Arte cerâmica e decoração em Portugal

Em Portugal a cerâmica serve para fins decorativos pelas maneiras mais variadas, começando nos mais simples objetos de necessidade imediata, como o fogão, os ladrilhos toscos do chão e análogos, e rematando nos magníficos azulejos de faiança artisticamente arranjados tanto sobre o ponto de vista do arquiteto como do pintor.

O emprego destes azulejos (ladrilhos fabricados de argila cozida e esmaltados de um só lado) imprime nos edifícios portugueses uma graça especial, dando-lhes ao mesmo tempo solidez e beleza.

Em geral nos paízes do sul as paredes das casas não são construídas tão solidamente como no nosso norte, sendo apenas as molduras das portas e das janelas e os cunhais das casas construídos de pedraria rigorosamente talhada, enquanto o grosso das paredes é fabricado, sem grande prodigalidade de argamassa, de pedras irregulares, tais como as pedreiras as fornecem. Nestas circunstâncias o emprego de ladrilhos vidrados para abrigar as paredes contra a inclemência do tempo torna-se quase uma necessidade absoluta.

Tão frequente é o uso dos azulejos que eles constituem um característico do país, podendo até dizer-se que poucas igrejas e casas há onde eles se não encontrem. Ora formam as molduras dos portais das casas e dos jardins, ora constituem a decoração alegre dos vestíbulos e das escadarias.

Em muitas casas, e até em bastantes pobres, as paredes interiores são forradas de azulejos pelo menos até 1 metro de altura. Frequentemente os azulejos são empregados para decoração das fachadas desde a base até ao telhado, ora com pinturas simples, ora enfeitadas com quadros da mão de artistas, muitas vezes também cobrem eles as torres e cúpulas, sendo o seu luzir ao brilho do sol meridional de um efeito verdadeiramente esplêndido.

Os azulejos são quadrados de 0,13m até 0,16m de lado, sendo de formas e dimensões mais variadas do que as molduras dos quadros. O que dá um valor artístico e especial a estes artefactos, ás vezes aparentemente toscos, é a ligeireza e elegância do desenho, muito em harmonia com a própria índole do material. Como já disse, os azulejos são de terra de majólica, de pouca espessura, cozidos e pintados antes de serem esmaltados.

A tinta é rapidamente absorvida pela argila, sendo impossível destruir ou emendar o desenho; o esmalte, sobreposto depois, dá a tudo muito brilho e duração. Sendo limitado o número de tintas que resistem ao processo da fabricação, a variedade das cores não é grande, mas este facto mesmo produz uma harmonia de composição, que redunda em especial proveito da cerâmica. A cor mais vulgarmente usada é o azul, derivando daí (azul, ou asur é o nome árabe de Japis-lazuh) a designação dos ladrilhos; há, contudo, autores que derivam a palavra do árabe zallaja, que significa liso, polido.

A fabricação dos azulejos deve-se, sem dúvida alguma, como tantos outros processos da arte cerâmica, aos mouros, divulgando-se em todos os países onde penetrou o seu domínio. No princípio foram destinados a substituir os mosaicos bizantinos nas mesquitas; empregaram-se, porém, mais tarde, também na decoração dos edifícios cristãos. O desenho estava originariamente distribuído em chapas unicolores de diferentes tamanhos e formas, sendo pouco depois adoptado o sistema típico atual.

Como parece, os azulejos começaram a divulgar-se no século XI, se não mais cedo, mas os mais antigos, que ainda existem na península ibérica, os da Alhambra em Granada pertencem ao século XIV[67].

Com respeito à coloração pode afirmar-se que, em Portugal, nos primeiras tempos do fabrico só se empregaram tintas inteiras sem matiz, sendo mesmo raras as cores alegres (de lustre).

