ANNO LITTERARIO DE 1869
CARTAS A J. SIMÕES DIAS
Á hora dos phantasmas, á meia noite, escreveste o Anno litterario de 1868. A noite é sombria e triste; e por isso as tuas reflexões humoristicas não occultam de todo a descrença, a tristeza e o desanimo, com que espalhaste a vista pelas coisas litterarias da nossa terra.
Fundado ou infundado, não chamarei eu esse desalento, porque, de onde em onde, nos encontrariamos, se eu fosse ajustar o padrão da tua critica ao juizo que eu fizesse de producções da arte.
Não posso, comtudo, deixar de querer muito a essa franqueza, que é o teu caracter, e a tua regra em materias de critica. E tanto mais lhe quero, quanto eu reconheço que a franqueza, hoje em dia, é fazenda de contrabando nas nossas alfandegas litterarias.
Quando o anno de 1868 pertencia já ao passado, scismavas á meia noite sobre o mau rumo que te pareceu levarem as nossas letras. Eu sou um pouco mais crente, e menos atrabiliario: á entrada de 1869, estendo os olhos ao futuro, e espero e creio muito, porque já não são de pouca monta as primicias que nos offerece o anno litterario de 1869. Fallo das Flores do Campo de João de Deus.
Com a analyse d'este livro, abro uma serie de apreciações, em que te fallarei das obras poeticas que n'este anno, e em Portugal, se derem á estampa. O meu voto, em materia alguma tem força, nem eu procuro dar-lh'a, para se insinuar no animo do publico: é um voto individual, em que apenas acharás o merito da sinceridade e da franqueza.
Direi de caminho que não sigo a trilha que me deixou o teu Anno litterario. Não deslembrarei os preceitos da critica analytica, para não apreciar, em synthese, obras que exigem demorado exame das suas partes.
Tambem não escolho, para te escrever, a hora lugubre dos phantasmas. Começo a escrever-te ás horas d'uma esplendida manhã, espalhando os olhos por aquellas duas margens do nosso Mondego: a relva rasteira que as veste, e que me falla de vagas esperanças, ha de desentranhar-se em flores e fructos. Deixa-me crêr muito no dia de ámanhã.
E porque não virão as flôres da poesia derramar perfumes sob este céo de Portugal, n'este jardim da Europa, onde já suspirou melodias Bernardim, Camões, Garrett, Castilho! Não morre a poesia portugueza: a estatua da deusa ainda não tremeu na peanha; e quando os iconoclastas do bello quizessem contra ella erguer braços profanos, a quantos apostolos da arte não teriam de suffocar a voz!
Bem-vindos sejam estes sonhadores de chimeras, estes utopistas cheios de alma e coração, luctando de contínuo com o mundo real, e de contínuo erguendo-nos a mundos imaginarios, mas bellos d'uma belleza que não é da terra!
Fallo-te da poesia individual, e eu sei bem que lhe não queres tanto como eu. Desejas que a poesia se concentre no mundo estreito dos fins sociaes; entendes que a poesia deve de limitar-se a mostrar o caminho á humanidade que marcha, ou á exaltação dos dogmas do seculo. Por certo que se não desvirtua a poesia, seguindo por taes veredas; mas o genio não tem peias nem limites: veste de luz o lirio dos valles; alumia a estrada ao caminheiro da vida; doira as arestas do serro escalvado; enche a noite de luz; de fulgores inunda o espirito, e não sei por quantos mundos nos leva a alma absorta!
Marcar balisas á poesia, é impossivel, porque a poesia é livre como o pensamento.
Deixa pois cantar os poetas que levantaram a vista do pó da terra, onde tudo é limitado como a materia, e vil como o gusano das ossadas. Deixa que eu te falle de um poeta, cujo espirito é aguia que raro avisinha a ponta das azas aos marneis da sociedade. A gente pasma da altura a que se eleva aquelle espirito, e acontece ás vezes que a nossa vista não póde acompanhar tão levantados vôos: perde-se elle no vacuo, e, quando divaga em mares de luz, ficamos nós em trevas, sem vêr a direcção que elle toma...
