FIM
NOTAS
ADVERTENCIA
Este livro é irmão de Iracema.
Chamei-lhe de lenda como ao outro. Nenhum titulo responde melhor pela propriedade, como pela modestia, ás tradições da patria indijena.
Quem por desfastio percorrer estas pajinas, se não tiver estudado com alma brazileira o berço de nossa nacionalidade, ha de estranhar entre outras coizas a magnanimidade que resumbra no drama selvajem e lhe fórma o vigorozo relevo.
Como admitir que barbaros, quais nos pintaram os indijenas, brutos e canibais, antes féras que homens, fossem sucetiveis desses brios nativos que realçam a dignidade do rei da creação?
Os historiadores, cronistas e viajantes da primeira época, se não de todo o periodo colonial, devem ser lidos á luz de uma critica severa. É indispensavel sobretudo escoimar os fatos comprovados das fabulas a que serviam de mote, e das apreciações a que os sujeitavam espiritos acanhados, por demais embuidos de uma intolerancia rispida.
Homens cultos, filhos de uma sociedade velha e curtida por longo trato de seculos, queriam esses forasteiros achar nos indijenas de um mundo novo e segregado da civilização universal uma perfeita conformidade de idéas e costumes. Não se lembravam, ou não sabiam, que elles mesmos provinham de barbaros ainda mais ferozes e grosseiros do que os selvajens americanos.
Desta prevenção não escaparam muitas vezes espiritos graves e bastante ilustrados para escreverem a historia sob um ponto de vista mais largo e filozofico.
Entre muitos citarei um exemplo. Barloeus referindo as justas que se faziam entre os selvajens para obterem em premio de seu valor a virjem mais formoza, não se esqueceu de acrecentar este comento—finis spectantium est voluptas.
Narrados com este pessimismo, as cenas da cavalaria, os torneios e justas não passariam de manejos inspirados pela sensualidade. Nada rezistiria á censura ou ao ridiculo.
Por igual teor, senão mais grosseiras, são as apreciações de outros escritores ácerca dos costumes indijenas. As coizas mais poeticas, os traços mais generozos e cavalheirescos do carater dos selvajens, os sentimentos mais nobres desses filhos da natureza, são deturpados por uma linguajem impropria, quando não acontece lançarem á conta dos indijenas as extravagancias de uma imajinação desbragada.
Releva ainda notar, que duas classes de homens forneciam informações ácerca dos indijenas: a dos missionarios e a dos aventureiros. Em luta uma com outra, ambas se achavam de acôrdo nesse ponto, de figurarem os selvajens como féras humanas. Os missionarios encareciam assim a importancia de sua catequese; os aventureiros buscavam justificar-se da crueldade com que tratavam os indios.
Faço estas advertencias para que, ao lerem as palavras textuais dos cronistas citados nas notas seguintes, não se deixem impressionar por suas apreciações muitas vezes ridiculas. É indispensavel escoimar o fato dos comentos de que vem acompanhado, para fazer uma idéa exata dos costumes e indole dos selvajens.
Grande rio.—Os tupís chamavam assim ao maior rio que existia na rejião por elles habitada: e daí rezultou ficarem tantos rios com essa dezignação na lingua orijinal ou traduzida.
O rio grande de que se trata nesta lenda é o Tocantins, em cujas marjens se passa a ação dramatica.
Jaguarê.—Nome composto de Jaguar, a onça e o sufixo ê que na lingua tupí reforça emfaticamente a palavra a que se liga. Jaguarê, significa, pois, a onça, verdadeiramente onça, digna do nome, por sua força, corajem e ferocidade.
Uiraçaba.—Nome que davam os tupís á aljava, de uira—seta e aba—dezinencia exprimindo o logar, modo e instrumento; literalmente «o que tem a seta.»
Os selvajens a faziam, ou do tubo de taquarussú, ou da casca de certas arvores, guarnecida de fios embebidos de rezina, o que as tornava muito rezistentes.
Nome de guerra.—«Mal nacia a criança logo se lhe punha nome. Hans Stade achou-se prezente numa dessas ocaziões. Convocou o pai aos mais proximos vizinhos de dormitorio, pedindo-lhes para o filho um nome viril e terrivel; não lhe agradando nenhum dos propostos, declarou que ia escolher o de um de seus quatro antepassados, o que daria fortuna ao rapaz, e repetindo-o em voz alta, fixou a escolha. Ao chegar á idade de ir á guerra, dava-se outro nome ao mancebo que aos seus titulos ia acrecentando um por inimigo que trazia para caza a ser imolado. Tambem a mulher tomava adicional apelido quando o marido dava uma festa antropofaga. De objetos viziveis se tirava o cognome, determinando o orgulho ou a ferocidade a escolha. O epiteto grande frequentemente se compunha com o nome. Southey, H. do Brazil, tom. 1o, cap. 8o, paj. 336.
Póde-se ler tambem a este respeito o que diz Gabriel Soares, cit. no cap. 160, ácerca do nome que tomava o tupinambá quando matava o contrario, e no cap. 164 onde acrecenta: «Acontece muitas vezes cativar um tupinambá a um contrario na guerra, onde o não quiz matar para o trazer cativo para sua aldêa, onde o faz engordar com as ceremonias já declaradas para o deixar matar a seu filho quando é moço e não tem idade para ir á guerra, o qual o mata em terreiro, como fica dito, com as mesmas ceremonias; mas atam as mãos ao que ha de padecer, para com isso o filho tomar nome novo e ficar armado cavaleiro e mui estimado de todos.»
A este trecho de Gabriel Soares é precizo dar o devido desconto ácerca da engorda do cativo, e do papel insignificante que reprezenta o mancebo. Devemos crer que entre gente, cuja alma era a guerra, o titulo de guerreiro não se conferia ao mancebo que não fizesse prova real de seu esforço e corajem.
Ives d'Evreux, cap. XXI, trata minuciozamente da graduação que a idade estabelecia entre os tupís. Havia para os guerreiros seis classes: 1o das crianças até dois anos, mitanga, que significa chupador ou mamador; 2o curumim mirim, isto é o pequeno que balbucia; compreendia os meninos até sete anos; 3o curumim simplesmente, correspondia á segunda infancia de 7 a 15 anos; 4o curumim-guassú, era a adolecencia, em que os rapazes se empregavam na caça e na pesca; 5o aba—o homem, indicava o principio da virilidade, o qual logo que se cazava tornava-se apiaba, o varão, ou como diz d'Evreux, mendarama, o cazado; 6o tijubaê, o ancião ou veterano, o homem de experiencia, guerreiro consumado.
Jandira.—O nome é jandaíra, de uma abelha que fabrica excelente mel; Jandira é uma contração mais eufonica daquelle nome, que tambem por sua vez é contração de Jemonhaíra, que fabrica mel.
Aratuba.—Palavra que se compõe de ara—o sol e tuba—infinito do verbo ajub—estar deitado. Vem a ser a significação leito do sol, aplicada pelos indios á montanha do poente, onde o sol se esconde no seu ocazo.
Lança.—O uzo da lança não era comum aos selvajens, que empregavam de preferencia o arco, o tacape, a macana, e a igarapema, especie de remo, que fazia as vezes de partazana. Outros escrevem iverapema; mas o nome é aquelle de igara-pema, espada da canôa; basta ver-lhe a fórma para compreender seu duplo destino.
Craúba.-É a mesma carabiuba dos indios, assim contraída pelo uzo dos nossos sertanejos. Madeira roxa, excessivamente rija, que não cede ao páu-ferro no pezo e na dureza.
A liga vermelha.—Era este um dos mais curiozos e interessantes ritos dos tupís.
Quando a menina atinjia a puberdade, depois de sua purificação, da qual tratam os autores, especialmente Orbigny e Thevet, a mãi punha-lhe nas pernas, abaixo do joelho, uma liga de fio de algodão tinta de vermelho, de tres dedos de largura, e tecida no proprio logar de modo que uma vez fechada, não era mais possivel tiral-a. Vide Gabriel Soares, cap. 153.
A essa liga chamavam tapacora, e não a podia trazer senão a virjem, de modo que se acontecesse quebrar a castidade havia de rompel-a, para que todos conhecessem sua falta. Eis como Gabriel Soares se exprime a este respeito no cap. 152: «E como o marido lhe leva a flôr, é obrigada a noiva a quebrar estes fios para que seja notorio que é feita dona; e ainda que uma moça destas seja deflorada por quem não seja seu marido, ainda que seja em segredo, ha de romper os fios de sua virjindade, que de outra maneira cuidará que a leva o diabo, os quais dezastres lhes acontecem muitas vezes, etc.»
Este simples traço é bastante para dar uma idéa da moralidade dos tupís, e vingal-a contra os embustes dos cronistas, que por não compreenderem seus costumes, foram-lhes emprestando gratuitamente, quanto inventavam exploradores mal informados e prevenidos.
Em que sociedade civilizada se observa tão profundo respeito pela união conjugal, a ponto de não consentir-se que a mulher decaída conserve o segredo de sua falta, e iluda o homem que a busque para espoza?
