XXXI

Chegaram cartas da baroneza e de Mauricio, datadas de Lisboa. As noticias que davam eram satisfactorias. Mauricio fôra hospedado em casa de um primo remoto de D. Luiz e por elle introduzido nos primeiros circulos da cidade, onde recebeu um lisongeiro acolhimento.

Mauricio achava-se n'aquelle mundo, novo para si, como se n'elle tivesse sido educado. Sentia-se bem alli, agradavam-lhe aquelles habitos de elegancia e de distincção, que não conhecêra no canto de sua provincia, mas cuja necessidade vagamente experimentava havia muito tempo. Era para aquelle viver que os seus instinctos o inclinavam.

Quando se viu alli respirou com o desafogo de quem sahe de um ambiente que o asphyxiava. Não necessitou de longo tirocinio para conhecer os usos d'aquella sociedade e adoptar-lhe os costumes. Em poucos dias não restavam n'elle vestigios sequer do seu provincianismo. Uma forte vocação substitue um lento noviciado. Os homens acharam-n'o espirituoso; as mulheres, amavel; e para com todos soube ser tão insinuante, que os influentes politicos, a quem a baroneza o recommendára, tomaram por elle o mais vivo e promettedor interesse.

Escusado é dizer que Mauricio não foi muito escrupuloso na observancia dos artigos de fé politicos com que D. Luiz doutrinára os filhos. Para genios como o de Mauricio, um dos maiores achaques que póde ter uma ideia é o estar fóra da moda.

Jorge sentia que não lhe era possivel abraçar a crença do pae, porque a razão a condemnava; e estas convicções para toda a parte o acompanhariam, porque procediam de um juizo claro e de uma aturada reflexão.

Mauricio, apesar de nunca ter adherido manifestamente ao credo paterno, só agora parecia havêl-o devéras renegado, porque o desgostavam os ares de sédiço e desusado, com que elle lhe apparecia á esplendida claridade dos salões da moda.

Tudo quanto havia de eminente no jornalismo politico, na litteratura, no parlamento, no fôro, constituia agora o circulo habitual das relações de Mauricio, e nas conversas animadas, cheias de vivacidade, brilhantes de eloquencia e de espirito, em que elle tambem tomava parte, jogavam, como principios assentes, certas proposições que elle fôra educado a considerar como abominaveis heresias.

Isto era o bastante para que elle abjurasse o credo velho com que o haviam catechizado na provincia e professasse a doutrina nova.

A baroneza, que revelava tudo isto muito extensamente a Jorge, colorira e occultára parte da verdade a D. Luiz, para não o assustar.

Ella porém via com prazer o exito do seu protegido, que excedia a sua espectativa.

«Em pouco tempo—escrevia ella a Jorge—teu irmão tornou-se um homem da moda, e é para ver o bem que elle sabe sustentar a posição que tomou de assalto. Nas frisas de S. Carlos, nos primeiros salões de Lisboa, Mauricio está como em terreno conhecido, e muitos nados e creados n'estes ares invejam-lhe o seu aplomb e o seu savoir faire inimitaveis. O ministro dos negocios estrangeiros, a quem muito especialmente o recommendei, dá-me as melhores esperanças de elle ser despachado como addido para o corpo diplomatico, carreira que sobre todas me parece a mais talhada para as predilecções e talentos do nosso protegido.»

Estas noticias foram recebidas com prazer por Jorge e por D. Luiz. Este recordou-se, ao lêl-as, do tempo da sua juventude, em que tambem trilhára a carreira da diplomacia. Jorge conhecia a fundo o caracter do irmão e sentia que elle tinha de facto entrado no caminho para onde o chamavam os seus talentos e as suas disposições moraes.

A imaginação de Mauricio era muito poderosa e exigente, as tarefas proveitosas, mas modestas, o trabalho na obscuridade da provincia, a consagração de uma vida inteira ao cumprimento de um dever, não lhe bastavam.

Uma impaciencia insuperavel desviava-o d'esse caminho.

