FIM

[NOTAS]

Pag. 10.—[Argumento historico.]—Em 1603, Pero Coelho, homem nobre da Parahyba, partiu como capitão-mór de descoberta, levando uma força de 80 colonos e 800 indios. Chegou á foz do Jaguaribe e ahi fundou o povoado que teve nome de Nova-Lisboa.

Foi esse o primeiro estabelecimento colonial do Ceará.

Como Pero Coelho se visse abandonado dos socios, mandaram-lhe João Soromenho com soccorros. Esse official, auctorisado a fazer captivos para indemnisação das despezas, não respeitou os proprios indios do Jaguaribe, amigos dos Portuguezes.

Tal foi a causa da ruina do nascente povoado. Retiraram-se os colonos, pelas hostilidades dos indigenas; e Pero Coelho ficou ao desamparo, obrigado a voltar a Parahyba por terra, com sua mulher e filhos pequenos.

Na primeira expedição foi do Rio-Grande do Norte um moço de nome Martim Soares Moreno, que se ligou de amizade com Jacaúna, chefe dos indios do littoral e seu irmão Poty. Em 1608 por ordem de D. Diogo Menezes voltou a dar principio á regular colonisação d'aquella capitania: o que levou a effeito fundando o presidio de Nossa Senhora do Amparo em 1611.

Jacaúna, que habitava as margens do Acaracú, veiu estabelecer-se com sua tribu nas proximidades do recente povoado, para o proteger contra os indios do interior e os francezes que infestavam a costa.

Poty recebeu no baptismo o nome de Antonio Fillippe Camarão, que illustrou na guerra hollandeza. Seus serviços foram remunerados com o foro de fidalgo, a commenda de Christo e o cargo de capitão-mór dos indios.

Martim Soares Moreno chegou a mestre de campo e foi um dos excedentes cabos portuguezes que libertaram o Brazil da invasão hollandeza. O Ceará deve honrar sua memoria como de um varão prestante e seu verdadeiro fundador, pois que o primeiro povoado á foz do rio Jaguaribe foi apenas uma tentativa frustrada.

Este é o argumento historico da lenda; em notas especiaes se indicarão alguns outros subsidios recebidos dos chronistas do tempo.

Ha uma questão historica, relativa a este assumpto; fallo da patria do Camarão, que um escriptor pernambucano quiz pôr em duvida, tirando a gloria ao Ceará para a dar á sua provincia.

Este ponto aliás somente contestado nos tempos modernos pelo Sr. commendador Mello em suas Biographias, me parece sufficientemente elucidado já, depois da erudita carta do Sr. Basilio Quaresma Torreão, publicada no Mercantil n.° 26 de 26 de Janeiro de 1860, 2.ª pagina.

Entretanto farei sempre uma observação.

Em primeiro logar a tradicção oral é uma fonte importante da historia, e ás vezes a mais pura e verdadeira. Ora na provincia de Ceará em Sobral não só se referiam entre gente do povo noticias do Camarão, como existia lima velha mulher que se dizia d'elle sobrinha. Essa tradicção foi colhida por diversos escriptores, entre elles o conspicuo auctor da Corographia Brasilica.

O auctor do Valoroso Lucideno é dos antigos o unico que positivamente affirma ser Camarão filho de Pernambuco; mas além de encontrar essa asserção a versão de outros escriptores de nota, accresce que Berredo explica perfeitamente o dito d'aquelle escriptor, quando falla da expedição de Pero Coelho de Souza a Jaguaribe, sitio d'aquelle tempo e tambem no de hoje da jurisdicção de Pernambuco.

Outro ponto é necessario esclarecer para que não me censurem de infiel á verdade historica. É a nação de Jacaúna e Camarão que alguns pretendem ter sido a tabajara. Ha n'isso manifesto engano.

Em todas as chronicas se falla das tribus de Jacaúna e Camarão, como habitantes do littoral, e tanto que auxiliam a fundação do Ceará, como já haviam auxiliado a da Nova-Lisboa em Jaguaribe. Ora a nação, que habitava o littoral entre o Parnahyba e o Jaguaribe ou Rio-Grande, era a dos Pytiguaras, como attesta Gabriel Soares. Os Tabajaras. habitavam a serra de Ibyapa, e portanto o interior.

Como chefes dos Tabajaras são mencionados Mel Redondo no Ceará e Grão Deabo em Piauhy. Esses chefes foram sempre inimigos irreconciliaveis e rancorosos dos portuguezes, e alliados dos francezes do Maranhão, que penetraram até Ibyapaba. Jacaúna e Camarão são conhecidos pela sua alliança firme com os portuguezes.

Mas o que solve a questão é o seguinte texto. Lê-se nas memorias diarias da guerra brasilica do conde de Pernambuco:—1834, Janeiro, 18: "Pelo bom procedimento com que havia servido A. Ph. Camarão o fez El-rei capitão-mór de todos os indios não somente de sua nação, que era Pytiguar, mas das outras residentes em varias aldeias."

Esta auctoridade, além de contemporanea, testemunhal, não pode ser recusada, especialmente quando se exprime tão positiva e intencionalmente a respeito do ponto duvidoso.

Pag. 19.—[Onde canta a jandaia.]—Diz a tradicção que Ceará significa na lingua indigena—canto de jandaia.

