Curiosidades
Palacio do Governo—Visto do porto, este edificio mostra um aspecto grandioso e imponente, no conjuncto, com os seus quatro pavimentos, terraços, balcões e um grupo de gigantescas estatuas a corôal-o, obra do esculptor Bianchi. Observado da praça de Mayo, para onde olha a frontaria principal, a perspectiva é muito reduzida, especialmente pela irregularidade da architectura, sem estylo definido, antes demonstrativa de que pertence a epochas diversas. No andar nobre estão installados os ministerios das Obras Publicas, da Justiça e Instrucção Publica, da Fazenda, das Relações Exteriores, do Interior e a Presidencia da Republica. Todas as installações constam, pouco mais ou menos, do mesmo numero de peças, umas doze para cada ministerio, comprehendendo as salas de espera e de recepção, os escriptorios e o gabinete do ministro. No Ministerio das Relações Exteriores ha, a maior, o salão de recepção dos diplomatas, decorado com simplicidade. A Presidencia da Republica, compõe-se de sala de espera, gabinete do Presidente, com o retrato, a oleo, de Rivadavia, saleta de conversação e saleta de fumo. Seguem-se as secretarias dos officiaes militares e civis. O grupo dos tres salões principaes do edificio é accessivel por duplo lance de escadaria de marmore branco. O primeiro é o de recepções simples, o do centro é o salão Branco, ou das grandes recepções officiaes, e o terceiro é o das reuniões do Conselho do Governo, presidido pelo Presidente da Republica. Este salão não tem decoração alguma. Apenas se vê, ao centro, a mesa, forrada de velludo vermelho-escuro e nove cadeiras da mesma fazenda. Do tecto pende um lustre. O salão Branco encerra um soberbo e artistico lustre de metal dourado, com 280 lampadas electricas, trabalho argentino de Azaretto. O recinto é ainda illuminado por 24 candieiros dourados, a 11 lampadas cada um. Ha uma galeria circular para o publico. Sobre pedestaes de marmore preto, circumdam o salão os bustos, em marmore branco, da Republica, do general Roca, do general Sarmiento, do dr. Quintana, de Rivadavia, de Bartholomeu Mitre, de Urquiza, e de outros vultos importantes da Republica. Do general Roca ha outro busto, sobre niveo pedestal, com lettras douradas.
Nos outros pavimentos estão os escriptorios de serviço dos ministerios e um terraço com habitações de empregados e varias officinas.
D’ahi gosa-se vistas parciaes da cidade e o panorama geral do porto. Este palacio mede 125 metros de frente por 81 de fundo.
Das pequenas bibliothecas e dos archivos dos varios ministerios, avultam os do Ministerio das Relações Exteriores, pela quantidade e importancia. Em arcas de ferro, estão guardados os tratados celebrados com as nações estrangeiras, desde 1811, sendo alguns d’elles verdadeiras obras de arte.
Cemiterio de la Recoleta—Occupa, ao fundo do passeio de egual nome, uma superficie de 50:000 metros quadrados e abriga já 250:000 cadaveres, havendo apenas espaço para 300:000 sepulturas e tendo sido inaugurado em 1822.
Outr’ora situado longe da cidade está hoje rodeado de populosos bairros, animados de intensa vida, a contrastar com a suprema quietude tumular d’aquella immensa necropole.
Como que para honrar a magestade da morte, o engenho humano sublima-se alli á apotheose da arte em muitos e preciosissimos monumentos, inspirados na piedade christã e nos mysterios divinos.
O Christo, de Monteverde, em marmore branco, que se vê na capella das encommendações é, talvez, a mais extraordinaria manifestação artistica que este cemiterio encerra. Os adoradores do bello-artistico deliciar-se-hão perante a Dolorosa, de Tantardini, que decora o sepulchro de Facundo Quiroga.
Realça o monumental e bello jazigo do dr. Francisco J. Muñiz, a estatua da Sciencia, magnifico bronze de esplendidas roupagens, sem assignatura do auctor.
É tambem notavel o Genio, em bronze, do tumulo de Fernando Villanueva, assim como a estatua symbolica do esculptor Falguiéres, que decora o monumento funebre de Lucio Lopez.
A citar ainda, como eminentemente artisticos, os sarcophagos e jazigos de Domingos Sarmiento, do dr. Carril; do juiz Thedin; de Dorrago-Ortiz-Basnaldo; da familia de Angel Estrada; de Samuel Hale; de Elias Romero; de Vélez Sarsfield e das victimas da revolução de 1890. Repoisam alli os despojos mortuarios de outras famosas personalidades da Republica, como Rodriguez Peña, Marco Avellaneda, Mitre, Juan Varella, Diego de Alvear, Rawson, Navarro Viola, Brandzen, Mayer, Lugones, e outros.
