*A ALMA QUE PASSA*

*I—Sentido*

Fujo de mim como um perfume antigo foge ondulante e vago de um missal e julgo uma alma estranha andar commigo, dizendo adeus a uma aventura irreal.

Sou transparencia, chamma pallida, ansia, ultima nau que abandonou o caes. No alvôr das minhas mãos chora a distancia prôas rachadas, longes de ouro, ideaes…

Sonho meu corpo como de um ausente, naufrágo e exsurjo dentro da memoria, accórdo num jardim convalescente,

vago perdido em outros num jardim, e sinto no clarão da ultima gloria a sombra do que sou morrer em mim…

*II—Legenda*

A Vida é uma princeza dolorosa no seu castelo de rubis e opalas, tanjendo ao poente em harpa silenciosa uma agonia de almas e de falas…

Colho de tuas mãos a triste rosa,
Vida que és sombra e sobre mim resvalas.
Passas, e em tua sombra a ondear saudosa
vagam fantasmas de desertas salas…

(Vozes perdidas, juramentos a esmo, passos que morrem sobre passos, sinos accórdam madrugadas em mim mesmo.

E entre trompas, tambores e metralha, claveharpas, orgãos, tubas e violinos a Vida e a Dôr começam a batalha…)

*III—Genese*

Antes a alma que tenho andou perdida, foi pedrouço a rolar pelo caminho, topazio, opala, perola esquecida num bracelete real; foi caule e espinho,

bronze que a mão tocou, aurea jazida por entre as ruinas de um paiz maninho, e reflectiu, fatal, o olhar da Vida no corpo em sangue de um estranho vinho…

Foi casco medieval, foi lança e escudo, foi luz lunar e errante de lanterna, e depois de exsurgir, triste, de tudo

veio para chorar dentro em meu ser a amarga maldição de ser eterna e a dôr de renascer quando eu morrer…