Depois da introdução das faianças italianas da Renascença, a sua influência na decoração dos azulejos não tardou a fazer-se sentir. São disto claro exemplo os magníficos azulejos do sumptuoso palácio da Bacalhôa em Azeitão, uma vila amena perto da margem sul do Tejo, em cujo sítio antigamente os fidalgos portugueses costumavam veranear.

Segundo as pesquisas profundas de Joaquim Rasteiro, português, acerca daquele interessante monumento de arquitetura portuguesa[68], a construção dele foi começada pela infanta D.ᵃ Brites, passando a propriedade mais tarde às mãos de Afonso de Albuquerque, filho do célebre herói da Índia, que consideravelmente alargou as decorações do palácio e jardim com azulejos de cores. «Afonso de Albuquerque, filho do grande vencedor dos índios, edificou em 1554, reinando João III», diz uma inscrição sobre o portão principal do átrio.

O palácio com seus jardins constitui um verdadeiro museu de todas as espécies de faianças que se podem imaginar. Encontram-se ali o azulejo unicolor servindo para decorações no género munífico, o azulejo liso com ornamentos multicolores, o azulejo lustrado (estampado em relevo) à maneira dos espanhóis, os azulejos formando quadro simbólico, histórico ou mitológico, o medalhão à maneira dos de Luca della Robbia, de baixo ou alto relevo, de terra cota simples, ou colorido, ou esmaltado, com festões de frutos, ou simples grinaldas de folhas.

A galeria do lado ocidental do palácio, que dá para o jardim, tem revestimento de azulejos até à altura de 1m72. No meio de um desenho em azul, amarelo, verde maçã e castanho, sobre fundo branco, com friso de ovados, veem-se personificações dos rios Mondêgo, Nilo, Danúbio e Douro com ricas bordaduras, tudo obra de mão de verdadeiro artista e de inexcedível brilho e magnífico efeito[69].

Os pavilhões do jardim, as paredes e as galerias do lago artificial, no canto sudoeste daquele, são igualmente providas de ricas decorações em azulejo. Até os bancos e os alegretes das flores são revestidos de azulejos, posto que alguns destes mais simples e unicolores, formando uma espécie de mosaico. Os azulejos, que ornam as colunatas do lago são verdes com ornamentos de lustre, estampados em relevo cavado. No centro de uma destas paredes encontram-se as armas dos Albuquerques igualmente em azulejo. O pavilhão central, dos três situados no lago, tem não só azulejos de desenho ornamental, mas também três quadros figurais notáveis pelas suas formas e pelas suas cores. Um representa o rio Tejo, outro Suzana no banho. No fundo deste último quadro vê-se um palácio, em cujo pórtico se acha inscrito o ano de 1565. As chapas de terra cota (azulejos) que cobrem as paredes deste pavilhão estão colocadas com os cantos para baixo [<>], excepto os ladrilhos dos quadros, cujas juntas são verticais e horizontais. A colocação especial dos azulejos motivou uma mudança agradável do desenho, sendo ainda aumentada pelo emprego de azulejos de desenhos diferentes.

Apresento no caderno 4.º um dos desenhos unicolores daquele pavilhão.

Toda a parede a oeste do lago, com a sua extensão de cerca de 30 metros e com a sua considerável altura, é coberta de azulejos verdes em baixo relevo, de muito valor artístico[70]. Um Neptuno lançando água, nichos e medalhões em relevo alto servem para dar mais vida ao extenso quadrângulo. O diâmetro dos medalhões é de 54 centímetros, com as grinaldas de flores e frutos de 78 centímetros. O muro sul do jardim, costeando o caminho do palácio para o lago, tem doze medalhões de baixo relevo, correspondendo a outras tantas pirâmides colocadas no alto do muro. Os relevos representam heróis da antiguidade, Alexandre, Cipião, César, Aníbal e outros. O conjunto de toda esta construção representa obra de mestre, de um arquiteto talentoso bem certo do efeito desta maneira decorativa.

