Considerações relativas á politica a seguir com alguns paizes que envolvem a provincia de Moçambique
É desnecessario dizer o que era de facto ha pouco tempo a provincia de Moçambique ao S. do Zambeze. O que se passa ainda no proprio districto de Moçambique dá idéa de quanto se estendiam os nossos direitos effectivos em toda a provincia.
Hoje, ou em breve, podemos dizer que os limites legaes da soberania portugueza ao sul do Zambeze são, começando do S., os que nos fixam a arbitragem do marechal de Mac-Mahon e o tratado de 1869 com o Transvaal até á altura da confluencia do Paphoris no Limpopo; depois a linha limite O. das terras do Gungunhana, que, partindo approximadamente da altura da foz do Paphoris segue até ao ponto em que o Save muda de direcção para O.; depois o curso d'este rio emquanto elle desde a sua origem corre de N. para o S.; finalmente, uma linha que vá das cabeceiras do Save, abrace os mususuros e Changamira, siga em parte o curso do Mazoe e depois inclinando mais para O., e abraçando os territorios da Chidima, que ultimamente têem sido conquistados pelo districto de Tete, se prolongue até ao Zambeze, não sei quanto, a montante da villa de Zumbo.
A epocha dos soberanos indigenas independentes na Africa do S. está proxima a acabar, e é só aos ingleses, allemães e boers do Transvaal{26} que teremos a attender como unicos elementos que se poderão oppor, pelos direitos que elles por sua parte adquiram, á expansão da area da provincia de Moçambique, ou a que a linha de limites que indiquei se afaste para O., abraçando novos territorios.
Estradas commerciaes. O que é evidente é que estes territorios, abundantes em riquezas para explorar, existem onde estão; que ninguem os poderá deslocar da situação geographica em que elles se acham; e que esta situação os obriga a serem directa ou indirectamente nossos tributarios e a concorrerem para a prosperidade da provincia de Moçambique pelo uso que farão das suas estradas e dos seus portos.
As grandes estradas commerciaes do interior da parte central da provincia de Moçambique para a costa, serão as que vierem encontrar os rios que desembocam na bahia de Manzanzane ou conduzam ao porto do Bangue, e o Zambeze.
A creação do districto e governo de Manica, a viagem que por este motivo fiz ás terras dos landins, e o ter sido um dos primeiros actos do novo governador geral da provincia o tomar em consideração as informações que no meu relatorio expuz relativamente ao rio Pungue, mandando a canhoneira Quanza explorar a foz d'este rio, levaram á descoberta de um porto de mar superior aos de Quelimane e Inhambane, situado approximadamente a meio da distancia entre estes dois portos, e na embocadura de rios navegaveis por grande extensão. A não ser que o estado do paiz, que é desconhecido, revele alguma circumstancia muito desfavoravel, como a de não haver nos terrenos marginaes do porto local conveniente para a construcção d uma cidade, a descoberta d'este porto terá em breve uma extraordinaria influencia no desenvolvimento da mais valiosa porção da provincia de Moçambique.
Basta citar as estradas que a este porto devem convergir.
Disse em outro trabalho que o Quiteve, desde as costas da provincia até proximo da povoação de Gungunhana, era um paiz plano e horisontal. Em todo elle vivem bem os bois e podem ser empregados carros como os que percorrem toda a Africa austral, á excepção dos paizes onde ha a mosca ou aquelles em que ha só portuguezes.
Uma estrada carreteira, partindo da povoação de Gungunhana, deve vir procurar o rio Busi em altura conveniente. Barcos fluviaes a vapor ligarão este porto ao ponto do Bangue. Á estrada de Gungunhana prolongada será a estrada de Duma e de toda a parte S. do paiz dos matebeles até Gubulavaio.
Já tambem em outro relatorio disse que de um ponto da margem direita do Pungue, onde se possa chegar em embarcações adequadas partindo do porto do Bangue, até Manica ha já caminho de preto facil, que se póde percorrer a pé em quatro dias.
É desnecessario lembrar que o sitio das minas de Inhaoxe, entre o Busi e o Pungue, fica a menos de um dia do ponto de desembarque em qualquer d'estes rios e portanto do mais facil accesso pelo porto do Bangue.{27}
N'este mesmo relatorio já disse que o valle de Pungue, para montante da foz do Vundusi, é um excellente campo para colonisação e que a priori se poderia esperar que ao longo d'este valle se possa abrir uma estrada para servir directamente o paiz dos mususuros.
É a que já seguiu o governador geral da provincia na sua visita á capital do districto. Já atrás notei como o prolongamento d'esta estrada para Changamira será a via de communicação mais rapida d'esta divisão do districto de Manica com a costa.