A rezignação com que a moça culpada rompia a liga da virjindade, e fazia confissão publica de seu erro, é um exemplo da lealdade do carater tupí e da veneração que inspiravam os ritos de sua relijião.
Nega Southey, cap. VIII, que a liga vermelha e o respeito que ella inspirava indicassem guarda da castidade, porquanto a castidade como a caridade é virtude da civilização; do mesmo modo considera o amor uma delicadeza da vida civilizada. São paradoxos de escritor. Sentimentos naturais á creatura humana, dezenvolvem-se nella em qualquer estado e condições.
Não é possivel negar a castidade da mulher tupí; além desse recato da virjindade, prova-a de modo cabal a continencia que homens e mulheres guardavam em certas circumstancias. Assim, nenhum homem tinha relações com a mulher inubil, nem ella o consentia; o proprio marido não violava essa lei, embora tivesse a espoza em seu poder. Gabriel Soares cit. Durante a gravidez e a amamentação interrompia-se absolutamente o ajuntamento conjugal. (Barlœus 2a edic.)
Onde está a sociedade civilizada, que observe leis tão rigorozas, e refreie os instintos sensuais com a severidade uzada pelos tupís?
Poderiamos fazer muitas outras observações que rezervamos para um estudo especial ácerca dos selvajens brazileiros.
Tocantim.—Compõe-se de tocano e tim; literalmente o nariz, o rostro do tucano. Nome que tomou um guerreiro por trazer na cabeça o despojo de um tucano com o grande bico da ave; e que transmitido a uma nação selvajem, ficou dezignando o rio a cujas marjens vivia.
Taarí.—Rio que despeja no Tocantins, pouco depois da confluencia do Araguaia. Indica o logar da cena.
Araguaia.—O nome é araguara, de ara e guara, literalmente, os guerreiros das araras, porque uzavam nos seus ornatos das penas encarnadas daquellas aves. Conservei a versão que ficou no nome do rio.
Arací.—Esta palavra tupí compõe-se de ara, dia, e ceí ou cejí, grande estrela. Este ultimo nome davam os indijenas ás pleiades, que lhes serviam para contar os anos.
Cem dos melhores guerreiros.—Nesta e outras frazes identicas, os numerais cem ou mil não reprezentam algarismo exato, que não os tinham os tupís para exprimir numero tão elevado. Traduzem apenas esses termos a dezinencia tiba, com que os tupís dezignavam cópia e multidão.
Canitar.—Enfeite de cabeça. Adotei esta dezignação empregada pelos autores sob a autoridade de Hans Stade por me parecer mais eufonica. A exata lição pede acanga atara.
As duas nações não estão em guerra.—As nações tupís não viviam em um estado perene de guerra, como propalaram alguns escritores. A guerra era frequente; mas não constante. As nações faziam a paz e nella se mantinham até que sobrevinha alguma cauza de rompimento. Então não começavam as hostilidades senão depois de anunciada a guerra ao inimigo, o que se fazia lançando-lhe uma flecha na taba, ou levando-lhe um guerreiro o dezafio.
É uma prova do carater leal dos selvajens. Foi depois da colonização, que os portuguezes, assaltando-os como a feras, e caçando-os a dente de cão, ensinaram-lhes a traição que elles não conheciam.
Pojucan.—Contração de uma fraze tupica.I-pojuca;—significa: eu mato gente. Essas contrações não são arbitrarias; ellas eram da indole da lingua e conformes ao seu sistema de aglutinação. Todas as vezes que os indijenas compunham uma palavra, cerceavam as sílabas dos vocabulos que entravam na compozição, para ligal-as mais eufonicamente.
Lemos em Alfred Maury La Terre et l'homme, cap. VIII, o seguinte trecho:
«Nas linguas americanas, não é sómente uma sinteze que concentra em uma palavra todos os elementos da idéa mais complexa; ha ainda engrazamento (enchevêtrement) das palavras umas nas outras; é o que M. F. Lieber chama incapsulação, comparando a maneira por que as palavras entram na fraze a uma caixa na qual se conteria outra que a seu turno conteria terceira, esta uma quarta, e assim por diante. A incorporação das palavras é por vezes levada á extrema exajeração nesses idiomas, o que produz a mutilação dos vocabulos incorporados.»
Esta observação é da maior justeza e conforma-se de todo o ponto com a indole da lingua, como se vê nas seguintes palavras—A-por-u—como gente—A-poro-tim—enterro gente—A-po-çub—vizito a gente. (Vide Figueira, Gramatica da lingua do Brazil, paj. 51.)
Tapuia.—de taba e puir, o que foje das tabas. Davam os indijenas esse nome a povos mais barbaros e de lingua diversa. Segundo as ultimas investigações etnolojicas, pertenciam esses povos a uma raça diversa da tupí, e muito aproximada, senão conjenere do tipo mongolico. Entretanto Orbigny, L'Homme Américain, sustenta a identidade das duas raças, tapuia e tupí.
Tacape.—Davam os tupís o nome de apem, a um corpo alongado de fórma analoga á espada, e como ella cortante. Daí vinha chamarem a unha—po-apem, espada do dedo; e á raiz que surje da terra e se eleva como um galho—sapopema—raiz espada.
Á sua principal arma de guerra chamavam ita-ca-apem, espada de páu-pedra; ou ita-qui-apem, machado comprido de pedra, por ter sido dessa materia que primeiro o fabricaram, antes de aprenderem a lavrar a madeira.
Ácerca da força dessa arma e da destreza com que a manejavam, diz Lery que um tupinambá com ella armado daria que fazer a dois soldados de espada.
Guerreiro chefe.—Para compreender-se bem a força dessa dezignação, diremos alguma coiza ácerca da hierarquia selvajem.
Como a relijião, era simples o governo dos tupís; mas não careciam delle, segundo inculcam os cronistas: antes o tinham, e bem regulado para o seu estado de civilização.
Podemos distinguir na taba selvajem uma sociedade civil e uma sociedade politica; a primeira reduzida á familia, e a segunda excluziva á subzistencia, defeza e guerra.
A sociedade civil era constituida pela oca, a caza, onde o varão, aba, morava com suas mulheres, sua prole, os servos que trabalhavam para granjear as filhas em cazamento, os cativos que fazia na guerra, e os parentes que agregava a si.
O dono da caza, ou literalmente o que fazia a caza, moacara, era a perfeita imajem do patriarca. Elle governava a sua gente; e formava uma sociedade independente, no seio da grande sociedade politica, de que era membro e para cuja defeza concorria não só por interesse proprio, mas pela honra da nação.
Moacara nos dicionarios significa fidalgo. A tradução resente-se da preocupação do homem civilizado; mas havia realmente uma distinção entre o moacara, chefe da oca, pai de muitos guerreiros, e o simples individuo que ainda não possuia uma familia.
A sociedade politica, taba, era a reunião das ocas. Essa denominação vem de tama, a patria, o berço, a terra natal, e aba dezinencia que indica o logar, modo, instrumento da coiza. Assim, taba significa literalmente onde ou o que faz a patria, isto é, aldeia natal.
O governo da taba, essencialmente democratico, rezidia no conselho dos moacaras, entre os quais predominava a experiencia dos anciãos, que se chamavam abarés ou abaetês; isto é, varões egrejios.
Nações essencialmente guerreiras, tinham um chefe para governal-as nas jornadas e batalhas. A estes davam o nome de tuxava, ou tauxaba, o dono da taba, morubixaba, o que governa o povo; de moro, gente, e aba, dezinencia.
Quando as nações eram grandes e não cabiam numa taba, destacavam-se alguns moacaras com suas familias e formavam novas tabas, sujeitas á taba mãi. Daí se orijinaria a diferença das duas dezignações, vindo então tauxaba a dezignar o simples chefe de uma taba; e morubixaba o chefe da taba primitiva, ou da nação, moro.
Tambem acontecia que muitas vezes um moacara poderozo separava-se de sua nação por cauza de alguma dissenção intestina, e constituia-se independente com seus decendentes, e os guerreiros a elle sujeitos pelo parentesco. Essa oca independente, chamava-se moroca, isto é, oca de gente, de tribu e não mais de familia. O termo moloca tão frequente nos cronistas não é senão corruptela daquelle, e póde corresponder ao de tribu ou horda.
A nomeação do chefe participava da natureza dessa sociedade democratica e guerreira. O mais audaz e o mais forte impunha-se: a permanencia de sua autoridade, bem como sua extensão, dependia do respeito que elle conseguia infundir a seus guerreiros.
No momento em que surjia outro ambiciozo a disputar o poder, este tornava-se o premio do mais valente. Acontecia então que o vencido com seus sectarios revoltava-se; e daí as frequentes guerras intestinas, que aniquilaram a raça indijena, ainda mais talvez do que a crueldade dos europeus.
Na morte do morubixaba ocorria igual pleito. O filho apossava-se do poder pelo direito de herança; e o conservava se não aparecia algum emulo mais poderozo que lh'o arrebatasse.
