Resumo elementar de archeologia christã
CAPITULO I
Principios da arte christã no Occidente
PRIMEIRO PERIODO
CAPITULO II
Summario.—Descripcão das catacumbas de Roma—Principios artisticos e classificações das pinturas das catacumbas—Symbolos ou allegorias dos primitivos christãos—Representação de Jesus Christo e de Nossa Senhora—Imagens dos Santos—Monogramma de Christo—Lampadas—Sarcophagos christãos—Vasos de sangue—Monumentos christãos fóra das catacumbas—Edificios religiosos construidos nos tres primeiros seculos—Cemiterios á superficie do solo—Alfaias e instrumentos do culto.
CAPITULO III
Summario.—Estylo Latino—Estylo Bysantino—Fórmas das Basilicas—Origem da Basilica Christã—O Narthex—Orientação das Basilicas e Egrejas Christãs—Egrejas cruciformes, circulares e polygonaes—Cryptas—Baptisterios—Oratorios domesticos—Templos pagãos e edificios profanos apropriados em Egrejas Christãs—Systema e regras de construcção—Decoração monumental—Narthex, fachadas e portaes das Basilicas—Janellas e a maneira de as vedar.—Madeiramento do cume dos edificios—Torres—Pinturas representadas em mosaico—Pavimento nos edificios—Altares—Ciborium—Ambon, Tribuna para as leituras da Biblia—Poltrona para os bispos e bancos para os sacerdotes—Cemiterios—Monumentos funerarios—Sarcophagos—Tumulos subterraneos—Objectos com symbolos christãos achados nas sepulturas—Alfaias religiosas—Calices e Patenas—Custodias—Relicarios—Pombas e torres—Accessorios do altar—Corôas de metal precioso suspensas sobre o altar—Dipticos—Encadernação dos livros dos Evangelhos—Estofos religiosos—Paramentos sacerdotaes—Jesus Christo sob fórmas symbolicas—Os Apostolos S. Pedro e S. Paulo.
O ouro, a seda e as perolas, abundavam em todos estes bordados, que consistiam muitas vezes em medalhões circulares ou ovaes e que applicavam sobre tecidos preciosos, para lhes imprimir um caracter religioso.
Desde o VI seculo que a arte de bordar foi, na Europa occidental, a principal occupação das mulheres nobres, e no seculo seguinte, esta arte elevou-se a um tal gráu de prosperidade, nas Ilhas Britannicas, que durante toda a idade media não deixou de florescer.
Desde os primeiros seculos, que se ornavam com bordados de purpura, ou de qualquer outra côr brilhante, as vestes de lã branca dos padres e dos diaconos. Estes bordados foram mais tarde substituidos por brocados de seda. Serviam-se tambem dos pannos d'essa qualidade, para armação nas basilicas e nas egrejas.
Estes ricos pannos tinham ainda outro uso. Antes de serem collocadas nos ataúdes, as ossadas dos Santos eram rodeadas de pelles de camello e envolvidas em tecidos os mais ricos, de linho, seda e ouro. A maior parte dos estofos antigos que se conservaram até aos nossos dias, foram tirados de sepulturas de Santos.
Paramentos Sacerdotaes. A Egreja manteve escrupulosamente, para os ornamentos sagrados, as fórmas adoptadas pelos primeiros christãos, emquanto que a fórma e o talhe dos fatos profanos se modificaram invencivelmente.
Em geral, os paramentos sagrados dos padres e dos ministros inferiores eram brancos. O uso das côres variadas manifestou-se primeiramente nas casulas e nas capas d'asperges.
As cinco côres liturgicas de que se servem hoje, foram estabelecidas pouco mais ou menos no IX seculo, e definitivamente consagradas dois seculos depois.
Os paramentos dos padres são as casulas, a capa d'asperges, a estóla, o manipulo, o cinto, a ópa e o amicto. As principaes vestimentas, proprias para os ministros inferiores, são a dalmatica e a tunicella.
A casula primitiva era uma vestimenta sem mangas, muito ampla, envolvendo todo o corpo desde o pescoço até aos pés, e formando uma especie de barraca, casula, em torno da pessoa que a vestia. Tinha apenas uma abertura para passar a cabeça.
A estóla deve o seu nome e origem ao vestuario que os romanos chamavam estola.
A Egreja adoptou como paramento a estóla, de que se fazia uso por toda a parte, na occasião em que se estabeleceu o Christianismo.
O manipulo não se usava durante os primeiros seculos da Egreja. Foi S. Gregorio o Grande, (590-604) quem primeiro fallou, em seus escriptos, do manipulo como paramento sagrado.
A capa é um paramento commum ao padre e a alguns dos ministros inferiores. Primitivamente serviam-se da capa para se resguardarem da chuva nas procissões; é tambem por este motivo que ella se chama muitas vezes pluvial.
A alva e o cinto devem a sua origem á tunica talar dos antigos, que era um vestuario de linho, munido de mangas e apertado á roda do corpo com um cinto.
A alva era vestida nas funcções sagradas pelos bispos, padres e todos os ministros inferiores.
O amicto é uma espécie de téla de que os padres e os ministros se servem para cobrir o pescoço. A origem d'este vestuario não vae além do VIII seculo.
Durante os tres primeiros seculos, os diaconos trajavam o colobio, que era uma especie de tunica longa e estreita, ordinariamente sem mangas. Foi no principio do IV seculo, que o Papa S. Silvestre substituiu o colobio pela dalmatica.
A dalmatica era uma bluse comprida, feita de lã da Dalmacia.
Até ao VII seculo, os sub-diaconos da Egreja do Occidente não eram vestidos senão com a alva, com o cinto e com o amicto.
Mosteiros Latinos
Iconographia do periodo Latino
Caracteres do estylo Bysantino
CAPITULO IV
Summario.—Oestylo Roman desde o VIII até ao seculo X—Caracteres do estylo Lombardo—Planos das Egrejas—Cryptas—Baptisterios—Systemas de construcção—Abobadas—Pilares e columnas—Bases—Capiteis—Fachadas—Cornijas—Decoração monumental—Architectura, antes do seculo XI, nos outros estados sem ser na Lombardia: Italia central e meridional, Belgica e França—O estylo Roman durante o XI e o XII seculos—Caracter da Architectura Roman—Plano e distribuição das Egrejas—Cryptas—Baptisterios n'este seculo—Materiaes e modo de construir—Sepultura monumental—Fachadas—Portico das egrejas—Portaes—Portas e suas ferragens—Janellas e rosaceas—Maneira de resguardar da chuva as janellas e as vidraças pintadas—Absides—Pilares, columnas—Bases e capiteis—Arcadas e arcarias menores—Triforium—Cornijas e modilhões—Abobadas—Contrafortes—Madeiramentos—Torres—Modo de se lagearem os edificios—Pinturas muraes—Inscripcões lapidares—Altares—Piscinas—Tribunas—Cadeiras do côro e a separação da capella mór do corpo da egreja—Capellas funereas—Tumulos visiveis e occultos—Campas—Pias Baptismaes—Gradamentos—Alfaias religiosas—Calices e patenas—Custodias—Relicarios—Corôas suspensas nos altares—Lustres de forma de corôas—Cruzes para os altares e procissões—Castiçaes e tocheiros—Evangeliarios—Capas dos livros do Evangelho—Thuribulos—Pias para agua benta—Pentes liturgicos—Cadeiras para os sacerdotes—Baculos—Calçado liturgico—Mitras—Tecidos bordados—Vestuarios sacerdotaes.
Periodo Roman
O estylo Roman desde o VIII até ao X seculo
Caracteres do estylo Lombardo
Decoração monumental
O estylo Roman durante os seculos XI e XII
Caracteres da architectura Roman
Capellas funerarias, tumulos e pedras tumulares
Os calices ordinarios do VIII e do IX seculo, têem muitas vezes, como os do periodo Latino, a taça profunda e estreita, o pé pequeno e ligado á taça por um simples nó sem haste.
No IX seculo começou a usar-se a taça maior, e ás vezes de fórma espherica e com azas. O pé conserva-se ainda n'este seculo com as mesmas dimensões que nos precedentes.
Os calices do XI e do XII seculos têem a taça e o pé muito grandes, o nó bastante grosso e a haste curta quando a têem.
Na Allemanha encontram-se calices do XII seculo que têem o exterior da taça inteiramente coberto de medalhões, de esmaltes, de pedrarias e de filigranas; estes ornatos são apenas interrompidos por um pequeno espaço semi-circular destinado para o padre applicar o labio inferior durante a communhão.
Os mysterios da vida e da paixão do Salvador e principalmente a sua crucifixão, eram os assumptos que os artistas mais gostavam de reproduzir sobre os medalhões circulares ou ovaes com que decoravam a taça e o pé dos calices.
Em geral compõem-se d'um reservatorio sustentado por um grosso fuste cylindrico, ou mesmo por um pilar quadrado, e tambem se encontram alguns cujos angulos se apoiam sobre quatro columnas.
Estas pias baptismaes, exteriormente quadradas, são os reservatorios circulares e ovaes, tendo as faces externas esculpidas com florões, folhagens, arcos, animaes phantasticos, carrancas e até é facil vêrem-se assumptos legendarios ou historicos.
Grades. Os romanos faziam muitas vezes grades fundidas em bronze. Na Italia e no Sul da Allemanha ainda se empregaram até ao XI seculo. estas grades.
Carlos Magno empregou o bronze nas grades da egreja de Aix-la-Chapelle que foram, assim como o edificio de que fazem parte, uma importação meridional.
Durante o XI e XII seculo, as grades eram compostas de montantes verticaes mettidos n'uma moldura e encerrando ornatos formados de barras, de secção quadrada ou rectangular; estes ornatos consistem em geral em curvas entrelaçadas.
Alfaias religiosas
Abbadias, Mosteiros e claustros dos Capitulos
A cruz e a crucificação
Personagens e accessorios historicos
Personagens e accessorios allegoricos
Na Grecia e no Oriente, os pintores e os esculptores cobrem ordinariamente a cabeça da Santissima Virgem com um veu; os artistas occidentaes tambem conservaram esta tradição durante algum tempo, mas, a começar do seculo IX, dão a Nossa Senhora uma corôa real e algumas vezes uma especie de gorra.
Os Anjos. Os anjos têem figurado nos monumentos christãos desde o IV seculo. Os primeiros não tinham azas. Só do V seculo em diante é que começaram a tel-as bem como o nimbo. São representados com uma longa tunica, orlada por duas faixas em fórma de clavi, e têem algumas vezes na mão um longo sceptro ou bastão, terminado por um florão ou por uma cruz. Os archanjos Miguel, Gabriel e Raphael, tambem muitas vezes são representados.
Os Anjos têem sempre os pés descalços. Symbolisava-se d'esta maneira a sua qualidade de mensageiros celestes.
Os Evangelistas e seus symbolos. O uso de representar os Evangelistas sob a fórma humana ou por symbolos, data pelo menos do IV seculo.
Sob a fórma humana encontrâmol-os primeiramente em alguns mosaicos antiquissimos e um pouco mais tarde tambem nas miniaturas dos evangeliarios. Estão regularmente sentados debaixo d'um portico, tendo na sua frente um pulpito chamado scriptional, sobre o qual está desenrolada uma folha de pergaminho, com o titulo ou as primeiras palavras do seu Evangelho. Apparecem sempre descalços e ás vezes acompanhados do animal que lhes serve de symbolo.
Os symbolos mais usados dos evangelistas são os seguintes:
Os quatro rios do Paraizo. O modo de symbolisar os evangelistas pelos quatro rios: Phisonte, Géhonte, Tigre e Euphrates, tem origem muito remota. Os mais antigos mosaicos e as proprias catacumbas nos offerecem já exemplos d'esta representação. O Salvador com a fórma humana ou com a do Divino Cordeiro, apparece sobre um outeiro d'onde brotam quatro rios, emblemas dos Evangelhos, os quaes, produzidos pela fonte da Vida Eterna, trouxeram ao Universo a fertil doutrina de Christo.
Os animaes symbolicos. Os Evangelistas são muitas vezes symbolisados por quatro figuras com azas: um homem, uma aguia, um leão e um bezerro. Estes symbolos devem a sua origem ás visões do propheta Ezequiel e do Apostolo S. João. Eu vi (dizia este ultimo), em torno do throno do Cordeiro quatro animaes. O primeiro com o aspecto de um leão; o segundo, de um bezerro; o terceiro com rôsto humano e o ultimo semelhando-se a uma aguia em pleno vôo.
Os santos Padres consideraram estas visões como os seguintes symbolos: o homem o de S. Matheus; a aguia o de S. João, o leão o de S. Marcos e o bezerro o de S. Lucas.