Ayres do Casal, Corographia Brasilica, refere essa tradicção. O senador Pompêo, em seu excellente diccionario topographico, menciona uma opinião, nova para mim, que pretende vir Siará da palavra saia-caça, em virtude da abundancia de caça que se encontrava nas margens do rio. Essa etymologia é forçada. Para designar quantidade, usava a lingua tupy da desinencia iba; a desinencia ára junta aos verbos designa o sujeito que exercita a acção actual; junta aos nomes o que tem actualmente o objecto—exp. Coatyara—o que pinta.—Jussara—o que tem espinho.

Ceará é nome composto de cemo—cantar forte, clamar, e ará, pequena arara ou periquito. Essa é a etymologia verdadeira, e não só conforme com a tradicção, mas com as regras da lingua.

Pag. 20.—I. [Giráu.]—Na jangada é uma especie de estrado onde accommodam os passageiros: e ás vezes o cobrem de palha. Em geral é qualquer estiva elevada do solo e suspensa em forquilhas.

II. [Iracema.]—Em guarany significa labios de mel—de ira—mel e tembe labios. Tembe na composição altera-se em ceme, como na palavra ceme-yba.

III. [Graúna] é o passaro conhecido de cor negra luzidia.—Seu nome vem por corrupção de guira passaro e una, abreviação de pixuna de preto.

IV. [Jaty.]—Pequena abelha que fabrica delicioso mel.

Pag. 21.—I. [Ipú.]—Chamam ainda hoje no Ceará certa qualidade de terra muito fertil, que fórma grandes corôas ou ilhas no meio dos taboleiros e sertões, e é de preferencia procurada para a cultura. D'ahi se deriva o nome d'essa comarca da provincia.

II. [Tabajaras.]—Senhores das aldeias—de taba—aldeia—e—jara—senhor. Essa nação dominava o interior da provincia, especialmente a Serra da Ibyapaba.

III. [Oitycica.]—Arvore frondosa, apreciada pela deliciosa frescura que derrama sua sombra.

IV. [Gará.]—Ave palludal, muito conhecida pelo nome de guará. Penso eu que esse nome anda corrompido de sua verdadeira origem, que é—ig, agua e ará, arara; arara d'agua, pela bella côr vermelha.

V. [Ará.]—periquito. Os indigenas como augmentativo usavam repetir a ultima sillaba da palavra e ás vezes toda a palavra—como murémuré. Muré, frauta—murémuré, grande frauta. Arára vinha a ser pois o augmentativo de ará, e significaria a especie maior do genero.

VI. [Urú.]—Cestinho que servia de cofre ás selvagens para guardar seus objectos de mais preço e estimação.

VII. [Crautá.]—Bromelia vulgar, de que se tiram fibras tão ou mais finas que as do linho.

VIII. [Jussara.]—Palmeira de grandes espinhos, das quaes se servem ainda hoje para dividir os fios da renda.

Pag. 22.—I. [Uiraçaba.]—aljava—de uira seta e a desinencia—caba—cousa propria.

II. [Quebrar a flecha.]—Era entre os indigenas a maneira symbolica de estabelecerem a paz entre as diversas tribus, ou mesmo entre dois guerreiros inimigos. Desde já advertimos que não se extranhe a maneira porque o extrangeiro se exprime falando com os selvagens: ao seu perfeito conhecimento dos usos e lingua dos indigenas, e sobretudo a ter-se conformado com elles a ponto de deixar os trajos europeus e pintar-se, deveu Martim Soares Moreno a influencia que adquiriu entre os indios do Ceará.

Pag. 23.—I. [Ibyapaba.]—Grande serra que se prolonga ao norte da provincia e a extrema com Piauhy. Significa terra aparada. O Dr. Martins em seu glossario lhe attribue outra etymologia. Iby-terra—e pabe—tudo. A primeira porém tem a auctoridade de Vieira.

II. [Igaçaba.]—de ig—agua e a desinencia çaba—cousa propria.

Pag. 24.—I. [Vieste.]—A saudação usual da hospitalidade era esta:—Erc ioubé—tu vieste? pa-aiotu, vim sim. Auge-be, bem dito. Veja-se Lery, pag. 286.

II. [Jaguaribe.]—maior rio da provincia; tirou o nome da quantidade de onças que povoavam suas margens. Jaguar—onça—iba—desinencia para exprimir copia, abundancia.

III. [Martim.]—Da origem latina de seu nome, procedente de Marte, deduz o extrangeiro a significação que lhe dá.

IV. [Pytiguaras.]—Grande nação de indios que habitava o littoral da provincia e estendia-se desde o Parnahyba até o Rio Grande do Norte. A orthographia do nome anda mui viciada nas differentes versões, pelo que se tornou difficil conhecer a etymologia.

[Iby] significava terra; iby-tira veiu a significar serra, ou terra alta. Aos valles chamavam os indigenas iby-tira-cua—cintura das montanhas. A desinencia jara senhor, accrescentada, formou a palavra Ibyticuara—que por corrupção deu Pytiguara—senhores dos valles.

V. [Mau espirito da floresta.]—Os indigenas chamavam a esses espiritos caa-pora, habitantes da mata, d'onde por corrupção veiu a palavra caipora, introduzida na lingua portugueza em sentido figurado.

