ENTRE AS NYMPHÉAS

Contos e sensações

POR

J. MARQUES DE CARVALHO

Edição-miniatura de Aroldo Moen, de Buenos-Aires

OPINIÕES DA IMPRENSA

Este novo livro do auctor de Hortencia foi muito lisonjeiramente acolhido pela imprensa nacional e extrangeira. Vamos reproduzir algumas opiniões de jornaes e escriptores notaveis, externadas por occasião do apparecimento do formoso livrinho.

D'O Paiz, do Rio de Janeiro:

De Buenos-Aires recebemos um volume do livro Entre as Nymphéas, ultimo trabalho litterario do nosso compatriota Marques de Carvalho, Secretario da Legação brazileira. Compõe-se de onze novellas escriptas na Amazonia e foi primorosamente impresso pela casa «La Vasconia» da capital argentina.

É o primeiro livro em portuguez publicado em Buenos-Aires, mas não foi posto á venda ali. Apenas será encontrado na livraria Fauchon, d'esta capital.

Em breve daremos a nossa opinião sobre o seu merito.

Da Gazeta de Noticias, do Rio:

Entre as Nymphéas é o titulo de um volume, escripto e publicado em Buenos-Aires pelo nosso compatriota J. Marques de Carvalho, já tão vantajosamente conhecido pelos seus trabalhos litterarios. A edição é formosissima e do merito do livro com mais vagar falaremos.

Do Jornal do Brazil, da Capital Federal:

Entre as Nymphéas, nitido e elegante volume, impresso em Buenos-Aires e de que é auctor o sr. J. Marques de Carvalho, Secretario da Legação brazileira na Republica Argentina. Contém uma excellente collecção de contos e narrativas, escriptas em estylo correcto e elevado bastante para revelar as aptidões litterarias do auctor, que não é um desconhecido nas lettras patrias.

Do Jornal do Commercio, do Rio:

O sr. João Marques de Carvalho, Secretario da nossa Legação na Republica Argentina, publicou um volume com o titulo Entre as Nymphéas, contendo diversos trabalhos litterarios seus: compostos em diversas épocas e que offerecem agradavel leitura.

A impressão feita em Buenos-Aires é nitida.

Ainda d'O Paiz, secção «Livros Novos»:

Desobrigamo'-nos hoje do compromisso ha dias assumido, publicando a impressão que nos deixou a leitura do novo livro de Marques de Carvalho, Secretario da Legação brazileira era Buenos-Aires.

O volume Entre as Nymphéas contém onze trabalhos, seis dos quaes incluidos na 1.ª parte, sob a denominação geral—Subjectivismo, ficando os outros cinco subordinados ao titulo Objectivismo. Os primeiros contêm ou descrevem impressões intimas, subjectivas, conforme o proprio titulo indica, falando n'elles a alma «na livre expansão da sua illimitada sinceridade e de todas as forças affectivas que possue». São dedicados pelo auctor a sua esposa, «o amparo dos seus desanimos, o jubilo dos seus dias prazenteiros».

A nota dominante do livro é toda de tristeza e de melancolia. Através de suas paginas percebe-se a saudade, a dôr, o desespero, o horror a tudo quanto não é puro, a tudo aquillo que resulta da falsidade, da mentira, do convencional. Collocado em meio das florestas virgens do Amazonas, vivendo a vida simples dos habitantes d'aquellas paragens encantadoras, que outra impressão poderia beber o auctor em tão suggestiva situação, senão a impressão do bom, do justo, do sentimental?

D'ahi a naturalidade com que o livro foi escripto, sem grandes arreganhos de fórma, embora n'um ou n'outro periodo a gente fique a suppôr que Marques de Carvalho pende para o falso nephelibatismo. Indubitavelmente a naturalidade é uma das primeiras qualidades do escriptor, sendo que os livros que mais successo causam, são justamente aquelles em que o estylo, sempre correcto, sempre bello, não ultrapassa as raias do espontaneo, do natural, para caír no ridiculo das adjectivações estrambolicas, retumbantes e malsonantes.

Lê-se com prazer os onze contos concebidos «entre as nymphéas, na região dos nenuphares e da Victoria Régia». Destacamos, porém, da primeira parte, por nos ter melhor impressionado, a fantasia intitulada O cemiterio da floresta, em que o auctor faz bonitas considerações sobre a hypocrisia das grandes cidades dos mortos e sobre a poesia de uma sepultura entregue á guarda das mattas virgens e ao eterno choro das aguas que deslisam mansamente junto á orla da floresta.