Encontram-se os animaes symbolicos mais a miudo: 1.º, sobre as capas dos evangeliarios; 2.º, nas quatro extremidades das cruzes d'Altar; 3.º, nos quatro angulos da representação do Christo em sua Gloria, como elle existe sobre as frentes dos altares, e nos tympanos dos portaes d'egreja do XI e XII seculos.
Os symbolos dos evangelistas reduzem-se a quatro sobre um unico objecto ou empregados conjunctamente n'uma pintura, ou esculptura; são regularmente acompanhados de Christo figurado com a fórma humana ou por um symbolo.
É, finalmente, da doutrina de Christo que derivam, como d'uma fonte commum, os quatro Evangelhos.
Quando se dá o caso dos animaes symbolicos ornarem os quatro angulos d'uma superficie quadrada, quadrangular ou redonda, taes como as capas dos livros, os tympanos dos portaes, as frentes d'altar ou a flabella, têem certos logares determinados pelo uso: o homem com azas (ao qual muitos auctores dão abusivamente o nome d'anjo) occupa o angulo superior direito (á esquerda do espectador); a aguia, o angulo superior esquerdo; o leão, o angulo inferior direito, e o bezerro, o angulo inferior da esquerda.
Quando collocados nas extremidades dos quatro braços da Cruz, a aguia acha-se no vertice, o homem na extremidade inferior, o leão no braço direito e o bezerro no braço esquerdo da Cruz.
Os Apostolos. S. Pedro e S. Paulo eram os unicos Apostolos que durante o periodo Roman se representavam com um typo uniforme.
Desde os tempos mais remotos, que S. Pedro era representado trazendo uma Cruz, ou as chaves, e tem cabello na cabeça, emquanto que S. Paulo é calvo. Até ao XIII seculo não se encontra nos outros Apostolos nenhum attributo caracteristico. Representam-se todos do mesmo modo, com um rôlo ou livro na mão.
Os Apostolos e mesmo Judas, têem os pés descalços.
Os artistas da idade media symbolisavam com este signal iconographico a missão sublime, confiada aos Apostolos, de derramar por toda a terra a doutrina Evangelica.
Assumptos religiosos representados sobre os monumentos dos seculos XI e XII. Estes assumptos tirados quasi todos da Biblia, não eram muito variados; tinham em geral um caracter uniforme e reconheciam-se bem ao primeiro golpe de vista. Eis pois os que mais frequentemente eram reproduzidos:
1.º, a tentação dos nossos primeiros paes; 2.º, o sacrificio d'Abrahão; 3.º, a Annunciação; 4.º, a visitação da Santissima Virgem; 5.º, o Nascimento de Nosso Senhor, que já se representava sobre os sarcophagos e nas pinturas a fresco das catacumbas do seculo IV; 6.º, a Adoração dos reis magos; 7.º, a degolação dos innocentes; 8.º, a fugida para o Egypto; 9.º, a exposição do Menino Jesus no Templo; 10.º, o baptismo de Nosso Senhor; 11.º, a sua entrada triumphal em Jerusalem; 12.º, a transfiguração; 13.º, a ultima ceia; 14.º, a crucifixão; 15.º, a descida da Cruz; 16.º, a Resurreicão; 17.º, as Santas mulheres no tumulo; 18.º, a Ascensão de Nosso Senhor.
Representações symbolicas das virtudes e dos vicios. Os artistas christãos da idade media estimavam muito symbolisar tanto as virtudes como os vicios. Durante o periodo Roman as virtudes representam-se sob a figura de mulheres tendo corôas, algumas vezes tambem azas, e na cabeça uma especie de gorra. O seu nome acha-se inscripto do seu lado, ou sobre qualquer objecto que conservam nas mãos; ás vezes teem mesmo um emblema. As quatro Virtudes Cardeaes;—prudencia, justiça, força e temperança—encontram-se frequentemente sobre os monumentos Romans de toda a especie.
Os vicios são figurados, ou por monstros phantasticos, ou por homens e mulheres entregues aos excessos de suas paixões; encontram-se muitas vezes sobre o mesmo monumento em concorrencia com as virtudes que lhes são oppostas.
Animaes phantasticos. Os monumentos do periodo Roman offerecem-nos a representação de numerosos animaes reaes e phantasticos.
Indicaremos alguns d'estes ultimos.
1.º O basilisco é um animal com a fórma d'um gallo, mas com a cauda semelhante á d'uma serpente. Reputa-se provir d'um ovo de gallinha chocado por um reptil. O basilisco symbolisava o demonio.
2.º A aspide é uma especie de serpente que a lenda diz estar de guarda á arvore do balsamo. Se o homem quizer approximar-se d'esta arvore para lhe colher o fructo, torna-se necessario que elle primeiro adormeça a mesma serpente pelo encanto; mas esta, para se subtrahir ao encantamento, tapa uma das orelhas com a cauda e a outra com terra, espojando-se na lama. A aspide representa os que voluntariamente deixam de attender aos mandamentos do Senhor.
3.º O griffo é um quadrupede com azas e cabeça d'aguia. Symbolisa o demonio. Vê-se muitas vezes sobre os monumentos Romans dos seculos XI e XII.
4.º A sereia é um monstro com o corpo metade mulher e metade peixe. A parte superior do corpo, que comprehende a cabeça, os braços e o corpo até á cintura, tem a fórma humana; e o resto inferior é a cauda d'um monstro marinho. Entre os Gregos e os Romanos as sereias terminavam em passaro e não em peixe; eram tres e habitavam uns rochedos escarpados entre a ilha de Capri e as costas d'Italia; os seus cantos tinham o poder de fazer esquecer aos navegadores o paiz d'onde vinham. Durante a idade media a sereia foi o symbolo da seducção causada pelos attractivos das pessoas.
Tambem se encontram sobre muitos monumentos os doze signos do zodiaco, muitas vezes acompanhados com os trabalhos do anno que lhes correspondem. Eram frequentemente empregados para ornar as archivoltas dos portaes principaes das egrejas.
Doadores e doadoras. Quando os doadores e as doadoras d'um monumento queriam conservar ás gerações futuras a lembrança do seu beneficio, faziam-se representar em pequenissimas proporções, humildemente prostrados aos pés de Jesus Christo, da Santissima Virgem ou d'outros Santos.
Algumas vezes tambem os doadores se figuravam n'uma parte secundaria do monumento, apresentando a Deus ou tendo simplesmente nas mãos um modelo da egreja, do altar ou do objecto que haviam offerecido.
CAPITULO V
Summario.—Noções preliminares—Diversas fórmas de ogiva—Origem da ogiva e do estylo ogival—Periodo de transição do estylo Roman ao estylo Ogival—Caracteres d'Architectura Ogival—Observações geraes—Plano e disposição das egrejas—Systema de construcção—Materiaes e apparelhos de construcção—Esculptura monumental—Fachadas—Adros—Portaes—Pinturas—Janellas—Rosaes—Caixilhos de janellas e vidros—Vidraças pintadas—Pilares, columnas e columnasinhas—Bases de columnas—Capiteis—Caxorros e misulas—Arcadas e arcaduras—Triforium—Cornijas—Platibandas—Abobadas—Arcos butantes—Contrafortes—Gargulhas—Nichos e Docel—Madeiramentos—Telhados—Torres e campanarios—Pavimentos—Labyrintho—Pinturas das paredes—Cruzes de consagração—Altares—Tabernaculos—Cadeiras de côro—Separação do Altar-mór—Pulpito e confissonarios—Capellas funereas, tumulos, campas, Cruzes de Cemiterio—Pias Baptismaes—Pias de agua benta—Engradamentos—Orgãos—Alfaias religiosas—Calices e patenas—Custodias—Thuribulos—Relicarios—Corôas para luzes—Cruzes de altar e de procissão—Castiçaes—Estantes—Instrumentos de paz—Moldes para Hostias—Baculos—Mitras—Vestimentas sacerdotaes—Abbadias e Mosteiros—Egrejas—Claustros e Refeitorios—Sala de Capitulo—Dormitorios—Casa para hospedes—Celleiros—Prisão—Cartuxa—Hospitaes—Iconographia—O Nimbo—O Crucificado—Os Apostolos e os Evangelistas—O Dia de Juizo—Sibyllas.
Periodo Ogival
Periodo de transição do estylo Roman para o Ogival
Caracteres da architectura ogival
A disposição geral d'estas vidraças nas cathedraes e nas grandes egrejas do XIII seculo merece o exame reflectido da parte do archeologo. A pintura da vidraça superior do côro da capella mór, que attrahe sobretudo a vista e domina, de alguma maneira, o altar mór, era dedicada ao Salvador soffrendo pela redempção do genero humano; vê-se ahi quasi sempre Jesus Christo na Cruz entre a sua Divina Mãe e o discipulo querido, com os symbolos accessorios, que na idade média acompanham sempre a scena da crucifixação. Nas outras janellas superiores do côro estão em pé os Apostolos e os Santos venerados na basilica; as janellas altas da nave principal são pintadas com grandes imagens de outros Santos, taes como as dos patriarchas, reis e prophetas do antigo Testamento. As vidraças pintadas á roda da capella mór e das capellas da charola, formadas por medalhões, representam os principaes factos da vida de Jesus Christo e de Nossa Senhora, ou as legendas dos oragos da egreja; algumas vezes tambem, se representavam, sob fórmas symbolicas, os principaes dogmas da Fé. As vidraças pintadas das janellas lateraes da nave, e muitas vezes do transepte, eram dedicadas ás legendas de devoção da localidade, e aos Santos ou Santas de que a egreja possuia reliquias.
Nas vidraças pintadas do XII e XIII seculo, ás vezes reproduziam os retratos dos doadores, mas sempre de tamanho menor.
Passemos agora a fallar das vidraças com pinturas de grisalha. Dá-se este nome á composição do caixilho pintado de vidros brancos ou um pouco esverdinhados, sobre os quaes são traçados, por meio do esmalte pardo, desenhos e ornatos variados.
Nas grisalhas da primeira metade do XIII seculo, o desenho é desenvolvido com firmeza, vigorosamente modelado, e os vidros seguros por filetes de chumbo que indicam os traços mais fortes dos ornatos ou formam as principaes divisões do caixilho da vidraça pintada. Os vidros são quasi opacos e completamente sem nenhuma parte colorida. Estes vidros são geralmente grossos, esverdeados e muitas vezes apresentam bolhas na superficie.
A começar da ultima metade do XIII seculo, as grisalhas vieram a ser menos opacas, deixando penetrar uma claridade mais abundante no interior dos edificios; ás vezes não são estes vidros sem ter colorido, porque se lhe ajuntam vidros coloridos nos filetes que os dividem, ou nas pequenas rosetas espalhadas na superficie.
Vidraças pintadas do XIV seculo
Vidraças pintadas do XV seculo
Vidraças pintadas no XVI seculo
Vidraças pintadas do XVII seculo
Vidraças pintadas do XVIII seculo
Pilares, columnas e columnasinhas
Bases das columnas
Modilhões e misulas
Arcadas e arcaduras
Triforium
Cornijas
Platibandas
Chartres é circular; o de Saint-Quentin, octogono; taes eram tambem os de Arrhas, Amiens e Reims. Na egreja de Saint-Bertin em Saint-Omer, tinha a fórma quadrada. Muitas vezes havia, ao centro e aos angulos do labyrintho, pedras com inscripção lembrando algum facto relativo á construcção do edificio. Em Amiens, por exemplo, a pedra central representava os architectos da egreja e o bispo Évrard, seu fundador, com os nomes dos personagens e a época da construcção, gravados sobre laminas de cobre embebidas na parede.
Pinturas das paredes. Já descrevemos os caracteres da pintura mural na época roman. Esses caracteres e o systema do colorido modificam-se de uma maneira evidente seguindo o desenvolvimento da architectura ogival.
Se o leitor tiver presente na memoria o que fizemos notar a respeito do estylo ogival, da sua decoração esculpida e do seu systema de construcção, comprehenderá facilmente que uma modificação notavel motivou tambem o colorido da decoração. Com effeito, nas construcções ogivaes os membros das paredes desapparecem, por assim dizer, e cedem o espaço para aberturas de janellas; os membros da architectura multiplicam-se e apresentam-se com grande evidencia; a vista examina sem custo a sua fórma e os seus fins, desde a base da columna até ao fecho da abobada que reune as nervuras da abobada. Além d'isso, as superficies das paredes, que não foi possivel supprimir, ficavam com esses espaços divididos. Como acontece nas paredes divisorias sobre os peitorís das janellas inferiores, as paredes são todas cheias de series de arcaduras estreitas, muitas vezes cheias parcialmente de esculpturas. Finalmente a multiplicidade dos detalhes e a vista de ornamentações esculpidas, diminuindo a escala dos elementos embellezadores para augmentar o espaço de união, modificaram a seu modo as condições da pintura, dando-lhe caracteres novos.