Falando com as nossas teorias da civilização, podemos dizer que a baze desse poder executivo era, como nas republicas, o sufragio universal. Mas era o sufragio sempre ativo e vijilante, pronto a inclinar-se ao merecimento superior, onde elle se revelasse.
Entre o chefe guerreiro (poder executivo), e o conselho dos moacaras (poder lejislativo) os conflitos eram inevitaveis. Morubixaba haveria, como o celebre Cunhanbebe, que era um verdadeiro despota. O tacape de muito heróe tupí ha de ter governado tão absolutamente como a espada de Cezar ou de Napoleão.
Outros conflitos tambem se deviam dar frequentemente entre a influencia dos pajés e o poder do chefe ou dos anciãos. Aquelles sacerdotes, cercados do respeito dos guerreiros, fortes pelo prestijio de seus augurios e sortilejios, tentariam insuflados pela ambição governar a taba, ou pelo menos fomentar a rezistencia ao chefe.
Eis em escorço as paixões que deviam ajitar aquella sociedade politica, depois da guerra que era a maior preocupação.
Além das ocas, ou familias, havia na taba uma especie de oca mais vasta e comum. Nessa parece que moravam aquellas pessoas, que já não tinham oca, e estavam a cargo da nação; tais eram as velhas, e por este nome devem-se entender as mulheres sem companhia de marido, nem parentes; os orfãos, aos cuidados daquellas mãis emprestadas; e finalmente as moças que não faziam vida conjugal.
Vejamos agora a sociedade civil, tal como a podemos induzir dos acanhados esclarecimentos que nos deixaram os cronistas.
O cazamento, baze da familia, devia ter alguma ceremonia simbolica, ainda que não passasse da simples entrega da noiva ao varão. Essa minha supozição funda-se no fato de haver entre esses povos um cazamento bem caracterizado, e não simples coito.
A mulher lejitima distinguia-se pelo nome. O marido a chamava temireco, isto é, a verdadeira mãi de meus filhos; emquanto que ás outras mulheres, suas amantes, chamava aguaçaba. O marido tinha tambem um nome especial menda, que o distinguia do simples amante.
Acrece que para obter a noiva o varão sujeitava-se a certas condições, e até mesmo a provas de corajem; donde devemos inferir com boa razão, que não era esse um ato insignificante para os selvajens, a ponto de não o distinguirem com uma fórmula qualquer, elles que em outros pontos eram tão ceremoniozos, como na recepção do hospede, na declaração da paz ou da guerra.
Os cronistas, porém, não se ocuparam disso e todo seu tempo foi pouco para lamentarem a poligamia dos tupís, tirando logo dalí argumento para pintarem os selvajens vivendo a modo de cães.
É uma falsidade. Os tupís tinham moralidade conjugal, e até muito severa. O adulterio era punido de morte; e tambem por isso permitia-se o divorcio por mutuo consentimento.
A poligamia dos tupís foi da mesma natureza da que existiu entre os hebreus; era uma poligamia patriarcal, filha das condições da vida selvajem, e não a poligamia sensual dos turcos e outros povos do oriente, produzida unicamente pelo requinte da libidinajem.
Compreende-se que no estado selvajem ou primitivo, a mulher, fraca para rezistir aos perigos que a rodeavam, tinha necessidade de acolher-se ao amparo e proteção do homem. Por outro lado cada varão, no interesse não sómente de sua gloria, como de seu poder, carecia rodear-se de uma familia numeroza, e de gerar do seu proprio sangue, os seus guerreiros.
Entretanto, e é isto que distingue a poligamia patriarcal, a posse de muitas mulheres não destruia a instituição da familia, bem caracterizada pela preeminencia da primeira mulher ou a verdadeira espoza; e pela adoção dos filhos nacidos das outras mulheres, que se tornavam todos filhos da espoza, ou da verdadeira mãi, temireco.
Muita coiza poderia dizer ácerca da educação dos filhos e da condição da mulher, mas não cabe esse estudo em uma nota. Mais tarde e a propozito é possivel que o faça.
Para a intelijencia do texto basta saber-se que além da espoza, temireco, mãi da familia, das amantes, aguaçabas, que faziam parte da familia na condição de servas, havia—1.o as virjens, cunhantem, mulheres debalde, que pertenciam á familia, e se destinavam para espozas dos guerreiros que as obtivessem pelas provas de esforço e denodo; 2.o as velhas, ou mulheres já privadas de seus maridos, e que ficavam sob a proteção da comunhão, incumbidas da educação dos orfãos, e dos filhos anonimos; 3.o as moças ou mulheres que desprezavam o cazamento e viviam livremente aceitando o amor do guerreiro que lhes agradava, e do qual tinham filhos, que não pertenciam á familia, mas á tribu; eram estas as mulheres que ofereciam seu amor como penhor de hospitalidade ao estranjeiro que chegava á taba; 4.o finalmente, a classe infeliz, abandonada de todo o sentimento e de todo o pudor, á qual davam o nome de morixaba, literalmente coiza de todos; ou, segundo o testemunho de Ives d'Evreux, menondere, que equivalia a ladra; porquanto entendiam os selvajens que a mulher roubava seu primeiro amante dando ou vendendo a outro o amor que lhe pertencia.
Ainda nesta ultima escala, se estão manifestando as leis severas do recato e fidelidade da união sexual entre os selvajens. Além do cazamento lejitimo, havia o concubinato, como existiu entre os romanos, produzindo direito e obrigação reciproca. A mulher que traía a fé conjugal, ou o concubinato, era uma adultera, isto é, uma ladra e decia á ultima infamia. O marido tinha o direito de matal-a; o amante entregava-a ao desprezo da tribu.
Jaguarê agradece a Tupan.—Não achando entre os aborijenes templos e idolos, ainda que alguns cronistas atestam a existencia dos ultimos, foram os colonizadores peremptoriamente declarando ateus a esses povos. Mas logo, com incoerencia flagrante, reconheciam a existencia de uma superstição, que outra coiza não é a relijião na infancia da humanidade.
Os tupís adoravam uma excelencia superior, Tupan, que se manifestava pelo raio e pelo trovão; donde se induz o grande poder que atribuiam a essa divindade. Seu nome de raça aprezenta uma afinidade que faz prezumir a crença de uma decendencia celeste.
Tambem temiam os tupís o espirito do mal, personificado em Anhanga, o fantasma, que habitava as trévas, e a quem referiam um poder funesto. Para conjurar essa divindade malefica, tinham sacerdotes, os pajés, que buscavam sua força e virtude no fumo da planta sagrada, o tabaco.
Além disso contava a mitologia tupica genios bons e máus, que habitavam as florestas e os rios, e percorriam as solidões montados em caitetús, ou transformados em certos animais. Entre estes mencionarei o caipora e a mãi d'agua, cuja abuzão transmitiu-se á raça conquistadora, e de que ainda se encontram vestijios entre as populações do norte.
Não ha contestar que aí está uma relijião bem caracterizada. Mas como faltassem templos e idolos, os decendentes dos barbaros gaulezes, godos, francos e celtas não podiam admitir na America uma relijião sem culto regular, qual a tiveram aquelles selvajens europeus.
Entre os viajantes que mais tarde percorreram a America havia espiritos superiores, dedicados ao estudo da humanidade, que investigavam sem prevenções a orijem e indole das raças indijenas do novo mundo. Na primeira plaina destes sabios figura Alexandre de Humboldt.
O eminente naturalista assinalou a cauza dessa auzencia de culto dos aborijenes do Brazil, quando observou que o antropomorfismo da divindade se manifesta por dois modos: da terra ao céu, como na Grecia, ou do céu á terra, como na America. Voyage au Nouveau Continent—8.o volume, paj. 243.
Quando a imajinação do homem personificando a divindade á sua imajem a faz subir ao céu, como os numes pagãos da Grecia, ella é levada naturalmente a oferecer-lhe uma constante adoração com que mantêm o vinculo da creatura ao creador. Daí a necessidade de idolos, que simbolizem esses numes, e a tenham prezente aos olhos mortais.
Diverso, porém, é quando, concebendo a divindade á sua imajem, o mortal a humana inteiramente, transportando-a do céu á terra. Então o homem figura-se não a creatura, mas o decendente, o filho de seu deus.
Dezaparece a necessidade dos idolos, pois a verdadeira reprezentação da divindade na terra é o mesmo homem que a continúa. Cada um tem o seu nume em si. A adoração transforma-se naturalmente no culto da propria individualidade, nessa exajeração prodijioza do estalão humano, que distingue as idades heroicas.
É pela ostentação da corajem, da força, da grandeza de animo, que o selvajem se elevava até o deus, seu projenitor; e não pela adoração, pelas preces e oferendas uzadas no paganismo grego, o qual estava bem lonje da humildade evanjelica do cristianismo. Os tupís não careciam, pois, de orações e sacrificios; as façanhas com que se mostravam dignos de sua orijem celeste eram as melhores oblações do seu culto.
Tal era o respeito que o selvajem professava pela dignidade humana, que matava as pessoas mais caras quando não se podiam curar da enfermidade. Essa implacavel sujeição ao mal, abatia e humilhava uma raça forte e guerreira.