João de Deus não canta para a sociedade, canta para si. Quer discorra por vergeis de poesia singela e perfumada, quer se eleve a alturas desmedidas, não se importa de que lhe não oiçam nem entendam o canto sempre harmonioso. É talvez por isso que elle não publicou, nem publicaria as Flores do Campo.
Ao amigo que lh'as estampou, muito devemos nós todos os que presamos as nossas boas letras.
Agora se me offerece caso para cogitações profundas: as Flores do Campo saíram a lume ha quasi um mez, e, até á data em que te escrevo, dormem os nossos criticos a bom levar, sem que uma palavra lhes haja irrompido dos labios, sobre o merecimento d'este magnifico livro. Aqui, ha por força caso virgem, mas... ponto em bôcca.
E pois que os criticos não querem, ou não ousam, pronunciar o seu veredictum, vou eu mostrar-te o valor em que tenho as Flores do Campo, por que me digas ao depois se não são ellas, para a nossa litteratura, prenuncios d'um outono avergado de fructos.
Quando o visconde de Chateaubriand trabalhava por agremiar em torno da cruz as multidões, que ainda sentiam nos ouvidos a voz tentadora de Robespierre e Mirabeau, surgia na Inglaterra um homem extraordinario, personificação pasmosa do genio e do scepticismo—lord Byron.
Ninguem como o cantor do Childe Harold, pôde jámais aliar uma alma de poeta ao scepticismo, á duvida, á frieza, que ressumbram de cada verso do Don Juan:
For me, I know nought; nothing I deny,
Amit, reject, contemn; and what knew you,
Except perhaps that you were born to die?
And both may after all turn out in true.
Mas... na mente de Byron reflectia-se uma das tendencias mais caracteristicas da sociedade contemporanea; o scepticismo apresentou-se revestido com a aureóla do genio, ergueu-se como chamma incendiaria, e lavrou pela litteratura do seculo.
Que restava aos adeptos da poesia? O maior numero, como os companheiros de Ulysses, deixou-se arrastar pelos cantos da sereia, e, se não abordou á ilha encantada, d'onde lhe acenava a gloria, mediu a profundeza do abysmo que a tentação lhe abriu aos pés...; outros, refugiram á attração, e velejaram alegres por onde os não batessem os pampeiros da descrença e do scepticismo.
A poesia que abre o livro de João de Deus é o emblema dos dous rumos por onde tomam os argonautas da arte, e estrema o scepticismo e crença, Camões e Byron. Não sei se esta composição vale muito aos olhos dos mestres; para mim, é das mais somenos de João de Deus, e, se não fôra collocada alli para denunciar, talvez, as crenças litterarias do auctor, não a quizera vêr á entrada d'este livro. A arte exige para um edificio primoroso um portico lavrado a primor.
Na composição alludida, se a ideia é grande e original, a fórma que a reveste não, não é perfeita; sem fórma, não concebo arte, e sem arte não se traduz o sentimento do bello.
Não vás porém julgar que estou dando lições de poetica a um poeta como João de Deus. Mais do que ninguem, conhece elle por ventura os defeitos do seu livro, e, se os poupou, ao limar os seus versos, é que não teve em tanta conta, como geralmente se tem, certas exigencias da arte.
Que vês?—Sóes, de tal sorte
Que os crêra tochas pallidas,
Quando as guedelhas, madidas
De sangue, arrasta a morte.
...........................
—Falla.—Deus! que harmonia!
Aqui a alma exalta-se;
A alma aqui dilata-se...
Camões!—É a poesia.
Nem a critica imparcial tanto exige, nem eu tenho logar bastante para transcrever aqui todas as estrophes, em que as rimas se me deparam defeituosas e erradas. Cito-te de passagem queime e geme, deixe e feche, confesso e immenso, cuides e virtudes, outro e encontro, géra e inteira, teimo e supremo, prega e negra, avaro e ara, sêde e hei-de, põe e foi, vê e adorei, inteiro e quero, etc.
