Motivos da viagem
Pela portaria expedida pela secretaria d'estado dos negocios da marinha e ultramar, com data de 30 de junho de 1884, incumbindo-me de auxiliar a installação do governo de Manica, e por instrucções communicadas por s. ex.ª o director geral do ultramar, relativas ao cumprimento da mencionada portaria, fui tambem encarregado de visitar os regulos vizinhos e de procurar estreitar com elles relações de commercio e amisade.
Ao chegar ao Zambeze com o pessoal do novo governo constou-me que se achavam nas povoações que o sr. Manuel Antonio de Sousa, capitão mór de Manica e Quiteve, tem formado na serra da Gorongosa, dois grupos de landins; um d'elles com o fim de visitar o mencionado capitão mór e o outro o capitão mór de Senna, o sr. Anselmo Ferrão, unicas pessoas que para os landins representam a auctoridade, e os brancos ou mosungos de Senna.
Logo que o pessoal vindo de Lisboa, com destino ao districto de Manica, chegou commigo a Magagade, povoação ou logar na margem do Zambeze pertencente ao prazo Gorongosa e portanto ao referido districto, parti para o Chire, onde se achava nas operações da guerra do Matacanha o capitão mór de Manica, para combinar com elle na maneira como, com a menor demora possivel, se poderiam fazer seguir das margens do Zambeze para a saluberrima serra da Gorongosa os europeus recemchegados; e, referindo-me aos landins, lhe disse que, apesar do improprio da estação, em que iria encontrar os rios em cheia, e muita palha no mato, me parecia muito conveniente aproveitar a occasião de se acharem na Gorongosa as duas embaixadas, para ir com ellas visitar o Musila e dar cumprimento a uma parte da minha missão,{4} o que, a não se dar esta circumstancia, só mais tarde tencionava realisar.
Concordando Manuel Antonio de Sousa com a provavel importancia da minha viagem n'esta occasião, obtive delle que sustasse a sua partida para Moçambique, onde tencionava ir logo que terminasse a guerra do Chire, e fosse com a sua presença e extraordinaria influencia sobre os indigenas apressar a reunião dos machileiros e carregadores em Magagade, e me acompanhasse até aqui para resolvermos com os landins ácerca da minha desejada viagem. Os landins consentiram logo em voltar para traz e acompanhar-me até junto do Musila. Antes, porém, de eu partir chegou á Gorongosa a noticia de que o Musila, que os landins tinham deixado de boa saude, morrêra quasi de repente. Esta circumstancia difficultava a viagem, por causa das guerras e estado de agitação que quasi sempre seguem á morte de um grande potentado africano; mas pensei tambem que por causa d'ella poderia vir a tornar-se mais util e a proposito a visita, e confirmei-me na primeira resolução. Poucos dias depois de começada a viagem soube que Mudungase, um dos filhos do Musila que os landins na Gorongosa indicavam como provavel successor, tinha effectivamente como tal sido reconhecido, e que elle, receiando que seu irmão Mafumana, o mais guerreiro e mais para temer dos filhos do Musila, não se conformasse com a opinião geral e conspirasse para subir ao poder, o mandára matar, com a mulher e todos os filhos machos, e que, no mais, tudo e todos estavam e tinham estado no mais completo socego.