*POEMAS*
DE
CÔRTES-RODRIGUES
ABERTURA DO "LIVRO DA VIDA"
Transcendencias nubloticas, metaphysicas raras,
Modelei a minha Obra com minhas mãos avaras.
Litanias liturgicas de febre de paixão,
Crepusculos de fogo ardendo em sentimento,
Columnas de Além-Sonho, arcos de commoção,
Claustros de Archi-Tristeza aonde o Pensamento
Vive longe do mundo, em funda adoração…
Castello esguio
Sobre o rio
Do Amôr.
Armei-me cavalleiro,
Quebrou-se minha lança de guerreiro
No combate da Dôr.
Architectonicas theorias de Belleza,
Transfigurações, resurreições, e a Natureza
No fundo longo, sensitivo da emoção,
Bysantinos jardins onde a Tarde agonisa,
Fluidicos aromas em mystica ascenção,
Emanações d'Amor que a alma divinisa
Em Alma de outra Alma—eterna communhão…
Praia tão desconhecida
Do mar da vida vivida
Onde o luar nunca vem,
De onde a nau da minha Alma
Parte pela noite calma
A caminho do Alêm.
E eis a grande rota seguida em Mim sómente,
P'ra que parta do mundo e chegue até aos céus,
E onde Tu e Eu iremos lentamente
Da Vida para Deus.
Lisboa—1914.
POENTE
As minhas sensações—barcos sem velas—
Erram de mim. Occaso rôxo. Scismo.
Meus olhos de Não-ver-me são janellas
Dando sobre o abysmo.
Abysmo d'Outro Ser. E a Hora chora
Nostalgica de Si, mas eu de vê-las
Erro de Ser-me, e a noite sem estrellas
Apavora.
Delirio rôxo d'agonia. Prece.
Poente feito noite. Escuridão.
Perturbo-me de mim em sensação
E dentro em mim desfallece
E anoitece
A sombra do meu Ser na solidão
Do dia que morreu
E se perdeu
E jámais amanhece.
Lisboa—1914.
AGONIA
Ergo meus olhos vagos na distancia
Da sombra do meu Ser…
Pairam de mim Além, e a minha Ansia
Cança de me viver.
Meus olhos espectraes de comoção,
Olhos de Alma olhando-se a Si,
Nimbam de luz a longa escuridão
Da Vida que vivi.
Auréola de Dôr que finalisa
Na noite do abysmo do meu nada,
Silencio, prece, communhão sagrada,
Sonho de luz que em Ti me divinisa,
Tortura do meu fim,
Alma ungida
E perdida
Na grandeza de Si. E já sem ver-me,
Maceração crepuscular de Mim,
Agoniso de Ser-me.
Lisboa—1914.
SÓ
O mar da minha vida não tem longes.
É tudo água só! E o horisonte
Funde-se no céu. Por sobre a ponte
Marcha sinistra a procissão dos monges.
Velas accêsas, opas, ladainha,
E o rio deslisando para o mar,
E e as raparigas veem á tardinha
Buscar á fonte a água sem cantar.
Ermida branca sobre o monte.
Nossa Senhora da Paz…
Peregrino voltei sem ser ouvido.
Rasguei os meus pés pelo caminho ido.
Ai, a calma de tudo quanto jaz
No frio esquecimento! Sobre a ponte
A procissão caminha. Sob o arco
Singrou sereno um barco
A caminho do mar.
Ó perdida visão da minha Ansia!
Vejo-me só na lugubre distancia,
Cadaver dos meus sonhos a boiar.
Lisboa—1914.
OUTRO
Passo triste no mundo, alheio ao mundo.
Passo no mundo alheio, sem o ver,
E, mystico, ideal e vagabundo,
Sinto erguer-se minh'Alma do profundo
Abysmo do meu Ser.
Vivo de Mim em Mim e para Mim
E para Deus em Mím resuscitado.
Sou Saudade do Longe d'onde vim,
E sou Ansia do Longe em que por fim
Serei transfigurado.
Vivo de Deus, em Deus e para Deus,
E minh'Alma, somnambula esquecida,
N'Elle fitando os tristes olhos seus,
Passa triste e sósinha olhando os céus
No caminho da Vida.
Fui Outro e, Outro sendo, Outro serei,
Outro vivendo a mystica belleza
Por esta humana fórma que encarnei,
Por lagrimas de sangue que chorei
Na terra de tristeza.
Espirito na Dôr purificado,
Ser que passa no mundo sem o ver,
Em esta pobre terra de peccado
Amor divino em Deus extasiado,
O meu Ser é Não-Ser em Outro-Ser.
Lisboa—1914.