O augmento extraordinario dos vãos das janellas e o aspecto grandioso que lhes deram nos edificios motivou que nas vidraças pintadas eram quasi todas as preoccupações do constructor do periodo ogival. Era ali, em certo modo, que devia apparecer o effeito da decoração. Os progressos da arte da pintura sobre o vidro corresponderam então ás exigencias que esta arte tinha a satisfazer, e a palheta abundante, vigorosa e variada do pintor vidraceiro impôz á coloração adoptada pelo pintor ornatista uma harmonia e combinações novas. Por outras palavras, a pintura historica e legendaria, não tendo mais do que um espaço limitado e parcimonioso medido sobre a superficie das paredes foi servir-se das vidraças para os seus trabalhos, e por este motivo as figuras mostram, onde apparecem, ainda umas proporções acanhadissimas. A intensidade da coloração das vidraças pede, pela logica dos preceitos da harmonia, maior energia na pintura ornamental das paredes. Todavia, não foi essa a unica consequencia do emprego das vidraças excessivamente coloridas: a luz não entrando já no interior da massa vitrea a qual atravessava como peneirada atravez d'um tecido multicolor, dava á pintura mural um aspecto differente d'aquelle que teria a luz natural do dia; havia pois a attender simultaneamente ao reflexo das côres translucidas com as da pintura mural que se devia harmonisar com a luz colorida e sombria que as vidraças pintadas projectam sobre as paredes e partes architecturaes. D'aqui veiu o emprego, principalmente no XIII seculo, de côres vivas sem ficarem separadas: encarnado, purpura, verde, azul carregado, realçado, ás vezes, por tons claros e ouro com bastante profusão quando os meios o permittiam. D'aqui ainda uma outra grande divisão dos elementos decorativos e desenho dos detalhes.
Não é pois para estranhar que as pinturas historicas e legendarias tivessem tido muita voga durante o periodo roman, vindo a ser bastante raras nos edificios do estylo ogival. As arcaduras decorativas debaixo dos peitorís das janellas inferiores, são muitas vezes as unicas superficies convenientes para terem pinturas com assumptos, e mesmo esse espaço é muito limitado e regularmente dividido em pequenos compartimentos por columnadas ou nervuras, sobre as quaes assentam as archivoltas das arcaduras. As pinturas das arcaduras decorativas representam muitas vezes personagens isolados.
A influencia das tradições byzantinas sobre a arte occidental é manifesta durante todo o tempo do periodo roman. Todavia, se desde o XII seculo se observa no desenho uma tendencia a abandonar os typos byzantinos, não foi senão nos seculos seguintes que o caracter das pinturas mudou completamente no Occidente. Nas figuras das pinturas muraes, como nas outras que ornam as miniaturas dos manuscriptos, se observa uma transformação cada vez mais visivel no que respeita ao estylo do desenho. Este se desprende insensivelmente das formas tradicionaes afim de adquirir maior liberdade. As attitudes veem a ser mais variadas, o gesto mais natural, o caracter das cabeças mais individual, a expressão dos rostos mais viva ou mais serena conforme as situações. Uma tendencia ao naturalismo principia a apparecer desde o começo do XIII seculo, e torna-se mais notavel nos seculos seguintes.
Na colorisação succederam, tanto como no desenho, transformações successivas durante o periodo ogival. Nas pinturas muraes do periodo roman, os tons claros são frequentes, e seu aspecto é geralmente suave.
No XIII seculo, a colorisação teve, na pintura decorativa, as mesmas transformações que na pintura historica e legendaria. Nos edificios romans, em que as janellas eram relativamente pequenas e envidraçadas as mais das vezes com vidros brancos ou muito claros, a luz diffusa e pouco dilatada dos fundos podia-se usar para a pintura decorativa, de tons brilhantes e brandos ao mesmo tempo; porém, quando, no XIII seculo, os vãos das janellas se alargaram e tiveram vidraças extremamente coloridas, esses tons suaves ficaram inteiramente sumidos pela intensidade da colorisação das novas vidraças. O azul e o encarnado, entrando com maior emprego na composição das vidraças pintadas, davam um aspecto turvo aos tons claros e terreos ás pinturas: os verdes, por exemplo, ficavam pardos e baços; os brancos, e em geral todos os tons claros, ficavam estriados. Com os vidros coloridos, foi preciso necessariamente mudar a gamma de colorisação das pinturas muraes, fazendo uso de tons brilhantes e fortes. Além d'isso, os tons, para terem toda a sua apparencia, devem ser acompanhados e contornados com traços pretos. É assim que se veem n'esta epocha as nervuras, os fechos das abobadas, e muitas vezes mesmo os tympanos das abobadas pintados com vivas côres. O uso de destacar o vertice das nervuras das abobadas servindo-se de côres vivas e com desenho chaveiroado continuou durante todo o tempo do periodo ogival.
No XIV seculo e durante a primeira metade do XV seculo, as pinturas de decoração por baixo dos peitorís das janellas inferiores, muitas vezes representavam pannos de armações. No XV seculo, viam-se bastantes vezes sobre as paredes das capellas dedicadas a um santo, os attributos caracteristicos d'esse santo, dispostos symetricamente sobre um fundo colorido. Descobriram-se, ha pouco tempo, pinturas d'este genero n'uma egreja de Bruxellas.
Motivos de economia e, nas egrejas dos monges de Cister, prescripções da regra monastica fizeram que por vezes tambem se empregasse um modo de pintura de decoração muito simples, consistindo na imitação das pedras de construcção: traçavam-se sobre fundo mais ou menos claro traços de côres differentes, pardos, encarnados ou amarellos, sobrepostos, representando as juntas dos apparelhos, e algumas vezes com ornamentação.
Da mesma maneira que a pintura historica e legendaria, a pintura de decoração da idade media não se servia da perspectiva; nem conservava nos monumentos as paredes lisas e opacas, não procurando affastal-as, por assim dizer, do espectador pela illusão da perspectiva linear e aerea. São principalmente as pinturas representando as formas architectonicas, por exemplo as arcaduras e columnas, que mostram não ter o artista nenhuma intenção de disfarçar a ornamentação em relevo; o que elle pretende é sómente um effeito de decoração, não pensa por nenhum modo em produzir exactamente as dimensões relativas, o modelo, apparencia real com relevos, molduras, columnas, capiteis; contenta-se de apresentar essas formas para servirem a dar mais attractivo aos monumentos.
Muito poucos monumentos do periodo ogival têem conservado as suas pinturas bastante completas para se poder formar uma idéa cabal do systema empregado e do resultado obtido. A mais notavel de todas pela esplendida decoração, e além d'isso pela sua restauração tão habil quanto perfeita, é a da Capella Santa de Paris.
A estatuaria e a esculptura ornamental seguem o systema geral da decoração pictorica; tanto assim, que muitas estatuas e baixos relevos têem conservado até ao presente bastantes vestigios de dourados e polychromia, concorrendo para se harmonisarem com as vidraças pintadas e as pinturas a fresco das paredes.
A decadencia da pintura monumental, decoração historica e legendaria, data da ultima metade do XV seculo; vindo a ser completa desde o principio do seculo seguinte. As pinturas das abobadas das egrejas não vão além do XVI seculo.
Cruz de consagração. O Pontifical romano prescreve que, para a dedicação de uma egreja, doze cruzes serão pintadas ou esculpidas sobre as columnas ou paredes internas do edificio. Estas cruzes, que o Prelado consagrante unge com os Santos oleos, devem ficar apparentes. Desde o periodo roman, estabeleceu-se o uso de ornar essas cruzes, que geralmente eram pintadas. As cruzes de consagração datam do periodo roman e vieram a ser bastante raras; conservam-se muito singulares no oratorio carlovingiano de Nimégue. Encontraram-se em grande numero da epocha ogival debaixo de grossas camadas de cal na parte interna das egrejas antigas, que ficaram escondidas na occasião do renascimento. Todas são executadas com grande esmero e esplendidamente coloridas.
Acontece ás vezes que as doze cruzes de consagração do XIII e XIV seculos são sustentadas pelas figuras dos Apostolos pintados ou em esculptura.
Altares, tabernaculos, piscinas
cadeiras do côro, bancos para os celebrantes,
tribunas e separações da capella-mór
Pulpitos e confessionarios
Capellas funereas, tumulos, campas,
lanternas dos defunctos e cruz de cemiterio
Pias baptismaes
Pias para agua benta
Grades e barreiras
Orgãos e caixas para elles
Alfaias religiosas
dos monumentos de architectura, ou, pelo menos, são decorados com certos detalhes architectonicos. Todavia na França, e sem excesso na Belgica, os ourives executaram, para relicarios, estatuas pequenas de alto relevo, grupos e imitações de membros de corpo humano, ou outros objectos que se desejava encerrar dentro d'elles. Desde o XIV seculo, os vasos sagrados e os outros objectos do culto perdem a nobre simplicidade do estylo grave da época precedente.
No XV seculo os trabalhos de ourivesaria correctos differençavam pouco, quanto ao aspecto geral, dos do seculo anterior. As suas fórmas patenteavam todavia as modificações successivas que teve a architectura n'esta época. Os ourives empregavam menos simplicidade nas suas composições, menos elegancia nas fórmas, porém o seu trabalho é geralmente mais apurado e mais delicado; levado por vezes até á exaggeração pelo acabamento e perfeição dos pequenos detalhes.
Quando empregavam ainda algumas esmaltes para realçar o oiro e a prata, os ourives do XIII seculo, como os seus predecessores do XII seculo, indicavam sobre o liso do metal o contorno das figuras, e dispunham depois todas as partes internas do desenho, quer por um cinzelado produzindo um relevo pouco saliente, quer, mais simplesmente ainda, por uma delicada gravura, cujos traços refaziam o desenho dos contornos das figuras; emfim, abaixavam o fundo á roda das figuras e enchiam-no de um esmalte, geralmente escuro, adequado para fazer sobresair a composição. Até ao final do XIII seculo, os traços da gravura delicada ficavam geralmente vasios; era só excepcionalmente que os enchiam de preto. Mas, no começo d'esta época, enchiam-n'os quasi sempre de encarnado ou pardo-escuro.
Dinanderie. Dá-se o nome de dinanderie a um objecto de cobre ou latão coado e martellado, conforme o modo de fabricar esses objectos. Esta palavra tira a sua origem da cidade de Dinant sobre o Meuse, a qual tinha adquirido, na edade média, uma grande fama pela execução de objectos de latão. Portanto, em virtude d'esta etymologia, alguns archeologos continuaram com o uso recebido, escrevendo—Dinanterie, em logar de Dinanderie.
A arte de dinanderie estava prospera desde o fim do XI seculo nos Paizes-Baixos, e durante os seculos seguintes, os bate-folhas de cobre obtiveram de differentes soberanos muitos privilegios, que facilitaram a exportação dos productos de sua industria para Allemanha, França, Inglaterra e todo o norte da Europa.
As pias baptismaes executadas com este material, as primeiras de 1112, e as outras de 1149, ainda se conservam na Belgica.
Calices e Patenas. A communhão sob a especie de vinho tendo sido abolida na Egreja Latina, proximo do XII seculo, os calices ministraes com aza cessaram de ser empregados no Occidente, e a sua fabricação ficou completamente abandonada. Assim, todos os calices ministraes de origem occidental são anteriores ao periodo ogival. Na Grecia e no Oriente, pelo contrario, onde a communhão se dava ainda aos seculares sob as especies de pão e vinho, o uso dos calices ministraes conservou-se até ao presente.
Os calices vulgares, isto é, os de uso do sacerdote que celebra a missa, teem geralmente no XIII seculo, como nos dois seculos precedentes, a taça muito larga e pouco funda, o pé redondo e de grande diametro; a tige está ornada de um nó grosso, composto muitas vezes de arestas salientes, mas raramente de medalhões circulares.
No XIV seculo, e mesmo no fim do XIII uma mudança notavel se deu na fórma dos calices. A taça estreitou-se, e de hemispherica, como era antes, veiu a ser conica ou enfundibuliforme, isto é, similhando-se a um funil. A fórma desegual, quasi desconhecida nos calices do XIII seculo, veiu a ser commum, sem todavia tomar uma grande importancia. A hastea, que durante a primeira metade do XIII seculo, era regularmente cylindrica, tornou-se angulosa e prismatica, tendo geralmente seis faces. Os lados do nó foram mudados para botões redondos, quadrados ou rhombos, egualmente em numero de seis, e quasi sempre embutidos de esmalte, gravuras ou joias. Sobre os seis botões estão algumas vezes inscriptas as seis letras do nome de Jesus, como ortographavam então: IHESUS. O pé está dividido em seis lobulos ornados de esmaltes e de gravuras a traço representando imagens, e mesmo composição completa; estes lobulos correspondem ás faces da hastea e aos botões do nó. O sóco do pé está recortado em folhas de trevo, quatro folhas ou arcaduras; seu diametro, sempre menor que o dos calices romans, conserva não obstante uma base bastante larga para evitar a quéda. Em resumo, os calices do XIV seculo, comparados com os dos seculos precedentes, tem mais altura, mas o diametro da taça e do pé é muito menor.
