XX

—Que é isto!... Que tens tu, filha?... Estás doente? Estas não são as tuas feições... Os olhos pisados... as faces abatidas... sem côr... sem risos... sem saude!... Linda, tu que tens? Dize: choraste, filha? Estás doente? Fala! Anda, fala!... por piedade!... por amor de Deus, Linda, fala!
A rapariga, em vez de responder, desatou a chorar.
—Meu Deus! Isto que é, meu Deus?—exclamava, mais assustado, o pae.—Choras ainda mais? Que te fizeram, filha? Ó Linda, tu não tens pena de mim? não chores!... Ou chora, chora, se te faz bem chorar; mas... fala, dize-me o que tens, dize-me por que choras, filha... Então?
E com voz trémula, com as mãos unidas e o susto no gesto, como no coração, o pobre homem quasi ajoelhava a implorar da filha a explicação d'aquelle doloroso mysterio.
Como ella não respondesse ainda, continuou o afflicto pae, cada vez mais commovido:
—Ai os presentimentos do meu coração! Não sei o que me dizia isto! Não sei! Meu Deus, meu Deus! E como te pareces com tua mãe n'aquelle dia em que... Nem quero imaginar... Ó filha, filha, não vês que me matas assim? Fala!
E beijava-a e afagava-a, e cobria-a de lagrimas ardentes, que mais lagrimas desafiavam á creança, sem que a fizessem falar.
Nos movimentos desordenados que fazia, o desgraçado parecia louco. Elle apertava as mãos da filha, levava-as aos labios, abraçava-a, tomava-a ao collo, pousava-a no chão; ora a attrahia a si, ora a afastava, sem saber o que fizesse, n'essa incoherencia de actos que produz um espirito inquieto.
Como para melhor examinar aquellas feições queridas, cujo abatimento e pallidez tanto o assustavam, afastou da fronte da creança, com as mãos trémulas, o lenço que lhe envolvia a cabeça; mas de repente retirou-as, soltando um grito medonho, ergueu-se e recuou com terror.
Depois, fitou a filha com olhar desvairado, e, sem pronunciar uma palavra, quasi que a arrastou para mais perto da luz, que entrava no corredor pela porta aberta do quintal; ahi, arrancou com impeto febril o lenço da cabeça de Ermelinda; um novo grito, mas d'esta vez rouco, abafado pela dor, cortado pelos soluços, saíu-lhe do seio, e elle, o desgraçado pae, desatou a chorar como uma creança.
É que aquelles formosos cabellos louros de Ermelinda, que com tanto amor beijava, que com tanta soberba lhe desatava pelos hombros, o orgulho, o enlevo do seu coração de pae, aquelles cabellos louros haviam caído aos golpes de uma tesoura desapiedada e quasi irreverente.
Só quem fôr pae pode conceber toda a desesperadora afflicção em que esta descoberta lançou o coração d'aquelle.
Ermelinda caiu-lhe aos pés, de joelhos, chorando tambem.
Por algum tempo, nada mais se ouviu alli dentro senão os soluços de ambos.
A reacção não se fez, porém, esperar muito no animo violento do Cancella.
Afastou com vivacidade as mãos do rosto, ergueu a cabeça, e, com os olhos inflammados de raiva e de cólera, disse para a filha, tremendo e gaguejando, tal era a impetuosidade dos sentimentos que se lhe amontoavam no coração:
—Quem foi?!... Responde! De quem foi essa mão atrevida que fez isto?... Fala! Não ouves? Quero sabel-o, para cortal-a mais rente do que te deixou os cabellos... E tu, desgraçada, tu, consentiste! Má filha, filha desagradecida e sem coração, que assim deixas que me roubem as minhas riquezas e alegrias! A teu pae!... É assim que pagas o amor com que te tenho creado?... a adoração com que de pequenina te tratei? É assim? É com este desamor?! e com esta ingratidão?!
—Meu pae! meu pae!—implorava Ermelinda, suffocada pelo pranto.—Perdôe! Não se affiija assim, meu pae, que me mata! Não vê?... Escute... Para servir a Deus... foi para servir a Deus que eu os cortei... A vaidade é um peccado grande.
—Quem te ensinou isso?... Quem te aconselhou a que os cortasses? Fala!...
—Por alma de minha mãe, não me fale assim, que me assusta!
—Vá! Pois já não falo... Eu estou socegado... Mas então? eu não hei de saber?... Bem vês que eu precíso de saber!... Vá!... Eu sou teu pae. Ordeno... Peço... Dize, filha, quem foi?
—O missionario...—ia a dizer Ermelinda.
O pae não a deixou proseguir.
—Ah! Já sei! O missionario! É isso! Os padres... as beatas... tua madrinha! A bruxa a quem eu confiei a filha e que m'a entrega assim! Vendeu-m'a ás mãos d'esses malvados sem dó, sem consciencia, sem religião, sem Deus...
