*TREZE SONETOS*

DE
ALFREDO PEDRO GUISADO

ADORMECIDA

As tuas mãos dormiam na lagôa incenso.
E pelas alamedas destruídas, loucas,
Desceu-se em mim minha alma a procurar as bocas
Que me rezaram Ser sôbre o teu manto extenso.

Vagamente desceu sôbre o silêncio, a arfar,
Combatendo de luz, a esvoaçar no ataque…
E de noite caiu Egipto em meu olhar,
Nos teus braços em cruz, sepulcros em Karnak.

Bocas de Faraós rezam múmias cansadas…
Tebas em mim fenece em bronze de toadas,
Apagando-se em cinza em lâmpadas sombrias.

E tu adormecida há tanto tempo, em pranto.
Os cisnes na lagôa embranqueceram tanto,
Que se esqueceram Côr nas tuas mãos esguías.

SONHO EGÍPCIO

No palácio, os pavões são apenas dizê-los…
As asas côr do longe erguidas sôbre mim.
Existem os pavões… O meu sentir-me é vê-los…
E o meu sonhar-te, alêm, são lagos no jardim.

Quando passei no parque, eu encontrei Nitokris.
Vi-a. Fitei-lhe as mãos para poder senti-las…
Meus olhos foram naus em águas intranquilas,
Meus sentidos, aneis nos dedos de Nitokris.

Labirinto de sons. Adormeço-me oiro.
Ansia apagada. Deus desce minha alma em oiro.
Meus olhos p'ra te ver, arcadas nos espelhos.

Rezas que nunca ouvi. Hálitos de saudades.
E as tuas mãos, ao largo, ungindo divindades
Scismam Ibis, pagãos, sôbre tapetes velhos.

PAGÃO

… Lembro-me então de mim. Rezo-me longe. Scismo.
E o lembrar-me de mim são os meus passos idos.
Arqueia-se em azul meu próprio misticismo
E eu fico apenas Côr sôbre vitrais vencidos.

O teu hálito é luz em candelabros velhos
Aos cantos dos salões onde me vejo a orar,
E os teus passos de Dôr são um quebrar de espelhos.
Quando te quero ver, morres no meu olhar.

Abraço-me chorando. O teu morrer é vêr-me,
Oiro de asas em Tule, ardendo antiguidade—
E o ter-te visto morta, o mêdo de perder-me.

Procuro-me em silêncio e oiço-me em teus passos.
Sôbre altares pagãos ergo-me divindade
E Isis dorme meu Ser em cortinados lassos!

VER-TE

Estendi os meus braços p'ra abraçar-te
E entre nós uma porta se cerrou.
Um sôpro de rubins em mim voou,
Sôpro que permitiu poder sonhar-te.

Saía a tua sombra p'las janelas
E perdia-se, ao largo, em arvoredos…
Os meus dedos scismando caravelas,
Eram prolongamentos dos teus dedos.

Num parque de oliveiras te sonhei
Erguendo-te do oiro que queimei
Nas ânforas do templo do meu Ser.

Parece que te vejo e tu estás longe…
Afastei-me de mim para ser monge…
Meus olhos são a sombra de te ver!

PRINCESA LOUCA

Vejo passar na curva da alameda
Uma princesa há muitos anos louca,
Princesa cujo Corpo é uma roca
Em principados de faisões de seda.

A sua sombra, uma lagôa azul.
As suas mãos tecendo pinheirais,
Lembram-me naus sempre chegando ao cais,
Águias sem asas num palácio, em Tule.

Seus dedos, pregos que pregaram Cristo.
Olha-me longe. Em seu olhar existo…
Passo nas rezas duma antiga boca…

Arqueio-me a sonhar sôbre marfim.
Sou arco com que brinca no jardim
Essa princesa há tantos anos louca.

MÃOS DE CEGA

I

Sinto que as tuas mãos são teus olhos vencidos,
Teus olhos que esquecendo as orações da luz
São claustros apagando os passos esquecidos
De Deus ao regressar de amortalhar Jesus.

Sinto-as tanger ainda os violinos velhos,
Onde os dedos saltando em cordas de oiro, à tarde,
Te cegaram de som. E em candelabros arde
O teu antigo olhar emoldurando espelhos.

Teus dedos ao bater nas tuas mãos são remos.
Inda vejo nas salas do palácio, arfando,
As tuas mãos de Dôr entreabrindo as portas.

Buscamo-nos em Côr e quando nos perdemos
Passam as tuas mãos em meus dedos, scismando
Estátuas de marfim sôbre as arcadas, mortas…

II

Morreram os leões que guardavam perdidos
A branca escadaria. Velhos leões sombrios…
Dêles apenas resta o eco dos rugidos
Que os arcos dos salões tornaram mais esguios.

