IV

Deixemos a petição e alvará para podermos conhecer o palácio e cerca nesta época, conforme a descrição feita na tombação:

Título das casas da quinta

«Umas casas muito grandes e muito nobres, edificadas com muito primor, com varandas de todas as partes e casas, e muitas salas, câmaras, recâmaras, como abaixo se declarará especialmente e o número delas, postas da parte do norte e do levante, ficando a quinta e pomar com seus jardins da parte do sul e poente, e tem o sítio das ditas casas em circuito pela extremidade da parte de fora a saber:

Da banda do nascente, indo do norte a sul, de extremo a extremo do edifício e assento das casas, tem trinta e quatro varas e meia, e cada vara de cinco palmos, dos que falia a ordenação deste reino.

E da parte do norte, de nascente a poente, de extremo a extremo, tem trinta varas e meia.

E da parte do poente, em uma ponta que o edifício faz, tem catorze varas e meia, e vindo da parte do poente para o nascente contra o sul, tem vinte e seis varas, e voltando de norte a sul, pela banda do poente, na ponta que o sítio das casas faz para o sul, tem vinte e quatro varas e, neste vão, ao longo do edifício das ditas casas, está um jardim com uma fonte e casa de água no meio, de que se faz a declaração e medição seguinte:

E pela parte do sul de nascente a poente e pelo extremo da ponta, que as ditas casas fazem para a dita parte do sul, tem, de canto a canto, oito varas e nesta forma fica o edifício todo medido em circuito, todo com as ditas pontas, que fazem as ditas casas para o poente e sul, e tem cento e trinta e sete varas, que são juntas as medições atrás declaradas.

Tem mais estas casas três cubelos nos três cantos, que se fazem para fora contra o norte, dois ao norte e um ao sul, com que ficam muito realçadas e lustrosas, e a entrada, que está em um pátio muito grande com seus portais, cerrado de muro, em que se correram e podem correr touros, está uma escada toda de pedraria com uma volta, toda com seus balaústres de mármore, que formosa a entrada da primeira sala. As quais casas têm de salas, câmaras, recâmaras, retretes e antecâmaras dezoito em número, todas espaçosas e todas ladrilhadas e com azulejos pelas paredes, altura de mais de um covado e algumas retretes todas lavradas de azulejo e os tetos lavrados de bordo e com molduras, e pintados de diversas e agradáveis pinturas, e por baixo outras muitas casas e oficinas e armários, que respondem às casas superiores, mas repartidas em muito maior número.

Tem mais duas varandas com seus arcos de jaspe e colunas do mesmo, uma para a banda do poente e outra para o norte com suas grades de ferro até ao meio, com seus azulejos até meio das paredes com figuras. Tem a varanda da parte do poente de comprido onze varas e meia e de largo quatro varas. E a varanda da parte do norte, em que não há grade de ferro, tem uma meia parede de pedra lavrada, com seus azulejos por dentro, sobre que armam as colunas, tem de comprido dez varas e de largo quase três varas. E os portais de todas estas casas são de pedraria de jaspe, com suas portas de bordo e muito bem lavradas e com suas chaminés de pedraria e todas as mais pertenças respondentes à qualidade do edifício.»

Pátio

«Tem um pátio defronte das ditas casas cercado de muro com dois meios cubelos, com duas portas, pelas quais se entra e são a entrada pública e é comum a todos e feito em quadro. Tem do norte a sul trinta e cinco varas, e de nascente a poente trinta e cinco e meia, e para a parte do nascente tem uma varanda de colunas de jaspe, que serve entre as casas térreas e gasalhados de criados, e tem um chafariz de água a uma parede da banda do norte.»

Jardim

«Um jardim, que fica entre as duas pontas das casas atrás medidas, com o qual fica o sítio das ditas casas em quadrângulo. Tem de norte a sul pela parte do poente e por onde confronta com o pomar, que se segue, vinte e quatro varas e de poente a levante outras vinte e quatro, e pelos outros dois lados confronta com as casas, com uma fonte ao meio e em roda com seus canos de água e pelas paredes cidreiras e limoeiros, com meias paredes de azulejo feito em quadro. É arruado e ladrilhadas as ruas.»

Título do pomar

«Tem um pomar contíguo às casas e jardim, que lhe ficam para a parte do levante, todo plantado de infinitas laranjeiras em ordem, limoeiros e cidreiras fora todo o mais género de frutas, muito espessas e plantadas em ordem e fileiras, o qual está todo cercado ao redor de um muro mais de doze palmos em alto e pela parte de dentro com suas ruas de azulejo, que abaixo se declaram. Tem do nascente, ou jardim, atrás declarado, até ao tanque de água por uma rua cercada de azulejos e alegretes e ladrilhada de largura de mais de três varas, oitenta e quatro varas e neste canto, que o dito pomar faz para o poente, está um tanque de água, ladrilhado por baixo, que cobre um homem, cercado de pedraria e de azulejos, feito em forma quadrada; tem vinte e nove varas de canto a canto e fazem em circuito cento e dezasseis, do qual se rega todo o pomar atrás declarado com água do rio de S. Simão, de que lhe pertence toda a dita água quatro dias naturais e três horas cada nove dias.

Tem o dito tanque, na cabeceira pela parte do sul, cinco casas de prazer armadas com colunas de jaspe e forradas todas de azulejo e os tetos pintados em estuque com várias histórias e figuras, e ao lado das ditas casas de prazer, para a parte do nascente, tem um jardim com seus alegretes na distância e largura das mesmas casas.