—Meu pae, não diga isso! Não fale assim, que é peccado.
—Cala-te que grande, maior peccado fizeste tu, affligindo assim teu pae! Os missionarios! Quem lhes deu o direito? Quem lhes ordenou... Deus? Se Deus é assim, se Deus quer estas crueldades... Deus não é Deus, e eu não o reconheço nem adoro!
Ermelinda tremia de terror, ouvindo estas palavras, que a irritação e o desespero estavam dictando ao pae. A timida e nervosa creanca horrorisava-se, ouvindo aquellas phrases audaciosas, e quasi blasphemas, e a cada momento esperava vêr cair um raio fulminador a castigal-as.
—Por amor de Deus—murmurava ella, com a voz chorosa e quasi sumida—por alma de minha mãe!...
—Cala-te! não fales em tua mãe, que não mereces dizer esse nome! Tua mãe! Aquella sim, que sabia como eu lhe queria; que sempre lidou para me não causar penas, e que só com a sua morte me fez chorar lagrimas, tão amargas e tantas, como eu choro agora!
E chorava cada vez mais, chorava, como um fraco, aquelle homem forte e valente, chorava, porque tinha um coração de pae.
Ermelinda lançou-se-lhe nos braços, cobrindo-o de afagos e beijos.
—Perdôe-me, meu pae! perdôe-me!—dizia ella.—Se soubesse... Fui eu que pedi... Fui eu que sonhei... Não chore assim, meu pae! Não culpe ninguem, fui eu, eu que pedi a minha madrinha!... Foi por a salvação da minha alma, porque...
—E foi tua madrinha que t'os cortou?
—Foi, mas... É que o missionario tinha dicto... O missionario é um santo!... Não olhe para mim d'esse modo, meu pae, que me faz mêdo.
E cobria os olhos com as mãos, para não ver a expressão do rosto do Cancella.
—Querem matar-me a filha—bradava elle.—Ó meu Deus! pois não é isto um grande peccado? fazer da creança, linda e alegre, que eu deixei aqui, esta desgraçada rapariga, sem côr, sem risos, sem alegria! Não é isto um crime, meu Deus? Não se vos pode amar e servir, Senhor, senão com lagrimas, com penitencias e com tristezas? Não! Mentem elles! mente esse missionario! mente essa mulher! mentes tu, filha! e maldicto seja quem traz assim o desespero ao coração de um pae.
E o Cancella levantou-se exasperado, sacudindo rudemente de si a filha, cada vez mais gelada de terror e afflicção. Deu alguns passos no corredor, e voltou ao quarto onde a encontrára. Ella seguiu-o de mãos postas, chorando, pedindo-lhe que se não affligisse assim. Mas o Cancella era dominado pela impetuosidade do seu genio. Nem a ouvia. De repente, parou, fitando os olhos no registo do Coração de Maria, que alli fôra introduzido por a mulher do Zé P'reira. Estava adornado com jarras de flores e vélas de cêra; era a esta imagem que Ermelinda fazia oração, quasi extatica, quando o pae entrou.
—Coração de Maria!—disse o Cancella, quasi desvairado, conservando a vista fixa na imagem, e como falando para si.—Coração de mãe, e de mãe extremosa, que foi esta, e bem lanceada de dores. Soube o que é querer a um filho, o que é vêl-o padecer... o que é perdel-o... E será ella a que deseja as lagrimas, as tristezas e a morte d'esta creança?... as desventuras de um pae?... Ella! Não! E se tu o queres—continuou allucinado, voltando-se para a imagem—e se não podes ser adorada senão assim, é porque és falsa, falsa como a mão que ahi te pintou, falsa como as bôcas que te prégam os milagres. Vae-te!
E no accesso de raiva, que cada vez mais crescia n'elle, fez voar o caixilho, as jarras e os castiçaes pelo ar, e tudo veio fazer-se pedaços no pavimento.
Ermelinda soltou um grito dilacerante e agudissimo ao vêr aquillo. O terror seccou-lhe as lagrimas. Com o olhar espantado, as faces quasi lividas, as mãos juntas, quiz falar, mas não pôde; moviam-se-lhe os labios descórados, mas não lhe saía a voz da garganta.
Cada vez mais cego pelo desespero, o pae já não a attendia. Passou outra vez ao corredor, derrubou, em igual accesso de furia o vaso da agua benta, bradando:
—Vae-te, que estás empestada tambem pelo bafo maldicto da impostura.
Ermelinda lançou-se-lhe aos pés, abraçou-o pelos joelhos para o reter, mas elle não a sentia, e, continuando a caminhar desorientado, quasi a levou de rastos á outra sala.