Pavilhão Argentino—Este elegantissimo edificio de ferro, vidro e pedra, construido para exposições permanentes e periodicas, está situado na praça de San Martin, e pertence ao Estado. No 1.º pavimento visita-se um museu mineral, nacional e estrangeiro, interessante pelos exemplares expostos, porém um tanto desorganisado na installação e entretenimento. No andar superior funcciona, provisoriamente, um collegio particular de meninos. A parte central da frontaria d’este pavilhão é uma obra de arte.
Sobre a porta principal está um grupo allegorico de bronze.
Jockey Club—Na rua Florida, entre as ruas Lavalle e Tucuman, ostenta-se um dos mais grandiosos palacios de Buenos-Aires. A frontaria é vistosa e artistica, em granito escuro, com uma varanda sustentada por columnata e guarnecida por tres grupos allegoricos, dois em nichos de pedra e o maior e o mais bello a rematar a cimalha. O vestibulo é decorado a estatuas em nichos de marmore. A escadaria é formosa, dupla, monumental e de preciosa pedraria. No primeiro lanço admira-se a celebre estatua—Diana—do esculptor Falguiéres. O ambito da escadaria é circumdado por 12 columnas de ordem corinthia e de marmore côr de rosa. Os corrimões são de onyx de S. Luiz. No primeiro pavimento, á entrada, estão tres salões—o de leitura, o de conversação e o de recepção. Do lado opposto visita-se a bibliotheca. Todo o mobiliario é luxuoso. No salão de conversação admira-se uma bella estatua feminina, sentada, de marmore branco. O salão de leitura é decorado a quadros. Na sala de admissão de socios ha um quadro de Roybet, e na secretaria estão quadros de Perrault, Roybet e Zem. O salão de jogos é illuminado por 7 lustres a 8 luzes e por 10 serpentinas a tres lampadas electricas. Magnifico salão de bilhares.
No 2.º pavimento visita-se o salão-restaurante, com serviço permanente e orchestra. Ha ainda outro, privativo da direcção, e mais dois exteriores, em varandas, para o verão. De terraço-restaurante do 3.º andar, gosa-se lindissima vista parcial da cidade e especialmente do porto.
No 1.º pavimento ha uma sala privativa de jogos illegaes. O estabelecimento hydrotherapico está installado no rez-do-chão, assim como a typographia especial do Club, e um salão de esgrima, ricamente guarnecido a preciosas panoplias.
Em todos os pavimentos ha dormitorios e banheiras para socios residentes fóra da capital e também para os socios porteños que desejem utilisar-se d’elles. Todos os quartos, além de magnifica mobilia, teem fogão, telephone e profusa illuminação.
Cada socio provinciano não poderá pernoitar no edificio mais de tres noites seguidas, nem mais de seis noites em cada mez.
Para os socios da capital o praso é de 2 noites seguidas e de 4 mensaes.
Frigorificos—Nas proximidades do Mercado Central de Fructos, de que trataremos no capitulo—Alimentação Publica—e nas margens do pequeno rio Riachuelo, estão installados varios frigorificos, dos quaes os mais importantes são o La Blanca e o La Negra. Este foi fundado em 1883, por M. Sansisena. N’elle trabalham cêrca de 700 individuos, que matam para o consumo e exportação, diariamente, a média de tres mil animaes. O capital é de tres milhões de pesos, ouro, tendo a empresa distribuído dividendos de 50%.
Já em 1903 este estabelecimento exportou, congelados, 3:500:000 carneiros, e 900:000 quartos de novilhos.
O frigorifico La Blanca, foi inaugurado em Setembro de 1903. É um grande edificio, todo branco, de imponente aspecto. As suas dependencias occupam enorme area. Encerra um immenso banheiro, para a lavagem dos animaes, antes de abatidos. De todos os compartimentos, o mais notavel e interessante é o das machinas, que abriga tres grandes frigorificos, da força de 200 cavallos, installações impulsoras da energia electrica e bombas de incendio.
Segue-se o pavilhão das caldeiras com tres da força de 200 cavallos. Depois é o deposito de amoniaco, conduzido aos quatro pavimentos do edificio por um cano que, desdobrado, daria o comprimento de 96 kilometros.
N’esses quatro andares estão as camaras de congelação, que podem preparar, ao mesmo tempo, 7:000 novilhos e 70:000 capões. Vehiculos automaticos conduzem os animaes sacrificados ás camaras de arejamento.