A fórma geral dos calices do XV seculo é pouco mais ou menos a mesma dos calices do XIV seculo. Todavia, em certos paizes, por exemplo na Belgica, observa-se que os lobulos do pé, as faces das hasteas e os botões do nó teem muitas vezes o numero oito em logar de seis. Esta mudança foi introduzida proximo do meiado do XV seculo.
A patena do periodo ogival tem como a do periodo roman, a fórma de uma pequena salva, apresentando no meio uma cavidade circular. O fundo da salva traz muitas vezes, gravado a traço, um circulo ou um quadrilobo, circumdando quer o Cordeiro Divino, quer a Mão com aureola que symbolisa a Divindade, quer qualquer outro assumpto. Colloca-se algumas vezes uma pequena cruz sobre a borda da salva.
Galhetas. Existem raros especimens de galhetas da época ogival. Havia-as de cobre esmaltado e em crystal de rocha com guarnição de prata cinzelada e algumas de prata dourada com guarnições gravadas.
Durante a edade média serviram-se tambem mais frequentemente de galhetas de vidro, mas por causa da fragilidade da materia, muito poucos objectos d'esta especie escaparam da destruição.
Custodias Eucharisticas. Em alguns paizes, particularmente em França, a Eucharistia continuou, durante o periodo ogival, a estar conservada, como anteriormente, nas pombas douradas e esmaltadas, collocada, a maior parte das vezes, em uma torresinha ou pequena tenda forradas de telas custosas, ficando suspensa por cima do altar, quer sob a pyxide, quer no baculo de metal.
No XIII, no XIV, e mesmo ainda durante uma parte do XV seculo, as pyxides eram geralmente como as do periodo Roman, de muito pequeno tamanho, porque, até proximo do meiado do XV seculo, serviam sómente para conservar o numero necessario de hostias de que havia precisão para a communhão dos doentes em perigo de vida. Os fieis que podiam assistir aos officios religiosos, recebiam a Santa Eucharistia depois da communhão do sacerdote, com as especies consagradas durante a missa, sendo distribuidas servindo-se da patena.
Quasi todas as pyxides do periodo ogival eram de metal; as de marfim e cobre não apparecem senão excepcionalmente.
As pyxides sem pé, de cobre dourado e esmaltado, compostas de pequenas caixas cylindricas, tendo uma tampa de fórma de cone, ficaram em uso pelo menos até o XVI seculo; empregando-se principalmente para levar o Viatico aos enfermos.
Encontram-se ainda presentemente muitas d'estas pyxides, mais ou menos valiosas e ornadas. Não poucas devem a sua conservação a esta circumstancia, que depois da introducção das grandes pyxides aproveitaram-nas para guardar as reliquias destinadas a ficar chancelladas no altar no momento da consagração: portanto, não é raro encontrarem-se nos desmanchos dos altares do XVI e XVII seculos.
As pyxides pediculares, isto é, tendo um pé, que eram raras antes, vieram a ser as mais communs desde o XVIII seculo. Algumas destinadas a ficarem suspensas por cima do altar, sob o sacrario, ou na voluta do baculo, teem o pé muito pequeno, e a taça assim como a tampa bastante grandes e quasi hemisphericas, de maneira a formar reunidas uma bola ôca, geralmente um pouco achatada.
No seculo XII, as pyxides, em logar de ficarem suspensas por cima do altar, foram postas nos sacrarios, deram-lhes regularmente um pé mais alto, similhante aos dos calices e dos relicarios. No principio, bastava collocar sobre um pé as pequenas pyxides de cobre dourado e esmaltado; depois fizeram tambem as pyxides em metal com cinzelados e rebatidos, vindo a ser unicamente usadas. As mais antigas da ultima especie teem a taça e o pé circular.
No XIV seculo, a taça e a tampa tiveram a fórma hexagonal, isto é, seis faces, e o pé divide-se em seis lobulos.
Durante a ultima metade do XIV seculo e todo o XV seculo, as pyxides pediculadas têem muitas vezes as arestas da tampa decorada de crochetes; os angulos formados pela intersecção dos seis lados da taça, sendo flanqueados de contra-fortes, e os lados tambem ornados de arcaduras com ou sem estatuasinhas.
Quando no XV seculo, ficou introduzido o costume de conservar o maior numero de hostias consagradas, afim de poder dar a communhão aos fieis, mesmo sem ser na occasião da missa, as pyxides tiveram dimensões muito maiores. Continuou-se geralmente a dar-lhe fórmas architecturaes, porém essas fórmas vieram a ser, sobretudo na Allemanha, mais altas e mais complicadas ajuntando-se arcos-butantes aos contra-fortes e ás arcaduras com as quaes já as ornavam precedentemente. Em França e na Belgica, appareceram proximo do final do XV seculo as pyxides esphericas, cuja fórma faz lembrar a dos antigos ciborios suspensos. Não é raro, além d'isso, achar pyxides transformadas em relicarios.
Não será inutil aqui repetir, que, salvo raras excepções, todas as pyxides anteriores ao XVI seculo teem a tampa presa á taça por um gonzo.
Custodias. A solemnidade do Corpus Domini, ou festa do Corpo de Deus, instituida em Liège em 1246, e extensiva á Egreja Universal, dezoito annos mais tarde pelo pontifice Urbano IV, trouxe o uso de expôr publicamente o Santissimo Sacramento á veneração dos fieis. Foi este uso que deu origem ao vaso chamado custodia, ou apresentação nome derivado dos verbos latinos ostendere e monstrare, significam, um e outro, mostrar.
No principio, parece que o Santissimo Sacramento, estava exposto publicamente nas pyxides transparentes com cruzes e torrinhas cheias de aberturas; mas, dentro em pouco adoptaram-se, geralmente as custodias.
Algumas d'estas custodias primitivas apresentam a maior analogia com os relicarios expostos contemporaneos. São pequenos edificios de metal, com recortes, tendo um pé e furados sobre dois ou muitos dos seus lados, com aberturas, as mais das vezes sob a fórma de janella ogival.
As custodias mais communs durante todo o periodo ogival, foram as de cylindro, assim designadas porque são formadas d'um cylindro de crystal ou de vidro posto sobre um pé de metal. No XIV, XV e XVI seculos, o cylindro tem geralmente por cima um campanariosinho e nos flancos contra-fortes e arcos-butantes, igualmente de metal. Depois do XIII seculo, o campanariosinho e o pinaculo não são usados. A hostia colloca-se no interior do cylindro n'uma luneta sustentada por um ou mais anjos. O pé e o nó d'estas custodias apresentam a maior similhança com os calices e as pyxides contemporaneas; todavia, o diametro do pé é geralmente maior nas custodias que nas pyxides e calices.
As custodias em que o cylindro de crystal é substituido por um sol radiante vieram a ser geraes desde o XVI seculo. Antes d'esta epocha, eram extremamente raras, e sómente se conhecem pela noticia que se encontra nos inventarios dos thesouros das egrejas pertencentes ao XV seculo.
Relicarios. Os relicarios do periodo ogival apresentam fórmas tão variadas como os da epocha Roman. Seria difficil descrevel-os todos; occupar-nos-hemos dos principaes.
Relicario da vera Cruz. Como precedentemente dava-se muitas vezes a estes relicarios a fórma d'uma cruz com travessa dupla; porém empregavam-se os ornatos proprios da ourivesaria da epocha ogival. A maior parte d'estas cruzes-relicarios, sobretudo as mais bellas, são do XIII seculo.
Depois d'essa epocha abandonou-se o costume de encaixilhar os relicarios da vera cruz, nas cruzes relicarias com travessa dupla, e serviram-se geralmente da cruz com uma unica travessa.
Deu-se tambem algumas vezes a fórma de uma cruz aos relicarios contendo reliquias de santo; mas n'este caso a cruz tem sempre uma só travessa.
No XIII seculo, os relicarios da vera cruz, collocados n'uma pequena cruz ou bocota, eram ainda ás vezes, como durante o periodo Roman, encaixilhados dentro de placas metallicas fixas sobre o meio da madeira e ornados de esmaltes, gravuras e cinzelados de maneira a formar uma especie de quadro com portas de metal ou madeira pintada.
Relicario da corôa com espinhos. Os espinhos da corôa trazida pelo Redemptor durante a sua paixão, eram collocados regularmente em corôas de ouro ou de prata enriquecidas de joias. Algumas d'estas corôas, feitas no Oriente, foram enviadas para a Europa Occidental pelos imperadores que as conquistas dos cruzados tinham collocado sobre o throno de Constantinopla.
A Santa Corôa de espinhos que tinha vindo em poder dos cavalleiros cruzados em seguida ás suas conquistas no Oriente, ficou conservada religiosamente no throno sagrado do novo imperio byzantino até 1237, epocha em que o imperador Bauduino II foi obrigado a dal-a em penhor aos commerciantes venezianos, os quaes lhe haviam feito um emprestimo da quantia de quatro mil marcos de prata para occorrer ás necessidades mais urgentes das finanças imperiaes.
Pouco tempo depois, S. Luiz IX, rei de França, tendo tido a felicidade de occupar o logar dos emprestadores, ficando responsavel pela quantia entregue, pôde obter a preciosa reliquia, e a fez transportar para França por dois frades dominicanos.
O santo rei mandou pôr muitos espinhos nas corôas do mesmo feitio que tinha a corôa real, e presenteou com ellas um certo numero de estabelecimentos religiosos.
Os Santos Espinhos foram tambem por vezes encaixilhados em relicarios mais simples e d'um feitio differente.
Os relicarios do periodo ogival apresentam o mesmo aspecto que os do XII seculo, isto é, teem a fórma d'um cofre oblongo, fechado por uma tampa imitando um telhado com duas aguas.
Os grandes relicarios do XIII seculo são cofres de madeira coberta com chapas de metal esmaltado, cinzelado e por vezes simplesmente gravado. Quasi todos são rectangulares; ha todavia, por exemplo, a grande caixa das reliquias de Nossa Senhora de Aix-la-Chapelle, que se vê sobre os seus dois compridos lados, saliencias que a faz parecer com uma egreja tendo um cruzeiro. As suas faces verticaes são ornadas de estatuasinhas de ouro, prata ou de cobre dourado, ficando collocados debaixo de docéis ou arcaduras. Jesus Christo abençoando, sentado ou de pé, só ou entre dois santos, se vê, como nos relicarios Romans, sobre um dos dois pequenos lados formando empena, emquanto o outro lado fica occupado por Nossa Senhora, ou pelo Santo cujas reliquias se conservam no relicario, igualmente collocado entre dois santos.
Os dois lados compridos estão divididos n'um certo numero de compartimentos tendo como remates frontões dentro dos quaes estão inscriptas ogivas quasi sempre trilobaes. Estes compartimentos formam docéis ou arcaduras, mostrando estatuasinhas dos apostolos ou de outros santos assentados.
Sobre as abas da tampa ha figuras em pé ou baixos relevos representando os mysterios da vida de Jesus Christo e os principaes factos do corpo que encerra o relicario.
Finalmente, algumas vezes a aresta superior do cofre, e mesmo os lados inclinados dos frontões, teem na summidade folhagens de esmerado lavor, interrompidas de distancia a distancia, por castões.
As linhas inclinadas dos frontões, os docéis, os molduramentos e os fustes das columnasinhas que sustentam os docéis estão bastantes vezes cheios de esmaltes e filigranas como se fazia precedentemente.
Desde o final do XIV seculo, os relicarios em metal perdem o aspecto de feretro ou cofre, como haviam tido até então; transformam-se pouco a pouco e tomam a apparencia de capellas e mesmo de pequenas egrejas.
Alguns relicarios do XIV seculo fingem, d'uma maneira extremamente caracterisada as fórmas architectonicas: representando rosaceas, galerias, campanariosinhos e contrafortes; os seus docéis e frontões teem as inclinações dos contornos decorados de crochetes acabando no feitio d'um florão.
O maior numero dos relicarios metallicos dos XV e XVI seculos imitam servilmente a maneira de se construirem os monumentos de cantaria; vindo a ser reproducções em pequeno das grandes egrejas ogivaes. Tendo egualmenle arcos-butantes, na summidade recortes, parapeitos vasados em trefles ou de quatro folhas, uma nave principal e as lateraes, etc., e ás vezes tambem uma torre se ergue no centro do espigão.
Usaram tambem, durante o periodo ogival, de relicarios de madeira cobertos de pinturas representando assumptos religiosos que recordam geralmente os principaes factos da vida do santo que contém o relicario.