Pag. 25.—I. [As mais bellas mulheres.]—Este costume da hospitalidade americana é attestado pelos chronistas. A elle se attribue o bello rasgo de virtude de Anchieta, que para fortalecer a sua castidade, compunha nas praias de Iperoig o poema da Virgindade de Maria, cujos versos escrevia nas areias humidas, para melhor os polir.

II. [Jurema.]—Arvore mean, de folhagem espessa; dá um fructo excessivamente amargo, de cheiro acre, do qual juntamente com as folhas e outros ingredientes preparavam os selvagens uma bebida, que tinha o effeito do hatchis, de produzir sonhos tão vivos e intensos, que a pessoa fruia n'elles melhor do que na realidade. A fabricação d'esse licor era um segredo, explorado pelos Pagés, em proveito de sua influencia. Jurema é composto de ju-espinho e rema cheiro desagradavel.

Pag. 26.—I. [Irapuam.]—de ira-mel e apuam redondo: é o nome dado a uma abelha virulenta e brava, por causa da forma redonda de sua colmeia. Por corrupção reduziu-se esse nome actualmente a arapuá. O guerreiro de que se trata aqui é o celebre Mel-redondo, assim chamado pelos chronistas do tempo, que traduziam seu nome ao pé da lettra. Mel-redondo, chefe dos Tabajaras da serra Ibyapaba, foi encarniçado inimigo dos portuguezes, e amigo dos francezes.

II. [Acaracú.]—O nome do rio é Acaracú—de acará garça—co—buraco, toca, ninho, e y—som dubio entre i e u, que os portuguezes, ora exprimiam de um, ora de outro modo, significando agua. Rio do ninho das garças é pois a traducção de Acaracú; e o rio das garças a de Acaraú. Usou-se aqui da liberdade horaciana para evitar em uma obra litteraria, obra de gosto e artistica, um som aspero e ingrato. De resto quem sabe se o nome primitivo não foi realmente Acaraú, que se alterou como tantos outros, pela introducção da consoante?

III. [Estrella morta.]—A estrella polar, por causa da sua immobilidade; orientavam-se por ella os selvagens durante a noite.

IV. [Boicininga.]—é a cobra cascavel—de boia, cobra e cininga chocalho.

V. [Oitibó.]—é uma ave nocturna, especie de coruja.

Pag. 27.—I. [Espiritos da treva.]—A esses espiritos chamavam os selvagens curupira, meninos máus—de curumim, menino, e pira máu.

II. [Boré.]—frauta de bambú,—o mesmo que muré.

III. [Ocara.]—praça circular que ficava no centro da taba, cercada pela estacada, e para a qual abriam todas as casas. Composto de oca, casa e a desinencia ara, que tem; aquillo que tem a casa, ou onde a casa está.

IV. [Potyuara.]—comedor de camarão; de poty—e uara. Nome que por desprêso davam os inimigos aos Pytiguaras, que habitavam as praias e viviam em grande parte de pesca.

Este nome dão alguns escriptores aos Pytiguaras. porque o receberam de seus inimigos.

Pag. 28.—I. [Pocema.]—grande alarido que faziam os selvagens nas occasiões solemnes, como em começo de batalha, ou nas expansões da alegria; é palavra adoptada já na lingua portugueza e inserida no diccionario de Moraes. Vem de po-mão e cemo clamar; clamor das mãos, porque os selvagens acompanhavam o vozear com o bater das palmas e das armas.

II. [Andira.]—morcego: é em allusão a seu nome que Irapuam dirige logo palavras de despreso ao velho guerreiro.

Pag. 29.—[Aracaty.]—Significava este nome bom tempo de ara e catú. Os selvagens do sertão assim chamavam as brisas do mar que sopram regularmente ao cahir da tarde, e correndo pelo valle do Jaguaribe se derramam pelo interior e refrigeram da calma abrasadora do verão. D'ahi resultou chamar-se Aracaty o logar de onde vinha a monção. Ainda hoje no Icó o nome é conservado á brisa da tarde, que sopra do mar.

Pag. 32.—I. [Afflar.]—Sobre este verbo que introduzi na lingua portugueza do latim afflo, já escrevi o que entendi em nota de uma segunda edição da Diva que brevemente ha de vir á luz.

II. [Anhanga.]—Davam os indigenas este nome ao espirito do mal; compõe-se de anho atrito, só e anga alma. Espirito só, privado do corpo, phantasma.

Pag. 36.—I. [Camocim.]—vaso onde encerravam os indigenas os corpos dos mortos e lhes servia de tumulo; outros dizem camotim, e talvez com melhor orthographia, porque se não me engano o nome corrupção da phrase co buraco, ambyra defuncto, anhotim enterrar—buraco para enterrar o defuncto—c'am'otim. O nome dava-se tambem a qualquer pote.

II. [Guabiroba.]—Deve ler-se Andiroba. Arvore que dá um azeite amargo.

III. [Cabellos do sol.]—Em tupy guaraciaba. Assim chamavam aos europeus que tinham os cabellos louros.

Pag. 38.—I. [Moquem.]—Do verbo mocaém assar na labareda. Era a maneira por que os indigenas conservavam a caça para não apodrecer, quando a levavam em viagem. Nas cabanas a tinham ao fumeiro.

