+XII+
O anão já não era o mesmo—morrera o bôbo das tabernas, o poeta mendigo da Torre. Pobre anão corcunda dobrando as pernas curtas cançadas de um ventre enorme. Os largos pés sem abrigos calejavam as sollas a arrastarem-se em desiquilibrios que até pareciam de proposito. Os braços inteiros fingiam metades e ajudavam-lhe os passos a dar-a-dar. Os dedos curtos e cabelludos em cima não eram os dedos das mãos eram os dedos dos pulsos. A cabeça tinha a expressão de não estar bem cheia, mal-ageitada sobre os hombros subidos a susterem-lhe as faces inchadas com uma barba rala de ferrugem de prego torto no meio da estrada depois da chuva. O nariz soprado mettia mais pra dentro uns olhos escondidos como toupeiras nos buracos á espera da noite. O rithmo do deslocamento total era o maximo de intensidade theatral n'um drama socialista e o casaco negro, verde de velho, vestia-o todo e ainda se espojava por detraz d'elle n'um movimento de andar menos depressa e não ter rodas. Ás vezes com o sol em chapa chegava a ter a imponencia do manto arrogante de um rei. E o povo todo ao vêl-o esgueirar-se timido plas vielas já não ria os gestos cortados do bôbo das tabernas, todos recordavam as graças mortas do outro anão do mesmo casaco comprido. Dantes pedia esmola ou vendia cautelas, ou estropiava n'um fandango de ir cahir, as coplas mais indecentes das revistas; agora fugia dos outros e não mendigava, tinha mesmo um orgulho de saber uma coisa que os outros não sabiam. Ás vezes quando encontrava os mendigos punha-se a chorar e convidava-os pra ir prás terras e dava-lhes uma moeda de prata. Porém, continuava a morar n'aquella torre já quasi sem base e no ultimo quarto mais perto de onde cahia a chuva, uma cela immunda sem postigos onde o sol de medo e de nojo nunca fôra. E todas as noites, todas ia subindo de gatas a contar com o ventre a chocalhar os degraus comidos que o cançavam até ao ultimo quarto da torre. Então gemia a cancella na monotonia do grito do seu viver corcunda e tombava-se sempre vestido nas palhas apodrecidas sentindo-se rei no halito fedorento da enxovia que arruinava as pedras interiores n'um halito viscoso de urina de sapos.
Passa da meia-noite. A torre em cuidados tinha-se sentado embrulhada no chaile á espera do seu anão á porta da propria torre.
Quasi manhã viu-o a torre nos fins do caminho a cambalear. Cantava indecencias aos zig-zags de dissonantes no luar cançado da manhã. Com chapeladas e gargalhadas saudava com exageros desconjuntados as arvores medrosas que guardam os caminhos. Por vezes julgava-se elegante e andava dois passos sem zig-zags e se esbarrasse em alguma arvore comentava logo sem premeditação: Croia! Ás vezes abraçava-se a um tronco pra precisar um pensamento obscêno e demorava-se n'aquella sua opinião de osgas em que todas as mulheres eram uma só e descalça e desgrenhada cujo sexo fôsse uma sangue-suga côr de rosa. Depois seguiu com os olhos uma setta da côr da estrada e que seguia p'la estrada fóra e que depois chegava a uma torre e que subia até lá cima e acabava em palhas ás escuras. Trazia tambem saudades da Torre. E como sempre lá ia subindo a contar com o ventre a chocalhar os degraus cançados da escada magra e cega sentina dos gatos vadios.
Na cancella mais anã do que elle alliviou-lhe as trancas em fatigantes demoras e aprumou-se dono e rei ao ouvir tlintar os ferros nas lagens humidas. Contente ia rindo aquella felicidade de ter encontrado o seu solar de sombra. Sentiu um peso no bolso do casaco que ficou preso n'um prego espetado ao contrario, e com um vomito de champagne tirou do bolso um frasco elegante de Chevalier d'Orsay. Esbofeteou-lhe o gargalo e teve um gesto de o atirar plas escadas abaixo. A torre, porém, vomitou na rua um anão corcunda emmaranhado nas vestes e que foi parar defronte n'um marco geodesico sobre o precipicio. No peito cavádo e nú sujo de cabellos negros a branquear repousava obscêno o verde esmeralda postiço dos labios de uma mulher.
Lisbôa, 7 de Janeiro de 1915.