+VI+

Estar em Sintra é agradavel não pelo facto de se estar em Sintra mas pelo facto de se poder dizer que se está em Sintra. E tambem porque é um incidente tão provisorio como a propria vida; o definitivo é que desconsola ainda que é surprehendente saber-se que o definitivismo absoluto não existe ou que é dispensavel como o artigo de fundo do jornal que se compra porque se não lêem os jornaes ha muito tempo. E verdade tinha Santo Agostinho em affirmar que tudo se paga n'este mundo—um jornal de vintem tem p'lo menos uma torre de marfim e os de dez réis depois da quarta pagina ainda teem mais duas de annuncios.

—O senhor tem bilhête? voltei­me e percebi uma figura de fato escuro que por um signal que trazia perto do bigode era com certeza o revisor; e eu que já ia nas ultimas linhas das ultimas noticias com canhoneio em Verdun, desloquei-me de repente pra muito mais perto de mim—na unica linha pra Sintra com uma folha solta de diccionario onde o revisor queria dizer individuo que revê os bilhetes dos comboios e que usa fumos no bonet de pala e um signal de cabêllos no queixo.

Ao lado fallavam inglez-sem-mestre e eu pra escutar melhor fingia lêr a "chronica do bem" quando de repente li no jornal não sei onde o meu nome inteiro justamente quando o comboio parava na Amadora. Outra vez o meu nome mas d'esta vez era uma senhora chic e loira que ia deante de mim e que lia em voz alta o nome de uma cautella de prego que tinha encontrado no chão.

—Perdão, minha senhora! fiz eu com certos acanhamentos de sangue frio propositado, esse nome é de meu irmão; e foi elle quem pagou os extraordinarios juros d'aquelle emprestimo. Desde então a senhora chic e loira começou de olhar pra mim como eu queria que ella me olhasse antes de me ter notado a cautella de prego e deixou cair o lenço e a malinha, e o leque e a sombrinha, e não deixou cair mais nada porque em Bellas apeou-se o magote do inglez-sem-mestre. Infelizmente d'ahi a Sintra foi um instante e nem houve tempo pra vêr a paysagem bonita ao pé do Cacem; apenas posso garantir que quasi me chegaram as lagrimas á raiva por o tunel do Rocio illuminado e grande não ser no tunel de Sintra pequeno mas ás escuras Que em Sintra não lhe fallasse porque era casada na Estephania todos os verões com um titular de dinheiro mas que fôsse plos Pisões todas as noites ou aos Seteaes se fossem de luar.

Quando cheguei á villa tive a triste noticia de que tinham assassinado o barbeiro por questões de altas finanças do estado em que elle como revolucionario civil estava envolvido com destaque; porém, a noticia não foi tão desoladôra que eu não soubesse quasi immediatamente e sem perguntar nada a ninguem que o infeliz barbeiro era nem mais nem menos que o titular de dinheiro casado na Estephania com uma senhora chic e loira. Até adeantei os meus pezames ao jantar e fui pessoalmente garanti-los á desolada viuva que andava p'las diagonaes da sala de visitas a fazer figas e a dar vivas á republica com lagrimas e sapateados de irremediavel. A minha presença deu-lhe duas coisas bem nitidas e proporcionaes n'estas occasiões afflictas—alento e alarido. E avançando pra mim toda erguida prá frente co'os braços rigidos no ar veiu repousar a cabeça sobre o meu peito que até me desbotou a gravata azul pró collête branco. Todos os seus solavancos de desesperada iam desfallecendo lentamente n'uma alegria intima que data de antes de Affonso Henriques: rei morto, rei posto. Se fôssemos tão independentes como o nosso estomago não teria eu tido a necessidade de me despedir com tanto apetite de me vêr livre d'aquelle sentimentalismo (áliás tão humano) pra ir jantar sósinho á meza extrangeira do Laurence's Hotel; mas a verdade é que quanto mais não fôsse isto já era uma razão de ter vindo pra Sintra.

O creado disse-me o menu com muita pena do barbeiro e que considerava o assassinato um vandalismo mas que se eu não quizesse potage à la valencienne tambem tinha puré de legumes à la mexicaine. Pobre barbeiro!

E eu já tinha remorsos de que talvez o tivessem assassinado no momento preciso em que ella lia o meu nome na cautella de prego que me caira do bolso. Mas fôsse pelo que fôsse a sôpa vinha a escaldar e não se sabia ainda quem foram os assassinos e agora vá se lá saber… E verdade é que seria tão difficil dar com o paradeiro dos malfeitores que a elle já se lhe affigurava um facies tão criminoso como o do revisor da linha de Sintra de quem eu seria testemunha da sua innocencia tão evidente como os fumos no bonet de pala ou o signal de cabêllos no queixo. E até ao arroz tive tempo de meditar na fallibilidade da justiça atravez dos tempos até ao assassinato do barbeiro em Sintra no Castello dos Mouros cá em baixo ao lado da cisterna. A prova que tudo tem razão de ser n'este mundo é que eu já estava observando que effectivamente o Castello dos Mouros este verão tinha a barba por fazer.