Muitos outros exemplos podia aprezentar dessa elevada conciencia da individualidade, que distinguia no mais alto ponto o selvajem brazileiro.
Eis o que não souberam ver os cronistas, quando taxaram de ateus aos indijenas americanos.
Abstraindo da moral absoluta em que só ha uma verdade, a do cristianismo, e tomada a questão no ponto de vista da arte, não se póde recuzar a essa relijião tupí, que nivela o homem á divindade, certo cunho de grandeza selvajem e um vigorozo sentimento da individualidade.
O paganismo grego lhe fica inferior nesse ponto da dignidade humana; ao passo que elle tornava a raça de Japeto escrava submissa dos deuzes, e vitima de seus caprichos e vinganças, na mitolojia americana o homem é o filho e o emulo da divindade.
Á parte as ficções graciozas do espirito helenico, a mitolojía grega só tem uma creação que reveste a majestade da relijião tupí; é a creação dos semi-deuzes, em que se operava o antropomorfismo terrestre da divindade, qual se deu na America.
Considerando-se divino, o selvajem americano acreditava-se combatido por um ente malefico, antagonista do deus de quem decendia. Nos achaques e mizeria que aflijem a humanidade via as manifestações desse poder funesto. Os sacerdotes o esconjuravam por sortilejios; os heróes, porém, rezistiam-lhe pela constancia e o afrontavam.
Á essa relijião simples e sem aparato, como devia ser uma relijião das florestas, professada por povos caçadores e guerreiros, coroava a crença profunda e inalteravel da imortalidade da alma, revelada pela veneração ás cinzas dos mortos, e pelas ceremonias da inhumação.
Os indijenas encerravam suas mumias em tumulos especiais, a que davam o nome de Camucins; e as acompanhavam não só das armas e objetos de uzo proprio, como de alimentos para a viajem aos campos alegres, onde iam reviver os guerreiros e suas mulheres.
Basta este rapido esboço para dar idéa da relijião dos tupís, e avaliar o criterio daquelles que os consideravam estranhos a qualquer noção da divindade.
Um povo que mantinha as tradições a que aludimos, não era certamente um acervo de brutos, dignos do desprezo com que foram tratados pelos conquistadores. E quando, através de suas falsas apreciações, a verdade pôde chegar até nossos tempos, o que não seria, se espiritos despreocupados e de vistas menos estreitas, vivendo entre essas nações primitivas, se aplicassem ao estudo de suas crenças, tradições e costumes?
Os jezuitas, que podiam melhor realizar esse estudo, eram induzidos a exajerar a ferocidade e ignorancia dos selvajens, no interesse de tornar indispensavel sua catequeze. Já imbuidos da intolerancia relijioza, a politica exajerava ainda mais sua suspeição.
Ubiratan.—Páu-ferro; literalmente ubira—madeira, e atan—duro. Atan não é senão a palavra ita com a terminação ana, que na lingua tupí servia para a formação dos adjetivos. Itana, o que tem a natureza de pedra. Assim, de pedra fizemos nós pedregozo. Rigorozamente ubiratan é páu-pedra; pois que os indijenas não conheciam o ferro. Era dessa madeira que faziam os tacapes.
O chefe tocantim.—Os autores empregam em geral os termos maioral, principal, para dezignar o cabeça de uma tribu ou nação indijena. Alguns, como Southey, serviram-se do termo cacique adotado dos Araucanos; Barlœus chamou-os classicamente de reis.
Neste livro, como em Iracema, preferi traduzir o termo indijena tuxaba, por chefe; e fui levado pela razão de ser, além de muito apropriado e vulgar, um termo nobre e sucetivel de entrar no estílo o mais elevado, sem laivos de afetação. Ao morubixaba pela mesma razão chamei chefe dos chefes.
Calcou a mão sobre o hombro esquerdo.—Ácerca desse modo simbolico de assegurar o vencedor seu imperio sobre o cativo, é curiozo o que referiu e notou Ives d'Evreux, cap. XIV.
«Então eu soube que era uma ceremonia de guerra praticada entre essas nações, que quando um prizioneiro cae na mão de algum, aquelle que o toma, bate-lhe com a mão na espadua dizendo-lhe: «Eu te faço meu escravo»; e desde então esse pobre cativo, por maior que seja entre os seus, se reconhece escravo e vencido, segue o vitoriozo, o serve fielmente, sem que seu senhor se importe com elle; tem liberdade de andar por onde lhe pareça, não faz senão o que quer e ordinariamente espóza a filha ou irmã de seu senhor, até o dia em que deve ser, morto e comido.»
Depois o missionario lembra as palavras de Isaías cap. 9—Factus est principatus super humerum ejus—e cap. XXII—Dabo clavem dominis David super humerum ejus; e mostra a conformidade desse rito dos tupís com as tradições dos hebreus e outros povos primitivos.
Ubirajara—senhor da lança, de ubira—vara e jara—senhor; aportuguezando o sentido, vem a ser lanceíro.
Com este nome existia ao tempo do descobrimento, nas cabeceiras do rio S. Francisco uma nação de que fala Gabriel Soares—Roteiro do Brazil, cap. 182.
«A peleja dos Ubirajaras, diz esse escritor, é a mais notavel do mundo, como fica dito, porque a fazem com uns páus tostados muito agudos, de comprimento de tres palmos pouco mais ou menos cada um, e tão agudos, de ambas as pontas, com os quais atiram a seus contrarios como com punhais, e são tão certos com elles que não erram tiro, com o que têm grande chegada; e desta maneira matam tambem a caça que, se lhe espera o tiro, não lhe escapa; os quais com estas armas se defendem de seus contrarios tão valorozamente como seus vizinhos com arcos e flexas, etc.»
Desta arma e da destreza com que a manejavam proveiu o nome de bilreiros que lhe deram os sertanistas, significando assim que tanjiam suas lanças com ajilidade e sutileza igual á da rendeira ao trocar os bilros.
Preciza de um prizioneiro.—Era entre os selvajens maior honra conduzir da guerra um prizioneiro, para ornar o seu triunfo e a festa de vitoria, do que matal-o em combate. Veja Gabriel Soares—cit. na nota 4a.
Chamas de alegria.—Metafora tupí. Chamavam a alegria e a festa toríba, literalmente, grande quantidade de fogueiras.
Historia de guerra.—Os tupís para exprimirem historia, ou narrativa, diziam maranduba, conto de guerra, de mara—guerra—nheng—falar e tuba—muito; falar muito de guerra.
Depois aplicaram os indijenas essa palavra a toda narrativa, se é que não crearam para as outras historias o termo analogo de poranduba, composto de poro, nheng, e tuba—falar muito da gente.
Os indios eram muito apaixonados dessas narrações, em que mostravam sua natural eloquencia. Informa-me o Dr. Coutinho, incansavel explorador do vale do Amazonas, que ainda hoje nenhum indio chega de viajem, que não diga a sua maranduba, que é o recito circumstanciado de quanto viu e lhe aconteceu em caminho.
Ás vezes traduzo o termo; outras o emprego orijinal para mais incutir no livro o espirito indijena. Do mesmo modo procedi ácerca de outros termos eufonicos tais como tuxaba, moribixaba, moacara, nhengaçara, etc.
Os cantores.—Os tupís eram muito dados á muzica e á dansa.
Lery fala com entuziasmo da doçura de seus cantos; e Ferdinand Denis, paj. 21, afirma, não sei com que fundamento, que a imitação dos Chataws da America do Norte, certas nações do Brazil gozavam do privilejio de fornecer poetas e musicos aos outros povos, como sucedia com os tamoios entre os tupís.
Gabriel Soares—cap. 162—descreve os cantos, improvizos e dansas dos tupinambás, concluindo com estas palavras:
«Entre este gentio, os muzicos são muito estimados e por onde quer que vão, são bem agazalhados e muitos atravessaram já o sertão por entre seus contrarios, sem lhes fazerem mal.»
Como chefe pertence-lhe a virjem, etc, Barlœus—2.a edic. paj. 483.—Quotquot luta, hastarum concursu ac venatu prœcellunt, eminentiores habentur et ut hœroum numero, qui ob virtutis fortitudinisque excellentiam ab ipsis virginibus ambire mœrentur, cum meliores ex melioribus nasci opinentur, nec vanum esse nobilitatis nomen, sed cum sanguine transfundi.»—Quantos disputam em jogos de lança e caça; os eminentes são tidos no numero dos heróes; os quais pela excelencia da virtude e fortaleza merecem possuir as mesmas virjens; por quanto pensam que os melhores nacem dos melhores; nem é vão nome a nobreza, pois se comunica pela transfuzão do sangue.
Purifica o corpo.—Os selvajens distinguiam-se pelo apurado asseio. Ives d'Evreux diz a este respeito: «Ils sont fort soigneux de tenir leur corps net de toute ordure: ils se lavent fort souvent tout le corps et ne se passe jour qu'ils ne jettent sur eux force eau et se frottent avec les mains de tous côtés et en toutes les parts, pour oster la poudre et autres ordures. Les femmes ne manquent de se peigner souvent.»
