A Infanta D. Maria
Nasceu esta princeza, em Lisboa, aos 8 de junho de 1521, sendo filha d’El-Rei D. Manuel e de sua terceira esposa D. Leonor d’Austria. Tinha apenas dois annos quando sua mãe, já viuva, saiu de Portugal (maio de 1523) para junto de seu irmão o imperador Carlos V; estava só e desamparada, entregue unicamente aos cuidados de D. Joanna Blasfet, camareira-mór, que lhe proporcionou um arremedo dos cuidados maternaes, até que D. João III veiu a desposar a princeza D. Catharina, irmã de sua madrasta. A nova rainha tomou conta da educação de D. Maria, a qual como ia crescendo ia patenteando todo o seu amor pelas lettras, sciencias e artes.
Os seus paços sumptuosissimos converteram-se em academia onde se juntavam os artistas e litteratos, attrahidos não só pelo culto scientifico mas tambem pela belleza imponente e pela figura magestosa da Augusta Senhora que sabia conciliar a sua dignidade real e os seus deveres de mulher com o tracto affavel para com todos, com a protecção e a estima ao abandonado da fortuna, que tivesse talento como apanagio da Divindade. Viveu a infanta no auge das nossas glorias litterarias, como sol que a todos enthusiasmava; deu vida á mulher, acolhendo as Sigéas (Anna e Luiza), Publia Hortensia, Paula Vicente (filha de Gil Vicente), Joanna Vaz, e tantas outras que seguiram a derrota sublime do genio portuguez.
Depois de ter sido requestada por varios principes da Europa; casamentos estes que a politica e a avareza de seu irmão D. João III lhe veiu a tolher, falleceu a Infanta D. Maria, aos 10 d’outubro de 1577, tres annos antes da morte do grande Luiz de Camões que lhe consagrou o seguinte soneto:
Que levas, cruel morte? Um claro dia;
A que horas o tomaste? Amanhecendo;
Entendes o que levas? Não entendo;
Pois quem t’o fez levar? Quem o entendia.
Seu corpo quem o goza? A terra fria;
Como ficou sua luz? Anoitecendo;
Lusitania que diz? Fica dizendo,
«Emfim não mereci Dona Maria.»
Mataste quem a viu? Ja morto estava;
Que diz o seu amôr? Fallar não ousa;
E quem o faz calar? Minha vontade;
Na morte que ficou? Saudade brava;
Que fica lá que vêr? Nenhuma coisa,
Mas fica que chorar sua beldade.