu esses teus pensamentos, que ainda não soubeste desprender das cousas mundanas.—Daqui a uma hora professarás. É necessário, filho, que o novo cavalleiro do templo seja digno do seu elevado ministerio, esteja pela fé á altura destes tempos de dura provação, de lucta permanente porque a igreja de Christo está passando neste seculo.

D. MENDO

Não posso, Fr. Bermudo, parece-me que não posso pensar senão em Violante. Mas vou ver se pela oração comsigo elevar a minha alma até essas alturas sublimes, donde se perdem de vista as miserias do mundo. (Vae lentamente ajoelhar diante do altar.)

FR. BERMUDO

E se elle conhecesse, como eu, toda a grandeza, da nossa desventura! Se elle estivesse nesta duvida tremenda, em que o meu espirito vacilla agonisante; ora persuadido de que cumpria um dever, ora aterrado pelo mais cruel remorso, que homens tem sentido!—Violante ainda vive, mas daqui a uma hora...—Eu devo ir arrancar-lhe das mãos aquelle veneno; para que ella não morra! Mas que importa?... Ella quer morrer, e bem sei que vontades poderosas, resoluções firmes como a sua não as vence nem a persuasão, nem a força!—Ainda ha pouco lhe fallei, lhe pedi pelas cousas mais sagradas da terra, e do ceu, pelo amor e pela religião, que não cedesse á triste tentação que a arrasta, á fascinação que a cega... respondeu-me só que amava e queria morrer pelo seu amor. (Neste instante entra Violante pela direita, e aproxima-se de Fr. Bermudo, sem que D. Mendo a veja.)

SCENA IV

Os mesmos, D. Violante.

D. VIOLANTE

Fr. Bermudo.

FR. BERMUDO

Violante!

D. VIOLANTE

Eu não podia morrer sem o ver uma vez ainda... por isso vim. É um instante; o tempo de lhe dizer que ainda o amo.

FR. BERMUDO

Mas agora, se viessem os templarios, os cavalleiros, Violante...

D. VIOLANTE

Em elles vindo, vou-me eu. Não me verão. Ide, Fr. Bermudo, deixae-me um instante só com Mendo.

FR. BERMUDO

É tornar ainda mais angustiosa esta horrivel separação...

D. VIOLANTE

Eu tenho forças; sinto em mim uma força sobrenatural. Ide—Deixae-nos.

FR. BERMUDO

(Áparte.) Ainda mais esta dor, meu Deus!

SCENA V

D. Violante, D. Mendo—no fim Fr. Bermudo

D. VIOLANTE

(Com muita doçura.) Mendo, Mendo... não me sentes aqui, Mendo?

D. MENDO

(Que escutou um instante a voz de Violante, e depois se voltou subitamente, e a viu—indo para ella.) Violante! Minha Violante!—Então esta dor, esta separação, era tudo um engano.—Estás aqui, minha Violante!!..

D. VIOLANTE

Estou aqui para te dizer adeus para sempre; para te pedir que perdoes...

D. MENDO

Perdoar... o que, o que hei de eu perdoar?

D. VIOLANTE

Fui eu que te fiz infeliz com o meu amor.—Mas não sabia, Mendo, eu não conhecia essa tenebrosa historia—Perdoa-me... perdoa a meu pae tambem. Eu não quero, não posso ficar com um remorso destes na consciencia.—Quero morrer em paz.

D. MENDO

Morrer?

D. VIOLANTE

Sim, quando eu morrer, quando for a vontade de Deus que esta minha vida tenha fim, não quero que venha um pensamento funebre, a idéa de um crime não perdoado perturbar a minha ultima oração.—Quem sabe se Deus me perdoará?

D. MENDO

Quem te não ha de perdoar? O que ha que perdoar a um anjo tão puro como tu?

D. VIOLANTE

Mendo, eu bem sei que a honra da tua familia foi offendida: e que ha offensas que um cavalheiro da tua linhagem não deve deixar sem vingança... É assim que pensam os homens; mas Deus condemnou a vingança como um crime abominavel: e tu, Mendo, daqui a pouco vaes professar n'uma ordem, instituida para servir a Deus.—Mendo, pela religião... e pelo nosso amor que foi deixa-me fallar-te ainda uma vez desta felicidade que já passou—pelo nosso amor tão suave para mim, e para ti tambem, Mendo, peço-te por esse amor que perdoes, que esqueças, que te não vingues do pae da tua Violante.