Portugal é rico em ruínas grandiosas, muito pitorescas e, pela maior parte, desconhecidas no estrangeiro, como os castelos de Obidos, Leiria, Tomar e Palmela. Do último ainda se levantam ao belo céu azul as colunas isoladas de alguns arcos, e ali encontrei magníficas decorações de azulejos muito bem adaptadas às largas dimensões da igreja. Azulejos isolados, tais como se encontram nos museus da arte industrial, quase sempre de origem espanhola, não podem dar senão uma ideia muito imperfeita da magnífica harmonia e da arte genial com que os azulejos naqueles tempos foram aproveitados para a decoração. Na estampa junta vê-se o sistema de desenho empregado por cima das janelas e entre as colunas dos arcos.

A estampa, em cores, deste caderno apresenta o detalhe do desenho formado de dezasseis ladrilhos. Este desenho, como a sua roseta central, lembra alguma coisa os modelos romanescos, que provavelmente ainda se conservavam tradicionalmente nas oficinas e que, nesta igreja de caráter romão dos tempos da Renascença, estão muito no seu lugar. Os frisos, porém, pertencem à Renascença pura, sendo pela maior parte formados por filas de folhas. A mesma estampa mostra uma parte composta de dois azulejos. Todos os ornatos mostram as mesmas cores, azul ou amarelo, contornados de azul sobre fundo branco, sendo não raras vezes o fundo enchido com a cor suplementar, o que faz aparecer o ornamento em branco.

O mesmo desenho de azulejos encontra-se em alguns outros edifícios do país, por exemplo na catedral de Portalegre, no Alentejo, fundada em 1565. Mas o sistema da composição dos azulejos é sempre variado, sendo deveras surpreendente a diversidade de desenhos que se podem arranjar com os mesmos ladrilhos. É claro que para isso se precisa uma mão experimentada, sendo especialmente difícil o fecho dos cantos. Os operários daqueles tempos tinham um exame especial com respeito ao assentamento dos azulejos.

A catedral de Portalegre, cuja torre teve a cúpula revestida de azulejos, contém no seu interior ainda muitos outros desenhos bonitos e notáveis de azulejos, como o representado no caderno 4.º. O artista desenhou uns retângulos e serviu-se apenas do azul e do amarelo, mas aplicando estas cores tão bem com respeito ao espaço que ocupam que, longe de parecerem desarmónicas, exaltam o efeito uma da outra[71]. O desenho da fita é também tirado daquela igreja.

Do século XVI existem ainda muitos azulejos lisos em Portugal; estampados em relevo encontram-se no convento da Pena e no palácio real de Sintra. As chaminés gigantescas deste último, que antes parecem pagodes da Índia, eram ornadas de azulejos estampados, desenhados por Duarte de Armas, pintor do rei D. Manuel.

Nos séculos XVI e XVII fabricaram-se azulejos magníficos. Ao lado de ornamentos, de vasos com flores, de arabescos, aparecem quadros figurais, emoldurados em ricos desenhos arquitetónicos, tudo apenas em dois tons de azul, contornados da mesma cor. Os quadros representam cenas bíblicas, feitos heróicos da história portuguesa, caçadas, touradas, danças, cenas bucólicas e viagens. Estes trabalhos distinguem-se muitas vezes pelo talento do autor, mostrando sempre elegância e ligeireza do pincel, surpreendendo especialmente as figuras pela sua correção anatómica e boa representação do nu.

Forma isto um notável contraste com a moderna produção deste género na Alemanha, onde a figura humana é mal tratada até à caricatura. Da mesma época tenho de mencionar um túmulo[72] no mosteiro da serra da Arrábida, em que o revestimento azulejado da cúpula ainda está completamente conservado. Na sacristia da catedral de Portalegre todas as paredes são vestidas de azulejos, representando cenas da vida de Santa Maria, emolduradas de riquíssimas decorações da Renascença, arabescos com hipocampos, arnorettos e festões.