O major Serpa Pinto, no seu livro, Como atravessei a Africa, mostra como, aproveitando o alto Zambeze, o Cafuque e o baixo Zambeze, se póde facilmente pôr em communicação mais de dois terços de largura do continente africano n'estas latitudes com o oceano indico.
Antigamente as communicações entre Tete ou Senna e Quelimane tinham logar por embarcações que desciam o grande rio até ao sitio do Mazaro, entravam ahi no rio Muto, que seguiam com mais ou menos difficuldade de navegação, pela pouca agua que em certos pontos o rio tinha durante a estiagem, e depois pelo rio dos Bons Signaes ou de Quelimane até á villa d'este nome. Mais tarde a bôca do Muto ou Mazaro fechou-se completamente com areia e vegetação, e a navegação pelo rio Muto cessou de todo; começando-se a fazer uso do Barabuanda ou Quaqua, outro canal da communicação entre o Zambeze e o rio de Quelimane, com agua em parte fornecida por alguns pequenos rios que a elle vem dar. Durante alguns dias do anno, quando a cheia no Zambeze é muito grande, as embarcações que vem do Zambeze podem entrar no Quaqua, ou mesmo navegar pelos campos, fóra do leito do canal, e seguir sem interrupção até Quelimane; mas durante quasi a totalidade do anno a navegação não póde ser continua entre Quelimane e o Zambeze. Todas as mercadorias importadas por Quelimane com destino ao Zambeze, ao Chire, ao lago Nyassa, sobem o rio de Quelimane e o Quaqua em pequenas embarcações até onde a agua lhe permitte que cheguem, geralmente até proximo das construcções da companhia do opio onde, o Quaqua faz uma curva que mais do que em qualquer outro ponto, a não ser muito acima quando junto ao extremo do canal, se approxima do Zambeze. Tudo é descarregado ahi e transportado á cabeça dos carregadores até ao Zambeze, na altura da povoação do Vicente, que fica um pouco acima do Mazaro. Com relação ás embarcações, procede-se por dois modos: ou as embarcações que vieram de Quelimane ficam no Quaqua e as cargas são postas em novas embarcações no Zambeze, ou as proprias embarcações do Quaqua são passadas para o Zambeze. Os coxes e almandias feitos de um só tronco de arvore cavado, não têem perigo de se desconjuntarem e são arrastados sobre o solo desde um rio até ao outro; os escaleres são voltados de quilha para o ar e transportados sobre os hombros de trinta ou quarenta pretos. É por este modo que se têem feito nas ultimas dezenas de annos os transportes do commercio do Zambeze. Procedeu-se a estudos para projectar pelo canal do Quaqua, convenientemente rectificado e aprofundado, uma communicação permanente entre o Zambeze e o rio de Quelimane; tem-se tambem indicado como conveniente a construcção de uma linha ferrea partindo da{28} villa de Quelimane ou de outro ponto da margem do rio de Quelimane para o Zambeze e mesmo para o Chire.
Mas as aguas do Zambeze que, como acabo de dizer, só durante as grandes cheias passam pelo Quaqua, pelo Muto e por terrenos inundados para o rio Quelimane, continuam na maior parte do anno, correndo todas pelo grande leito do rio até que este se divide nos differentes braços que as levam ao oceano. Pensa-se hoje que de todas as bôcas do Zambeze, só uma, a do Inhamissengo, permitta a passagem de embarcações por cima da barra.
Quando em 1879 pela primeira vez cheguei ao Zambeze, o porto de Inhamissengo, apesar de que ha seculos tinha sido considerado como podendo dar entrada aos mesmos navios que entram em Quelimane, apesar das viagens de Livingstone, dos trabalhos do sr. Augusto de Castilho e de ter sido o porto por onde os vapores Senna e Tete entraram no Zambeze, achava-se quasi de todo esquecido e inteiramente abandonado pelas nossas auctoridades. A casa hollandeza tinha estabelecido uma feitoria na ilha de Inhamissengo, collocado uma grande bandeira hollandeza na entrada do rio e considerava-se quasi em terreno tão seu como a casa hollandeza em Banana, e Porto da Lenha dizia estar nos seus territorios do Zaire. Algum tempo depois o governador do districto de Quilimane, o sr. José de Almeida de Avila, creou o commando militar do Inhamissengo e nomeou para esse cargo um official que em breve transformou a ilha, em que primeiro se achava só a casa hollandeza, n'uma pequena povoação constituida pela residencia do commandante, construcções do posto fiscal, feitorias das duas grandes casas francezas que negoceiam em toda a costa de Moçambique e algumas outras casas. A creação d'esta povoação não teve no desenvolvimento do commercio da Zambezia a influencia que á primeira vista parecia deveria ter, por tres motivos, sendo um d'elles a falta de communicações entre Inhamissengo e Quilimane, o