Hydrographia

O referido esboço mostra que o Zambeze se acha em communicação fluvial, talvez interrompida n'algum ponto, durante a estiagem, com a costa de Sofalla. O rio Zangue, affluente do Zambeze e limite dos prazos Caia e Inhamunho, vem de uma lagoa, que, por banhar o{5} prazo Absinta, tem este mesmo nome, e que communica por meio da serie de lagoas ou canal chamado Mucua, com uma grande depressão de terreno, mais ou menos cheia de agua, conforme a estação, chamada Tandora Zungue. N'esta grande lagoa desembocam varios rios vindos da serra da Gorongosa, os quaes, durante uma parte do anno, poderão ser empregados como meios de communicação por pequenas embarcações até quasi á base da serra; d'esta lagoa nasce o rio Urema, navegavel todo o anno, e que juntando-se ao rio Pungue, ou antes ao seu novo braço Mudinquidinqui, causado por uma cheia, vae lançar as suas aguas na costa de Sofalla. O rio Urema separa o prazo Gorongosa do prazo Cheringoma, e por isso é hoje limite entre os districtos de Quelimane e de Manica.

No itinerario seguido, a partir da serra Gorongosa para as terras dos landins, o primeiro rio de importancia que se encontra é o Vunduse, affluente do rio Pungue; este affluente, que tem um leito de uns 100 metros de largo, mas não é navegavel, é limite do prazo Gorongosa e do reino do Barue. Depois do rio Vunduse encontra-se o rio Aruangua, que desde aqui até á foz é mais conhecido com o nome de Pungue, representando os dois nomes o mesmo rio.

Na altura em que o atravessei, na minha viagem a Manica em 1882, tem o rio Pungue muita agua, mas corre sobre um leito irregular de grandes rochas, que o torna inteiramente improprio para a navegação; no ponto onde agora o atravessei por duas vezes, com uma vara de 14 pés, ou mais de 4 metros, não encontrei fundo; mas ainda n'essa altura do rio ha grandes rochas, e a agua, dizem-me, baixa na estiagem a ponto de permittir a passagem a vau entre ellas. Um pouco, porém, mais abaixo, logo a jusante da foz do Vunduse, as rochas desapparecem e o rio continua até á foz sobre leito só de areia e com uma altura de agua, que o torna em toda esta extensão navegavel por qualquer vapor fluvial ou por vapores costeiros, como o Soutiene e Lion, que ultimamente têem frequentado alguns pontos da provincia. Todas as informações que tenho colhido me fazem suppor que na foz do Pungue, e até em frente do logar chamado Bangue, no prazo Cheringoma, ha um porto capaz de dar abrigo a navios de grande tonelagem.

Passado o Pungue é o Revue o primeiro rio importante que se encontra. É este affluente do rio Busi, o rio que passa junto á antiga villa de Manica, a tiro de pistola da arruinada fortaleza. No ponto em que o atravessei tem o leito do rio uns 100 metros de largura, e, na viagem de ida, com uma vara de 12 pés, ou mais que 3m,5, não encontrei fundo; ouvi, porém, pouco a jusante, o ruido de uma grande quéda de agua em rocha, e sei que o rio não póde ser navegavel até esta altura; mas disseram-me que o era em toda a epocha do anno, pelo menos por pequenas embarcações, como as que se empregam no Zambeze, até junto de umas rochas chamadas Inharumirua, que ficam a menos de duas horas de caminho a jusante d'este ponto. Para baixo nem o Revue nem o Busi apresentam embaraço algum á navegação, a partir da costa.

Ao Revue seguem-se, na direcção que eu percorria, successivamente o Mussapa e o Mufomose. Atravessei os dois rios seguidamente{6} na altura da confluencia do primeiro no segundo. O Mussapa tem uns 30 metros de largura de agua e o Mufomose uns 60 metros; quando os passei, na ida, tinha o primeiro 5 pés de agua e o segundo 10 pés. Na viagem da volta a agua tinha baixado, a ponto de poderem alguns dos carregadores atravessar a vau, embora com difficuldade; mas disseram-me que conservam os dois rios normalmente a altura de agua a que tinham chegado, sendo o Mufomose sempre navegavel por almandias até um ponto a montante d'este, onde me disseram se encontra a primeira obstrucção causada por umas rochas chamadas Papuquenchofo.

O Mufomose é affluente do Lusite, rio que em seguida atravessei, com uns 50 metros de largura e 10 pés de profundidade, na viagem de ida, reduzidos a 5 pés, na viagem de volta. Este rio Lusite é navegavel até muito a montante do ponto em que eu o atravessei, e constitue, combinado com o Busi, uma importante via de communicação até uma grande distancia no interior. Infelizmente esta grande via fluvial Busi Lusite, está, como a via Busi (Lusite) Mufomose, interrompida em um ponto. O arco natural sobre o rio, marcado na carta do sr. marquez de Sá sobre o Busi, e que tem o nome de Inhambimbe, está situado exactamente na confluencia do Lusite com o Busi, atravez dos dois rios, cortando a continuidade das communicações. Actualmente, na pouca navegação local entre as povoações que estão a montante e a jusante d'este ponto, procede-se como se faz no Quaqua, na altura de Mopeia, para todo o movimento do Zambeze; cargas e embarcações são passadas por terra até vencer o obstaculo. So o arco fosse isolado, visto como ha effectivamente um arco, debaixo do qual corre a agua, mas que não dá passagem a embarcações, alguma dynamite remediaria logo tudo; mas é provavel que haja mais algumas rochas no proprio leito dos dois rios. Como porém, em todo o caso, é um phenomeno isolado e pouco extenso no centro de uma planicie, sem pedras em que os dois rios por ali correm, muito facil seria abrir um ou dois pequenos canaes lateraes na altura d'esta obstrucção. Não se tratará de certo por algum tempo de resolver esta questão.

O que me parece importante que fique bem sabido é que o primeiro obstaculo á navegação no Busi só se encontra no arco Inhandimbe; que a foz do Revue fica a jusante d'este ponto e que os dois rios são navegaveis até ás rochas ou rapidos de Inharumirue, que se encontram no segundo, e que distam apenas, como direi, um dia de viagem do territorio e minas do Bandire, onde, pela via a que me estou referindo, poderá chegar com facilidade todo o material pesado necessario para a sua lavra.

Passado o Lusite atravessei o proprio Busi, mas n'uma altura em que elle nunca será empregado como via de communicação. Não tenho a mencionar n'este trabalho os mais rios que atravessei, valiosissimos para irrigação, mas inuteis como meios de communicação.{7}