II. [Senhor do caminho.]—assim chamavam os indigenas ao guia—de py, caminho e guara, senhor.

Pag. 39.—I. [O dia vae ficar triste.]—Os tupys chamavam a tarde carúca, segundo o diccionario: Segundo Lery, che caruc acy, significa—"estou triste." Qual d'estes era o sentido figurado da palavra? Tiraram a imagem da tristeza, da sombra da tarde, ou a imagem do crepusculo do torvamento do espirito?

II. [Jurupary.]—demonio; de juroboca e apara torto, aleijado. O bocca torta.

III. [Ubaia.]—fructa conhecida da especie engenia. Significa fructa saudavel, de uba-fructa e aia saudavel.

Pag. 41.—I. [Jandaia.]—Este nome que anda escripto por diversas maneiras nhendaia, nhandaia e em todas alterado é apenas um adjectivo qualificativo do substantivo ará. Deriva-se elle das palavras nheng—falar—antan, duro, forte, aspero, e ara desinencia verbal que exprime o agente—nh' ant' ara; substituido o t por d—e o r por i, tornou-se nhandaia, d'onde jandaia, que se traduzirá por periquito grasnador.

Do canto d'esta ave, como se viu, é que vem o nome de Ceará, segundo a etymologia que lhe dá a tradicção.

II. [Inhuma.]—Ave nocturna palamedea. A especie de que se fala aqui é a palamedea chavaria, que canta regularmente á meia noite. A orthographia melhor creio ser anhuma, talvez de anho, só, e anum, ave agoureira conhecida. Significaria então assim anum solitario, assim chamado pela tal ou qual semelhança do grito desagradavel.

Pag. 42.—[Inubia.]—Trombeta de guerra. Os indigenas, segundo Lery, as tinham tão grandes que mediam um diametro na abertura.

Pag. 43.—[Guará.]—Cão selvagem, lobo brazileiro. Provêm esta palavra do verbo u comer, do qual se forma com o relativo G e a desinencia ara o verbal g-u-ára comedor. A syllaba final longa é a particula propositiva ã que serve para dar fôrça á palavra.

G-u-ára-ã realmente comedor, voraz.

Pag. 44.—I. [Jiboia.]—Cobra conhecida: de gi machado e boia cobra. O nome foi tirado da maneira porque a serpente lança o bote, semelhante ao golpe do machado; pode traduzir-se bem cobra de arremesso.

II. [Sucury.]—A serpente gigante que habita nos grandes rios e engole um boi. De Suu, animal e cury ou curu roncador. Animal roncador, porque de feito o rouco da sucury é medonho.

III. [Se é que tens sangue e não mel.]—Allusão que faz o velho Andira ao nome de Irapuam, o qual como se disse significa mel redondo.

IV. [Ouve seu trovão.]—Todo esse episodio do rugido da terra é uma astucia, como usavam os pagés e os sacerdotes de toda a nação selvagem para imporem á imaginação do povo. A cabana estava assentada sobre um rochedo, onde havia uma galeria subterranea que communicava com a varzea por estreita abertura; Araken tivera o cuidado de tapar com grandes pedras as duas aberturas, para occultar a gruta dos guerreiros. N'essa occasião a fenda inferior estava aberta e o Pagé o sabia; abrindo a fenda superior, o ar encanou-se pelo antro espiral com estridor medonho, e de que pode dar uma idéa o sussurro dos caramujos.—O facto é pois natural; a apparencia sim maravilhosa.

Pag. 45.—[Abaty n'agua.]—Abaty—arroz; Iracema serve-se da imagem do arroz que só viça no alagado, para exprimir sua alegria.

Pag. 53.—I. [Ubiratan.]—Páo ferro, de ubira—páo e antan duro.

II. [Maracajá.]—Gato selvagem.

III. [Caetetus.]—Porco do mato, especie de javali brazileiro. Do caeté—mato grande e virgem—e suu caça, mudado o s em t na composição pela euphonia da lingua. Caça do mato virgem.

IV. [Jaguar.]—Vimos que guará significa voraz. Jaguar tem inquestionavelmente a mesma etymologia; é o verbal guara e o pronome ja nós. Jaguar era pois para os indigenas todos os animaes que os devoravam. Jaguareté o grande devorador.

V. [Anajê.]—Gavião.

Pag. 55.—[Acauan], ave inimiga das cobras—de caa pão e uan—do verbo u, que come pão.

Pag. 56.—[Sahy.]—Lindo passaro azul.

Pag. 57.—I. [Carioba.]—Camisa de algodão, de cary branco e oba roupa. Tinham tambem a arassoia de arára, e oba, vestido de pennas de arara.

II. [Á cintura da virgem.]—Os indigenas chamavam a amante possuida aguaçaba, de aba, homem, cua, cintura, çaba cousa propria; a mulher que o homem cinge, ou traz á cintura. Fica pois claro o pensamento de Iracema.

Pag. 59.—I. [Jacy.]—A lua. De —pronome, nós, e cy—mãe.—A lua exprimia o mez para os selvagens; e seu nascimento era sempre por elles festejado.

II. [Fogos da alegria.]—Chamavam os selvagens tory, os fachos ou fogos; e toryba, a alegria, a festa, a grande copia dos fachos.

