+LIBERDADE+

Quando entrei na cidade fiquei sósinho no meio da multidão.

Em redor as portas estavam abertas. A multidão entrava naturalmente pelas portas abertas. Por cima das portas havia tabolêtas onde estava collada aquella palavra que sóbe—Liberdade!

Entrei por uma porta. Entrei como uma farpa!

Era uma ratoeira, Mãe! era uma ratoeira! Se eu tivesse entrado como uma agulha podia ter sahido como uma agulha, mas entrei como uma farpa, fiz sangue verdadeiro, já não me esquece. Aconteceu exactamente. Dei um mau geito nos rins por causa da ratoeira! Ainda me lembro da palavra—Liberdade!

Mãe! Vou contar-te como foi.

Havia dois vazos iguaes. Um tinha um licor bonito. O outro parecia ter agua simples. Um tinha a felicidade, o outro não tinha a felicidade. Era á sorte. A casa estava cheia de gente. Ninguem queria ser o primeiro a começar.

Depois, começaram a beber o licor. Diziam coisas tão felizes! Coisas quentes que enchem a cabeça toda e deixam os olhos escancarados! Eu vi-os, Mãe! estavam a augmentar a olhos vistos, juro-te!

Os que beberam do outro vazo não divertiam ninguem. Iam-se logo embora. E ninguem já se lembrava d'elles.

Só ficaram os que gostavam do licor. Eu fiquei com estes. Eu tambem bebi do licor. Não imaginas, Mãe! nunca subi tão alto! Ainda mais alto do que o verbo ganhar!

Havia uma rã que tinha entrado comigo ao mesmo tempo. A rã tambem estava a augmentar.

Depois, quando já estava quasi do tamanho de um boi, a rã estoirou. Coitada! Como antigamente, em latim.

Então, puz-me logo a escorregar desde lá de cima, até aonde eu já tinha amarinhado; desde mais alto do que o verbo ganhar.

A escorregar, a ser necessario escorregar, a querer por força escorregar, a custar immenso escorregar, a fazer doer escorregar, a escorregar.—O verbo desinchar!

O verbo desinchar dura muito tempo. No fim do verbo desinchar é outra vez a terra, cá em baixo.

+FIM DA SEGUNDA PARTE+