O relicario de madeira mais notavel como objecto d'arte por causa de suas pinturas, é o de Santa Ursula, que está no hospital de S. João em Burges. Tem a data do XV seculo e constitue uma das obras primas do pintor Hans Memlinc.
Ha tambem poucos exemplares de relicarios de pedraria do periodo ogival.
Os relicarios não contém sempre os corpos inteiros dos santos, e são tambem destinados a conservar reliquias diversas.
Bustos, braços, pés, estatuasinhas, etc. O uso de conservar as reliquias dos santos dentro de bustos ou nos relicarios preciosamente ornados imitando a fórma dos ornatos a que os relicarios pertenciam já no periodo roman, manteve-se durante toda a epocha ogival, e encontram-se ainda muitos exemplares do periodo do renascimento.
O maior busto-relicario conhecido, pois mede 1m,62 centimetros de altura e um dos mais magnificamente ornados, é o de S. Lamberto da cathedral de Liège, obra de 1506 a 1512. É de prata dourada e está posto sobre um plintho decagono decorado de seis baixos relevos representando differentes scenas da vida do santo bispo de Maestricht. O bispo está paramentado com as vestes pontificaes e todo coberto de joias e perolas.
Os ossos dos braços e dos pés estão muitas vezes introduzidos nos relicarios apresentando a fórma d'esses membros do corpo humano. Nos relicarios de fórma de braço, a mão fica sempre representada benzendo á maneira Latina.
No thesouro da egreja de Nossa Senhora de Tongres ha sete relicarios com a fórma de braços. Dois são do final do XIII ou principio do XIV seculo, estando compostos de chapas de prata com faxas de cobre dourado guarnecido de joias e filigranas; os outros cinco são de madeira pintados e dourados. Os tres mais admiraveis e preciosos, têem dois a fórma d'um pé, e no terceiro, com a fórma de meia lua, guarda-se uma costella do apostolo S. Pedro.
Ha tambem relicarios apresentando o feitio de estatuasinhas. Geralmente as reliquias estão contidas em um pequeno cylindro de crystal, guarnecido de prata ou cobre dourado, fechado nas duas extremidades e posto ao lado da estatuasinha ou trazendo-o na mão. Algumas vezes, posto que raramente, estão fixos n'um medalhão ou pequena cruz, sobre o peito ou sobre outra qualquer parte da estatuasinha.
Mostrador-relicario. Estes relicarios compõem-se de vasos de crystal ou de qualquer outra materia transparente, engastados em obra de ourivesaria, onde se mettem as reliquias, depois de as ter embrulhado em pellica, seda ou estofo, tecidos de ouro ou prata. Estes vasos, geralmente de fórma de cylindro ôco, põem-se muitas vezes n'uma posição vertical, e ficam limitados por um remate tambem conico. O maior numero dos mostradores-relicarios são postos sobre pés similhantes aos dos calices e das custodias; alguns são sustentados por anjos ou levitas; finalmente ha os que ficam postos sobre um sóco; por vezes acontece não terem essa base.
No XIII seculo, e mesmo ainda ás vezes no seculo seguinte, os ourives, á imitação das obras dos esculptores contemporaneos, iam buscar os feitios de decoração para os mostradores-relicarios ás reliquias nos engastes das joias, ás filigranas e as folhagens imitando a flora indigena.
Ao começar do XIV seculo, muitos relicarios fingem fórmas architecturaes e imitam mais ou menos certas partes dos edificios do estylo ogival. Os feitios da decoração tirados até ali ao reino vegetal, dão logar para formar pinaculos, contra-fortes, arcosbutantes e docéis, estando delicadamente lavrados e executados, não pela imitação servil dos edificios de cantaria, mas com uma intelligencia apurada que distingue todas as producções artisticas da idade media e que attendiam á natureza da materia que se punha em obra. O ourives, posto que conservasse as fórmas geraes da architectura, dava-lhes uma leveza que seria impossivel, se fosse executada na pedra.
Quando o cylindro ficava na posição vertical, a fórma do mostrador-relicario confundia-se geralmente com a das custodias, como já referimos.
Vêem-se tambem algumas veze Vêem-se tambem algumas vezes relicarios com cylindro vertical e feitio da decoração imitando a architectura, não tendo peanha.
Quando, pelo contrario, o cylindro tem a posição horisontal, é geralmente executado em obra de ourivesaria de fórma de egreja com uma ou mais naves, encimado d'uma torresinha elevada e ligada por arcos-butantes sahindo do engaste que encerra o cylindro.
Phylacteras. Não podemos deixar de mencionar uma outra fórma de relicarios que foi commum no XII e no XIII seculos. Estes objectos compõem-se de pequenos moldes de madeira cobertos de prata e cobre dourado e esmaltado, sobre os quaes estão traçadas, em esmalte ou relevo, imagens, scenas historicas e legendarias, emmolduradas n'uma cercadura de filigrana recamada de joias sem serem lapidadas. Muitas vezes mesmo as representações dos assumptos, das figuras e symbolos faltam inteiramente. As costas, formadas igualmente d'uma chapa de metal, são ornadas de lavores, gravuras ou pinturas. Têem sempre pequenas dimensões (o seu diametro não é de mais que dois a tres decimetros), e fórma redonda, ellyptica ou, as mais das vezes, com quatro folhas. Alguns archeologos lhes dão o nome especial de phylacteras, posto que, conforme a etymologia, este nome, derivado do grego, guardar, designa qualquer especie de custodia ou recipiente, e deveria por conseguinte applicar-se indistinctamente a todos os relicarios.
Algumas vezes as phylacteras são, como os relicarios de cylindro de crystal, postas sobre um pé de metal com figuras de anjos ou de santos.
Cofres-relicarios. Continuou-se, durante o periodo ogival, a encerrar as reliquias dos santos nos cofres de metal, madeira, marfim e couro com figuras em relevo. É bastante raro achar, sobre estes cofres, scenas historicas ou symbolos religiosos.
No XV seculo principiou-se a fazer cofres de ferro, e o seu uso não se demorou a generalisar. Não devemos pois admirar-nos, se um grande numero d'estes objectos curiosos têem sido conservados até ao presente. A maior parte eram destinados a uso profano: guardavam joias e outros objectos preciosos. Ha todavia alguns que serviram de relicarios, principalmente os que têem inscripções religiosas, como—AVE MARIA GRATIA PLENA e O MATER DEI MEMENTO MEI.
Ás vezes estes cofres eram inteiramente de ferro; sendo todavia formados d'uma caixa de carvalho ou de faia forrada de couro encarnado, sobre o qual assentava uma chapa de ferro recortada e segura por enfeites de ferro. O ferrolho tinha ás vezes a fórma d'um lagarto ou de salamandra. A maior parte d'estes cofres eram cobertos de florões scintillantes, o que faz vêr que no XV seculo os serralheiros como os ourives iam buscar á architectura as suas principaes fórmas de decoração.
Os cofres de marfim, dos quaes se haviam servido muitas vezes para os relicarios durante o periodo Roman, ficaram em uso até á epocha ogival juntamente com os de madeira, de metal e de couro.
Trombetas-relicarios. Não é raro achar, nos thesouros de egrejas, antigas trombetas de guerra e de caça transformadas em relicarios. Durante a idade media, os christãos não receiavam empregar no culto certos objectos profanos emquanto á sua origem e á sua ornamentação, mais preciosos como materia ou como obra d'arte. Já assignalamos esta pratica para os camafêos e pedras antigas gravadas concavamente, das quaes os ourives da idade media frequentemente faziam uso para dar mais brilho ao metal nos differentes objectos para o culto; encontrando-se tambem nas trombetas dos caçadores de que tratamos agora e dos esmoleres de que fallaremos depois.
Quasi todas as trombetas-relicarios são de marfim e apresentam a mesma fórma, imitando a defeza do elephante de cuja materia eram fabricadas. É do nome d'este animal, que as trombetas de marfim têem tirado o de olifante, pelos quaes são geralmente conhecidos. Na idade media o olifante era tanto se não fosse mais, um instrumento de guerra como para a caça; servia principalmente para dar signal de commando, reunir as tropas e annunciar a presença do inimigo.
Os elephantes e as trombetas estão guarnecidos de aros de metal, floreado com florões ou redentados que facilitam suspendel-os em bandoleira. Estas virolas, algumas mostrando a cabeça de bezerro, estão fixas nas duas extremidades, e de distancia em distancia sobre o comprimento do objecto. Algumas vezes tambem ornam-se os elephantes de esculpturas em baixo-relevo, e então as virolas não têem ornatos.
As principaes officinas para a esculptura dos oliphantes e guarnecel-as de metal existiam durante a idade media no Norte de França, principalmente em Abbeville e Paris.
Encontram-se tambem trombetas relicarios em chifre de boi e de bufalo; posto que guarnecidas pela mesma maneira que os oliphantes, são todavia faceis de reconhecer, não sómente pela sua côr, mas ainda pela sua curva muito mais fechada, approximando-se geralmente d'um semi-circulo.
Esmoleres-relicarios. Chama-se esmoler a uma pequena bolsa com cordões ou fechos, que se traz suspenso á cintura para guardar o dinheiro e os objectos de serviço habitual. Estas bolsas, que formavam na idade media o complemento indispensavel do vestuario dos dois sexos, eram de couro ou estofos de preço. Dava-se-lhes tambem o nome de algibeira.
A fórma mais antiga é d'uma pequena bolsinha com dois cordões de correr para fechar, e d'um outro cordão para suspender á cintura. Mais tarde supprimiram-se os cordões e dobraram na frente do bolsinho uma parte do estofo, que se levantava quando se queria introduzir a mão no esmoler.
Não se tem conservado até ao presente esmoleres de estofo, e mesmo os de couro não se encontram senão casualmente. Entre estes estofos uns são de seda lavrada, outros têem bordados sobre linho ou seda com fios de ouro ou seda de differentes côres traçando simples ornamentos, symbolos e mesmo algumas vezes assumptos.
Na idade media serviam-se, muitas vezes dos esmoleres para embrulhar as reliquias dos santos e deposital-as nos relicarios. É mesmo a esta circumstancia que deve ter-se conservado um grande numero d'esses curiosos objectos, o que serve tambem para se explicar acharem-se nos thesouros das egrejas. Poucas vezes esses esmoleres mostram symbolos ou assumptos religiosos; no maior numero vêem-se simples ornamentos; algumas vezes mesmo estão decorados com assumptos profanos.
Relicarios diversos. Além dos relicarios que acabamos de descrever por classes, ha tambem outros de que seria impossivel formar grupo, havendo infinita variedade, e ao mesmo tempo um gosto singular, que os artistas de todo o periodo ogival empregaram no feitio d'esses objectos.
Custodias d'Agnus Dei. Chama-se Agnus Dei a pequenos medalhões de cera branca, de fórma circular ou oval, ornados sobre as duas faces com a impressão d'um cordeiro deitado, uma cruz de resurreição, estandarte e tendo dois ou tres guiões fluctuantes. Por baixo do cordeiro ha n'um segmento de circulo, o nome do Pontifice que benzeu o objecto. N'uma epocha bastante recente, tem-se muitas vezes completado esta indicação, ajuntando-se-lhe o anno do pontificado; havendo-se substituido ao cordeiro collocado no reverso do medalhão, o brazão d'armas do papa ou uma imagem. Em exergo lê-se quasi sempre: AGNE DEI MISERERE MEI QUI CRIMINA TOLLIS.
Desde o IV seculo é provavel se estabelecesse o uso de aproveitar, no domingo depois da Paschoa, os restos do cirio paschal do anno precedente para o dividir em pequenos fragmentos e distribuil-os depois aos fieis, os quaes os levavam comsigo para suas casas e serviam como objecto bento de devoção. É n'esta pratica ao presente conservado em algumas dioceses com as modificações accessorias, que se acha a origem da devoção dos Agnus Dei. Em Roma, principiaram cedo a ajuntar cera pura e oleo aos fragmentos do cirio paschal e com esta mistura, se moldavam medalhões em forma de distico, tendo a effigie do cordeiro Divino. Estes medalhões eram já conhecidos em Roma perto do fim do VI seculo. Mais tarde, e ainda presentemente, os restos do cirio paschal foram completamente excluidos da materia dos Agnus Dei, e serviram-se unicamente da cêra sem nenhuma addição de substancias estranhas, que o soberano Pontifice mergulha durante algum tempo em agua benta misturada dos Santos Oleos e de balsamo puro.