Depois veiu galantine de perdiz e um enveloppe fechado na outra mão e era pra mim. Era a senhora chic e loira que me mandava dizer que n'aquelle lance fatal tinha mêdo de ficar sosinha de noite na cama e portanto que me demorasse a jantar que ella viria ainda prós dôces. Estas coisas pra uma sensibilidade como a minha que só sabe resolver as coisas depois de resolvidas fizeram-me pensar profundamente emquanto pasmava os olhos n'uma reproducção lythographica do Imperador da Allemanha tão embaraçado como eu n'este assumpto diplomatico. Immediatamente tive uma boa ideia que nunca mais me lembrou por ter entornado sobre a toalha branca meia garrafa de vinho verde que ficou a alastrar-se como o azar a denunciar-me de estar pensando em dormir com uma viuva sem saber se sim ou se não. Ainda não eram os dôces e ella entrou com a salada. Trajava rigorosamente de luto mas o apetite do seu sorriso e o cinzento das olheiras pintadas trajavam rigorosamente de adultera. Não quiz café—o seu estado de espirito apoquentado e triste preferia uma garrafa de champagne. Começou a declarar-se-me absolutamente desilludida sobre a morte do marido e de tal maneira que as lagrimas rebentaram-lhe espontaneamente por eu ainda não ter acabado de jantar.

Contou por alto a historia do seu infeliz marido que era estabelecido com loja de barbeiro na Praça da Alegria, loja muito conhecida e estimada de todos por servir de sala de espera quando os electricos não andavam e que ainda por cima tocava no gramophone os Sinos de Corneville e de graça. Disse-me tambem uma historia de uma filha que tinha em Lisboa e que um malandrão qualquer tinha tirado da engommadoria onde trabalhava pra viver á custa d'ella e ainda por cima obriga-la a fazer indecencias com as mulheres do peixe. E demais, seguia, tendo tido um bom conselheiro como era um sujeito careca que eu havia de conhecer de vista com toda a certeza e por signal até se chamava senhor Barbosa e ainda por cima era primo do primo d'ella que era ministro do fomento do Terreiro do Paço. O creado fez estalar a rôlha do champagne n'um arrepio meu que parecia o ultimo suspiro do barbeiro ou o estalo da corda partida do gramophone dos Sinos de Corneville. A historia era muito triste e ainda mais extensa que a garrafa de champagne mas emquanto o creado me aconselhava o puding de cosinha que estava delicioso, que até tinha sido feito pelo Augusto, ella prometteu beber outra garrafa de champagne não só para acompanhar com o puding como para esquecer aquella infelicidade que lhe cortava o coração ás tiras de salame com uma navalha de barba com trinta annos de serviço.

Depois do café fômos distrahir prá kermesse. A mim a kermesse pareceu-me uma kermesse e a ella pareceu-lhe um pião. Confessou-me que aquella boneca de vestidinho azul tinha um ar muito engraçado; um ar que era muito peculiar ao marido todos os sabbados á meia-noite quando fechava mais tarde. Depois affastámo-nos da kermesse, sem dar por isso e ella ia-se-me confessando sugestionada pela ideia da morte; que sempre tivera uma enorme sympathia pela obra do Dumas pae e a do filho e perguntou-me se o Dumas gravador era da mesma familia. Gabriel Dannunzio não conhecia mas havia outro poeta que a fazia chorar e por quem daria a propria honestidade de viuva desolada talvez condemnada a ter que procurar outro barbeiro mas que não tivesse politica partidaria. Esse outro poeta, dizia ella n'uma contorsão de tragica cinematographica ao mesmo tempo que me pisava um callo, era eu, era eu e mais ninguem. Só eu—o preferido das viuvas dos barbeiros! O poeta maior que os Dumas todos, mesmo superior ao Dantas e ao Noivado do Sepulcro. Mas por fim estreitando-me n'um abraço declarou que realmente o que ella estava era bebeda e sem mais nada começou a correr pela escuridão e pum… um tiro! Fui vêr. A tresloucada creatura n'uma dôr cruciante e fatal tinha acertado no umbigo, n'um instante de revolta, uma bala que a puzera repentinamente horizontal com a cabeça sobre uma bosta de boi.