As brilhantes apparencias, a vida agitada, a variedade de impressões, as luctas incessantes, alimento da febril anciedade que devora certos espiritos, eram-lhe indispensaveis. Sob a influencia de taes estimulos, as suas faculdades entravam em acção. Não se contentava com os applausos da consciencia propria, precisava dos applausos do mundo. Para os conquistar tentaria esforços sobrehumanos.

Jorge era uma alma formada para o dever; Mauricio uma alma formada para a gloria.

D. Luiz não pôde deixar de sentir-se lisongeado com o bom exito do filho, não obstante as vagas apprehensões que sentia de que a intima convivencia com a corrupta mocidade da côrte o contaminasse. Felizmente o velho realista não tinha já a seu lado o padre procurador, com a sua incessante prégação contra os costumes do seculo, que era d'antes o thema obrigado das conversações diarias. E desde então as prevenções do fidalgo haviam perdido muito das côres carregadas que as tingiam.

Ás primeiras cartas seguiram-se outras, confirmando as noticias dadas n'aquellas.

As auras continuavam a soprar favoraveis a Mauricio nos mares insidiosos da côrte. A baroneza dava quasi como certo o proximo despacho d'elle para addido a uma embaixada de Vienna ou de Berlim.

Mauricio relacionara-se intimamente com os primeiros personagens da situação politica dominante, que se interessavam por elle. As sympathias femininas, poderoso elemento de prosperidade n'aqueilas altas regiões, como em geral em todas, conspiravam tambem a seu favor.

«Com mais um pequeno esforço talvez fosse possivel fazêl-o ministro, (escrevia a baroneza a Jorge) que não é em Portugal dos postos de mais difficil accesso. Ministro da marinha pelo menos, que é a pasta dos principiantes e a mais adequada para os homens de imaginação como elle, onde teem muito com que a alimentar, porque é a pasta symbolica das nossas glorias passadas e pouco mais.»

N'esta mesma carta de Gabriella havia alguns periodos em que, usando de uma linguagem mais grave, ella fallava da probabilidade do seu casamento com Mauricio.

«Não attribuas este projecto a um mero capricho de mulher. Não é. Resolvi-me a dar este passo depois de ter reflectido o mais friamente possivel nas vantagens e consequencias d'elle. Mais tarde ou mais cedo eu tinha de contrahir segundas nupcias; a posição em que me acho e as impertinencias dos innumeros aspirantes á minha mão, ou antes aos bens que herdei de meu marido, assim o exigiam. Era difficil deixar de ceder. A minha sympathia por Mauricio é um motivo de preferencia muito justificado. Nenhum candidato me agradava mais, o que não quer dizer que me sinta apaixonada. Mas muito teria que esperar se aguardasse por uma paixão para me decidir. Já não estou em tempo d'isso. Mauricio é um rapaz amavel e delicado bastante para não me dar motivos de arrepender-me. É quanto exijo. Sou tolerante por indole e por habito, não terão portanto effeito sobre mim os costumados motivos de desolação de todas as esposas extremosas, motivos que muito provavelmente Mauricio não deixará de dar á sua. Isto pelo que me diz respeito. Quanto a elle, entendo que lhe convém este casamento. Primeiro, porque realisará uma operação financeira um tanto vantajosa; depois porque, graças á minha longanimidade, não peiará demasiadamente os seus movimentos de rapaz com os laços matrimoniaes, sem que por isso corra os precalços dos maridos pouco fieis aos lares domesticos. O Jorge faz-me a justiça de assim o acreditar, não é verdade? E finalmente porque d'esta maneira precavê-se contra alguma tentação, a que são sujeitas as cabeças como a d'elle, que em um momento de enthusiasmo transtornam todo o seu futuro. Casando commigo, fica livre de desposar a primeira dançarina de S. Carlos, que o fascinar. Em conclusão, creio que poucas mulheres poderiam como eu aceitar Mauricio para marido, com tanta probabilidade de não o fazerem infeliz nem de o serem. O que é preciso é aproveitar o ensejo em que Mauricio me faça a honra de uma preferencia. Por isso talvez qualquer dia surprendamos o tio Luiz pedindo-lhe a authorisação necessaria. Espero que o Jorge advogará a nossa causa. Perdoa-me se alguma leviandade descobrires ainda n'esta minha resolução. Acredita porém que nunca pude ser mais séria do que o estou sendo, ao escrever-te esta carta.»