Em todos os tempos os Agnus Dei têem sido recebidos pelos fieis com grande veneração, e muitas vezes encerrados em pequenas bocetas de metal mais ou menos precioso, cuja forma e ornamentação apresentam a maior analogia com os dos relicarios. Estas bocetas têem geralmente uma argola para se suspender; são circulares como os antigos Agnus Dei, trazendo em exergo a legenda como está: AGNE, (ou mais vezes ainda AGNUS) DEI MISERERE MEI QUI CRIMINA TOLLIS, ou uma outra oração. São muitas vezes recortadas de maneira a mostrarem uma maior ou menor parte da cêra. Os espaços que occupam o metal são ora dispostos em simples cruz grega tendo na intersecção dos ramos, um medalhão cinzelado, gravado ou esmaltado, ora em relevo sob a fórma de cordeiro, imagens, ou simples florão.
Os mais antigos Agnus Dei conservados até ao presente não vão além do principio do XIV seculo; porém os d'uma epocha posterior encontram-se com bastante frequencia.
Armarios para reliquias. Os relicarios, os vasos sagrados, os livros do Evangelho e outros objectos preciosos conservam-se regularmente em armarios ou tendo simples nichos feitos na grossura da parede; outras vezes formavam construcções de pedra encostadas a uma parede; todavia as mais das vezes eram moveis de madeira com mais ou menos obra de apurado trabalho.
No XIII seculo, e mesmo ainda muitas vezes no XIV seculo, estes moveis, d'uma fórma sempre simples e adequada ao seu destino eram principalmente ornados com ferragens de feitio esmerado e com pinturas sobre as suas portas. As portas sem molduras compunham-se d'uma serie de taboas simplesmente juntas, duplas, consolidadas na parte interna, por travessas e no lado exterior ornadas com bellas pinturas.
Desde o fim do XIII seculo e durante a primeira parte do XIV seculo, a pintura e a esculptura foram, em certas occasiões, empregadas simultaneamente na decoração dos armarios das reliquias; algumas vezes mesmo, as portas com esculpturas tinham dourados, e o lavor de estojo com ornamentos coloridos. Depois, a esculptura augmenta e pouco a pouco acaba, no fim do XIV seculo, para substituir completamente a polychromia. As portas dos armarios não apresentam já, a contar d'esta epocha, as superficies inteiramente lisas e cheias de pinturas. Compõe-se então de almofadas encaixilhadas e preparadas do mesmo modo que as partes lisas das portas. Entre estas almofadas, algumas têem em relevo molduras com desenhos imitando as travessas das almofadas das janellas, as outras estão cheias de folhagens ou ornatos de talha imitando folhas de pergaminho, como já explicámos. Uma cimeira recortada e vasada e na qual os prumos dos aros veem terminar em florão rematam muitas vezes o movel em todo o seu comprimento.
Vasos para os santos oleos. Na quinta feira de cada anno, o bispo benze solemnemente, durante a missa que elle celebra na sua cathedral, tres especies de oleos, os quaes são depois distribuidos pelas egrejas da diocese. São: 1.º oleos para os cathecumenos; 2.º, oleo para os enfermos; e 3.º, oleo para a chrisma.
Acham-se ainda hoje em algumas cathedraes, grandes vasos do periodo ogival que serviram antigamente para benzer os santos oleos na ceremonia de Quinta Feira Santa.
Além d'estes vasos de grandes dimensões, nos quaes o bispo benzia os oleos para toda uma diocese, ás vezes mesmo para muitas, havia recipientes mais pequenos, que continham sómente os santos oleos para o deão de uma grande cidade. Alguns eram cofresinhos rectangulares ou ovaes, de madeira forrada de couro, dividido interiormente em tres separações, podendo em cada uma caber um frasco. Outros em metal mais ou menos precioso, compõe-se de tres vasos, geralmente cylindricos reunidos estando soldados ou simplesmente unidos.
Os vasos contendo os santos oleos para a occasião mesmo em que dar os sacramentos e nas differentes uncções de bençãos, são regularmente muito mais pequenos do que aquelles que fallamos, e podem ser divididos em duas classes. Os da primeira classe, destinados a conter ao mesmo tempo as tres especies de oleos, são triplicados como os dos deões, os quaes se differençam unicamente pela sua menor dimensão. Compõem-se quasi sempre de tres cylindros ôcos, com uma tampa conica, collocados em roda d'um nucleo, porém raras vezes postos em linha. Alguns não têem pés, outros mostram esse appendice.
Para distinguir os differentes oleos, marcam-se os vasos com lettras differentes: I, designa o oleo para os enfermos, oleum Infirmorum; C, o santo oleo, chrisma. Para o oleo dos cathecumenos servem-se ora da lettra S, oleum Sacrum, ora da lettra O, oleum, ou mesmo da lettra E, do grego Ελχιον, oleo. Como cada um d'estes oleos não serve sempre nas mesmas ceremonias, e se precisa levar longe o oleo para os doentes, cada um dos pequenos vasos pode-se separar do nó central que os reune.
A segunda classe dos vasos para uso immediato de ungir comprehende aquelles que encerram uma unica especie, geralmente o oleo para os enfermos. Teem quasi sempre a forma cylindrica e estão tapados com uma tampa de fórma conica. Alguns teem pés, outros não.
Corôas suspensas sobre o altar. Estas corôas chamadas votivas, estiveram em uso pelo menos durante uma parte do periodo ogival, e conservavam a fórma que tinham antes: a de um circulo de metal, cujo brilho era muitas vezes augmentado com joias e esmaltes. Algumas eram feitas de proposito para o serviço do altar; outras pertencentes aos soberanos como insignia de realeza, foram dadas ás egrejas pela generosidade dos principes.
Corôas com luzes. As coroas de luzes do periodo ogival são ou suspensas ou sustidas em um pedicello.
As corôas suspensas, que estiveram em uso desde os primeiros seculos do christianismo, chegaram ao seu maior desenvolvimento no XI e XII seculos. Durante o periodo ogival, perderam muito da sua importancia, e as maiores d'esta epoca, encontram-se muito raro presentemente.
No XV seculo apparecem os lustres, que quaes vieram a ser communs em pouco tempo, e ficaram a substituir as corôas desde o principio do periodo do renascimento.
As corôas de luzes pediculadas são geralmente de ferro forjado e compõe-se quasi sempre de uma tampa da qual se ergue uma hastea vertical ornada de um ou muitos nós. No alto d'esta haste estão postos em diversas alturas, dois ou mais numeros de circulos em fórma de polygonos de diametros differentes, compostas de espigas e dirandellas para terem vellas. Os circulos são movediços e podem girar em roda da hastea que os sustenta; esta disposição permitte aos devotos puxar para si as dirandellas sem vellas pôr-lhes outras vellas offerecidas por promessa. Estas corôas estavam em uso nas egrejas onde numerosos peregrinos vinham venerar as reliquias ou a imagem de algum santo. As mais remotas corôas tendo pé não vão além do XV seculo.
Cruz de altar e de procissão. Já dissemos, que até o fim do XV seculo não houve distincção entre as cruzes do altar e as cruzes processionaes ou estacionarias. A mesma cruz servia para o mesmo uso: punham-a sobre o altar ficando firmada sobre uma base ou levavam-a em procissão no cimo de uma comprida hastea.
No XIII seculo, as cruzes processionaes eram de uma grande simplicidade. Tinham geralmente a imagem de Jesus Christo, e nas extremidades dos braços havia os symbolos dos evangelistas collocados em um quadrilobo.
No XIV e no XV seculo, ornam muitas vezes com as fórmas architecturaes, e mesmo tendo estatuasinhas debaixo de docel, o cabo era ôco servindo para fixar a cruz sobre a hastea ou sobre um pé.
Quando no XIV, e principalmente no XV seculo, multiplicaram-se as capellas e os altares em uma mesma egreja por causa do augmento extraordinario da fundação de missas, introduziu-se o uso das cruzes do altar, isto é, assentes permanentemente sobre elle. A cruz do altar principal era a unica que ficava portatil, podendo servir no altar e nas procissões.
Castiçaes. Havia, durante o periodo ogival, quatro especies principaes de castiçaes: os castiçaes do altar, os castiçaes de elevação, e os castiçaes paschoaes aos quaes se podem ajuntar os tocheiros collocados aos lados dos catafalcos.
Castiçaes de altar. O uso de collocar dois castiçaes sobre o altar foi introduzido, em certas partes, no fim do periodo roman, e veiu a ser geral no XIII seculo.
Os castiçaes de altar do XIII seculo apresentam uma grande similhança com os do periodo roman. Do mesmo modo eram de metal e compunham-se regularmente de um pé descançando sobre tres garras, d'um nó e d'um prato com uma espiga; sendo todavia menos ornados. É por isso, que apparecem excepcionalmente animaes phantasticos de forma de lagarto ou dragão de azas que sustentam o prato de quasi todos os castiçaes romans.
No XIII seculo, como precedentemente, os castiçaes teem pouca altura, sendo as mais das vezes de 15 a 25 centimetros. Algumas vezes todavia, porém muito raro, proximo do fim do XIII seculo, tinham a hastea com dois ou tres nós quasi 50 centimetros de alto.
O uso de não pôr sobre o altar mais de dois castiçaes pequenos durou até ao XVII seculo.
Nos XIV e XV seculos, os nós da hastea foram substituidos por virólas, sendo o numero de duas ou tres; ha todavia exemplos, principalmente no XIV seculo, onde a hastea tem uma unica viróla.
No fim do XV seculo e no principio do XVI seculo, os castiçaes têem muitas vezes os nós, o pé e o prato com relevos do feitio de meias perolas e a hastea torcida em espiral.
Castiçaes de elevação. Este nome foi dado aos castiçaes destinados para terem as vellas accesas antes da elevação da Hostia, e que se apagam depois da communhão do padre. Estes castiçaes, regularmente em numero de dois e collocados aos lados do altar, eram muito mais altos que os castiçaes do altar, tendo de altura muitas vezes um a dois metros de alto.
Castiçaes paschoaes. Assenta-se geralmente a hastea do castiçal paschoal n'uma estante vasada, onde se põe o livro para o canto do Exultet. Muitas vezes se collocam dois ou mais braços destinados a ter pequenas vellas; ha-os de latão e de ferro forjado.
No XIII seculo, o No XIII seculo, os castiçaes paschoaes são ornados muito simplesmente imitando na ornamentação o reino vegetal.
No XIV seculo, os candelabros para a tocha paschoal estão ornados muito modestamente.
Os castiçaes paschoaes do XV seculo são ainda muito mais simples.
Os castiçaes postos aos lados do catafalco. Estes castiçaes geralmente muito simples são as mais das vezes de ferro forjado e ornados com polychromia. A sua altura varia entre um a dois metros. Um grande numero se têem conservado. Algumas vezes estes castiçaes eram tambem de madeira.
Aos lados dos catafalcos, os tocheiros isolados eram muitas vezes substituidos por um candieiro-triangular de pau ou metal composto de um certo numero de bicos ou de pratos e assente sobre um ou dois pés. Esta alfaia é tambem designada, principalmente nos antigos inventarios, cabide, rastrum e rastrellum.
Vestigios de apparato com luzes para os defuntos, se vêem ainda hoje em muitos monumentos funerarios do XIII seculo, nas egrejas de S. Diniz, proximo de Paris, mandados erigir por S. Luiz Rei de França, em memoria dos reis seus predecessores.
Braços com vellas e dirandellas. Os candieiros com braços e as dirandellas vieram a ser de um uso geral no principio do XV seculo. Têem geralmente o mesmo feitio que os braços do candieiro paschoal com o prato adentado. São postos sobre as paredes, e mais vezes ficam defronte de uma imagem. O maior numero são de latão; os de ferro forjado encontram-se raras vezes.
Estantes para o côro. Chama-se estante do côro a uma estante de madeira ou de metal sobre a qual se põe os livros para facilitar as leituras lithurgicas.
As estantes do côro fazem parte das alfaias religiosas; são de duas especies: estantes fixas, collocadas geralmente no meio da capella-mór e chumbadas no pavimento, ou com um pé tão pesado que se não poderia facilmente mudar para outra parte, e estantes portateis. As primeiras serviam para os chantres recitarem os officios; as outras para o diacono e subdiaconos cantarem o Evangelho, a Epistola ou as lições sagradas.
Observações preliminares. Desde o VII e VIII seculos, e durante todo o periodo roman, fizeram algumas vezes as estantes fixas independentes da tribuna. Estas estantes isoladas, estando destruidas presentemente, eram quasi sempre de metal, e compunham-se, como tambem as do principio do periodo ogival, d'uma aguia com as azas abertas, pousada sobre um sóco. Muitas vezes a aguia, attributo do evangelista S. João, era acompanhada de symbolos dos tres outros evangelistas.
Estantes fixas collocadas no meio do côro. As estantes do côro destinadas aos chantres, são ordinariamente de latão e compõem-se d'uma aguia assente sobre um pé em fórma de pilar ou de columna. Este pé algumas vezes é consolidado por arcos-butantes, os quaes estão ornados de arcaduras vasadas com rosaceas e ornatos variados, similhantes aos que ornam as grinaldas dos tympanos das janellas ogivaes.
