XVII
A coleção de cerâmica da Bacalhôa é numerosa e variada, como nenhuma outra conheço e talvez nenhuma haja, fora de museu, que se lhe emparelhe.
Do mosteiro da Conceição de Beja, bem conhecida obra da infanta D.ᵃ Brites, resta ainda o claustro chamado de D. Manuel, cujo pavimento e bancos são forrados de azulejos diversos; da antiga casa do capítulo, transformada para sacristia, vestem as paredes painéis de azulejo differentes, extremados por tarjas; é uma coleção muito interessante e variada, e todos os espécimenes são de relevo cavado. Ali, além de outros, encontrei os n.ᵒs 3, 9, 17, 23, 24, 29, 33 e 37 da Bacalhôa.
De todos os azulejos do mosteiro em demolição existem exemplares no museu, já valioso, que a câmara municipal daquela cidade está cuidadosamente formando.
A pequena capela que guarda o altar da casa do capítulo, a que me referi acima, é toda vestida, mesmo a abóbada, de belo azulejo branco e azul, quadrado ou em quadrângulos, formando um mosaico em xadrez, género muito usado anteriormente ao azulejo de desenhos geométricos, ou de folhagem e flores.
Sendo de 0,125 a 0,130m as dimensões ordinárias do azulejo por 0,020m de espessura, encontrei nuns restos do pavimento do claustro uns azulejos muito maiores e mais grossos 0,18m por 0,025m, que me parecem propositadamente reforçados para ladrilhamento. O desenho é de pouco bom gosto e imperfeita execução, relevado e a cinco cores, azul, verde, roxo claro e escuro, em fundo branco.
A variedade de tipos encontrados no mosteiro da Conceição de Beja é imensa, e não será fácil encontrar-se no país outro agrupamento de tantos exemplares diferentes de azulejo em relevo.
O templo tem uns quadros forrando a parede do Evangelho até à altura de uns 2 metros, representando a vida de João Batista, do nascimento à degolação; são a azul em fundo branco, têm a data de 1741, mas sem nome do autor. Nas tarjas, que os emolduram, há uns festães e uns putti comuns a muito azulejamento da época; pelo desenho pode julgar-se serem aqueles quadros do autor dos quadros bíblicos em azulejo de S. Lourenço de Azeitão; há mesmo uma figura de pé, que parece transplantada de uns para outros, quase se pode afirmar que a mesma mão os traçou.
Na pequena coleção de azulejos da biblioteca de Évora encontram-se os n.ᵒs 9 e 18 da Bacalhôa.
Na capela jazigo de Garcia de Resende, na cerca do mosteiro de Santa Maria do Espinheiro da mesma cidade, há no pavimento, num pequeno edículo, que serviria de credência, no chão e num assento do átrio azulejos de três tipos apenas; são os n.ᵒs 23, 25 e 33 da coleção da Bacalhôa. Esta capela foi edificada em 1520, segundo a inscrição do pórtico.
De urna estreita escada, que vai ao eirado da cisterna do mosteiro, forram as paredes azulejos, que para ali vieram de outra parte; são verdes e brancos, em quadrados ou quadrângulos estreitos, mas acomodados todos a um enxaquetado. O que encontrei neles mais de reparar foi serem fabricados de um barro vermelho e pouco consistente como o de Extremoz, parecendo por isso denunciar que nesta vila se fabricaram os azulejos.
Em Alvito no palácio acastelado dos barões não há azulejos capazes de menção e em diminutíssima quantidade, em compensação a igreja paroquial verga sob eles, havendo até o mau gosto de cobrir de azulejos algumas das famosas colunas e arcos que sustentam as abóbadas. Na nave central todos os cheios das arcadas são vestidos de um azulejo liso a três cores, amarelo, branco e azul, perfeitamente igual ao de S. Simão de Azeitão, até nuns pequenos quadros com figuras de santos que estão sobre os fechos da arcaria. Os de Azeitão têm a data de 1648.
Busquei a Conceição de Beja por ser edificação da infanta D.ᵃ Brites, o Espinheiro por ser do meado do século XV, Alvito de época aproximada e a capela de Resende do primeiro quartel do século XVI, em toda a parte encontrei mais ou menos rica ornamentação de cerâmica policrómica e exemplares da Bacalhôa; mas se a Conceição de Beja excede esta em variedade e abundância de tipos, nenhum se lhe sobreleva em escolha de espécimenes e a todos falta o medalhão de médio e alto relevo circundado de molduras de opulenta ornamentação policroma.
Em Évora ouvi eu a um ilustrado cavalheiro, amador do belo, um asserto, que, pela verdade que encerra, não deixarei de registar aqui. Dizia ele: «Dos monumentos os mais terríveis inimigos são a classe clerical, os engenheiros e o tempo. Exemplos: a crasta da sé de Évora, obstruída, pejada, imunda e emparedadas todas as suas belezas pela corporação administradora da catedral; a Conceição de Beja, avariada pelas reparações em execução; o palácio acastelado de Alvito (e a Bacalhôa acrescentarei eu), em que o tempo se casou com o desleixo e o abandono».