As rendas que fiaste adormeciam bocas
E as rugas no teu rosto iam caindo, fundas…
No fim do parque, à noite, as águias moribundas
Guardavam em silêncio as destroçadas rocas.

Fiavas noutro tempo os teus olhos dormentes.
Deixaste de os fiar e os teus olhos arderam
Na côr das tuas mãos, na cruz de outros poentes…

Cega de mim, partiste. E quando regressaste
Manchada de Distância, os meus sentidos eram
Palmeiras ladeando a estrada onde passaste!

ESQUECENDO

Os lagos dormem cisnes na alameda
E as portas do palácio estão fechadas.
As folhas a caír, rezando seda,
Sonham paisagens mortas, afastadas…

Essas paisagens foram tuas aias.
Flautas ao longe foram teus sentidos.
E as tuas mãos ao desfiar vestidos
Dormiram franjas em doiradas saias.

A tua Sombra o seu olhar perdeu…
Não sei se não serás um gesto meu,
Um gesto de meus dedos longos, frios…

Não sei quem és… Meus olhos esquecidos
Sentem-te em mim, dormir nos meus sentidos…
Meus sentidos, arcadas sôbre rios…

SALOMÉ

I

Dançava Salomé sôbre mistérios idos.
—Tarde bronze a morrer. Poente em véus vermelhos—
Os seus sentidos, longe, eram bailados velhos,
E o seu Corpo, a bailar, é que era os seus sentidos.

Dançava Salomé nas suas mãos morenas
Que eram salões de seda, a descerrar o hábito.
E Ela quando se via era o seu próprio hálito,
E o Corpo no bailado era uma curva apenas.

Dançava Salomé.—E os seus olhos ao vê-la,
Cerravam-se leões com mêdo de perdê-la,
Leões bebendo luz na luz dos olhos seus…

Não vejo Salomé.—Talvez adormecida…
Talvez no meu olhar Ausência dolorida…
Talvez boca pagã beijando as mãos de Deus…

II

Deus, longo cais em mim, donde outras naus singrando
Conduzem para o Longe o meu não existir.
Morena, Salomé, entre vitrais bailando.
Arcadas-sensações transpondo o seu Sentir.

Fita paisagens-Ansia em suas mãos cansadas,
Paisagens a sonhar castelos nunca erguidos.
E os lábios percorrendo em lume os seus sentidos,
Scismam príncipes-Côr descendo das arcadas.

Há entre Ela e Deus o corpo de João.
E em seu olhar, dormindo um bronze de oração,
É sombra do bailado um inclinar de palma.

Baila seu Corpo ainda. E Deus nos seus bailados.
Bailados-asas, longe, em capiteis bordados,
Gestos de Deus caindo entre molduras-Alma!

MORTE DE SALOMÉ

Apagaram-se bronze os círios que sonhara.
Erguidos no seu Ser, sentidos-mausoléus.
O palácio, no parque, era um olhar de Deus
E as salas do palácio, os bailes que bailara.

Ela, taça caída em uma orgia infinda,
Taça vencida de Alma em pálios afastados.
Seu Corpo tinha sido algum dos seus bailados,
E a sua própria Morte era um bailado ainda.

Eram as suas mãos rainhas em impérios
Onde passavam reis com séquitos mistérios,
Adagas de marfim erguidas noutras mãos.

Seu Corpo, cinto de oiro ao seu redor, dormindo,
Um hálito de Deus sôbre missais caindo,
Cinza de Alma rezando outros Jesus, pagãos.

RECORDANDO

Sinto as cores, de noite, terem mêdo
E acolherem-se à sombra do teu luto.
Eu fui um rei dos godos, que em Toledo
O Tejo adormeceu e ainda escuto.

Cercam-se de oiro as salas que habitei,
Oiro-cinza esquecido, oiro dormente.
E em minha Alma, na qual inda sou rei
Scismo tronos caindo lentamente.

Buscam-me pagens tristes nos caminhos.
E a minha lenda em sonhos pergaminhos
Vai escrevendo em silêncio o meu scismar.

São outros os domínios que vivi
Todas as coisas que eu outrora vi
Regressaram mistério ao meu olhar.

ANTE DEUS

Quando te vi eu fui o teu voar
E desci Deus p'ra me encontrar em mim.
Voei-me sôbre pontes de marfim—
E uma das pontes, Deus, em meu olhar!

Aureolei-me de oiro em sombra fria
E meus vôos cairam destruídos.
Foram dedos de Deus os meus sentidos.
Meu Corpo andou ao colo de Maria.

Agora durmo Cristo em véus pagãos.
São tapetes de Deus as minhas mãos.
Regresso Ansia p'ra alcançar os céus.

Ergo-me mais. Sou o perfil da Dôr.
Sôbre os ombros de Deus olho em redor
E Deus não sabe qual de nós é Deus!

ALFREDO PEDRO GUISADO.