Pag. 60.—[Bucan.]—Significa uma especie de grelha que os selvagens faziam para assar a caça; d'ahi vem o verbo francez boucaner. A palavra é da lingua tupy.

Pag. 63.—I. [Acoty.]—cotia.

II. [Abaeté.]—varão abalisado; de aba—homem e eté—forte, egregio.

Pag. 66.—I. [Jacaúna.]—jacarandá preto—de jaca, abreviação de jacarandá, e una, preto. Este Jacaúna é o celebre chefe, amigo de Martim Soares Moreno.

II. [Coandú.]—porco espinho.

III. [Seu collar de guerra.]—O collar que os selvagens faziam dos dentes dos inimigos vencidos era um brazão e tropheu de valentia.

Pag. 68.—I. [Japy.]—significa, nosso pé, de ja—pronome, nós e py pé.

II. [Ibyapina.]—De Iby-terra, e apino, tosquiar.

III. [Jatobá.]—grande arvore real. O logar da scena é o sitio da hoje Villa Viçosa, onde diz a tradição ter nascido Camarão.

Pag. 71.—I. [Meruoca.] De mera, mosca, e oca, casa. Serra junto do Sobral, fertil em mantimentos.

II. [Uruburetama.]—patria ou ninho de urubus: serra bastante alta.

III. [Mundahú.]—rio muito tortuoso, que nasce na serra de Uruburetama. Mandé, cilada, e hu rio.

IV. [Potengi.]—rio que rega a cidade do Natal, d'onde era filho Soares Moreno.

Pag. 72.—I. [As saborosas trahiras.]—É o rio Trahiry trinta leguas ao norte da capital. De trahira, peixe e y, rio. Hoje é povoação e districto de paz.

II. [Soipé.]—paiz da caça. De Sôo caça, e ipé lugar onde. Diz-se hoje Siupé, rio e povoação pertencente a freguezia e termo da Fortaleza, situada á margem dos alagados chamados Jaguarassú na embocadura do rio.

III. [Pacoty.]—Rio das pacobas. Nasce na serra de Baturité e lança-se no Oceano duas leguas ao norte de Aquirás.

IV. [Iguape.]—Enseada distante duas leguas de Aquirás. De Ig, agua, cua, cintura e ipé, onde.

Pag. 73—I. [Mocoribe.]—morro de areia na enseada do mesmo nome a uma legua da Fortaleza; diz-se hoje Mucuripe. Vem de Corib alegrar e mo, particula ou abreviatura do verbo monhang fazer, que se junta aos verbos neutros e mesmo activos para dar-lhes significação passiva—exp.caneon affligir-se, mocaneon fazer alguem afflicto.

II. [Rio que forma um braço de mar.]—É o Parnahyba, rio de Piauhy. Vem de Pará. mar, nhanhe, correr e hyba, braço; braço corrente do mar. Geralmente se diz que Pará significa rio e Paraná mar; é inteiramente o contrario.

Pag. 74.—I. [Mayr.]—cidade. Talvez provenha o nome de mayr extrangeiro, e fosse applicado aos povoados dos brancos em opposição ás tabas dos indios.

II. [Brancos tapuias.]—em tupy, tapuitinga. Nome que os Pytiguaras davam aos francezes para differença-los dos Tupinambás. Tapuia, significa barbaro, inimigo. De taba, aldeia e puyr, fugir,—os fugidos da aldeia.

Pag. 75.—I. [Batuireté.]—narseja illustre, de batuira e eté. Appellido que tomara o chefe pytiguara, e que na linguagem figurada valia tanto como valente nadador. É o nome de uma serra fertilissima e da comarca que ella occupa.

II. [Suas estrellas eram muitas.]—Contavam os indigenas os annos pelo nascimento das pleiades no oriente; e tambem costumavam guardar uma castanha de cada estação de cajú. para marcar a idade.

III. [Jatobá.]—arvore frondosa, talvez de jetahy, oba, folha e a, augmentativo; jetahy de grande copa. É nome de um rio e de uma serra em S. Quiteria.

Pag. 76.—I. [Quixeramobim.]—segundo o Dr. Martins traduz-se por essa exclamação de saudade. Compõe-se de Qui, ah! xere, meus, amôbinhé, outros tempos.

II. [Caminho das garças.]—Em tupy Acarape, povoação na freguezia de Baturité a nove leguas da capital.

III. [Maranguab.]—A serra de Maranguape distante cinco leguas da capital, e notavel pela sua fertilidade e formosura. O nome indigena compõe-se de maran guerrear e coaub sabedor; maran talvez seja abreviação de maramonhang, fazer guerra, se não é, como eu penso, o substantivo simples guerrear, de que se fez o verbo composto. O Dr. Martins traz etymologia diversa. Mara, arvore, angai, de nenhuma maneira, guabe, comer. Esta etymologia nem me parece propria ao objecto, que é uma serra, nem conforme com os preceitos da lingua.

IV. [Pirapora.]—Rio do Maranguape, notavel pela frescura do suas aguas e excellencia dos banhos chamados da Pirapora, no lugar das cachoeiras. Provem o nome de Pira, peixe, pore, salto: salto do peixe.

Pag. 78.—[O gavião branco]—Batuireté chama assim o guerreiro branco, ao passo que trata o neto por narseja: elle prophetisa n'esse parallelo a destruição de sua raça pela raça branca.