Ahi, imagens, cruzes, esculpturas, tudo lançou por terra, tudo despedaçava ou rasgava.
N'este impeto de loucura, n'esta cegueira de raiva, não viu a filha que, como se galvanisada pelo terror, ergueu-se arquejante, com os braços estendidos, fazendo esforços para falar, e caindo por fim no pavimento inerte e fria como um cadaver.
Attrahida pelos gritos e rumor que partiam da casa do Cancella, a madrinha de Ermelinda acudiu a vêr o que era aquillo.
Chegando ao limiar da porta, assistiu ainda ao final da scena que descrevemos; ia a gritar, mas o olhar e gesto com que a fitou o Cancella cortou-lhe a fala na garganta.
Era de facto um olhar selvagem e sinistro.
A sr.a Catharina parou.
—Que vem fazer aqui, mulher?—dizia-lhe o Cancella com voz cavada.
—Eu...
—Vem acabar de matar-me a filha, serpente? Vem empeçonhar estes ares, onde metteu a tristeza?
E, a cada pergunta que fazia, dava para ella um passo e ella recuava outro.
Crescia outra vez a impetuosidade nas paixões e nas palavras do Herodes.
—Saia! saia da minha vista, se não quer que eu lhe faça como fiz a esses feitiços com que me enfeitiçou a filha, com que m'a quiz matar.
A velha ganhou animo ao vêr-se fóra da porta e por isso disse:
—Lá se vê quem a matou. Repare e diga se não tem remorsos, carrasco!
Estas palavras fizeram quebrar a vehemencia do desespero do Cancella.
Voltou-se, e vendo a filha estendida no chão, quasi como morta, com a pallidez, com a immobilidade, com a apparencia de um cadaver, correu para ella, soltando um grito angustioso, e principiou a chamal-a pelo nome, beijando-a, chorando, pedindo misericordia a Deus, pedindo perdão a ella, soltando palavras sem nexo, arrepellando-se, ferindo-se.
A velha, que já não o temia, ao vêl-o assim, vingava-se agora chamando-lhe impio, hereje, malvado, assassino da filha, condemnado de Deus... e elle, o desgraçado, tudo escutava humildemente, com remorsos, e implorando misericordia.
—Não! ella não ha de morrer-me assim... Deus não pode consentir n'isto. Não deixará que eu tenha assassinado minha filha. Ah! senti-lhe o coração!... vive!... senti-lhe o coração bater... Olhe! venha vêr... pouse aqui a mão, comadre, no peito d'ella, aqui... Não sente? É o coração, não é? Não lhe parece que não morreu? Ar, ar, é do que ella precisa.
E erguendo-se, correu, com a filha nos braços, para o meio da rua.
Ermelinda ainda estava sem accôrdo. Juntaram-se algumas mulheres, attrahidas pelo espectaculo e pelas arguições da beata, que não cessára de falar.
Foi voz unanime que a pequena estava a expirar. O Cancella tremia e pedia por amor de Deus que lhe não dissessem aquillo.
Subitamente, soltou um grito de triumpho e poz-se a rir como doido. Ermelinda tinha aberto os olhos.
Mas, ao fital-os no pae, instinctivamente desviou a cabeça, como se o aspecto d'elle lhe causasse terror.
—Filha! disse o Cancella, tremendo de interpretar aquelle gesto e com maior consternação na voz e no olhar.
Ermelinda, sempre com os olhos fechados, começou a tremer convulsivamente e n'uma anciedade extrema.
—Deixe a pequena!—disse a beata—não vê que lhe faz mêdo? E com razão, pobre creança! depois do que viu!
—Pois eu hei de fazer mêdo a minha filha?—repetiu timidamente o pae.—Eu?! Ó Ermelinda... pois tu...
Um estremecimento, que correu pelos membros da rapariga, fel-o calar. Commovido, consternado, passou-a para os braços da velha, e sentou-se a soluçar como uma creança, dizendo entre gemidos:
—Perdi o amor de minha filha! perdi o amor de minha filha! Ai que desgraçado que eu sou!...
A scena era bastante commovente, para que se não sentissem impressionadas todas as pessoas que ella attrahira alli.
Houve um longo silencio, só interrompido pelos roucos soluços do infeliz, em quem entrára o desespero no coração.
Este silencio permittiu ouvir-se um vago som, como de musica longinqua, que, a pouco e pouco, se percebeu ser um côro de vozes femininas; cêdo a toada e depois da toada a lettra, principiou a tornar-se distincta.
Ouviram-se perfeitamente estas palavras:

Vinde, vinde, ó missionarios,
Com a palavra de Deus
Libertar-nos do peccado,
Encaminhar-nos aos céos.

Minha alma por vós anceia,
Ó ministros do Senhor!
E o meu peito em chammas arde,
Em chammas do vosso amor.