Pag. 25
Urú.—Tinham os indijenas varias especies de moveis para guardar objetos. O urú era um cesto aberto. Panacum era um cesto maior com tampa. Samburá era cesto com orelha, corrupção de nambi e urú, literalmente cesto de orelha. Tinham ainda os selvajens o patiguá ou patuâ, que era uma caixa de palha ou couro; e o mocô, pequeno surrão da pele felpuda do coelho. Todos estes nomes ainda são uzados no norte para dezignar os mesmos objetos, produtos da industria indijena, aproveitada pelos colonizadores.
Coqueiros.—Ao que disse em nota de Iracema ácerca do indijenismo desta planta acrecentarei a noticia que della nos deixou Guilherme Piso—Historiæ Rerum Naturalium Brasiliæ, Liv. 8o, p. 138.
«Inaiá Guacuiba cujus fructus inaiaguacu brasiliensibus; in congo vocatus Ejaquiambutu et fructus Quetiniga quiambutu: Palma nucifera, lusitanis coqueiro et fructus illius coco; qui tribus suis foraminulis lavam representat. Arbor caudice raro recto, sed plerumque incurvato, quatuor, quinque sex aut etiam septem pedes crasso, triginta, quadraginta et interdum quinquaginta pedes alto.»
É esta mesma palmeira que os Mexicanos chamavam Cogolli. Piso viu em 1640 na cidade Mauricéa (Recife) transplantarem-se pés que tinham mais de 24 anos.
Cabelos.—Pelos cabelos costumavam distinguirem-se as diversas nações indijenas. Southey—I, cap. 8o. Das mulheres diz Barlœus:—Fœminis coma promissa nisi per luctus tempora aut absens marito.—paj. 36. Traziam as mulheres a madeixa longa, salvo no tempo do luto ou auzencia do marido.
Mais um traço do carater e costumes indijenas. Durante a auzencia do marido, a mulher trazia uma especie de luto, ou mostra de tristeza e saudade, que era simbolizada pelo sacrificio das longas tranças dos cabelos.
Braços que tu querias para tua cintura.—Metafora da lingua tupí, que exprime o amor; aguaçaba, a amante, literalmente, o que se tem á cintura.
Escravo.—Acerca das leis do cativeiro entre os indios leiam-se os dois capitulos XV e XVI, que a este assunto consagrou Ives d'Evreux, citado.
Os cativos viviam em plena liberdade na taba de seus senhores, e era muito raro que fujissem, porque se consideravam ligados por um vinculo desde o momento em que o vencedor lhes calcava a mão sobre a espadua. Quebrar esse vinculo, era por elles considerado uma dezhonra.
Até os prizioneiros destinados ao suplicio, preferiam a morte glorioza a se rebaixarem pela fuga no conceito de seus inimigos. «Muitas vezes as mulheres tomavam substancias que provocavam o aborto, não querendo passar pela mizeria de verem trucidada a prole; não raro favoreciam a fuga dos tristes maridos de alguns dias pondo-lhes comida nos bosques e até escapulindo-se com elles. Frequentemente sucedeu isto a prizioneiros portuguezes; os indios brazileiros, porém, julgavam dezhonroza a fuga, nem era facil persuadil-os a tomal-a.» Southey—cap. VII onde cita—Noticias do Brazil, II, 69 e Herrera 4, 3, 13.
Abbeville ainda é mais explicito:—Et bien que estant desliez et libres comme ils sont, ils puissent fuir et se sauver, si est ce que ils ne font jamais encore qu'ils soient assurez de estre tuez et mangez au bout de quelques temps. Car si quelqu'un des prisionniers s'etait eschapé pour retourner em son pays, non seulement il serai tenu pour un couaen eum, c'est a dire poltron et lasche de courage; mais aussi ceux de sa nation mesme ne manqueroient de le tuer avec mille reproches de ce qu'il n'aurait pas eu le courage d'endurer la mort parmi ses ennemis, comme si ses parents et tous ses semblables n'etaient assez puissants por venger sa mort, etc. pag. 290.
As leis da cavalaria no tempo em que ella floreceu em Europa não excediam por certo em pundonor e brios a bizarria dos selvajens brazileiros. Jámais o ponto de honra foi respeitado como entre estes barbaros, que não eram menos galhardos e nobres do que esses outros barbaros, godos e arabes, que fundaram a cavalaria.
Alí está uma pedra de toque para aferir-se o carater do selvajem brazileiro, tão deprimido por cronistas e noveleiros, avidos de inventarem monstruozidades para impinjil-as ao leitor. Nem isso lhes custava; pois a raça invazora buscava justificar suas cruezas rebaixando os aborijenes á condição de féras, que era forçozo montear.
O suplicio.—Outro ponto em que se assopra a ridicula indignação dos cronistas é ácerca da antropofagia dos selvajens americanos.
Ninguem póde seguramente abster-se de um sentimento de horror ante essa idéa do homem devorado pelo homem. Ao nosso espirito civilizado, ella repugna não só á moral, como ao decoro que deve revestir os costumes de uma sociedade cristã.
Mas antes de tudo cumpre investigar a causa que produziu entre algumas, não entre todas as nações indijenas, o costume da antropofagia.
Disso é que não curaram os cronistas. Alguns atribuem o costume á ferocidade, que transformava os selvajens em verdadeiros carniceiros, e tornava-os como a tigres sedentos de sangue. A ser assim não faziam mais do que reproduzir os costumes citas, que sugavam o sangue do inimigo ferido,—quem primum interemerunt, ipsis é vulneribus ebibere. Pomponius Mœla. Descrip. da Terra.—Liv. 2o cap. 1o.
Outros lançam a antropofajia dos americanos á conta da gula, pintando-os igual á horda bretã das Gallias, os Aticotes, dos quais diz S. Jeronimo que se nutriam de carne humana, regalando-se com o ubere das mulheres e a fevera dos pastores. (S. Hieronimo IV.—paj. 201, adv. Jovin.—Liv. 2o.)
O canibalismo americano não era produzido, nem por uma nem por outra dessas cauzas.
É ponto averiguado, pela geral conformidade dos autores mais dignos de credito, que o selvajem americano só devorava o inimigo, vencido e cativo na guerra. Era esse ato um perfeito sacrificio, celebrado com pompa, e precedido por um combate real ou simulado que punha termo á existencia do prizioneiro.
Simão de Vasconcelos, Cronica da companhia, 1 § 49, alude a uma velha que sentia entojos por não ter a mãozinha de um rapaz tapuia para chupar-lhe os ossinhos: e Hans Stade, paj. 4, cap. 43 e seg., conta a historia de dois individuos moqueados pelos tupinambás, e guardados para um banquete.
Não exajeremos, porém, esses fatos izolados, alguns dos quais podem não passar de caraminholas, impinjidas ao pio leitor. Os costumes de um povo não se aferem por acidentes, mas pela pratica uniforme que elle observa em seus atos.
Se os tupís fossem excitados pelo apetite da carne humana, elles aproveitariam os corpos dos inimigos mortos no combate, e que ficavam no campo da batalha. A guerra se tornaria em caçada; e em vez de montear as antas e os veados, os selvajens se devorariam entre si.
Não ha, porém, escritor sério que deixasse noticia de fatos daquella natureza; e não me recordo de nenhum que referisse exemplos de serem devoradas mulheres e meninos; salvo quanto aos ultimos, o filho do prizioneiro de guerra (Not. do Brazil.—II, 69), do que tenho razão para duvidar.
Parece-nos, pois, que a idéa da gula deve ser repelida sem hezitação. Se em algumas tribus ou malocas se propagou o apetite depravado, essa dejeneração foi por ventura devida ao contajio dos Aimorés, cuja invazão é posterior ao descobrimento. Em todo o cazo é uma exceção que não póde preterir o rito da relijião tupica.
Tambem pela contraprova, havemos de excluir a ferocidade, como razão do canibalismo americano.
Se o instinto carniceiro dominasse o tupí, elle se lançaria sobre o inimigo como o cita, ou o sarraceno de que fala Am. Marcellinus, para sugar-lhe o sangue da ferida, e trincar-lhe as carnes ainda vivas e palpitantes.
Mas, ao contrario, vemos que o guerreiro tupí tinha por maior bizarria cativar seu inimigo no combate, e trazel-o prizioneiro, do que matal-o. Chegado á taba, em vez de o torturar dava-lhe por espoza uma das virjens mais formozas, a qual tinha a seu cargo nutril-o e tornar-lhe agradavel o cativeiro.
Releva notar que a idéa da antropofajia já era comum na Europa, antes do descobrimento da America; não só pelas tradições dos barbaros, como pelas crendices da média idade, nas quais figuravam gigantes e bruxas, papões de meninos. Que tema inexgotavel para a imajinação popular não veiu a ser a primeira noticia, senão conjetura, sobre o canibalismo do selvajem brazileiro?
Cronista ha que nesse costume, onde se está revelando a força tradicional de um rito, não enxergou senão o zelo do glotão, que engorda a preza para saboreal-a. Mas essa ridicula supozição nem ao menos se conforma com o teor da vida selvajem, a qual desconhecia a industria da criação.