Havia ainda um post-scriptum, em que ella acrescentava:

«Bertha ainda está nos Bacellos? Será bom que se demore. Nunca é tarde de mais para o tal casamento, com o qual por emquanto me não pude conformar.»

A communicação que lhe fazia Gabriella surprendeu em extremo Jorge, que muito longe estava de prevêl-a. Reflectindo porém, acabou por achar que a prima tinha razão e por convencer-se de que, não obstante o tom ligeiro da carta que lêra, expunham-se n'ella razões de pêso para justificar o facto annunciado.

Casando com a baroneza, Mauricio precavia-se contra si proprio e ligava-se a uma mulher, que por as especiaes disposições de sua indole, saberia respeitar o nome do marido, sem que a fizessem desgraçada os provaveis desvarios d'elle.

Effectivamente, conforme o que a baroneza predissera, semanas depois era D. Luiz surprendido por uma carta d'ella e outra de Mauricio, pedindo-lhe o beneplacito para o referido casamento.

O fidalgo recebeu com prazer a inesperada nova.

Gabriella era por muitos motivos uma esposa que para qualquer dos seus filhos elle ambicionava. Joven, rica, de sangue igual ao seu, e de sentimentos elevados sob a frivola apparencia de que os revestia, a baroneza augurava um auspicioso futuro ao homem a quem désse o titulo de marido. Para Mauricio seria demais uma prudente conselheira e um obstaculo a muitas loucuras que, entregue a si ou a peior vigilancia, o rapaz não deixaria de commetter.

Por isso D. Luiz, com animo folgado e um sorriso expansivo a alizar-lhe na fronte e nos labios a contracção habitual, apressou-se a responder ao pedido nas mais benevolas e lisongeiras phrases que lhe inspirava o seu bom humor.

Bertha veio dar com elle sentado á secretária a escrever. A filha de
Thomé da Povoa quiz retirar-se para não o interromper.

D. Luiz, conhecendo-lhe os passos, disse sem desviar os olhos do papel em que escrevia:

—Entra, Bertha, entra, que não me incommodas.

E, sentindo-a mais perto, acrescentou:

—Sabes o que estou fazendo?

—A escrever; bem vejo.

—Sim; mas a quem?

—A seu filho Mauricio talvez.

—A Mauricio e a Gabriella tambem. E sabes a respeito de quê?

—Eu, não.

O fidalgo terminava n'aquelle momento a assignatura no extremo inferior da pagina, e só depois de concluil-a foi que, voltando-se para Bertha, continuou:

—Authoriso um casamento.

—Um casamento?!

—É verdade. Havia alguem de suppôr que o Mauricio se casava?!

—Casa-se! Com quem?

—A vêr se adivinhas.

Bertha reflectiu alguns instantes.

—E eu conheço a noiva?

—Conheces perfeitamente.

—Então não póde deixar de ser a snr.ª baroneza.

—Justamente. É Gabriella.

—É uma felicidade para elle.

—Assim tambem o julgo. Se alguem se aventura n'este casamento é a noiva.

—O snr. Mauricio tem uma boa alma, não dará motivos de arrependimento a quem depositar confiança n'elle.

—Hum! É muito rapaz—murmurou o fidalgo, fingindo sentir contra o filho maiores prevenções do que effectivamente sentia.

Bertha julgou que era occasião opportuna de pôr em pratica um projecto, que desde madrugada meditava.

Thomé da Povoa tinha-a na vespera procurado para lhe fallar na visita que recebêra da mãe de Clemente, e no que ella lhe dissera sobre o desgosto em que andava o filho com a demora do projectado casamento. Thomé não queria apressar a sahida de Bertha dos Bacellos, mas, lembrando-se de que o fidalgo ia melhor e de que, por certo, não seria elle o primeiro a dizer a Bertha que prescindia dos seus cuidados, pensava que seria bom que ella lhe insinuasse a necessidade de separação e para isso bastava pedir-lhe, como a padrinho que era, licença para o casamento que se ajustára.