Da segunda parte, onde apparece, com as Yaras paraenses, uma ponta de bom humor, pedimos permissão para salientar ainda dois trabalhos: Mater dolorosa e A filha do Pagê, conto indigena com que o auctor fecha o seu livro.

Entre as Nymphéas, embora impresso em Buenos-Aires—o trabalho typographico é admiravel—não está á venda n'aquella capital.

Os jornaes platinos têm tecido muito merecidos elogios ao nosso compatriota, com a apreciação do seu livro. La Patria Italiana, principalmente, diz ter-lhe causado a mais agradavel das impressões a leitura dos contos de Marques de Carvalho, affirmando que Entre as Nymphéas vem augmentar os louros colhidos pela actual geração litteraria do Brazil.

Felicitamos cordialmente o nosso compatriota e collega, cujo talento de escriptor já se tem manifestado nas suas diversas faces com a publicação de tres opusculos e de tres outros volumes: Hortencia, O livro de Judith e Contos Paraenses—todos bem recebidos no paiz e no estrangeiro.

De Valentim Magalhães, em folhetim d'A Noticia.

Entre as Nymphéas é o lindo titulo de um livro lindo—por fóra e por dentro.

É seu auctor o sr. dr. J. Marques de Carvalho, nosso ministro em Buenos-Aires. É um livrinho do feitio e do gosto d'esses da Collection Papyrus, impresso n'aquella cidade e editado por Arnoldo Moen.

Contém onze narrativas divididas e grupadas em duas partes, que o auctor intitulou Subjectivismo e Objectivismo. São contos curtos, muito intimos e suavissimos os primeiros; pittorescos, rapidos, flagrantes os segundos,—todos escriptos com elegancia e colorido.

Da primeira parte citarei, como melhores, O isolamento, O naufragio do Purús e O cemiterio da floresta, e da segunda Mater dolorosa e A filha do pagé. O dr. Marques de Carvalho, que já tem atraz de si varios livros, é um fantasista delicado e sentimental, e apaixonado pela sua terra, o que lhe dobra o encanto e o valor.

Entre as Nymphéas é um mimo: recommendo-o a quem se sinta embaraçado na escolha de um presente para uma menina ou senhora.

De Bellarmino Carneiro, n'O Paiz:

A imprensa argentina não tem regateado elogios ao precioso e elegante volume com que Marques de Carvalho acaba de fazer a sua reapparicão nas lettras patrias.

E Marques de Carvalho bem o merece, pois os seus trabalhos são obra de artista apaixonado e de homem de coração, como elle mesmo o confessa.

Espirito educado nas pugnas litterarias, adestrado luctador da imprensa, temperamento rijo e masculo, como em regra o dos filhos da região septentrional, Marques de Carvalho, ao deixar o posto de redactor d'A Provincia do Pará, a brilhante folha do norte, onde muito cedo ainda começara a trabalhar ao lado do dr. Assis, de Antonio Lemos, de Jovino Ayres e de muitos outros jornalistas distinctos, trazia um nome laureado. Hortencia, Livro de Judith, Contos Paraenses e alguns opusculos em que firmou a sua ardente fé republicana, davam-lhe foros de escriptor consagrado pelos applausos publicos.

Secretario do governo republicano do Pará e mais tarde diplomata, o auctor de Entre as Nymphéas, apezar das responsabilidades e dos labores da carreira politica, não esqueceu o culto ás lettras, nem abandonou os seus antigos idéaes.

Prova-o o seu novo livro.

Começamos estas linhas dizendo que a imprensa argentina colmara de elogios esse livro, cuja edição é um primor de factura typographica, e referimo'-nos a isto para mencionar de preferencia, entre tantas noticias laudatorias dos jornaes portenhos, como Patria Italiana, El Diario e muitos mais que vimos, o bellissimo artigo de Rubén Dario, o elegante e fino estylista, no periodico illustrado Buenos-Aires.

Rubén Dario é um escriptor venezuelano e critico erudito, que illustra com seus trabalhos litterarios varias folhas da capital argentina, especialmente La Nación, onde temos lido ultimamente o seu bellissimo estudo sobre o admiravel livro de Menéndez Pelayo, Antologia de poetas americanos.

