II

— Eu sei, eu sei! Quando êle se apaixona por uma questão, é um falador incorrigível.
Nuno, que tambêm se aproximara do grupo, todo afogueado do calor da controvérsia, acrescentou:
—Demos à língua, efectivamente. Desforrei-me da minha mudez consecutiva de meses. Frederico estava interessante...
Parou, um momento, absorvido na adoração do pequenino, que mostrava os olhos espantados e que incessantemente abria e fechava as mãosinhas rosadas. Todo êle cheirava a perfumes, como uma flor humana.
—Oh! lá, ó seu fidalgo!... Pst!...—acariciava Nuno, pousando-lhe um dedo na còvinha do queixo. Bem disposto, hein?
—Tomou agora o seu banho, sente-se feliz—disso Júlia, baixando os olhos pensativos sôbre a fronte do filho.
Ouvindo-a falar naturalmente, Frederico notava nas suas palavras uma vibração, um timbre, um enlêvo que não podia definir e que o perturbavam. Na história da sua alma fazia-se uma página de poesia e de ternura, que lhe comunicava gôzo, pacificação interior. Como Nuno era feliz! E bem merecia êle essa felicidade, pelos puros dons do seu carácter, pela sua bondade, pelas suas virtudes de homem. Encontrara a mulher ideal que o completou e que, à sua volta, fazia a graça, a serenidade, a confiança, o repouso.
—E aqui tens tu, Frederico—disse Nuno—a minha pátria grande.
—Não! A tua família... A família é apenas a unidade da pátria, como o individuo é a unidade da família.
—Bem! Que seja então a minha pequenina pátria. Não quero outra. E tu, homem, porque não procuras uma?
Frederico olhou o amigo demoradamente, fitou depois Júlia, agitado por sentimentos, por inenarráveis sensações que lhe pareciam incompreensíveis porque, na sua perturbação, não conseguia explicá-los, determinar-lhes a génese e o carácter. Por uma revelação fulminante, via nessa doce mulher uma imagem venerável e quási religiosa para que o seu respeito e o seu reconhecimento subiam. Reconhecimento de quê? Não o sabia.
—Tenho a certeza de que a não encontrava—respondeu êle. Não possuo o génio das descobertas.
—Não será isso egoísmo, Frederico?—interrogou Júlia.
—Egoísmo? V. Ex.a é injusta com um homem que resolveu sacrificar-se só a êle para não sacrificar os outros...
—Temos S. Francisco de Assis em nossa casa, Júlia!— afirmou Nuno, afagando distraídamente o rosto do filho... Mas, se déssemos uma volta pelo parque? A sombra, a amenidade do dia são convidativas. E temos palrado tanto, justos céus!
Entraram vagarosamente na solitude dos troncos e das folhagens onde corria uma fresquidão vitalizante, na tarde pesada e quente. Através dos ramos entrelaçados, num azul muito alto, flutuavam farrapos esparsos de nuvens. Por tôda a parte, sob a imensa abóbada de verdura, floriam cheirosos arbustos que punham na suavidade da penumbra uma atenuada e bela nota colorida. Por vezes, roseiras, bracejando junto das árvores, trepavam às ramagens, enroscavam-se nelas, rompendo depois para o espaço livre em festões, em grinaldas, desenhando originais movimentos decorativos. Os seus aromas harmonizavam-se, fundiam-se num só aroma, que era excitante. No grande silêncio vespertino, apenas se ouvia o canto medroso das aves que fugiam, assustadas, da torreira do sol. Frederico e Nuno caminhavam ao lado de Júlia, emmudecidos para melhor sentirem e compreenderem a beleza envolvente. A criança palrava entre as rendas e as cambraias vaporosas; e uma bica de água, correndo perto dum maciço de cedros e plátanos enlaçando, casando os seus ramos, cantava e brilhava na fina paz vesperal.
—Isto é a delícia das delícias—disse, por fim, [Frederico]. Há muito tempo já que não me reconciliava tanto com a vida.
Enquanto êles se detinham numa clareira, reencetando a conversa, Júlia adiantou-se alguns passos, indo sentar-se num banco rústico de cortiça que ficava por baixo dum docel formado por mosqueteiras ainda em flor. Ao vento brando que passava, arripiando as fôlhas, um colorido e perfumado orvalho de pétalas desprendia-se do alto, tremendo como asas de borboletas, caindo sôbre Júlia e o filho. Ela ria, com um riso mais contente, ditosa pela idílica oferta que as trepadeiras faziam à sua gracilidade, á sua pureza feminina, ao seu amor de espôsa, à sua divina maternidade, e Nuno e Frederico admiravam êste espectáculo imprevisto.
—As flores, para serem justas, deviam-lhe essa homenagem, minha senhora—declarou o hóspede.
O chuveiro das pétalas continuava sempre, cobria duma geada aromática os cabelos de Júlia, o rosto da criança.
—As bôas fadas saùdam a princesa, sua afilhada, e o principe dilecto!—observou Nuno, enternecido. É como nos contos de Perrault, nas lendas doutras idades.
Por fim, Júlia levantou-se, tôda florida, com as faces rosadas por uma ponta de sangue mais vivo, enquanto Frederico a considerava, deslumbrado. Como era encantadora e linda, na verdade!... E outra vez louvou a felicidade de Nuno, do amigo fraterno, para quem o destino tinha sido propício e generoso, pondo no seu caminho, bem junto do seu coração, aquela mulher incomparável.
—Vou-me embora. Faz aqui frio. Tenho mêdo de que a criança se constipe—disse Júlia.
—Vai. Nós ainda por aqui nos conservaremos, filosofando. Quero iniciar Frederico na formosura da solidão!...—exclamou Nuno.