Nos antigos documentos a estante do côro é designada aguia, em latim aquila, porque a maior parte das estantes, tanto do periodo ogival como da renascença, têem a forma d'uma aguia. Muitas estantes-aguias do XV seculo escaparam de serem destruidas, talvez pelo seu peso. Algumas vezes a aguia é substituida por outros animaes, ou por homens e anjos. As estantes de pelicanos, cujo uso foi introduzido no tempo do periodo ogival, veiu a ser bastante commum na epocha do renascimento.
As estantes moveis. Estas estantes facilmente transportaveis, foram empregadas durante o periodo ogival, quer para a leitura do Evangelho e da Epistola, quer para as outras ceremonias do culto; eram geralmente de ferro e poucas vezes de madeira. Estas estantes eram regularmente formadas d'uma dupla dobradiça com o feitio d'um X, cujas extremidades superiores ficam ligadas entre si por uma cobertura de couro sobre a qual se põem os livros lithurgicos. Acontece todavia, principalmente nas estantes moveis de madeira, que elle não é formado d'uma cobertura de couro, mas sim de taboinhas postas no prolongamento de duas das quatro extremidades superiores da dobradiça da estante.
Livros do Evangelho e manuscriptos lithurgicos. Continuou-se, durante o periodo ogival, a illuminar os textos dos livros santos.
No fim do XII seculo, isto é, no momento em que a ogiva tomou o logar da volta inteira, fez-se uma revolução completa na arte de pintura. Os miniaturistas da Europa Occidental do mesmo modo que os pintores das vidraças e esculptores libertaram-se das tradicções byzantinas e romans, para se applicarem principalmente á imitação da natureza. Este novo genero nascido em França, como o estylo ogival, generalisou-se por todos os paizes proximos.
A escola dos miniaturistas do XIII seculo dilatou a carreira de suas obras. Até esta epocha, as Biblias, os livros dos Evangelhos e os dos psalterios tinham sido as unicas obras ornadas de estampas illuminadas; depois as obras profanas da antiguidade classica, as dos padres, os romances dos cavalleiros e as chronicas tiveram tambem illustrações calligraphicas.
Proximo do meiado do XIV seculo, uma nova mudança teve a pintura em geral, estendendo a sua influencia sobre todos os ramos d'esta arte. Ao primor do desenho que traça os principaes contornos, esforçou-se o pintor por ajuntar o modelado dos objectos no afrouxamento gradual dos tons e na opposição das sombras e da luz. A começar d'esta epocha, o colorido deu á figura, não sómente a côr, mas ainda a fórma e o relevo.
No XV seculo, a arte da pintura e do miniaturista, subiu em Flandres ao mais alto grau de prosperidade, sob a influencia dos irmãos Hubert e João Van Dyck, Thierry, Streerbout, Roger von der Weyden e Haus Memling; em Portugal, Antonio e Francisco de Hollanda. Todos estes eximios mestres não desprezavam empregar o seu tempo na illuminura dos manuscriptos. O rei Filippe—o Bom—1419-1467—, tinha uma predilecção notavel pela ornamentação dos manuscriptos, como tambem em Portugal el-rei D. João II e D. Manuel[5], contribuiram singularmente para o desenvolvimento d'este genero de trabalho.
Os pintores d'esta epocha applicam-se a reproduzir a belleza real que se colhe da natureza, mais agradavel que uma belleza ideal; substituem de alguma maneira, o realismo ao symbolismo dos seculos findos passados; diligenciando representar com toda a verdade os minimos detalhes da natureza, cogitam o modo de apresentar a mais exacta reproducção do feitio e côr dos objectos.
Capas dos livros dos Evangelhos. Até ao IX seculo serviram-se bastantes vezes de capas de marfim; do IX seculo ao XII, o marfim estava misturado ao metal e ás pedras preciosas. Durante o periodo ogival, abandonaram geralmente o uso do marfim, e o metal só ornado com riqueza, sobretudo no XIII seculo, de esmaltes e joias, foi empregado nas capas das Biblias, nos livros dos Evangelhos e nos lithurgicos. Salvo raras excepções, eram cobertos de estofos, de couro, e algumas vezes de madeira com esculpturas ou de chapas de prata em relevo[6].
Thuribulos e naveta para incenso. Os thuribulos do XIII seculo compõem-se geralmente, como os dos seculos antecedentes, de duas semi-espheras ôcas, as quaes juntas formam uma bola. A semi-esphera inferior tem um pé que lhe serve de apoio, no qual se põe as brazas e o incenso; vem a ser o verdadeiro perfumador. A semi-esphera superior, que serve de tampa, está crivada de muitos orificíos para sahir o fumo do incenso. Esta tampa que tem como remate muitas vezes uma torrinha com a figura de homem ou de animal, é movediça: sóbe e desce ao correr de tres ou quatro correntes prezas por uma extremidade do thuribulo e por outra parte da mesma tampa atravez da qual passa uma cadeia que fixa o remate, e facilita levantal-a ou abaixal-a como se quizer.
A fórma geral dos thuribulos do XIII seculo é conhecida, não sómente pelos raros especimens em metal conservados até ao presente, mas tambem pelas esculpturas e miniaturas contemporaneas, nas quaes se vêem anjos ou clerigos thuriferarios.
Nos seculos XIV e XV, os thuribulos mudam de aspecto, apresentam poucas vezes a fórma espherica e têem geralmente o feitio de diversas curvas; tomando a fórma de torrinhas com telhado, janellas recortadas, etc. O metal de que geralmente se serviam, era o latão; para os de melhor qualidade empregavam a prata.
Gomís ou aquamaniles. Os gomís designados tambem aquamaniles (de aqua, agua, e manile, vaso para deitar agua nas mãos) faziam parte das alfaias ecclesiasticas e continham agua para as abluções das mãos, durante as ceremonias religiosas. Empregavam-se tambem no uso civil para a lavagem das mãos antes e depois das refeições. No fim do periodo roman e durante todo o período ogival tinham as mais caprichosas e mais varias fórmas. A maior parte apresentam a d'um animal real ou phantastico; a agua é geralmente introduzida no gomíl pelo cimo, na cabeça do animal, servindo de gargalo; a bocca ou o bico finalmente a aza é formada, quer pela cauda do animal revirada sobre o lombo, quer por um lagarto ou um dragão alado; algumas vezes mesmo a torneira está posta diante da figura. Os animaes representados mais vezes são o leão, o cavallo, o veado, o gallo, o dragão, a sereia e differentes passaros. Quasi todos os aquamaniles são de latão ou de cobre.
Alguns gomís de metal têem a fórma do busto de homem, de mulher e de creança. Devemos tambem mencionar os gomis do XIII seculo apresentando a fórma d'um prato côvo, não sendo diverso da bacia que servia senão para pela existencia, sobre a borda d'um bico para sahir a agua sobre as mãos.
No XI seculo principiou o uso de lavatorios collocados no meio das sacristias. Havia-os de fórmas architectonicas, imitando mais ou menos uma fortaleza ou uma torre; outros (e eram os mais communs), compunham-se de vasos de bronze ou latão, de pequenas dimensões, tendo uma grande aza e dois gargalos oppostos; para se lavar as mãos, abaixava-se, empurrando de cima para baixo, um dos gargalos. O seu uso durou até ao XV seculo.
Pratos para offerendas. Encontram-se em muitas egrejas grandes pratos ou bacias de latão estampado, cinzelado e gravado, ornados de assumptos, symbolos, brasões, folhagens e figuras geometricas. Estes pratos designados bacias de offerenda, porque serviam e servem ainda para receber as offertas dos fieis, principalmente as que se fazem durante as missas para os defuntos, eram feitos no XV e XVI seculo nas officinas dos fundidores de cobre em Augsbourg, Nuremberg e Brunswick. É preciso advertir, que as bacias do XV seculo e do principio do XVI seculo, apresentam os caracteres da decoração ogival, e que as do XVI e XVII seculos apresentam ornatos do estylo da renascença.
Os assumptos e os symbolos, representados geralmente no centro do prato, mais raramente sobre a borda do prato, são quasi sempre religiosos: todavia vê-se tambem algumas vezes com o busto de Cicero, de sereias, veados, cães, escudos com brazões, etc.
Inscripções ou legendas estão gravadas dentro d'um ou dois circulos concentricos proximo da borda do prato, e repetem-se geralmente cinco vezes. Entre essas legendas ha um grande numero que apresentam um sentido facil de interpretar, por exemplo: Got sei met vus, hiff Got aves not, hiff Th (esu) vnd Maria, van allen schriftvren het slodt myt sonder Gost, eh wart (ou gich wart) der in fridt, ch (ou ich) bart et zeit gelvek, gi seal recorden, gustate et benedicite Deus; outros pelo contrario (e estes são os que se encontram mais vezes) compõem-se de lettras, as quaes reunidas não apresentam nenhum sentido; taes são as seguintes: rahe wishnbi et vrmtlife, vrmtielf ou lifevrmto.
Parece bastante provavel que estas legendas, até ao presente indecifraveis, foram os signaes ou as primeiras lettras de muitas palavras formando uma divisa conhecida geralmente na epocha em que se executavam estas bacias para offerendas.
Representação da patena. Em vez de se beijar a patena, recommendava o apostolo S. Paulo aos primeiros christãos, um abraço fraternal. No XIII seculo, por motivo de decencia e de respeito foi substituido em muitas partes, pelo uso d'um osculatorium o abraço porque julgaram então não se poder praticar sem detrimento para a moral e distincção das dignidades.
As regras lithurgicas fallam da patena, mas não determinam nem a fórma nem a representação. Serviram-se pois para este fim indifferentemente da cruz, relicarios, capas dos evangelhos, etc. Todavia a fórma que prevaleceu, foi a d'um pequeno painel, feito com materias de estimação, taes como ouro, prata, madeira rija ou marfim cinzelado, gravado, esmaltado ou pintado, representando um assumpto religioso ou santo. Este pequeno painel tem geralmente um cabo no lado posterior.
Moldes ou ferros para hostias. Serviam-se desde muito tempo, e servem-se ainda hoje de ferros para coser o pão que symbolisa a Eucharistia, imprimindo-se-lhe figuras e lettras. Estas hostias teem regularmente a fórma circular. Muitas vezes os moldes representam crucificação, o Cordeiro Divino, a simples cruz, o signal I H S, imagens de santos e symbolos.
Insignias e medalhas dos peregrinos. As insignias de romaria compõem-se, durante toda a idade média, de pequenas chapas rectangulares, quadradas ou circulares, muitas vezes de chumbo fundido e de obra vasada, outras de cobre ou prata impressa e aperfeiçoada ao buril. Apresentam geralmente em relevo a imagem do santo para quem ella foi feita. Distinguem-se de duas sortes: umas (e eram em maior numero), cosiam-se sobre o ornato pertencente á cabeça e sobre o vestuario; as outras, bastante raras, fixavam-se na extremidade do bordão ou arrimo do peregrino.
Havia-as egualmente apresentando a fórma de medalhas ornadas, nas duas faces, com imagem de santos e inscripções; muitas vezes são acompanhadas de um carneiro ou argola servindo para se trazer ao collo, ou pegadas quer no vestuario, quer nos objectos de devoção, como são os rosarios, etc.
Pequenos altares domesticos. Encontram-se muitas vezes, nos museus publicos e nas collecções particulares, pequenos triptycos e polyptycos de marfim, metal ou madeira, esculpidos, pintados ou esmaltados. Estes objectos, os fieis se serviam antigamente nas suas habitações para satisfazer a sua devoção, teem muitas vezes a fórma de um retabulo com portas, porém, de grandes proporções; sendo como os outros retabulos, ornados de baixo-relevos, estatuas e pinturas.
Baculos. Como já explicamos, a voluta do maior numero dos baculos romans era terminado por uma cabeça de serpente ou de dragão; completava-os uma cruz com o Cordeiro Divino. Esta scena, symbolo do triumpho de Redemptor alcançado sobre o demonio pelo sacrificio do Calvario, veiu a ser raro desde o XIII seculo. Algumas volutas, sem duvida, trazem ainda n'esse tempo na extremidade, uma cabeça de dragão ou serpente, mas essa cabeça fica inteiramente separada ou invez já não ao Cordeiro nem sobre uma personagem ou sobre uma scena religiosa. Em um grande numero de baculos a cabeça da serpente é substituida por um ramo de folhagens ou por uma flôr aberta.
Quando, proximo ao fim do XIII seculo, os detalhes de architectura substituiram-se as peças de ourivesaria, e a decoração foi buscar aos reinos animal e vegetal, real ou phantastico, os baculos mudaram egualmente de aspecto. Ornaram-se então de nichos, estatuasinhas, flechas e pinaculos. O nó principalmente, e tambem a hostia, ficaram sobrecarregados com estes ornatos.
