Corcovado

Ascende-se a esta grandiosa e bella montanha, distante dez kilometros do Caes Pharoux e alta de 711 metros, por uma estrada de ferro em cremalheira, inaugurada em 9 de Outubro de 1884, na extensão de 3:790 metros. Delineou-a, requereu a sua concessão e presidiu á construcção o dr. Francisco Pereira Passos, auxiliado pelo seu collega, o engenheiro João Francisco Soares. Foi um arrojo esta magnifica obra de engenharia, e o começo da celebridade do homem eminente que, mais tarde, deveria aureolar a sua gloriosa carreira publica com a brilhantissima administração de Prefeito do Districto Federal, e de iniciador e executor dos assombrosos melhoramentos que transformaram, por completo, a cidade do Rio de Janeiro.

A estação inicial da Estrada de Ferro do Corcovado é nas Larangeiras, rua do Senador Octaviano, n.º 51. O carro, impellido por minuscula machina, dirige-se á estação das Paineiras, transpondo varios viaductos, o mais importante dos quaes é o do Silvestre. São tantos e tão maravilhosos os encantos visuaes e espirituaes, quantas as sinuosidades e curvas da linha, que nos patenteiam, infelizmente por curtissimo espaço de tempo, os primôres de um panorama que não tem rival em parte alguma do globo terraqueo.

Todos os arrabaldes e suburbios do Rio de Janeiro são pujantissimos de vegetação e de belleza; porém a Tijuca e o Corcovado constituem os vértices, a magnificencia e o deslumbramento d’essa apotheose da natureza, que sublima a capital fluminense á cúspide maxima de primeira entre as metropoles do mundo. Visitar uma e outra, embrenhar-se nas suas florestas e concentrar o espirito nos seus primôres visuaes, é conversar com Deus, é enlevar-se a creatura humana a páramos celestes e, por instantes, despir-se do involucro material para immortalisar-se e ascender aos esplendores divinos e eternos.

As Paineiras são o ponto das excursões pela floresta. D’ahi partem estradas e atalhos que ora seguem o velho e solido aqueducto da Carioca, ora embrenham-se na matta, subdividindo-se e ramificando-se em estreitissimos caminhos, apenas transitaveis por peões. Em tres horas de bom caminhar alcança-se a Tijuca, passando-se a Ponte do Inferno, suspensa sobre um abysmo, entre rochedos.

As Paineiras estão a 465 metros acima do nivel do mar.

O trajecto, que até ahi tinha sido feito em 28 minutos de comboio, prolonga-se por mais 12 minutos até ao alto do Corcovado, em um declive assustador, por sobre insondaveis e vestidos abysmos, e antevendo o passageiro, por duas vezes, trechos do mar, da cidade e de montanhas distantes. Do ponto final da linha ferrea ao Chapéu de Sol, pavilhão de ferro e vidro construido no cimo da montanha, gasta-se 5 minutos a subir por alva e novissima escadaria de granito.

Uma vez attingido o cume, que além do pavilhão contem ainda duas varandas de pedra, é deixar que a alma extasie-se na sublimidade do Bello, e concentrar o pensamento nos mysterios da natureza e de Deus. A immensidade oceanica, que a perder de vista acaricia e suavisa a terra, beijando-a docemente; cadeias de montanhas e montes gigantescos que áquem, além e nos extremos do horisonte, agasalham as nuvens e roubam-nos pequenos trechos do panorama geral; a cidade, os seus extensissimos arrabaldes e suburbios a espreguiçarem-se por entre a opulencia vegetativa; as ilhas que enfeitam a immensa bahia e defendem a entrada do porto; a formosura incomparavel do céo, da terra e das aguas; esse conjuncto ineffavel, esplendoroso e magnifico, constitúe o mais bello e grandioso hymno da excelsa natureza ao seu Creador, a apotheose esthetica e deslumbrantissima do nosso planeta, e a essencia de tudo quanto o genio assombrosamente inconcebivel de Deus creou de sublime e primoroso em todas as maravilhas da amplidão etherea.