E comtudo João de Deus parece brincar com as maiores difficuldades da rima. Para não fallar na poesia Boas Noites, basta apontar-te aquelle trecho da poesia O Musgo:
Um dia, não sei que tinha...
Uma tristeza tamanha!
E lembra-me ir á montanha
Que temos aqui visinha,
Onde em tempo me entretinha
Horas e horas sósinha,
Quando ainda não se extranha
Que n'uma teia de aranha
Se prenda uma innocentinha,
Ou atrás d'uma avesinha
Se cance a vêr se a apanha.
Em metricação tambem as Flores do Campo nos offerecem provas de que João de Deus não é, n'este ponto, nimiamente escrupuloso. Assim ficou errado este decassyllabo:
Chamando-os com enternecimento,
e aquelle septissylabo que vae sublinhado:
Que é a torre exactamente
De David n'esses ares,
para não citar passagens como estas:
Adeus tranças côr de ouro,
Adeus peito côr de neve.
Tornaram-se-me em estrellas
As lagrimas de dôr.
Versos ha tambem nas Flores do Campo defeituosos pela disposição dos accentos predominantes. Bastam tres exemplos em versos decassyllabos:
Ha puros sonhos de imaginação.
E eu digo, digo á luz scismadora.
Expôz aos coices... leão moribundo.
Mas um verso completamente errado, e que por certo não sahiu assim da penna de João de Deus, é aquelle
Que fez tremer as abobadas do inferno.
Não é necessario ser auctor das Flores do Campo, para condemnar um verso tal. Descuido do impressor, e falta de cuidado na revisão, occasionaram aquelle erro, a que de prompto se obviaria com a suppressão de dous ss inuteis.
O que para alguém não será defeito, mas que para muitos torna inintelligiveis algumas passagens, do livro, é, por vezes o abstruso da ideia, velada por sombras impenetraveis. Dá-me tu, se podes, a chave d'este enigma:
Oh! ha tres vistas com que as coisas vêmos;
Ha tres rasões que as coisas determinam;
Uma a dos olhos; outra a que escondemos
N'isso ante que os álamos se inclinam;
Outra a que dentro no coração temos,
Que os limites do espaço só terminam:
Coube a primeira em sorte á borboleta;
A outra ao homem; a terceira ao poeta.
E quando João de Deus, á vista d'um retrato, exclama:
És tu! Amo-te e muito! O que fluctua
Na fornalha que o sopro eterno acende,
Não beija a mão do anjo que o suspende
Com mais amor que eu beijo a sombra tua!»
Quem é que fluctua na fornalha acesa pelo sôpro eterno? Será o sol?
Especialmente n'aquelle fragmento que principia na pagina 130, mais alguns pontos se me deparam, para cuja interpretação me não sinto com forças. Não te faço mais citações, a este proposito, porque bem póde ser que toda a gente penetre o que para mim é escuro. Demais d'isto, parece-me que o poeta nem sempre tem obrigação restricta de moldar os vôos da sua imaginação pela myopia dos que só podem curvar-se diante das nuvens que velam a sarça ardente...
Agora, vaes talvez esquecer as manchas que divisastes n'esta joia litteraria, para festejares comigo quadros esplendidos de poesia originalissima, rica de sentimento, de graça e de harmonia.
Originalidades litterarias, poucos ha, já agora, que n'ellas creiam. Escorre de vez em quando, por ahi uma sanie de novidade tão asquerosa pelas folhas volantes da nossa litteratura de hoje, que os apreciadores de pituitaria melindrosa, não ha quem os desatrelle da sentença de que tudo o que é novo é mau, e que tudo o que é bom é velho.