O selvajem comia a caça como a encontrava no mato, gorda logo depois do inverno, e magra na força da seca. Não se dava ao trabalho de a engordar. Porque motivo se havia de afastar desse uzo ácerca do homem, se o homem fosse para elle uma especie de caça?
E por ventura faria parte do processo da engorda do bipede, o acessorio de uma companheira formoza e na flôr da idade, qual invariavelmente a davam ao prizioneiro?
É obvio que esse uzo tinha outra razão mui diversa. Não se tratava de engordar o prizioneiro, mas de fortalecel-o, para que elle morresse com honra no dia do sacrificio, que devia ser o seu ultimo combate.
Ainda nessa ocazião, os vencedores ostentavam sua gravidade, deixando que o prizioneiro exaltasse o proprio valor e os afrontasse com seu desprezo. Só chegado o momento depois de celebrada a ceremonia, o abatiam com um golpe de tacape.
A ferocidade não se coaduna com a calma e comedimento desse proceder. Póde-se explicar o sacrificio humano dos tupís por um intenso e profundo sentimento de vingança; mas não por sanha brutal.
Ferdinand Saint-Denis (Univers, Brésil, pag. 30) diz com muito criterio:—En accomplissant ces sacrifices, les tupinambás n'obéissaient pas, comme pourraient le croire quelques personnes, à un goût depravé qui leur aurait fait préférer la chair humaine à toutes les autres; ils étaient mus avant tout par un esprit de vengeance que se transmettait de génération en génération, et dont notre civilisation nous empêche de comprendre la violence.
Não era, porém, a vingança a verdadeira razão da antropofajia. O selvajem não comia o corpo do matador de seu pai ou filho, se acontecia matal-o em combate. Abandonava o cadaver no campo, e apenas cortava-lhe a cabeça para espetal-a em um poste á entrada da taba, e arrancava-lhe o dente para troféu.
A vingança, pois, esgotava-se com a morte. O sacrificio humano significava uma gloria insigne rezervada aos guerreiros ilustres ou varões egrejios quando caíam prizioneiros. Para honral-os, os matavam no meio da festa guerreira; e comiam sua carne que devia transmitir-lhes a pujança e valor do heróe inimigo.
Este pensamento resalta dos mesmos pormenores com que os cronistas exajeraram o cruento sacrificio.
Morto o inimigo, não era devorado; antes as mulheres tratavam o corpo e o curavam, moqueando as carnes. Essas eram guardadas; e distribuidas por todas as tribus, incumbindo-se os que tinham vindo assistir á ceremonia, de leval-as ás tabas remotas.
Os restos do inimigo tornavam-se, pois, como uma hostia sagrada que fortalecia os guerreiros; pois ás mulheres e aos mancebos cabia apenas uma tenue porção. Não era a vingança; mas uma especie de comunhão da carne, pela qual se operava a transfuzão do heroismo.
Por isso dizia o prizioneiro:—«Esta carne que vêdes não é minha; porém vossa; ella é feita da carne dos guerreiros que eu sacrifiquei, vossos pais, filhos e parentes. Comei-a; pois comereis vossa propria carne.» Deste modo retribuia o vencido a gloria de que os vencedores o cercavam. O heroismo que lhe reconheciam, elle o referia á sua raça de quem o recebera por igual comunhão.
Algumas nações tinham outra comunhão, inspirada no mesmo pensamento. Era a dos ossos dos projenitores que reduziam a pó, e que bebiam dissolvidos no cauim em festas de comemoração. Este fato, assim como o sacrificio tremendo da mãi, que devia absorver em si o filho que lhe nacera morto, bem mostram que por modo algum naceu do espirito de vingança o chamado canibalismo.
Transportemo-nos agora, não como homens e cristãos, mas como artistas, ao seio das florestas seculares, ás tabas dos povos guerreiros que dominavam a patria selvajem; e quem haverá tão severo que negue a fera nobreza desse barbaro e tremendo sacrificio?
A idéa repugna; mas o banquete selvajem, tem uma grandeza que não se encontra no festim dos Atridas; e está bem lonje de inspirar o horror dessa atrocidade que entretanto não foi desdenhada pela muza classica.
No Brazil é que se tem dezenvolvido da parte de certa gente uma aversão para o elemento indijena de nossa literatura, a ponto de o eliminarem absolutamente. Contra essa extravagante pretenção lavra mais um protesto o presente livro.
Para concluir com este ponto, observaremos que nem todas as nações selvajens eram antropofagas; e que em minha opinião esse costume, bem lonje de ser introduzido pela raça tupí, foi por ella recebido dos Aimorés e outros povos da mesma orijem, que ao tempo do descobrimento apareceram no Brazil.
Espoza do tumulo.-Este rito selvajem é muito conhecido e dispensa-me de transcrever o que ácerca delle escreveram os cronistas.
Mais uma prova do carater generozo e bizarro do selvajem brazileiro. Lonje de torturarem seu prizioneiro, ao contrario se esforçavam em alegrar-lhes os ultimos dias pelo amor; davam-lhe uma espoza; e tão grande honra era esta que o vencedor a rezervava para sua filha ou irmã virjem; e se não a tinha, para a filha de algum dos principais da taba.
Falam alguns autores da cunhãmembira, como de uma ceremonia em que se devorava o filho que por ventura a espoza do tumulo concebia do prizioneiro morto. Duvido da generalidade desse fato, que me parece adulterado, e seria especial aos tamoios.
Cunhãmembira, dizem esses autores, significa filho da mulher; e daí diz Southey, copiando Lery, tiravam elles uma horrivel consequencia, que era devorarem a criança.
Ora, cunhãmembira significa saído do ventre da mulher. A lingua tupí não tinha outro modo de dezignar a maternidade: taíra—isto é, saído do sangue, diziam do filho ácerca do pai; e membira, diziam do filho ácerca da mãi. Na expressão cunhãmembira não ha senão a antepozição do substantivo cunham (mulher) que os indios suprimiam por superfluo; assim como suprimiam na outra palavra dizendo simplesmente taíra e não aba-taíra saído do sangue do varão.
Se o nome de cunhãmembira indicasse estar a criança destinada ao suplicio, então todos os nacidos da taba se achariam no mesmo cazo, pois todos eram em relação ás mais, membiras ou cunhã membiras.
Ainda mais, se a criança era condenada ao suplicio pela razão de ser do sangue inimigo, parece que o nome a ella dado devia exprimir esse fato importante e derivar-se antes desta fraze: miauçubtaíra—o gerado do sangue do cativo.
A estes filhos dos prizioneiros chamavam os indijenas marabá, gerado da guerra, nome honrozo, que revelava o apreço em que tinham essa prole, saída de um sangue heroico. E tanto assim era que destinavam para conceber essa prole o seio da virjem mais ilustre da taba.
Se os selvajens, que nada praticavam sem uma razão justificativa, só tinham em mira devorar os filhos do cativo, para que dar-lhe uma espoza ilustre? Mais sagazmente procederiam adjudicando-lhe diversas mulheres para terem maior criação a matar.
Está-se conhecendo que o tal banquete não passa de um invento de cronistas, que entenderam as outras palavras dos indios tão bem como a de cunhãmembira que elles diziam significar filho do inimigo.
Cunhãmembira creio eu ser a festa que se fazia pelo parto da mulher; e talvez acontecendo nacer morta a criança, se orijinasse a fabula do sacrificio que então se praticava entre algumas nações de ser a mãi obrigada a absorver em si esse fruto goro de sua fecundidade.
Guainumbí.—«Persuadem-se os brazilienses haver uma ave, que chamam colibri, a qual leva e traz noticia do outro mundo.» Santa Rita Durão—Notas ao Caramurú.
Tambem chamavam os indios esse passaro, Guaraciaba—cabelos do sol; e Arati, ou Arataguaçú segundo Marcgraff, 197. Quanto ao nome de Guainumbí, ou mais corretamente Guinambí, penso eu que significa o brinco das flôres. Os selvajens tiraram naturalmente essa dezignação do modo por que o colibri tremula, como suspenso á flôr para chupar-lhe o mel, semelhante ao movimento das arrecadas suspensas ás orelhas, e que elles chamavam nambípora.
Jussara.—«Nas povoações feitas em terra têm muitas nações guerreiras a providencia de as segurarem e munirem com fortes muralhas, não de pedra, mas de estacas do páu duro como pedra. Outros as fabricam de palmeira, que chamam jussara, cujos espinhos são tão grandes e duros, que servem a muitos de agulhas de fazer meias; e as trincheiras feitas de jussara são mais seguras que as mais bem reguladas fortalezas; porque de modo nenhum se podem penetrar e romper senão com fogo por crecerem não só cheias de grandes estrepes ou agudos espinhos, mas tão enlaçadas e enleadas umas com outras que se fazem impenetraveis. (Tezouro descoberto no rio Amazonas, Part. 2a, cap. 1o, no 2o vol. da Rev. do Instituto, paj. 350.)