D. MENDO

Violante, eu... sabes como te amei, sabes como te quero ainda; que esta separação não é angustia só, é a morte para mim!—Escuta, minha Violante.—Não sei se meu pae me amaldiçoará da sepultura; mas faz-me horror a idéa de odiar teu pae; e vingar-me delle por minhas mãos, não o hei-de fazer nunca.

D. VIOLANTE

E perdoas-lhe?

D. MENDO

(Depois de uma pauza.) Perdôo.

D. VIOLANTE

Bemdicto seja Deus, que me dá esta consolação n'uma tão grande dor?

D. MENDO

Minha mãe é que lhe não perdoa.

D. VIOLANTE

Era o teu perdão, que eu desejava, Mendo. Não podia supportar a idéa que, entre ti e meu pae, se levantasse esse livido e sangrento espectro da vingança.—E a mim tambem me perdoas? Se ainda, por minha causa, padeceres uma grande dor, perdoas-me?

D. MENDO

Não te perdôo só, amo-te... hei de amar-te sempre, hei-de de morrer amando-te.

D. VIOLANTE

Deus não ha de ser menos misericordioso do que tu.—Mendo, ainda havemos de ser felizes!

D. MENDO

Ai, não póde, isso não póde ser. Felizes, nunca.

D. VIOLANTE

N'outro tempo, n'outro logar; longe deste tenebroso mundo, muito longe destas paixões da terra, havemos de ser felizes.—Eu vi, Mendo, esta noute antevi a nossa felicidade futura.—Era um paraiso. (Ouve-se uma musica de orgão e um coro, muito ao longe até ao fim da scena.) Um campo todo de flores maravilhosas, com um perfume inebriante; um lago coberto de diamantes, de uma serenidade e formosura sem igual no mundo; sobre o lago nuvens, em que o ouro e a purpura se misturavam com a luz rosada da mais bella aurora; e do ceu resplandecente, scintilante, baixavam, fluctuando brandamente, anjos que vinham pousar sobre as graciosas nuvens. Depois, vozes sobrenaturais as vozes dos anjos em divino coro, pediam a Deus pela nossa felicidade; e o meu e o teu nome, Mendo, subiam assim até ao throno do Eterno.

D. MENDO

Foi um sonho, e o sonho até se póde realisar.

D. VIOLANTE

Não foi sonho, Mendo, foi uma visão celeste, uma divina promessa. Naquella hora tudo eram puras alegrias diante de mim; e no meu coração tudo eram orações fervorosas, e ardentes esperanças.

D. MENDO

Que esperanças podemos nós ter ainda?

D. VIOLANTE

Deus quer a nossa união, apesar dos agoiros, das negras paixões, dos crimes, das vinganças dos homens.—Na terra não podemos ser unidos, sel-o-hemos no ceu!

D. MENDO

E quando, quando, minha Violante, terão fim estas angustias do existir? Violante, amo-te; nesta hora amo-te mais do que nunca te amei. E é agora, que nos vamos separar para sempre! Esta deve ser a unica vez, que nos vejamos; estas devem ser as nossas ultimas palavras de amor. Amo-te, amo-te, Violante.

D. VIOLANTE

O amor mata, aqui na terra; mas no ceu é a eterna alegria.—Mendo, deixa-me repetir tambem essas palavras, em que se resume a minha vida toda!—Amo-te, amo-te.

FR. BERMUDO

(Aparecendo á porta do fundo.) Os cavalleiros do templo já estão reunidos na igreja.

D. MENDO

Violante!

D. VIOLANTE

Mendo, adeus!—Adeus para sempre! (Cae nos braços de D. Mendo beija-o, e sae correndo pela porta da direita.) (Ouve-se depois a voz de Violante, já fóra de scena repetindo, « Adeus!.... adeus!»)—(A musica do orgão acaba logo depois.)

SCENA VI

D. Mendo e Fr. Bermudo

FR. BERMUDO

(Detendo D. Mendo.) Deixa-a ir só.

D. MENDO

Quero vel-a... Não me posso separar della ainda.

FR. BERMUDO

De que te serve prolongar por mais tempo esta angustia? O momento mais doloroso passou para ella, já agora: e daqui a um instante vir-te-hão buscar os templarios.

D. MENDO

Mas deixal-a assim!—Bermudo, aquelle adeus foi um como grito de extrema dôr, que me aterrou. Naquelle sonho de felicidade, naquellas esperanças de alegria de Violante, havia não sei o quê de sinistro, como a morte. Naquelle espirito angelico ha um pensamento de crime, ha naquella alma a presciencia do remorso.