Nihil sub sole novum!—cantava o Gessner biblico, asseguravam os juizes de Galileu, e rouqueja Boileau com os demais amphyctiões da litteratura. Respeitemos o talento; mas aos que duvidam da grandeza do genio, e pedem ao passado a chave do futuro, atiremos-lhe á face com a resposta de Galileu:—E pur si muove.—
Admittida a originalidade, moldada pelo bom gosto, devemos saudal-a em João de Deus, o poeta mais original que eu conheço entre os nossos homens de letras. Estudo João de Deus, dês que leio versos, e ainda não pude encontrar o segredo d'aquella harmonia tão sua, d'aquella elegancia tão despretenciosa, d'aquelle sentimento que tanto nos captiva a alma, sem sabermos como.
Ou eu me engano muito, ou da poesia de João de Deus me vêm uns aromas que não desdizem d'aquella fragrancia que o esposo dos Canticos aspirava nos jardins da Sulamite biblica; d'aquella gravidade scismadora que resaltava das cordas do psalterio de David; d'aquelle adejar sublime e vago da aguia de Páthmos. Tranemos agora o mar dos seculos, ponhamos ao lado das Flores do Campo as fantazias de Schiller a Laura, e verás que muitos arrojos da imaginação do bardo portuguez não desmerecem a companhia dos do bardo do norte.
Mas, sobretudo, o que mais me enfeitiça nas Flores do Campo é aquelle mimo e suavidade que matizam estrophes como estas:
Ah! quando no seu collo reclinado
—Collo mais puro e candido que arminho,—
Como abelha na flôr do rosmaninho
Osculava seu labio perfumado;
Quando á luz dos seus olhos... (que era vêl-os,
E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!)
Lia na sua bôca a Biblia Santa
Escripta em letra côr dos seus cabellos;
Quando a sua mãosinha pondo um dedo
Em seus labios de rosa pouco aberta,
Como timida pomba sempre álerta,
Me impunha ora silencio, ora segredo;
.....................................
Quando em balsamo d'alma piedosa
Ungia as mãos da supplice indigencia,
Como a nuvem nas mãos da Providencia
Um lagrima estila em flôr sequiosa;
Quando a cruz do collar do seu pescoço
Estendendo-me os braços, como estende
O symbolo d'amor que as almas prende,
Me dizia... o que ás mais dizer não ouço;
........................................
Tinha o céo da minha alma as sete côres,
Valia-me este mundo um paraizo,
Distillava-se a alma em dôce riso,
Debaixo dos meus pés nasciam flôres.
É assim que João de Deus se recorda da visão fugitiva que lhe doirou os sonhos de poeta e moço. Mais adiante, parece esquecer o lucto da saudade, mas não perde a doçura da harmonia:
Como os teus pés são lindos! como é doce
A curva do teu peito!
Oh! se o meu coração fosse o teu leito,
E o teu amado eu fosse!
Que preciosas perolas descobre
Teu meigo, humilde labio!
E virgem! como Deus foi justo e sabio
Em te deixar tão pobre!
....................................
........................
Tu não tens mais do que uma pobre saia,
E essa, curtinha e leve.
Onde o corpo te alteia, a saia avulta;
Onde te abaixa, desce...
És como a rosa! A rosa nasce e cresce,
Não para estar occulta.
O que te falta, pois? os teus desejos
Quaes são? de que precisas?
Ah! não ser eu o marmore que pisas...
Calçava-te de beijos!
Ao terminar a transcripção d'este mimosissimo trecho, sinto não poder attribuir a João de Deus a chave que o fecha. O aprimorado e suave oratoriano Manoel Bernardes já tinha dito na sua excellente Luz e Calor, fallando a Jesus menino:
«Menino da minha alma, meu eterno nascido de ainda agora, meu gracioso molhinho de amores perfeytos, minhas bellezas encantadoras do coração humano: faze-me Serafim, para que te ame muito: dá-me limpeza grande em meus labios para calçar teus pésinhos de mil osculos santos: deyxa cahir das conchinhas de teus olhos hua lagryma sobre meu peyto, etc.» (Pag, 556, ediç. 1724.)