Tratando do livro do nosso compatriota Marques de Carvalho, diz Ruben Dário[1]:

«Pouco conhecida é entre nós outros a litteratura brazileira contemporanea, aliás tão opulenta e brilhante, que quasi poderia considerar-se a primeira da America latina. Desde os velhos, os veteranos das lettras, que escrevem na Revista Brazileira, até essa ardente e amestrada geração que se manifesta em publicações tão habilmente sustentadas como A Semana, a producção mental do Brazil é a muitas respeitos digna de attenção, e d'ella, mais que de nenhuma outra dos paizes latino-americanos, se tem occupado por vezes a critica européa.

Quem conhece entre nós—para citar só um nome—esse critico de tão solida e profusa erudição, tão moderna variedade e bella galhardia, que se chama Araripe Junior?»

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E accrescenta depois:

«Ao percorrer as paginas d'este livro, vê-se que quem o tratou é escriptor que não desdenha o amor da arte da palavra. Se não ha ali o labor de um artista, se não chega até aos virtuosismos de fórma de alguns dos seus jovens patricios—a verdade é que elle se proclama singelamente «naturalista na expressão»—tem uma espontaneidade e um dizer amavel que impressionam mui favoravelmente.

Narra sem ambages; dá uma bella impressão da natureza tropical nas suas descripções selvagens e fluviaes.

No principio conta os suaves deleites do isolamento; Zimmermann ficaria muito satisfeito com elle. Depois, um bando de gaivotas leva-o a exhalar suspiros de vaga melancolia. Recordando o pavoroso naufragio do Purús, no grande rio, catastrophe em que pereceu a mãe de sua mãe, a manifestação do sentimento expande-se em commoventes e intimos periodos.

As expansões familiares continuam em amorosos trechos dedicados á sua filhinha. No Cemiterio da floresta, a phrase se avigora e o cuidado do estylo substitue os anteriores desafôgos pessoaes, que se renovam n'uma pagina profundamente sentida, na qual rememora a morte de sua mãe. Ahi conclue a primeira parte, que elle denominou Subjectivismo.

Na segunda, Objectivismo, encontram-se elegantes, delicadas, graciosas coisas. A pesca de Deodato é um conto repleto do bom-humor, que alegra o fantastico da narração; etc.

Mater dolorosa é um triste episodio de dôr materna; Yaras paraenses, uma encantadora humorada; Uma historia de amor, uma série de cartas de um Marcel Prévost, agradabilissimas, e A filha do Pagé, uma narrativa muito humana e muito bonita.

O livro lê-se rapidamente, gostosamente. Eu felicito o seu auctor, que me proporcionou uma feliz meia-noite até o amanhecer».

Taes são os conceitos expressos pelo illustre critico em artigo especial do Buenos-Aires, illustrado com um excellente retrato de Marques de Carvalho.

O nosso joven compatriota deve sentir-se bem compensado dos seus esforços, vendo-os prestigiados por auctoridade tão eminente nas lettras americanas, e nós não dissimularemos o jubilo que nos enche a alma cada vez que o nome de um brazileiro levanta longe da Patria applausos e acclamações tão raramente e tão avaramente prodigalizados em geral.

[1] Rubén Dario é um dos mais competentes criticos litterarios da actualidade e o mais vigoroso estylista em idioma espanhol na America do Sul.

De Arthur Azevedo, na secção «Palestra», d'O Paiz:

Li de uma assentada Entre as Nymphéas, o interessante livro que o nosso distincto compatriota J. Marques de Carvalho publicou em Buenos-Aires, onde exerce o logar de 1.º Secretario da Legação brazileira.

O volume divide-se em duas partes—Subjectivismo e Objectivismo. A primeira consta de paginas intimas, escriptas em estylo agradavel, mas um tanto rebuscado; na segunda, mais curiosa, mais simples e mais variada, encontram-se quatro bellos contos que transportam o leitor ás magestosas margens do Amazonas e Uma historia de amor, fantasia psychologica, condimentada à la mode de Paris.

Essa espirituosa composição contém sete cartas, escriptas por uma mulher durante mez e meio, que são o prologo, a acção e o desenlace de uma aventura de amor. O livro de Marques de Carvalho, que sabe manejar a penna perfeitamente; contém paginas verdadeiramente encantadoras. A filha do Pagé o conto com que termina o livro, é uma chave de ouro.

Accrescentarei que o volume, um primor de impressão, imitando as mimosas edições Guillaume, de Paris, faz honra ao editor Arnoldo Moen e á typographia La Vasconia, de Buenos-Aires.