E a água que cai para o dito tanque, cai pela boca de uma baleia artificiosa com um Tritão em cima, que formoseia muito o dito tanque e casas de prazer, e com figuras várias em nichos, feitos de pedraria pelas paredes do dito tanque.

Tem mais o dito pomar pela parte do poente, começando do sul e norte, outra rua, que vai do dito tanque, da mesma largura e feitio com seus azulejos e alegretes e pela parede seus nichos com várias figuras, que tem cento e dezasseis varas, e no remate do canto de baixo, da banda do norte, tem uma casa quadrada com quatro janelas, em que estão pintadas sobre estuque[45] as histórias da Índia, com as quatro cidades principais conquistadas pelo grande Afonso de Albuquerque, pai natural de Afonso de Albuquerque, instituidor deste morgado.

Tem esta rua, da parte do poente, uma porta, que sai para a igreja e freguesia de S. Simão, pouca distância de portal a portal, da qual igreja é costume sair a procissão da Ressurreição de Cristo Nosso Salvador e correr as ruas do dito pomar e tornar-se a recolher pela mesma porta à mesma igreja.

Tem o dito pomar do dito canto da Casa da Índia, atrás declarada, de poente a nascente, pela banda do norte, cento e trinta e sete varas, que também servem para medição da vinha abaixo declarada, que confina com o dito pomar pela banda do norte e do canto, que o muro faz para a banda do nascente até ao jardim, donde esta demarcação e medição começa, subindo de norte a sul, tem cento e seis varas, ficando no meio a ponta que as casas fazem para o parte do poente, que se metem entre o jardim e o pomar. Pela parte donde a dita demarcação dele começou, em o dito canto de baixo, está uma casa, que se chama das Pombas, com um bufete de jaspe ao meio. E da dita casa, na largura dela, que corre de norte a sul, como se diz atrás, até às ditas casas principais, vai uma rua de ladrilho com seus alegretes de azulejo na forma das outras ruas atrás declaradas.»

Título da vinha

«Tem mais uma vinha pela parte do norte, que dos lados fica dentro dos muros do pomar atrás confrontado e dividida do dito pomar pelo muro menos principal. Tem do sul ao norte, pela parte do nascente, cento e trinta e três varas e de nascente a poente, pela parte do norte, cento e quarenta e duas varas e meia, e pelas outras duas partes tem a mesma medida de varas por estar em forma quadrada.»

Título das mais casas de criados, lagares de azeite e vinho, estrebarias, cocheiras e mais pertenças

«Tem defronte do pátio das casas principais, atrás confrontado e medido, para a parte do nascente está um pátio contíguo ao outro atrás, o qual tem as casas seguintes e de comprido de norte a sul vinte e três varas e de nascente a poente treze e meia, e para este pátio se entra por duas portas, a saber: uma, a porta menos principal, que vai do outro pátio para este entre as casas dos criados e outra porta maior e principal para a parte do norte, por onde pode entrar um coche, e defronte dela fica uma cocheira, e à ilharga, da parte do norte, fica um lagar de vinho, e à outra ilharga, para a parte do nascente, um lagar de azeite com quatro varas e dois moinhos e duas caldeiras e todas as mais pertenças necessárias aos ditos lagares, e para a moenda destes lagares vem a água do rio de S. Simão, que lhe é necessária por servidão enquanto moer.

E por baixo do dito lagar pela parte do norte, junto à porta principal por onde se entra no pátio, correm umas estrebarias para a parte do norte, que têm de comprimento vinte e sete varas e meia, e de largo quatro varas, cuja porta de serventia está dentro do dito pátio com porta fechada sobre si, dentro do qual pátio estão dois fornos de cozer pão...»

Terra do rossio

«Uma terra, que serve de rossio e parte com as mais casas da quinta atrás, da parte do sul com os muros dos pátios, do nascente com as casas das estrebarias e vizinhos que seguem... do norte parte com estrada pública, que vai das Vendas para o mosteiro de Azeitão, e do poente com cerca e muro da vinha e pomar da dita quinta...»

O documento de que me estou servindo, segue na descrição de outras propriedades do morgado, que não importa conhecer, no entanto, aproveitar-me-ei dele, na parte referente às:

Casas do hospital deste morgado de que trata a instituição

«Um pátio e casa grande, que serve de hospital e outra do hospitaleiro e outra dos doentes, que são por todas três e um pátio, que está em aldeia de Vila Freixe, junto à igreja de S. Simão. Tem de comprido, de levante a poente, pela parte do norte e sul, dezoito varas e de largo onze varas. Parte ao norte com as casas da mulher de André Fernandes e ao sul com a igreja de S. Simão e ao poente com logradouro da aldeia e ao nascente com logradouro e cerca da quinta deste morgado.»

A casa do açougue também era pertença do morgado e é descrita assim:

Casa do Açougue

«Uma casa, que serve de açougue, que está fora dos muros da quinta, parte do nascente com muro do cano da água, que vai aos lagares da dita quinta e do norte com os mesmos lagares e do poente com terra e logradouros da quinta e do sul com as casas de Francisco Nunes, foreiro à dita quinta. Tem de comprido quatro varas e meia e de largo duas varas.»

A descrição desta casa pouca importa para a nossa história; mostra, porém, que na quinta e palácio se concentrava toda a vida do lugar; de um lado e quase junto aos muros, o hospital e a igreja, do outro a casa do mercado.