Pag. 79. II. [Porangaba.]—significa belleza. É uma lagoa distante da cidade uma legua em sitio aprasivel. Hoje a chamam Arronches: e nas suas margens está a decadente povoação de mesmo nome.

II. [Jererahu.]—rio das marrecas; de jerere—ou irêrê, marreca, e hu agua. Este lugar ainda hoje é notavel pela excellencia da fructa, com especialidade as bellas laranjas conhecidas por laranjas de Jererahu.

III. [Sapiranga.]—lagoa no sitio Alagadiço Novo, a cerca de 2 leguas da capital. O nome indigena significa olhos vermelhos, de ceça, olhos e piranga vermelhos. Esse mesmo nome dão usualmente no norte a certa ophtalmia.

IV. [Murytiapuá.]—de murity—nome da palmeira mais vulgarmente conhecida por burity, e apuam, ilha. Logarejo no mesmo sitio referido.

V. [Aratanha.]—de arára, ave e tanha, dente. Serra mui fertil e cultivada em continuação da de Maranguape.

VI. [Pacatuba.]—de paca e tuba, leito ou couto das pacas. Recente, mas importante povoação, em um bello valle da serra da Aratanha.

VII. [Guayúba.]—De goaia, valle, y, agua, jur, vir, be por onde; por onde vem as aguas do valle. Rio que nasce na serra da Aratanha e corta a povoação do mesmo nome a seis leguas da capital.

Pag. 81.—I. [Ambar.] As praias do Ceará eram n'esse tempo muito abundantes de ambar que o mar arrojava. Chamavam-lhe os indigenas, Pira repoti esterco de peixe.

II. [Coatyá.]—pintar. A historia menciona esse facto de Martim Soares Moreno se ter coatyado quando vivia entre os selvagens do Ceará.

Pag. 82.—[Coatyabo.]—A desinencia abo significa o objecto que soffreu a acção do verbo, e talvez provenha de aba, gente, creatura.

Pag. 90.—[Imbú.]—Fructa da Serra do Araripe que não vem do littoral. É saborosa e semelhante ao cajá.

Pag. 93.—I. [Tupinambás.]—Nação formidavel, ramo primitivo da grande raça tupy. Depois de uma resistencia heroica, não podendo expulsar os portuguezes da Bahia emigraram até o Maranhão onde fizeram alliança com os francezes que já então infestavam aquellas paragens. O nome que elles se davam significava—gente parente dos Tupys—de Tupyanama—ba.

II. [Maracatim.]—Grande barco que levava na proa tim—um maracá. Aos barcos menores ou canoas chamavam igara—de ig—agua—e jara, senhor; senhora d'agua.

Pag. 95.—[Moacyir.]—Filho do soffrimento—de moacy, dôr e ira, desinencia, que significa sahido de.

Pag. 96.—[Faxa.]—É o que chamam vulgarmente typoia; rejeitou-se o termo proprio do texto por andar degradado no estylo chulo.

Pag. 97.—[Chupou tua alma.]—Creança em tupy é pitanga, de piter chupar e anga alma; chupa alma. Seria porque as creanças attrahem e deleitam aos que as vêem; ou porque absorvem uma porção d'alma dos paes? Cauby fala n'esse ultimo sentido.

Pag. 99.—[Cariman.]—Uma conhecida preparação de mandioca. Caric, correr, mani, mandioca. Mandioca escorrida.

Pag. 100.—[Tauape], lugar de barro amarello, de tauá e ipé. Fica no caminho de Maranguape.

Pag. 103.—[Copim.]—Insecto conhecido. O nome compõe-se de co buraco e pim ferrão.

Pag. 104.—[Albuquerque.]—Jeronymo d'Albuquerque chefe da expedição do Maranhão em 1612.

Pag. 117.—[Colibri.]—D'esse lethargo do colibri no inverno fala Simão de Vasconcellos.

Pag. 125—[Mocejana.]—Lagoa e povoação a 2 leguas da capital. O verbo cejar significa—abandonar; a desinencia ana indica a pessoa que exercita a acção do verbo. Cejana—significa o que abandona. Junta a particula mo do verbo monhang, fazer, vem a palavra a significar o que fez abandonar ou que foi lugar e occasião de abandonar.

[CARTA
AO DR. JAGUARIBE]

Eis-me de novo, conforme o promettido.

Já leu o livro e as notas que o acompanham; conversemos pois.

Conversemos sem cerimonia, em toda a familiaridade, como se cada um estivesse recostado em sua rede, ao vaivem do languido balanço, que convida á doce pratica.

Se algum leitor curioso se puzer á escuta, deixal-o. Não havemos por isso de mudar o tom rasteiro da intimidade pela phrase garrida das salas.

Sem mais.

Ha de recordar-se você de uma noite que entrando em minha casa, quatro annos a esta parte, achou-me rabiscando um livro. Era isso em uma quadra importante, pois que uma nova legislatura, filha de nova lei, fazia sua primeira sessão; e o paiz tinha os olhos n'ella, de quem esperava iniciativa generosa para melhor situação.

Já estava eu meio descrido das cousas, e mais dos homens; e por isso buscava na litteratura diversão á tristeza que me infundia o estado da patria entorpecida pela indifferença. Cuidava eu porém que você, politico de antiga e melhor tempera, pouco se preoccupava com as cousas litterarias, não por menos preço, sim por vocação.