O nome da palmeira é em tupí jussara, de ju—espinho e ara dezinencia.
Carbeto.—Assim chamam Ives d'Evreux e Abbeville ao conselho dos velhos entre os selvajens. Este nome deriva-se naturalmente de caraiba, varão ilustre e ipê, logar onde.
Hospede.—A virtude da hospitalidade era uma das mais veneradas entre os indijenas. Todos os cronistas dão della testemunho; e alguns, como Lery e Ives d'Evreux, descrevem com particularidade o modo liberal e generozo por que os selvajens brazileiros a exerciam.
É certo que não escapou tambem á malevolencia dos cronistas, essa excelencia e nobreza do carater indijena. Gabriel Soares cit. cap. 168 depois de falar do como os tupinambás agazalhavam os hospedes, acrecenta: «e lançam suas contas se vem de bom titulo ou, não; e se é seu contrario, de maravilha escapa que o não matem, etc.» Southey cit. cap. 8o faz coro com essa versão que nos parece suspeita.
É possivel que depois da colonização, os selvajens vitimas das perfidias dos aventureiros relaxassem suas tradições; mas a hospitalidade foi sempre entre elles uma coiza sagrada, como atestam em geral os escritores, que não referem aquella exceção.
Basta refletir sobre o modo por que exerciam os selvajens a hospitalidade para reconhecer que não é admissivel a suspeita de Gabriel Soares. Em verdade, aquelles cuja porta estava aberta sempre ao viajante; que franqueavam o ingresso de sua cabana por tal modo que o estranjeiro nella entrava como senhor, ainda mesmo na auzencia do dono; que sem perguntar o nome de quem chegava nem de onde vinha o agazalhavam com a maior liberalidade; esses que assim acolhiam o hospede, não podiam ocultar a intenção perfida de o matar, no cazo de ser contrario. Ha uma tal contradição entre esse desfecho e as circumstancias precedentes, que não se póde acreditar nelle pelo simples dizer de um cronista, que em muitas outras inexatidões caiu.
Se ha traço nobre do carater selvajem é essa hospitalidade, que o estranjeiro não pedia e sim exijia como um direito sagrado, com esta simples formula—Vim; ao que o dono da cabana respondia—Bem vindo.
O epizodio da deliberação do conselho sobre o nome do estranjeiro está justificado pelo trecho seguinte de Ives d'Evreux, cap. 50.
«Aprés ces paroles il vous dit—Marapé derere? comment t'appelles-tu? quel est ton nom? comme veux-tu que nous t'appellions? Quel nom veux-tu qu'on t'impose? Où faut-il noter que si vous ne vous estes donné et choisi um nom, lequel vous leur dites alors et desormais estes appellé par tout le pays de ce nom, les sauvages du village ou vous demeurez vous en choisiront um pris des choses naturelles, qui sont en leurs pays et ce le plus convenablement qu'il leur sera possible, selon la phisionomie qu'ils verront en votre visage, ou selon les humeurs et façons qu'ils reconnaitront en vous..... Eh bien quel nom donnerons nous a un tel ton compére? Je ne sais, il faut voir; lors chacun dit son opinion et le nom qui rencontre le mieux et est reçu de l'assemblée, est imposé avec son consentement si c'est quelque homme d'honneur.»
Ainda nessa circumstancia se revela a delicadeza da hospitalidade do selvajem.
Artes da paz.—É ainda de Ives d'Evreux, cap. 18, esta curioza informação. «Je raconterai ici une jolie histoire. Un jour je m'allois visiter le grand Theon, principal des Pierres Vertes Tabaiares: comme je fus en sa loge et que je l'eus demandé, une des ses femmes me conduit soubs une belle arbre qui estoit au bout de sa loge, qui la couvrait du soleil; lá-dessous il avait dressé son mestier pour testre des licts de coton et travaillait après forte soigneusement; je m'étonnai beaucoup de voir ce grand capitaine, vieil colonel de sa nation, ennobli de plusieurs coups de mousquets, s'amuser à faire ce mestier et je ne peus me taire que je ne sçusse la raison espérant apprendre quelque chose de nouveau en ce spectacle si particulier. Je luy fist demander par le truchement qui estoit avec moy, à quelle fin il s'amusait à cela? il me fit response: «Les jeunes gens considérent mes actions et selon que je fais ils font; si je demeurais sur mon lit à me branler et humer le petim, ils ne voudraient faire autre chose; mais quand ils me voient aller au bois, la hache sur l'épaule et la serpe en main, ou qu'ils me voient travailler à faire des licts, ils sont honteux de rien faire, etc.»
Lançadeira.—Os indijenas tinham um tear que é descrito por Lery, cap. 18. Uzavam tambem de um fuzo comprido e grosso, que as mulheres faziam girar entre os dedos, atirando ao ar, como ainda agora fazem as velhas fiandeiras do sertão.
Jurandir.—Contração da fraze Ajur-rendipira—o que veiu trazido pela luz.
Jabotí.—Contou-me o Dr. Coutinho que o jabotí para os indios do Amazonas é o simbolo da gravidade, prudencia e sabedoria, e prometeu-me dar um apologo, em que elles celebram essas virtudes, contando a historia de um jabotí, que venceu na lijeireza ao veado, na força á onça e assim aos mais animais.
Tetivas.—Os Tetivas habitam nos olhos das palmeiras e de outras arvores: põem-lhes terra e acendem fogo. Humboldt cit., paj. 283.
Mulheres guerreiras.—Aluzão ás Amazonas cuja existencia é tão controvertida. Eu acredito na sua existencia, embora reconheça que houve exajeração de Orellana.
Não é este o momento de elucidar este ponto da historia, ou antes mitolojia do Brazil selvajem. Proponho-me a fazel-o quando publicar uma lenda que tenho esboçada ácerca do assunto. Nessa ocazião direi o que entendo ácerca da memoria do Dr. Gonçalves Dias, publicada na Revista do Instituto.
Senhoras de seu corpo.—Metafora tupí. No varão a parte nobre era o sangue; pelo que elle dizia do filho—taíra, o filho do meu sangue; e para indicar a independencia diziam taíguara, que os dicionarios traduzem livre, mas que literalmente significa, senhor do seu sangue.
A mulher que dizia do filho membira—o gerado de meu ventre, devia pela mesma razão uzar de expressão analoga para exprimir sua liberdade, e dizer membijara—senhora de seu ventre, que eu por elegancia traduzo menos literalmente, senhora de seu corpo.
Pará sem fim.—Par, diz Humboldt cit. paj. 285, é uma radical guaraní e exprime agua. Pará creio eu que significou a grande abundancia de agua, e foi primitivamente empregado para dezignar os lagos e por ventura as vastas inundações do vale do Amazonas. Mais tarde os selvajens acrecentaram-lhe o verbo nhane correr, e disseram pará-nhanhe—donde paranãn para dezignar as grandes massas de agua corrente, isto é, os rios caudalozos.
Os dois maiores rios da America do Sul, o Amazonas e o Prata, ambos se chamavam Paranãn, assim como outros muitos do Brazil. O mesmo radical se encontra já composto em Paraíba, Parnaíba, Paranapanema, etc.
Foi a substituição do p pela analoga m que produziu o nome de Maranhão, ácerca de cuja etimolojia se inventaram tantas extravagancias.
Guerreiros do mar.—Tradução da palavra tupí caramurú com que os tupinambás da Baía dezignaram Diogo Alvares Correia.
Caramurú é composto de cara, alteração de Pará—mar e moro, gente; homem do mar. Os selvajens acreditavam que as aguas eram habitadas, e daí naceu a lenda da mãi d'agua, que se transmitiu á raça invazora. Nada mais natural do que chamarem ao primeiro homem branco, que lhe apareceu surjindo do oceano, Caramurú—o guerreiro do mar.
Rezina cheiroza.—É o ambar, que os tupís chamavam Piraoçurepoti, e de que ao tempo do descobrimento abundavam as ribeiras do mar, nas provincias do norte.
Moças.—É dificil, senão impossivel, determinar atualmente, e pelas informações tão falhas quão malignas dos cronistas, a condição da mulher entre os selvajens.
Do que tenho lido coliji as idéas, a que no texto se alude mui lijeiramente, e a que em outro logar démos maior dezenvolvimento.
Para servir a Itaquê.—«E quando o principal não é o maior da aldeia dos indios das outras cazas, o que tem mais filhas é o mais rico e estimado e mais honrado de todos, porque são as filhas mui requestadas dos mancebos que as namoram; os quais servem os pais das damas dois e tres anos primeiro que lh'as deem por mulheres e não as dão senão aos que melhor os servem, a quem os namoradores fazem a roça e vão pescar e caçar para os sogros que dezejam de ter, e lhes trazem a lenha do mato, etc.» G. Soares, cit. cap. 152.
Aí está a lenda biblica de Jacob servindo a Labam 7 anos para obter por espoza a Sara. Não consta, porém, que os selvajens uzassem da esperteza do pai de Lia, para descartar-se de uma filha defeituoza; se tal acontecesse entre os tupís, de que ridiculas indignações não se encheriam os cronistas?