Estofos preciosos. Durante o periodo ogival, serviram-se muitas vezes, para os vestuarios sagrados, de estofos preciosos, nos quaes os desenhos da decoração eram feitos, juntamente com o tecido mesmo, por meio de uma trama de differentes côres, sendo depois urdido pela applicação de bordados feitos com agulha. O uso dos pannos de raz para a decoração das egrejas generalisou-se cada vez mais durante o periodo.
Tecidos. A arte de fabricar os tecidos de seda foi trazida da Italia no XIII seculo. Os desenhos embellezadores que ornam bastantes vezes os tecidos no XIII seculo e durante uma parte do XIV são geralmente copiados sobre os estofos orientaes. As figuras symbolicas e os assumptos pertencentes á historia do antigo e novo Testamento, que se acham excepcionalmente nos tecidos sicilianos ou italianos antes do meado do XIV seculo, apparecem frequentemente depois d'esta epocha, com cercadura, ou não tendo este enfeite.
No XV seculo, a industria do tecido da seda desenvolveu-se cada vez mais a Oeste e Norte da Europa. A Suissa, França e a Belgica, que possuíam, depois do XIII seculo, alguns teares isolados para a fabricação da seda, do veludo, e do setim, viram então os seus teares a multiplicar-se e tomar consideravel incremento.
Em Flandres tambem se tinha alcançado, desde o XIII seculo, bastante fama pelos tecidos preciosos, para os quaes os primeiros aprestos foram fornecidos pela Inglaterra. De todos os estofos o mais estimado e de preço fabricado em Flandres era o setim de Bruges.
Bordados. Nas bordaduras do XIII seculo, como nas pinturas e esculpturas contemporaneas, o desenhador abandonou pouco a pouco as tradicções byzantinas. Os gestos dos personagens perdem a sua expressão archaica, as cabeças não são delineadas conforme typos convencionaes, as pregas dos vestidos, em logar de serem comprimidas e paralellas, são executadas com fidelidade; finalmente, as figuras teem muitas vezes a presença curvada.
Desde o fim do XIII seculo, a arte de bordar, designada muito distinctamente na idade média pintura com a agulha, acupictura, attingiu a um subido gráo de prosperidade; desenvolvendo-se cada vez mais durante o XIV seculo, e chegou ao seu apogeu no principio do XV seculo. N'esta ultima epocha, tres paizes se distinguiram sobretudo pelo talento e habilidade no acabamento dos bordados: foram a Belgica, a Prussia rhenal e a Bourgogne. Os dois principaes centros de manufactura para os estofos bordados encontravam-se em Arrhas, em Flandres e em Cologne; a estas duas cidades se póde ajuntar em segundo logar Malines, Liége, Tournai e Reims.
Pannos de Raz. Chama-se panno de raz a um tecido no qual os fios de côr, enrolados sobre uma urdidura fixa vertical ou horisontalmente, faz corpo juntamente, e produz combinações de linhas e tons similhantes aos de pintura que se obtem com o pincel, e o mosaista com os cubos de marmore ou de esmalte. O panno de raz distingue-se do bordado em que as figuras fazem parte integrante do tecido, em quanto os bordados são simplesmente sobrepostos sobre um tecido já feito. Distingue-se por outro modo, dos estofos tecidos de ouro e seda, porque constitue sempre um trabalho manual, e não é obtido por um mechanismo [representando] sem fim o mesmo padrão. Cada uma das producções do panno de raz é uma obra original.
Os fios com que o tecelão delinea as sua composições, seus symbolos e ornatos, são o ouro, prata, seda e lã.
A arte dos pannos de raz era já conhecida no XI seculo. Antes do anno 1025, havia, em Potiers, uma fabrica de pannos de raz, cujos trabalhos tinham sido muito apreciados, mesmo fóra de França. Os productos d'estas officinas eram ornados de retratos dos reis, de imperadores, de figuras de animaes, assim como de assumptos da biblia.
No XII seculo a Allemanha toma egualmente uma parte activa no desenvolvimento do fabrico dos pannos de raz.
No XIV seculo, a arte do tapisseiro, posto que continuando a empregar o mesmo fabrico technico do seculo precedente, progride como todas as outras artes.
Desde o principio do XIV seculo a manufactura dos pannos de raz de alto-liço prosperou em Paris, Bruxellas e Arrhas; depois foi introduzida em muitas outras cidades de Flandres e do Brabante. No fim do XIV seculo os pannos de raz de Arrhas principiaram a ter a primazia; devendo a sua reputação á perfeição dos seus tecidos e á sua tintura. Desde esta epocha, os pannos de raz de alto-liço foram designados, principalmente pelos Italianos e Inglezes, sendo da fabrica de Arrhas, pelo nome de finos pontos de Arrhaz, e arazzi.
O XV seculo foi a idade de ouro para os pannos de raz. Realisaram-se então notaveis progressos na execução material. Os fios vieram a ser cada vez mais finos, a proporção da seda e do ouro augmentaram consideravelmente, os tintureiros inventaram graduação de côres novas, emfim os tecelões aprenderam a combinar as côres com tal habilidade que não podia ser nunca excedida. N'esta epocha os pannos de Arrhas eram os mais estimados e por isso muito procurados.
Vestimentas sagradas. Durante toda a idade média, as vestimentas sagradas, das quaes se serviam nos dias ordinarios, eram feitas de tecido de lã, ou algumas vezes tambem de linho. Os estofos de seda empregavam-se nas vestimentas ricas e preciosas.
A casula conserva, até ao meado do XV seculo, a fórma que tinha durante o periodo Roman, isto é, de um vestuario largo, comprimido á roda do collo, cobrindo inteiramente os braços e caindo negligentemente de todos os lados á roda do corpo. Da mesma maneira que precedentemente, quasi sempre as estolas com bordaduras são comprimidas e estreitas, representando assumptos religiosos. Na Italia, nos paizes meridionaes e no meio dia de França, estas estolas são geralmente em numero de duas postas verticalmente, uma por diante e a outra por detraz do peito; a de diante fica com o feitio de um tau T. Na Belgica, na Hollanda, na Allemanha, e em Inglaterra, duas outras pequenas faxas saindo do peito passam sobre os hombros e vão ter ao meio das costas, formando assim, pela sua combinação com as estolas verticaes, duas cruzes cujos braços ficam levantados com o feitio de Y.
As casulas com dupla cruz entraram em uso no norte da Europa até ao XV seculo, epocha na qual uma mudança notavel se operou na fórma e disposição das estolas. Primeiramente, estas ficavam com muito mais largura; depois em toda a parte onde a dupla cruz com braços levantados havia tido uso precedentemente, pozeram sobre o lado opposto da casula, [uma cruz] latina †, e sobre a frente uma columna.
No XIII e XIV seculos, sendo sempre estreitas, eram regularmente ornadas com figuras geometricas ou pequenas folhagens simplesmente de decoração. Quando no XV seculo se fizeram mais largas, representavam muitas vezes imagens ou assumptos religiosos.
A estola e o manipulo consistiam, durante o periodo ogival, em faxas compridas e estreitas, quasi sempre ficando as extremidades um pouco mais largas.
As estolas e os manipulos, geralmente de uma grande simplicidade, eram feitos de linho, de lã ou de seda, acabando n'um bordado e franjas. Os de ornamentos ricos eram por vezes bordados e apresentavam uma certa analogia com as faxas de recamo d'ouro das casulas, que lhes pertenciam. As suas extremidades não tinham ornatos com bordados symbolicos, que só se usaram depois da primeira metade do XV seculo.
No principio o pluvial, em latim coppa, isto é, capote para resguardo da chuva (pluvia) era usado sómente pelo clero inferior, principalmente pelos chantres e mesmo por vezes pelos seculares, tomando uma parte na celebração do culto. Foi sómente no XIII seculo que veiu a ser commum para todas as ordens da hierarchia ecclesiastica, incluindo mesmo o pontifice.
Serviam-se do pluvial, como se pratíca ainda hoje, nas procissões e em todos os outros officios da missa; por exemplo, no canto solemne de vesperas. O seu feitio é o mesmo da casula; sómente, em logar de ser, como esta, inteiramente fechada de maneira a esconder todo o corpo, é aberto na frente desde os pés até ao collo.
O pluvial da idade media tinha, sobre as costas, um capuz de ponta muito comprida, com a qual se podia cobrir a cabeça. Nos pluviaes ricos as orlas da abertura de diante, e tambem a orla inferior, estão cobertas de faxas de estofo colorido, bastante estreitas e ornadas, principalmente no principio do XIV seculo, sendo os assumptos religiosos feitos com bordados. No XIV seculo as faxas veem a ser mais largas, e proximo da mesma época, o capuz augmenta, ficando a sua extremidade redonda, e como as faxas, ornada.
Colchete do pluvial. Prendia-se o pluvial sobre o peito com um grande colchete coberto de medalhões em metal precioso, ornado de esmaltes ou delicadamente cinzelado. Estes medalhões colchetes, em latim fibulae, morsus, monilia ou pectoralia, teem muitas vezes a fórma de quatro folhas; ha tambem circulares, ovaes, e mesmo quadrados. São geralmente ornados com assumptos religiosos ou com estatuasinhas de santos. Acompanham-os, principalmente no XV seculo, a figura ajoelhada e os brazões do doador.
A alva e o amicto conservaram as fórmas primitivas durante o periodo ogival. Eram geralmente de linho, algumas vezes tambem de seda ou brocado. Continuou-se a guarnecel-os de faxas rectangulares com recamo de oiro, bordados ou tecidos vistosos. Estas vestimentas prendiam-se no meio da orla superior do amicto; e sobre a alva nas extremidades das mangas á roda do punho, por diante e detraz sobre a orla inferior proximo dos pés, e algumas vezes tambem sobre o peito.
A cintura, da qual o sacerdote se serve para arregaçar a alva, prende-se á estola em cruz sobre o peito; não teve nunca na idade média a fórma de cordão que apresenta actualmente. N'essa época geralmente consistia em um comprido cinto, especie de fita comprida de dois metros e meio, com a largura de cinco a seis centimetros. Dá-se-lhe algumas vezes o comprimento symbolico, por exemplo, do tumulo de Jesus Christo.
A dalmatica é a vestimenta decima do diacono, a tunicella, a do sub-diacono. Não existe, ha muito differença entre estas duas vestimentas, posto que n'outro tempo a tunicella teve mangas mais curtas e era mais comprida, porém menos ornada que a dalmatica.
Durante o periodo Roman e no principio do ogival, a dalmatica consistia em um comprido vestido inteiramente fechado, com mangas e uma abertura para passar a cabeça. Era enfeitada diante e detraz por duas faxas verticaes com recamo de ouro ou de côr, descendo até a orla inferior. Estas faxas, muito estreitas no XIII seculo, vieram a ser cada vez mais largas desde o XIV seculo.
No XIII seculo, a dalmatica não era ainda aberta nos dois lados da orla inferior até quasi á quarta parte do seu comprimento. No XIV e XV seculos, estas aberturas augmentaram até meia altura do vestuario; tendo então, do mesmo modo, toda a parte inferior da dalmatica, bordados de faxas de côr ou as superiores de recamo de ouro.
Mitras. As mitras com dois bicos, o uso das quaes se tinha generalisado no XII seculo, foram definitivamente adoptadas no XIII seculo, como um ornamento episcopal e abbacial. Comparadas com as mitras modernas, as primitivas eram muito baixas, a sua altura variava entre 0,20 a 0,25 centimetros.
As differentes partes de que se compõem as mitras são: 1.º as peças triangulares formando pela sua reunião o barrete; 2.º as duas fitas pendentes da mitra mais largas nas extremidades inferiores, ficando prezas por detraz da mitra.
Havia na idade média duas qualidades de mitras: simples ou lisas, e com bordaduras recamadas de oiro, designadas na latinidade da idade media pelo nome mitrae auriphry giatae. Sobre estas ultimas as bordaduras recamadas de oiro dispunham-se por tres maneiras: 1.º verticalmente ou, como dizem os livros lithurgicos, en titre in titulo; 2.º horisontalmente ou in circulo; 3.º em titulo e em circulo juntamente.
No meiado do XIV seculo, os bicos da mitra são maiores. A maior parte das mitras da ultima metade d'este seculo medem de 32 a 35 centimetros de altura. Esta altura chega regularmente a 40 centimetros no seguinte. N'esta ultima época tambem as orlas dos bicos são algumas vezes guarnecidas com bordaduras recamadas de oiro, ou tendo uma especie de renda de prata dourada similhando-se a folhas de repolho ou de crochetes vegetaes.
Abbadias e Mosteiros
Bernardus valles, montes Benedictus amabat,
Oppida Franciscus, magnas Ignatius urbes.