segundo a falta de um rebocador para facilitar a entrada e a saída dos navios de véla que começavam a ir ao porto de Inhamissengo e o terceiro a situação da povoação. A povoação foi construida junto á primeira casa edificada na ilha, a casa ou feitoria hollandeza; a praia da povoação era tão proxima do mar que a agua muitas vezes estava quasi tão agitada como na costa e muitas das embarcações do Zambeze, que desceram até ao Inhamissengo, foram voltadas pelas ondas, perdendo-se tudo o que n'ellas vinha. Ora, o rio Inhamissengo tem com o de Quilimane por uma grande extensão agua mais profunda do que a altura da agua na barra, e todas as embarcações que podem passar sobre a barra podem com mais facilidade subir pelo rio acima. O sr. capitão Augusto de Castilho, antes de ser governador geral, já tinha feito esta observação e escolhido na terra firme da margem direita do Zambeze local para uma povoação até onde podessem chegar todos os navios que passassem sobre a barra do Inhamissengo e que se achasse em tão faceis condições de accesso para as pequenas embarcações que venham de Tete, Senna e do Chire, como está a povoação do Vicente, onde hoje se fazem todas as baldeações. Um dos primeiros actos do novo governador geral foi o determinar a formação da nova povoação, a que deu o nome de Conceição,{29} e que deve vir a ter um desenvolvimento, como o sr. marquez de Sá, no seu livro o Trabalho rural africano, previa, para a povoação que elle dizia dever fundar-se um pouco mais acima, na Chupanga. A falta de rebocador especial para o porto de Inhamissengo deixa-se de fazer sentir logo que haja um bom rebocador em Quelimane, que por emquanto poderá servir para os dois portos, visto que o numero de barcos de véla que os frequentam é muito reduzido e hoje devem já os dois portos estar ligados por uma linha telegraphica que se achava em construcção quando parti de Quelimane. Quanto ás communicações regulares entre Inhamissengo e Quelimane por vapores, poderiam ellas em rigor ser effectuadas pelo rebocador do governo a que me acabo de referir, mas é de esperar que o sejam por modo mais conveniente, sendo executada a excellente idéa do sr. governador geral, que consiste em dispensar os paquetes da carreira subsidiada de tocar em Chiloane, fazendo-os logo seguir de Inhambane para Quelimane e vice-versa na viagem da volta, o que é vantajoso para o serviço dos portos importantes da provincia, e fazer com que a empreza de navegação com o pequeno vapor que ella tem obrigação de ter em serviço na costa, organise um serviço regular, em combinação com a passagem dos paquetes em Quelimane, d'este porto para o Inhamissengo até á povoação da Conceição, para o Bangue ou foz do Pungue, para Sofalla e para Chiloane. As condições em que assim ficará a povoação da Conceição já por si concorrerão muito para o desenvolvimento do commercio da Zambezia, pois que qualquer pequeno negociante ou agricultor das margens do Zambeze ou do Chire poderá desde já mandar com toda a facilidade uma ou mais almandias tripuladas por pretos de seu serviço portadores de um simples bilhete até Conceição para fazer entrega dos generos, ou ás grandes casas commerciaes de exportação, ou directamente á agencia que n'esta povoação deve ter a empreza de navegação, o que nunca poderia succeder com as complicadas baldeações do Zambeze para o rio de Quelimane.
Mas o grande desenvolvimento do commercio do Zambeze só se manifestará quando aos melhoramentos que tenho indicado e que se podem considerar como realisados, se juntar o da creação de um serviço de navegação a vapor no Zambeze até Tete ou até ao pé das cataratas de Coruabassa, no Chire e no Luenha. Esta navegação não é isenta de difficuldades, mas com a pratica do serviço poderão ir sendo vencidas ou torneadas. O que é urgente é começar. Possuir o Zambeze e não procurar ter n'elle um serviço de navegação a vapor, é como se n'um paiz abundantissimo em productos que precisam ser economicamente transportados, houvesse construida uma extensa linha ferrea que se deixasse desaproveitada só para evitar a compra de uma locomotiva e de alguns wagons. Poucas despezas se poderão fazer na provincia de Moçambique que dêem resultados mais immediatamente remunerativos para a provincia; é incontestavel que com urgencia ao governo convem, ou adquirir algum material de navegação bem escolhido, e organisar por sua conta um serviço de correio de Conceição a Tete, tomando os vapores de escala cargas dos particulares, ou promover a formação de uma empreza, ou dar a qualquer empreza{30} já creada o necessario auxilio para a organisação d'este serviço.