Manatí.—È o peixe-boi, de cujo couro mais forte que o do touro os indios fazem escudos. Anunciam a chuva, saltando acima d'agua. Gumilha—Orenoco ilustrado, paj. 276.
Biaribí.—Um dos modos porque os indios assavam a caça, e consistia em enterral-a envolta em folhas de banana, e acender em cima o fogo, cujo calor penetrando no chão cozia a carne, concentrando-lhe o sabor.
Moquem era simplesmente o assado envolto em folha e feito sobre a braza; daí vem moqueca de que tirámos os verbos moquear e amoquecar.
Bucan, supõem alguns que seja alteração de moquem; mas eu o considero termo distinto que exprimia apenas a operação de secar a carne ao fumeiro para conserval-a. Neste sentido é que Lery e Ives de Evreux empregam constantemente o termo francez boucaner, derivado da palavra tupí.
Pela mão da mulher. Refere Gumilla, cap. 45, que estranhando aos indios sobrecarregarem as mulheres com os trabalhos agricolas, elles retorquiram que as mulheres sabem dar fruto, o que não sabem os homens, e por isso na mão dellas as sementes naciam e se multiplicavam.
Pirijá.—Uma especie de palmeira chamada palmeira real; é espinhoza e tem frutos semelhantes ao pecego. Humboldt cit., paj. 257 e 262.
Nunca Jandira ofereceria sua rêde de espoza, etc.—Arací reprezenta o amor da virjem tupí, segundo o costume tradicional de sua nação, que admitia a comunidade e partilha do amor, como um privilejio do guerreiro ilustre. Ser amada excluzivamente, significava para a mulher selvajem, ser amada por um guerreiro obscuro.
Jandira reprezenta o excluzivismo do amor, que muitas vezes devia lutar com a lei tradicional; porque é um impulso da natureza, a qual não é dado ao homem aniquilar embora muitas vezes a sopite.
O combate nupcial.—Este rito, de ser a virjem requestada o premio do valor e da corajem, é atestado por grande numero de escritores.
Barlœus, paj. 420:—«Lucta et hastarum concursu decertare gloriosum, finis spectanctium voluptas est, presertim amantium fœmina de cujusque fortitudine et victoria pronuntiat, sic in proximo pignora, pugnandi irritamenta sunt fortitudinis præcones, ciborum administræ.»
A figura da noiva.—Esta prova de destreza era muito uzada pelos selvajens. Marcgraff descreve a especie de torneio que elles faziam divididos em duas turmas, a ver qual levava mais depressa o seu tóro ao logar destinado para acampamento. Naturalis Historia Brazilia, liv. 8o, cap. 12.
Conclue com estas palavras:-«qui deinceps tempus terunt hastilibus certando, luctando, currendo; quibus certaminibus duæ fæminæ ad id selectœ prœsident et judicant de singulorum virtute et victoribus.
Estes certamens guerreiros, esses jogos de luta, combate e carreira, prezididos por mulheres que julgavam do valor dos campeões e conferiam premio aos vencedores, não cedem em galanteria aos torneios da cavalaria.
Ácerca da prova a que acima nos referimos, escreveu o Dr. Gonçalves Dias—Brazil e Oceania, cap. 10, Revista do Instituto, tom. 30, parte 2a, paj. 153:—Um tóro de barrigudo em um cabo delgado e de facil preensão, semelhante aos soquetes ou massetes de que ainda entre nós se uza em muitas partes para bater a terra das sepulturas, posto que mais poderozo que este, ou um grande pedaço de tronco de palmeira, era colocado no meio do terreiro. Vinha o guerreiro correndo, tomava o tronco, continuava a carreira, saltava fossos, subia elevações, arrojava-se ás vezes ao rio com elle e quem chegava primeiro e levava mais lonje a carga, esse ganhava a palma e a mulher que tinha de ser espozada. Explicou-se esse costume, de que trata Barlœus, Marcgraff e outros, e que ainda conservam algumas tribus do Piauí, pela necessidade que tinha o guerreiro de defender a mulher, e para que em ocazião de perigo a podesse salvar fujindo.»
O camucim da constancia.—Lê-se no Tezouro do Amazonas, cit. tom. 3 da Revista do Instituto, paj. 169. «O 5o predicado que tambem, como muitas outras nações conservam os Arapiuns, é a prova da valentia quando cazam; é um exame prévio ou o primeiro principio, como se diz nas Universidades, a suas bodas, e uma experiencia ou tentativa de seu valor para mostrarem que posto cazem não é por afeminados, mas por valentes. Ha diversos generos dessa prova de valentia; mas uma mui ordinaria nos indios Arapiuns é encherem uns grandes e compridos cabaços das formigas que chamam saugas (saúvas) grandes e mui bravas; ferram na carne com tanta ou mais valentia que os cães de fila, com proporção á grandeza destes e pequenez daquellas; porque os cães assim vêm a largar; mas as saugas não largam ainda que as matem e antes perderão a cabeça ficando com as troquezes cravadas na carne do que soltarem ellas preza; por isso uzam dellas alguns cirurjiões quando querem cozer alguma cicatriz com segurança, sem uzarem pontos, como adiante dizemos. Cheios, pois, os cabaços de saugas, não só famintas, mas quando estão com fome talvez de dias ... e sobre isso bem enraivadas com sacudidelas, prezentes todos os velhos e graves da missão, sae a terreiro o noivo examinando, destapam-se os cabaços nos quais intrepido mete os braços, a que logo acodem as filas, já para saciar a fome, já para dezabafar a ira, e já para provar e castigar o bacharel, o qual posto que as dôres o façam mudar de côres, torcer a boca, tremer o corpo, levantar as sobrancelhas e arrebentar as lagrimas, tenha paciencia, que se quer, ha de aturar a bucha, emquanto os examinadores já bebendo-lhe á saude e já dando voltas em bailes se vão regalando á sua custa, etc.
Igapê.—É o nenufar na lingua tupí, de Ig, ipe e potira—flôr d'agua. Os portuguezes corromperam essa palavra transformando-a em aguapé, nome por que é vulgarmente conhecida. Penso eu, porém, que devemos restaurar o nome indijena, até mesmo porque aguapé tem diversa significação em portuguez.
Uma dessas nímféas, a rainha das flôres, a que os indios chamavam milho d'agua, ou a flôr jaçanan, por servir de ninho a essas aves paludais, nace branca e com a luz do sol vai rozeando até se tornar escarlate.
Em uma noticia publicada pelos jornais li que o nome dessa flôr napê jaçanan significa, forno das jaçanans, do que duvido. O genitivo exprimiam os indios com antepozição do nome rejido por esse cazo; assim napê jaçanan significaria jaçanan do forno. Demais nem napê quer dizer forno; nem forno indica a idéa que se pretende de pouzo ou ninho.
Uapê aí é o mesmo igapê com a simples diferença de figurar-se a vogal indijena por u em vez de ig adotada pelo geral dos autores.
Murinhem.—Palavra composta de morib afavel e nheng falar.—Veja-se a respeito dos cantores, nhengara, o que se disse na nota a paj. 117.
Paan.—Palavra da lingua Macaulí que significa seta—Creban significa homem alvo; e Agniná, monte.
Tomou a espoza aos hombros.—Era entre as mulheres selvajens prova de amor, suspenderem-se ás costas daquelles que preferiam, quando as requestavam com cantos e dansas. Assim o atesta Marcgraff cit. «Ubi vespera advenit, coeunt adolescentes in varias cohortes et castra perambulantes cantillant ante tuguria adolescentula autem quæ juvenibus delectantur, produnt et cantillantes atque tripudiantes sequuntur adolescentes et á tergo consistunt eorum quos amant, id enim ipsis amoris testimonium est. Paj. 280.»
Escaparam-me algumas notas que a intelijencia do leitor suprirá. Todavia rezumirei as de que me recordo neste momento.
Á paj. 44, quando diz Jurandir que conta os anos pelos dedos, quer dizer que não tem mais de vinte, pois tantos são os dedos das mãos e pés.
Á paj. 45, o grande lago que recolheu as aguas do diluvio é o Manoa, em cujas marjens se fabulou o El-Dorado. Manoa em achagua é diluvio, segundo Gumilha, 2.o vol., 7; palavra homologa ao vocabulo tupí amana, que significa chuva.
Á paj. 45, o combate que Jurandir figura entre o mar e o Amazonas é a descrição da pororoca. Elle chama as aguas do mar-guerreiros azues-por causa da côr das vagas, e as aguas do rio-guerreiros vermelhos-porque a corrente do rio é então barrenta.
Á paj. 45, onde se diz que os anos de Guaribú enchiam a corda de sua existencia alude-se ao costume que tinham os selvajens de contar os anos pelos nós que davam em um cordel, outros pelos frutos do colar.
Á paj. 40 faz-se referencia á lenda de Sumê, já muito conhecida. Foi Sumê que ensinou aos tupís a agricultura e os primeiros rudimentos das artes.
Á paj. 54 fala-se de matumbos. São as leivas que se fazem no norte para a plantação da mandioca.