FR. BERMUDO

Deixa-a morrer com o seu sonho do ceu.

D. MENDO

Morrer!

FR. BERMUDO

A morte é o termo do padecer.

D. MENDO

Que dizes?

FR. BERMUDO

A alma de Violante é já de um outro mundo, o seu corpo em breve será dos elementos.

D. MENDO

Meu Deus! Que quer isso dizer? Não posso comprehender.

FR. BERMUDO

Uma paixão destruiu nella a vida do espirito; e a morte porá em breve termo à vida corporal.

D. MENDO

Pois ella, Violante ousará attentar contra a propria vida?

FR. BERMUDO

A infeliz não tem força, não tem animo para supportar o seu martyrio. Ella vê na morte só a paz, e a passagem para um mundo melhor; por que na sua alma pura, nada lhe faz receiar o eterno julgamento.

D. MENDO

Violante morrer!—E como hade ella morrer?

FR. BERMUDO

Hontem, Mendo, a desventurada Violante veio aqui ao convento, e pediu-me, pelo que para mim existe de mais sagrado, que lhe desse um veneno, para ella não padecer longas dores na hora do passamento.

D. MENDO

E tu déste-lhe o veneno?

FR. BERMUDO

Dei!.,.

D. MENDO

Tu!—a vingança levou-te a um tal crime.—Vingaste-te sobre uma innocente...

FR. BERMUDO

A vingança... esqueci-a por ella. Tu bem o sabes, Mendo.

D. MENDO

O ciume...

FR. BERMUDO

Um amor como este meu, é como á immensidade do deserto; as tempestades atravessam-no rugindo medonhas e ferozes, os vulcões ardentes passam revolvendo as areias, cavando abysmos, cobrindo com montanhas os restos de antigas cidades; mas toda essa desordem tremenda perde-se, torna-se pequena n'aquelles espaços infinitos; e depois fica tudo arido, morto, immobil como d'antes.—Oh! o ciume foi como a tormenta do deserto, passou atravez da immensidade d'este amor, revolvendo-me o mais intimo do coração, sem que eu mesmo possa ver já as ruínas que deixou após si. Não foi o ciume, foi a piedade, foi uma grande dor de coração, um puro e sancto dó d'esse padecer, que a consumia.

D. MENDO

Dó! Piedade! E matas-te-la! Corre a salva-la, se ainda é tempo.—Não vás... vou eu.

FR. BERMUDO

(Detendo-o.) Não, não vás. É uma crueldade. E, de mais, é tarde: agora já ella terá tomado o inexoravel veneno.

D. MENDO

E se ella está envenenada não haverá meio de a salvar?

FR. BERMUDO

Quando a morte penetra o sanctuario da vida, quando estende o poder até sobre a luz do espirito, só um milagre pode vencer o seu poder.

D. MENDO

Palavras... palavras! És um louco, Bermudo, sem coração nem consciencia. Váe, váe já, e salva-a. Essas palavras insensatas que dizes, não te podem justificar. És um assassino, Bermudo, se a não salvas. (A D. Gontrade, que apparece á porta, pallida e cadaverica.)—Oh! Vinde... vinde, minha mãi... vinde tambem pedir por ella, a este homem, Violante morrerá se elle a não salva.

SCENA VII

Os mesmos e D. Gontrade

D. GONTRADE

Salva-a!... e a elle tambem! salva-os a ambos fr. Bermudo. É preciso perdoar tudo, perdoar a todos, para que Deus nos perdoe tambem.

FR. BERMUDO

Vós perdoaes, senhora, como eu perdoei já; e não deveis pedir a vida de Violante, porque a morte é para ella o descanço; a eterna paz.

D. GONTRADE

Deixal-a morrer!... Pois que tem ella?! Quem a quer matar?!

D. MENDO

Foi elle, esse homem cruel, esse homem sem coração... foi elle que lhe deu o veneno... e que a não quer salvar agora.

D. GONTRADE

Ide, meu irm... ide, homem; salvae Violante, se ainda é tempo.—Sou eu que vol-o peço n'esta minha ultima hora (Caindo de joelhos.) Salvae-a, e uni-os um ao outro, estes dois innocentes, que se amam... Que seja tudo esquecido, porque elle, lá do tumulo, já perdoou. Vou morrer... Fazei Mendo e Violante felizes. Salva-os pela minha alma! Salvae-os para que Deus, me perdoe.