A conversa que tivemos então revelou meu engano; achei um cultor e amigo da litteratura amena; e juntos lemos alguns trechos da obra, que tinha, e ainda não perdeu, pretenções a um poema.

É, como viu o como então lhe esbocei a largos traços, uma heroida que tem por assumpto as tradicções dos indigenas brazileiros e seus costumes. Nunca me lembrara eu de dedicar-me a esse genero de litteratura, de que me abstive sempre, passados que foram os primeiros e fugaces arroubos da juventude. Supporta-se uma prosa mediocre, e estima-se pelo quilate da idéa; mas o verso mediocre é a peor triaga que se possa impingir ao pio leitor.

Commetti a imprudencia quando escrevi algumas cartas sobre a Confederação dos Tamoyos dizer: "as tradições dos indigenas dão materia para um grande poema que talvez um dia alguem apresente sem ruido nem apparato, como modesto fructo de suas vigilias."

Tanto bastou para que suppozessem que o escriptor se referia a si, e tinha já o poema em mão; varias pessoas perguntaram-me por elle. Metteu-me isto em brios litterarios; sem calcular das forças minimas para empresa tão grande, que assoberbou dois illustres poetas, tracei o plano da obra, e comecei-a com tal vigor que a levei quasi de um folego ao quarto canto.

Esse folego susteve-se cêrca de cinco mezes, mas amorteceu; e vou-lhe confessar o motivo.

Desde cedo, quando começaram os primeiros pruridos litterarios, uma especie de instincto me impellia a imaginação para a raça selvagem indigena. Digo instincto, porque não tinha eu então estudos bastantes para apreciar devidamente a nacionalidade de uma litteratura; era simples prazer que me deleitava na leitura das chronicas e memorias antigas.

Mais tarde, discernindo melhor as cousas, lia as producções que se publicavam sobre o thema indigena; não realisavam ellas a poesia nacional, tal como me apparecia no estudo da vida selvagem dos autoctonos brazileiros. Muitas pecavam pelo abuso dos termos indigenas accumulados uns sobre outros, o que não só quebrava a harmonia da lingua portugueza, como perturbava a intelligencia do texto. Outras eram primorosas no estylo e ricas de bellas imagens; porém certa rudez ingenua de pensamento e expressão, que devia ser a linguagem dos indigenas, não se encontrava ali.

Gonçalves Dias é o poeta nacional por excellencia ninguem lhe disputa na opulencia da imaginação, no fino lavor do verso, no conhecimento da natureza brazileira e dos costumes selvagens. Em suas poesias americanas aproveitou muitas das mais lindas tradicções dos indigenas; e em seu poema não concluido dos Timbiras, propoz-se a descrever a epopea brazileira.

Entretanto, os selvagens de seu poema falam uma linguagem classica, o que lhe foi censurado por outro poeta de grande estro, o dr. Bernardo Guimarães; elles exprimem idéas proprias do homem civilisado, e que não é verosimil tivessem no estado da natureza.

Sem duvida que o poeta brazileiro tem de traduzir em sua lingua as idéas, embora rudes e grosseiras, dos indios; mas n'essa traducção está a grande difficuldade; é preciso que a lingua civilisada se molde quanto possa á singeleza primitiva da lingua barbara; e não represente as imagens e pensamentos indigenas senão por termos e phrases que ao leitor pareçam naturaes na bôcca do selvagem.

O conhecimento da lingua indigena é o melhor criterio para a nacionalidade da litteratura. Elle nos dá não só o verdadeiro estylo, como as imagens poeticas do selvagem, os modos de seu pensamento, as tendencias de seu espirito, e até as menores particularidades de sua vida. É n'essa fonte que deve beber o poeta brazileiro; é d'ella que ha de sahir o verdadeiro poema nacional, tal como eu o imagino.

Commettendo portanto o grande arrojo, aproveitei o ensejo de realisar as idéas que me vagueavam no espirito, e não eram ainda plano fixo; a reflexão consolidou-as e robusteceu.

Na parte escripta da obra foram ellas vasadas em grande copia. Se a investigação laboriosa das bellezas nativas feita sobre imperfeitos e espurios diccionarios exhauria o espirito; a satisfação de cultivar essas flores agrestes da poesia brazileira, deleitava. Um dia porém fatigado da constante e aturada meditação ou analyse para descobrir a etymologia d'algum vocabulo, assaltou-me um receio.

Todo este improbo trabalho que ás vezes custava uma só palavra, me seria levado á conta? Saberiam que esse escropulo de ouro fino, tinha sido desentranhado da profunda camada, onde dorme uma raça extincta? Ou pensariam que fôra achado na superficie e trazido ao vento da facil inspiração?

E sobre esse, logo outro receio.

A imagem ou pensamento com tanta fadiga esmerilhados, seriam apreciados em seu justo valor, pela maioria dos leitores? Não os julgariam inferiores a qualquer das imagens em voga, usadas na litteratura moderna?