Também em algumas igrejas de Lisboa existem interessantes quadros em azulejo daquela época, mas a maior parte ficou destruída no grande terramoto de 1755.

Atualmente a fabricação de azulejos em Portugal restringe-se, infelizmente, a estampar os ladrilhos de padrões rotineiros, perdendo-se deste modo todo o encanto artístico, que tanto distingue as produções antigas. Não me foi possível verificar se em Portugal existiam oficinas especiais para a fabricação dos azulejos, parecendo-me por isso, que sejam produto das olarias e fábricas de porcelanas. Ainda hoje uma rua de um bairro antigo de Lisboa tem o seu nome derivado daquela indústria.

As olarias tinham por patronas Santa Justa e Santa Rufina e governavam-se por um regulamento antigo, que tratava de quatro espécies de faiança, branca, vermelha, amarela e outra chamada «da Maia».

Por ocasião da vinda de Filipe III de Espanha a Portugal, em 1619, os operários das fábricas de faiança construíram também um arco de triunfo, como os outros artistas.

João Batista Lavanha, no seu livro sobre as festas celebradas nessa ocasião, descreve o arco dos oleiros. No meio de diferentes emblemas alusivos à arte, via-se a figura alegórica da olaria estendendo a mão esquerda sobre o torno do oleiro, com a mão direita levantava um vaso semilhante àqueles que então se fabricavam em Lisboa pelos modelos chineses. Por baixo da figura lia-se o seguinte verso:

«Aqui monarca excelso soberano

vos oferece a arte peregrina

fabricado no reino lusitano

o que antes nos vendeu tão caro a China.»

Noutro quadro estava representado um navio da Índia descarregando caixotes com porcelanas chinesas. Outros barcos estrangeiros carregavam porcelana portuguesa, vendo-se ao longe iguais saindo a barra.

Pode-se concluir daí que naquela época (1620) a arte estava bastante adiantada, não só imitando-se a louça chinesa, mas exportando-se até os produtos portugueses.

Em apoio do que disse sobre a origem mourisca dos conhecimentos dos portugueses a respeito das artes cerâmicas, posso acrescentar que rara é a designação de qualquer vaso que não derive do árabe. Assim, albarrada, alcadefe, alcatruz, almofia, almotolia, bacio, barranha, bateia, bátega, botija, copa e copo, jarro, taça, etc. É notavel que entre estes nomes não só figuram os de vasos de uso doméstico e comum, mas ainda alguns de objetos exclusivamente de luxo, como, por exemplo: albarrada, que designa um determinado vaso de flores e jarra, pote de flores, ainda hoje muito em uso em Portugal.

Não posso deixar de mencionar a louça de Extremoz com as suas formas originais, tendo como as alcarazzas do sul de Espanha, a propriedade de darem à água bastante frescura, em consequência da evaporação do líquido transpirando pela argila porosa e não vidrada.

Tradução do Dr. Hugo Mastbaum.

Para se avaliar do interesse com que na Alemanha se busca saber quanto pode importar a qualquer ramo da atividade humana, sirva de exemplo o trabalho do professor Theodoro Rogge, que foi capaz de encontrar num jornal, essencialmente dado ao comércio e à política (Jornal do Comércio, de Lisboa), o escrito de autor obscuro e desconhecido, sobre a Bacalhôa, quase ignorada. Nunca supus que aquele meu trabalho valesse ser lido por um estrangeiro no seu país e, ainda menos, que eu merecesse as frases lisonjeiras que o ilustre professor me dirige. Não tive a honra de tratar com o Sr. Rogge, nem mesmo o gosto de o encontrar na sua viagem a Portugal, por isso mais me prendem as suas palavras de benevolente aplauso.

Ao meu amigo Dr. Hugo Mastbaum agradeço cordialmente o obséquio de me fazer conhecido pela tradução o escrito do seu ilustre compatriota.

J. R.