Mas que importa isso? Prouvera a Deus que os plagiatos, de que a litteratura anda eivada, se pautassem por este!
Vivacidade de expressão, galanteria e graça, podes vêr d'isso um modelo no madrigal, epigramma, ou como quizeres chamar-lhe, feito A uns olhos azues:
Cáe a folha da rosa pudibunda,
Cáe a rosa da face virginal,
Cáe das nuvens a aguia moribunda,
Cáe o sol na montanha occidental.
.................................
Cáe do céo a centelha incendiaria,
A nuvem cáe, se um sopro Deus lhe dá,
Cáe ante o dia a noite solitaria
Como o falso Dagon ante Jehovah.
Cáe tudo, flôr! cáe tudo; eu só não caio:
Mais do que um rei, que o sol, egual a Deus,
Cahir, mulher! só posso á luz d'um raio
Se elle cahir do céo dos olhos teus!
De vez em quando, o poeta apparece-nos pensador e philosopho; mas, ainda assim, a razão não vence o sentimento:
Irmãs da Caridade! A Caridade
Tem só duas irmãs—a Fé e a Esperança:
Não traja as côres só d'uma irmandade,
Traja as côres do Arco da Alliança;
Leva sósinha o pão da piedade;
Tira da roda essa infeliz criança...
....................................
Mais longe iria eu, se me propozesse trancrever tudo o que nas Flores do Campo se apresenta digno dos mais levantados encomios. Assim, por não alongar em demasia a presente carta, recommendo-te a leitura da Heresta, da Rachel, do Ultimo adeus, da Marina, do Remoinho, do Leito nupcial, da Innocencia, da Joven captiva, e, muito especialmente, do Cantico dos canticos de Salomão.
Lamennais e Renan haviam traduzido esplendidamente o Cantico dos canticos; João de Deus inspirou-se da pastoral de Sulem, e fez um poema quasi seu: seu pela fórma, pelo colorido, e pela disposição das scenas.
O Cantico dos canticos pertence, como sabes, ao numero dos livros sagrados, e é ponto inconcusso, entre os padres da Egreja, que os desposorios de que falla Salomão exprimem a união mystica do Verbo incarnado com a natureza humana, com a Egreja e com as almas justas.
Os presidentes da synagoga judaica prohibiam a leitura d'este livro a quem não tivesse mais de trinta annos; e, ainda em tempos do piedoso João Gerson, nem os doutores o liam antes d'essa edade. E de feito nem Theocrito nem Florian deram jámais aos seus idylios aquelle perfume voluptuoso que, por entre flôres de poesia immorredoira, livremente se respira no idylio de Salomão.
Theodoro Mopsueste teve o ousio de ligar a esse idylio um sentido exterior, e não mystico, interpretando-o litteralmente, mas foi condemnado pelo segundo concilio de Constantinopla. Hoje não ha temor de que a Egreja condemne João de Deus, e todos os que separam da poesia o dogma, talvez porque a Egreja, boa mãe, não quer vêr o mundo coalhado de herejes.
E que importam ao leitor as convicções de João de Deus? A alma piedosa que se edificava na contemplação dos amores da Sulamite, pela versão de S. Jeronymo, que perde ella contemplando-os na lingua de Camões? «Para um coração puro, tudo é puro.»—É palavra de Deus, com que o poeta se auctorisa para trazer a lume a interpretação litteral do Cantico dos canticos.
Já agora, apezar da extensão d'esta carta, deixa-me ainda expôr á tua vista algumas das paizagens mais seductoras d'este paraizo de amor, onde a volupia oriental se escoa semi-nua por ondulantes pradarias em flôr. Ouve:
A SALUMENSE.
Sou trigueira, mas formosa,
Moças de Jerusalem!