FR. BERMUDO

É tarde. A esta hora talvez, Violante não exista já...—Disseram-no os astros, e os astros não mentem... (Sáe.)

SCENA VIII

D. Mendo, e D. Gontrade

D. GONTRADE

Meu Deus, piedade!... Salvae-a, senhor!

D. MENDO

Salvae-a!... (Vae para sair.) Oh! Quero vêl-a... Não quero que morra sem que eu morra tambem com ella!

D. GONTRADE

(Levantando-se.) Meu filho, ouvi... escuta-me, meu querido Mendo, não me deixes agora... não me deixes aqui só: Sinto que vou morrer, e tenho necessidade de ti... quero beijar-te ainda como quando tu me julgavas innocente.

D. MENDO

(Segurando-a nos braços') Que tendes, minha pobre mãi?! Como estaes palida!... Que martyrio é este meu, Senhor.

D. GONTRADE

Não é nada... é a morte... é o descanço se Deus me perdoar. Meu filho, meu filho, eu cometti um grande crime, mas se tu m'o perdoares, Deus perdoar-me-ha tambem. Perdoa, filho, perdoa a tua mãi, que vai morrer!

D. MENDO

Vós tambem minha mãi, ides deixar-me! Todos me abandonam!... fico só, só com esta dor no mundo!

D. GONTRADE

Ai, Mendo, se eu visse cumprido antes de expirar o sonho do meu delirio! Que sonho tão bello, meu Deus! Que vizão consoladora!... Vi-o, a elle, a teu pai, cercado das glorias infinitas do céo... Não ameaçava já, abençoava... não me olhava com colera, sorria-se com brandura e piedade! Senti uma alegria infinita derramar-se no meu espirito... Accompanhava-o um anjo; e disse-me estas palavras divinas: «Perdoa, como eu te perdôo... Este anjo, é o anjo da guarda do nosso filho... faz feliz o nosso amado filho, o nosso querido Mendo.»

D. MENDO

E o anjo...

D. GONTRADE

O anjo era Violante. Violante á o teu anjo da guarda!

D. MENDO

E o meu anjo deixou-me... para sempre me abandonou o meu anjo da guarda!

D. GONTRADE

Na terra, talvez; no céu, não te abandonará de certo.

D. MENDO

Vou... Deixai-me-ir, minha mãi. Vou procurar Violante.

D. GONTRADE

E deixas-me aqui morrer só!?

D. MENDO

Vamos rezar por ella, ao menos—pedir ao céu que nol-a salva. (Cáem ambos de joelhos.)

D. GONTRADE

(Levantando as mãos ao céu.) É esta a minha ultima oração... que ao menos esta seja ouvida por vós, Senhor!

D. MENDO

Virgem Maria, explendor de eterna gloria, luz que faz desaparecer todas as trevas do coração, dá azas a minha alma para subir ao teu throno, a pedir-te vida, vida para ella... Salvae-a, Senhora Nossa! (Ouve-se um coro religioso entoando o Dies irae) Oh! São os canticos da morte, que respondem a esta nossa oração, minha mãi!

D. GONTRADE

São tremendas aquellas palavras; são palavras que gelam de pavor a quem vai morrer.

SCENA IX

Os mesmos, os templarios e depois D. Violante, e Fr. Bermudo

UM TEMPLARIO

É a hora, cavalleiro D. Mendo Paes de vos unirdes á Santa Ordem do Templo, para nos ajudar a defender, e a fazer adorar por toda a terra a Cruz do Redemptor.—O mestre dos templarios espera por vós.

D. MENDO

Esperae; esperae!... ainda não!., ainda não!

D. VIOLANTE

(Fóra.) Mendo! Mendo!

D. MENDO

Violante!... viva! ainda viva!

D. VIOLANTE

(Caindo nos braços de D. Mendo.) Mendo, aqui estou... sou tua... já sei tudo! Mendo... estou viva para te amar! (Mostrando fr. Bermudo.) Salvou-me elle.

D. GONTRADE

Agora já posso morrer.—Filho... filhos, adeus.

(Cáe por terra Mendo e Violante correm a D. Gontrade.—Os templarios aproximam-se.)

FR. BERMUDO

Serão felizes, elles... Só para mim os astros não mentiram.

Fim do 5.º acto e do drama.


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