A navegação do Zambeze acima do Tete é interrompida pelas cataratas de Caruabassa. Desde a altura do logar de Cachombe, a montante das cataratas até Zumbo, foz do Cafuque, e por este rio acima a navegação é mais facil do que em muitos pontos do rio abaixo de Tete. Nas publicações que fizerem os dois exploradores Capello e Ivens, que parecem ter vindo enthusiasmados com a regiao do Zumbo, não deixarão elles de confirmar a idéa do major Serpa Pinto e de pugnar pelo aproveitamento da magnifica estrada que a natureza poz ahi á nossa disposição; e eu penso que ao tratar-se da navegação do Zambeze deveria immediatamente fazer-se transportar até Tete o material de uma ou duas lanchas a vapor para serem armadas no Cachombe e ahi lançadas ao rio. Se porém é provavel que uma empreza particular podesse com mais vantagem de que o governo organisar um serviço a vapor desde Conceição até Tete e no Chire, não julgo que, salvo o caso da organisação de uma vasta companhia com um largo plano de trabalhos, o que não será facil por emquanto realisar, o serviço de Cafuque e do Zambeze acima de Cachombe, podesse com utilidade ser feito por uma empreza, e julgo que toda a vantagem n'este caso seria a do emprego de duas embarcações pertencentes ao governo.
Sem entrar em desenvolvimentos, parece-me que a creação de um districto e governo do Cafuque seria hoje um utilissimo serviço prestado á provincia de Moçambique. Apesar das excellentes condições que se dão no actual governador do districto de Tete, não póde elle, como o padre que foi nomeado para Tete com a obrigação de ir dizer missa aos domingos no Zumbo, attender a todas as interessantes questões que agora ha a resolver para o lado do Mazoe, com o Bonga e na Macanga, e ao mesmo tempo occupar-se da expansão dos novos dominios na região do Zumbo e na exploração e occupação da estrada do Cafuque. O districto do Cafuque deveria começar junto ao rio Zambeze na altura do Cachombe, isto é, acima das cataratas da Caruabassa e prolongar-se por emquanto indefinidamente para O. O governador do Cafuque teria dois fins principaes em vista. O primeiro crear relações com os matebeles, se isso fosse julgado conveniente, ou pelo menos assegurar para a soberania portugueza uma facha de terrenos ao longo da margem direita do Zambeze desde o Zumbo até ás cataratas de Cariba ou talvez mesmo até ao rio Guai. O segundo occupar-se da estrada do Cafuque, de estudar bem as circumstancias locaes e propor a necessaria creação de estações portuguezas em pontos adequados. O governo do Cafuque só poderia ser dado a um official prudente e de toda a confiança. Se se encontrasse um official com desejos de cumprir esta missão, mas de patente ou posição tal que não estivesse em harmonia com a de um governador de districto, poderia executar essa missão com o caracter provisorio ou de organisação e com o titulo de commissario do governo, desligando-se em todo o caso do districto de Tete toda a area da sua acção.
Para que tão util medida produza os resultados consideraveis que ella póde e deve produzir, é absolutamente necessario que todos se{31} convençam de que é aos capitães móres de influencia pessoal, contra os quaes tantos fallam por ignorancia, que devemos quasi todos os territorios que possuimos na Zambezia, que a obra d'estes capitães móres foi o primeiro passo dado, e em que seria perigoso ficar; que devemos agradecer-lhes e recompensa-los, e trabalharmos de accordo com elles em ir transferindo a sua influencia pessoal para agentes mais regulares da Magestade, como agora dizem todos os pretos da Gorongosa, que já hoje bem comprehendem que a Magestade, e que o governador, mandado pela Magestade são auctoridades de ordem muito superior á de Manuel Antonio; e isto porque Manuel Antonio, na melhor harmonia com o governador de Manica, não faz senão repetir aos grandes e aos mais pretos que elle é escravo do Rei, e que todos devem absoluta obediencia ao governador que elle mandou para ali.
Não conheço o capitão mór Araujo Lobo, mas sim os muitos serviços que elle tem prestado ao paiz, e estou convencido que se apparecer no Zumbo um governador do Cafuque, ou um commissario regio que proceda com tanto tacto, como na Gorongosa está procedendo o governador de Manica, teremos adquirido em breve e consolidado para a nação portuguesa, e poderemos muito desenvolver elementos, já hoje adquiridos por portuguezes benemeritos, mas elementos que nas condições que hoje se dão podem de um momento para o outro desconjuntar-se e inutilisar-se, quando não seja senão pela morte, possivel sempre, de um ou poucos individuos. A um negociante da Zambezia, muito pratico nas viagens para Tete e para o Zumbo, ouvi eu dizer que o capitão mór do Zumbo, Araujo Lobo, podia com os recursos de que dispõe assegurar communicações permanentes desde esta villa até ao Bihé. Não aproveitar meios de acção d'esta ordem seria falta para lastimar.
Bordo do Drumond Castle, 23 de Janeiro de 1886.=Joaquim Carlos Paiva de Andrada, capitão de artilheria em commissão.