Senão, vêde o pavilhão
Que arma em campo Salomão,
Se ha coisa mais preciosa,
E por fóra a cór que tem;
Vêde as barracas dos moiros,
Por dentro tantos thesoiros,
Por fóra, negras tambem.
Não vos dê pois isso pena
Ter assim a côr morena:
Minha mãe mandou-me pôr,
Por culpa de meus irmãos,
De guarda á vinha; o calor
Queimou-me o rosto e as mãos
E eu, a vinha, é escusado
Dizer-vos que nem eu tinha
Senão agora o cuidado
De estar a guardar a vinha.
Oh! para que banda vás
Com o gado, meus amores!
E pela folga onde estás?
Bem vês os outros pastores,
E a gente não adivinha.
Eu não hei de andar atrás
D'esses rebanhos sósinha.
.........................
SALOMÃO.
Que enlevo! que formosura!
A pomba não tem de certo
No olhar tanta doçura:
E fóra o que anda encoberto.
O cabello, em quantidade
E tamanho, é singular;
E não me lembra senão
Das cabras de Galaad
Ques lhes roja pelo chão
Em ellas indo a andar.
Os dentes, em tu abrindo
A tua boca, que lindo!
Nem um rebanho de ovelhas
Todas brancas e parelhas
Quando em sendo tosquiadas
Vêem sahindo do banho
D'uma em uma, enfileiradas,
E atrás d'ellas cada uma
Seus dois gemeos d'um tamanho,
Sem ser maninha nenhuma.
Pois a boca é comparada
A uma fita encarnada.
A voz, ouvil-a é um gosto.
Parte a romã pelo meio
Verás as rosas do rosto;
E fóra no que eu receio
Fallar, que me não é dado.
O pescoço, pensa a gente,
Em o vendo de collares,
Que é a torre exactamente
De David n'esses ares,
De baluartes, e toda,
Lá cima, escudos á roda.
Os peitos, é um casal
De corcinhas, que o seu pasto
São açucenas do valle:
Nada mais timido e casto.
E deitam um cheiro á gomma
Da myrrha mais do incenso,
A ponto que ás vezes penso
Que elles são duas collinas
Por onde aquellas resinas
Espalham aquelle aroma.
Se a esta hora me não accusasses de abuso de paciencia, ainda te repetia toda aquella mimosa carta que principia:
Maria! vêr-te á porta a fazer meia,
Olhando para mim de vez em quando,
É o que n'esta vida me recreia.
Acordo até de noite, suspirando
Por que rompa a manhã, e tenha o gosto
De te vêr já tão cedo trabalhando.
Desde pela manhã até sol posto,
Que não tens de descanço um só momento;
Por isso tens tão bella côr do rosto!
E eu pallido, Maria! o pensamento
Não é trabalho que nos dê saude,
—Esta imaginação é um tormento!...[10]
Mas... basta. O livro de João de Deus tem defeitos: escaceia a revezes a ligação dos pensamentos, a clareza das ideias, a exactidão do metro, a perfeição da rima, e não metteria uma lança em Africa o linguista que nas Flores do Campo descortinasse, uma vez por outra, impureza e incorrecções de linguagem. Se, porém, eu mirasse a comprovar, n'esta rapida e singela revista, com os versos de João de Deus a sympathia e a admiração que elles me devem, não seria este o espaço que abrangesse tudo o que alli me pareceu filho d'uma inspiração verdadeira e original. Demais, o poeta não lucraria com estas transcripções a esmo, sobre não poderes fazer do livro uma ideia exacta, á mingua de apreciador conspicuo.
Alexandre Herculano diz bem: a critica em Portugal é impossivel. Mas se nós todos cruzarmos os braços diante dos Ananias da litteratura que introduzem a mercancia do encomio, o servilismo e a chocarrice no santuario das letras, quem expulsará ámanhã os vendilhões, do templo? Já que me não ouvem, prega tu a estas multidões que não sabem o que amam, nem o que detestam; e praza a Deus que a tua voz não seja a voz do que bradava no deserto.