Occorre-me um exemplo tirado d'este livro. Guia chamavam os indigenas, senhor do caminho, pyguara. A belleza da expressão selvagem em sua traducção litteral e etymologica, me parece bem saliente. Não diziam sabedor do caminho, embora tivessem termo proprio, coaub, porque essa phrase não exprimiria a energia de seu pensamento. O caminho no estado selvagem não existe; não é cousa de saber. O caminho faz-se na occasião da marcha atravez da floresta ou do campo, e em certa direcção: aquelle que o tem e o dá, é realmente senhor do caminho.

Não é bonito? Não está ahi uma joia da poesia nacional?

Pois talvez haja quem prefira a expressão rei do caminho, embora os brasis não tivessem rei, nem idéa de tal instituição. Outros se inclinarão á palavra guia, como mais simples e natural em portuguez, embora não corresponda ao pensamento do selvagem.

Ora escrever um poema que devia alongar-se para correr o risco de não ser entendido, e quando entendido não apreciado, era para desanimar o mais robusto talento, quanto mais a minha mediocridade. Que fazer? Encher o livro de gryphos que o tornariam mais confuso e de notas que ninguem lê? Publicar a obra parcialmente para que os entendidos proferissem o veredicto litterario? Dar leitura d'ella a um circulo escolhido, que emittisse juizo illustrado?

Todos estes meios tinham seu inconveniente, e todos foram repellidos: o primeiro afeiava o livro; o segundo o truncava em pedaços; o terceiro não lhe aproveitaria pela ceremoniosa benevolencia dos censores. O que pareceu melhor e mais acertado foi desviar o espirito d'essa obra e dar-lhe novos rumos.

Mas não se abandona assim um livro começado, por peor que elle seja; ahi n'essas paginas cheias de rasuras e borrões dorme a larva do pensamento, que pode ser nympha de azas douradas, se a inspiração fecundar o grosseiro casulo. Nas diversas pausas de suas preoccupações o espirito volvia pois ao album, onde estão ainda incubados e estarão cerca de dois mil versos heroicos.

Conforme a benevolencia ou severidade de minha consciencia ás vezes os acho bonitos e dignos de verem a luz; outras me parecem vulgares, monotonos, e somenos a quanta prosa charra tenho eu estendido sobre o papel. Se o amor de pae abranda afinal esse rigor, não desvanece porem nunca o receio de "perder inutilmente meu tempo a fazer versos para cabocolos."

Em um d'esses volveres do espirito á obra começada, lembrou-me da experiencia in anima prosaico. O verso pela sua dignidade e nobreza não comporta certa flexibilidade de expressão, que entretanto não vae mal á prosa mais elevada. A elasticidade da phrase permittiria então que se empregassem com mais careza as imagens indigenas, de modo a não passarem desapercebidas. Por outro lado conhecer-se-hia o effeito que havia de ter o verso pelo effeito que tivesse a prosa.

O assumpto para a experiencia, de antemão estava achado. Quando em 1848 revi a nossa terra natal, tive a idéa de aproveitar suas lendas e tradições em alguma obra litteraria. Já em S. Paulo tinha começado uma biographia do Camarão. A mocidade d'elle, a amisade heroica que o ligava a Soares Moreno, a bravura e lealdade de Jacaúna, alliado dos portuguezes, e suas guerras contra o celebre Mel Redondo; ahi estava o thema. Faltava-lhe o perfume que derrama sobre as paixões do homem a belleza da mulher.

Sabe você agora o outro motivo que eu tinha de lhe endereçar o livro; precisava dizer todas estas cousas, contar o como e porque escrevi Iracema. E com quem melhor conversaria sobre isso do que com uma testemunha de meu trabalho, a unica, das poucas, que respira agora as auras cearenses?

Este livro é pois um ensaio ou antes amostra. Verá realisadas n'elles as minhas idéas a respeito da litteratura nacional; e achará ahi poesia inteiramente brazileira, haurida na lingua dos selvagens. A etymologia dos nomes das diversas localidades, e certos modos de dizer tirados da composição das palavras, são de cunho original.

Comprehende você que não podia eu derramar em abundancia essa riqueza no livrinho agora publicado, porque ellas ficariam desfloradas na obra de maior vulto, a qual só teria a novidade da fabula. Entretanto ha ahi de sobra para dar materia á critica, e servir de base ao juizo dos entendidos.

Se o publico ledor gostar d'essa forma litteraria, que me parece ter algum attractivo e novidade, então se fará um esforço para levar ao cabo o começado poema, embora o verso pareça na época actual ter perdido a sua influencia e prestigio. Se porém o livro fôr acoimado de serdiço e tedioso, ou se Iracema encontrar a usual indifferença, que vae acolhendo o bom e o mau com a mesma complacencia, quando não é o silencio desdenhoso e ingrato; então o auctor se desenganará de mais esse genero de litteratura, como já se desenganou do theatro; e os versos como as comedias passarão para a gaveta dos papeis velhos, reliquias autobiographicas.

Depois de concluido o livro e quando o reli apurado na estampa, conheci me tinham escapado senões que poderia corrigir se não fosse a pressa com que o fiz editar; noto algum excesso de comparações, certa semelhança entre algumas imagens, e talvez desalinho no estylo dos ultimos capitulos que desmerecem dos primeiros. Tambem me parece devia conservar aos nomes das localidades sua actual versão, embora corrompida. Se a obra tiver segunda edição será escoimada d'estes e de outros defeitos, que lhe descubram os entendidos.

Agosto de 1995.

J. DE ALENCAR.