O general dom Bartholomeu Mitre, que foi commandante das forças alliadas contra o Paraguay e presidente da Republica Argentina,—sendo além de tudo um dos mais eruditos e festejados litteratos contemporaneos, dirigiu a Marques de Carvalho as seguintes linhas, ao receber um exemplar de Entre as Nymphéas.

Bartholomeu Mitre saúda attenciosamente ao ex.mo sr. J. Marques de Carvalho Encarregado de Negocios do Brazil na Argentina e agradece o precioso livro que se serviu offerecer-lhe, o qual conservará como uma lembrança na sua Bibliotheca Americana, com a honrosa dedicatoria autographa do auctor, a quem deseja todas as felicidades n'este paiz.

O sr. dom Mariano Pelliza, diplomata e historiador argentino, tambem enviou estas palavras ao auctor:

Mariano A. Pelliza, sub-secretario de Relações Exteriores, saúda ao seu amigo Marques de Carvalho e compraz-se em enviar-lhe os seus agradecimentos pela joia litteraria (por esta vez,—joia—não é metaphora) com que teve a gentileza de o obsequiar.

Herculano Marques Inglez de Souza, o illustre jurisconsulto e eminente litterato brazileiro, endereçou a Marques de Carvalho a seguinte carta:

Cumpro um grato dever, agradecendo cordialmente a V. a dupla distincção que se dignou fazer-me, offerecendo-me um exemplar do sou bello livrinho—Entre as Nymphéas e dedicando-me as sentidas e delicadas paginas que escreveu a proposito da tragedia do vapor Purús.

Já conhecia de V. alguns trabalhos e, entre elles, a Hortencia, romance em que revela grandes qualidades de observação e muito amor á verdade na Arte. O seu novo livro mostra que áquelles predicados sabe V. alliar muito sentimento verdadeiro e um estylo colorido e sóbrio.

A conceituada Revista Brazileira, do Rio, estampou o seguinte juizo critico:

Como a canôa que deslisa por entre a vegetação aquatica que deu o titulo a este elegante livro de contos, vae a alma de quem o lê levada de narrativa em narrativa, sem se emmaranhar nas enrediças do estylo caprichosamente entrelaçadas.

Com effeito, reproduzem-se n'este livro delicado as infinitas gradações de côres que o sol dos tropicos, enfiando o pincel de raios pelo prisma das cataractas, fixou nas pennas das aves e nas folhas dos nenuphares. E com a vehemencia com que pelas regiões do Amazonas brotam as açucenas do seio das aguas, o sentimento do bello enraizado profundamente na alma do escriptor desabrochou em commovidas phrases á flôr do pranto que lhe fez verter a saudade da filhinha ausente ou da mãe que elle viu finar-se.

Brinde a minha filha e Um anniversario são paginas escriptas com o proprio sangue e incluidas na 1.ª parte—Subjectivismo, que o auctor offerece a sua esposa. O subjectivismo terá sempre esta superioridade incontestavel: que na ignorancia em que depois de tantos seculos de philosophias ainda se encontra o homem com respeito á lei do universo, somente a que em si sente póde ter uma tal ou qual consciencia; d'onde resulta que, ainda quando copía o mundo exterior, é o seu proprio sentimento que empresta ás coisas. Por isso o homem persiste em affirmar que os montes são tristes, que choram os mares, que riem as searas, que folgam as aves, e não quer ver que nem os montes são tristes, nem choram os mares, nem riem as searas, nem folgam as aves e que só elle é triste, chora, ri ou folga, porque só elle possue em toda a natureza a capacidade das alegrias supremas comparada com o dom das supremas angustias.

Da 2.ª parte—Objectivismo, commoveram-nos principalmente as duas narrativas Mater dolorosa e A filha do Pagé, a historia entristecedora de uma mãe que vê o filho engulido pelo gigante rio do Norte e a de um velho indio que chora a filha deshonrada. Estes dois contos confirmam-nos na crença de que é, quando menos, inutil para a arte a distincção entre subjectivismo e objectivismo. Se o auctor logra transmittir a quem o lê a emoção espontanea ou reflexa de que se acha possuido (e é o caso do sr. Marques de Carvalho), a obra é verdadeira; se não logra, a obra é falsa, porque, em todo caso, é sempre o objectivismo do leitor que julga em ultima instancia.—S. R.