II

Cabe aqui uma retificação. No Resumo histórico dos Albuquerques diz-se «que a quinta de Azeitão e Casa dos Bicos foram fundadas pelo primeiro conde de Linhares e dadas em dote a sua filha D.ᵃ Maria de Ayala», que os terrenos da quinta foram cedidos por D. Jerónimo de Noronha, por alcunha «o Bacalhau», sobrinho do conde.

Já atrás fica demonstrado o erro, dando-se a génese da quinta, que vem de tempos muito anteriores.

Também no mesmo Resumo histórico, dando-se conta da origem da alcunha «Bacalhau», comum a dois Jerónimos, diz-se assim: «Em uma das expedições, que de Portugal foram para a Índia, embarcaram nela D. Jerónimo de Noronha, sobrinho do primeiro conde de Linhares, e D. Jerónimo Manuel.

O primeiro, como se sabe, era mais velho que o segundo, e, além disso, ia por capitão da nau.

Dizem que a viagem foi longa e tormentosa e o escorbuto principiava a grassar na tripulação, atribuindo-se tal enfermidade à constante alimentação de bacalhau, que nesse tempo era havido como muito nocivo à saúde.

D. Jerónimo Manuel dirigiu-se um dia ao capitão-mor da nau e disse-lhe que era mister providenciar sobre o caso, etc., etc. O capitão respondeu-lhe: E por que modo? Os doentes que comam as nossas rações e nós o bacalhau.

Na volta destes dois cavalheiros à corte, soube-se do facto, e, como era então mania alcunharem a todo o mundo, ficaram os dois sendo conhecidos pelos «Bacalhaus».

D. Jerónimo de Noronha tolerou a alcunha, que só durou em sua vida, D. Jerónimo Manuel ufanava-se de a ter, e foi por isso que passou a ser usada por seus filhos e netos.»

Decerto isto não foi invenção do autor do escrito referido, mas erro de informação.

D. Jerónimo de Noronha, filho de D. Henrique de Noronha, irmão do primeiro conde de Linhares, foi por capitão da nau S. Pedro na armada, que partiu para a Índia em 17 de março de 1545, conduzindo o vice-rei D. João de Castro. Ali foi capitão-mor de Baçaim. Voltando ao reino, nunca mais embarcou[43].

D. Jerónimo Manuel de Albuquerque, «o Bacalhau», teve em 1614, isto é, sessenta e nove anos depois da viagem de D. Jerónimo de Noronha, o comando da armada, que nesse ano foi para a Índia, donde só voltou em 1618. Morreu na sua quinta de Azeitão a 16 de janeiro de 1620, como se vê setenta e cinco anos depois da viagem de D. Jerónimo de Noronha.

Se o que exponho ainda não bastasse para convencer, poderia acrescentar que D. Henrique, pai de D. Jerónimo de Noronha, já era alcunhado «Bacalhau». Num nobiliário manuscrito da casa dos condes de Carvalhais, e que tenho à vista, lê-se: «D. Pedro de Menezes, casou três vezes, a primeira com D.ᵃ Leonor de Castro... e houve... a D.ᵃ Maria de Menezes, mulher de D. Henrique de Noronha, por sobrenome o Bacalhau, filho do primeiro marquês de Vila Real.»