Bertha perguntou ao pae se tinha já a certeza de que Clemente estivesse ainda resolvido a insistir na sua proposta. Thomé admirou-se da pergunta, porque nada sabia da conferencia da filha com o noivo, e assegurou-a de que a resolução de Clemente era ainda a mesma, visto que a mãe n'aquelle mesmo dia lhe viera recordar o ajuste.

Em vista d'esta declaração, Bertha prometteu fallar n'aquelle objecto a D. Luiz no dia seguinte, e era esse o ensejo que ella desde pela manhã procurava.

O assumpto a que a coincidencia das cartas de Mauricio e da baroneza chamava a conversa, preparára excellentemente o caminho para o pedido de Bertha.

Aproximando-se da cadeira em que estava sentado o padrinho, disse-lhe com o tom de affabilidade com que aprendêra a dominal-o:

—Já que está em maré de condescender com os pedidos que lhe fazem, não quero perder a occasião de lhe fazer um tambem.

—Ah! tens um pedido a fazer-me?

—Tenho. E tão parecido com esse!

—Com esse… qual?

—Com o que lhe fez seu filho.

—Com o pedido de Mauricio? mas… então tracta-se de casamento?

—Sim, meu padrinho. É de um casamento que se tracta.

—De quem?—interrogou o fidalgo, fitando os olhos em Bertha.

—De quem ha de ser, se sou eu a que peço?—respondeu esta, baixando os seus, e não podendo disfarçar a melancolia que ainda lhe causava aquella ideia.

—Tu?!—exclamou D. Luiz sobresaltado, e voltando-se rapidamente—Tu queres… tu vaes casar-te?!

—Sim, snr. D. Luiz, está decidido que isso se faça e eu peço-lhe licença para o fazer.

—Tu casares-te, Bertha!—repetia o velho como se lhe fosse difficil conformar-se com essa ideia—mas… com quem?

—Com o filho da Anna do Védor, com Clemente.

D. Luiz deu um salto na cadeira, ao ouvir a resposta, e bateu com a mão na banca que tinha diante de si.

—O quê?!… Ora adeus! Tu estás a brincar commigo.

—Não, meu padrinho, fallo-lhe sériamente.

—Com o Clemente?! Tu casares com o Clemente? Tu, uma rapariga delicada, de educação, de gosto, de sentimentos elevados, casares-te com um rustico, com um rapaz que quando muito saberá escrever o seu nome! com o filho da Anna, com o snr. regedor! Isso não tem geito nenhum. Isso é um disparate de tal ordem!… Quem foi que se lembrou de tal?!

—Clemente pediu-me a meu pae…

—E teu pae concedeu? Coisas do Thomé a final. Mas tu? tu, Bertha, tu consentiste!?

—Clemente é um bom rapaz, honrado, amigo do trabalho…

—Ora adeus, amigo do trabalho, honrado, e é isso bastante para que uma rapariga como tu vá sacrificar o seu futuro e ligar a sua existencia á de um homem que não póde servir-lhe de boa companhia?!

—E porque não póde, meu padrinho? Elle é bom e delicado, dizem.

—Oh! que grandes delicadezas as de Clemente! Nem tu sabes o que vaes fazer, Bertha. Pois devéras o coração approva essa escolha?

—Não, snr. D. Luiz, não é que o coração m'a peça, porém…

—Então quem te obriga? Por acaso teu pae violenta-te?

—Tambem não; mas o padrinho sabe que nem sempre o coração é bom conselheiro. Mais vale ás vezes não esperar que elle escolha. Oh! se mais vale! Podendo-se decidir a sangue frio e antes que o coração decida, mais vale.

—O Clemente não póde ser teu marido. Tu, Bertha, tu a quem Deus concedeu qualidades tão distinctas, que melhor estarias n'essas casas nobres que por ahi ha do que algumas raparigas atoleimadas que por lá tenho encontrado, tu, que me recordas a minha pobre Beatriz, que pareces ter herdado os modos, os gostos, os sentimentos d'ella, tu has de ir casar com o Clemente! Nem quero ouvir fallar mais n'isso.

—A sua muita bondade para commigo, padrinho, é que o cega. Pois diga a que posso eu a final aspirar?

—A que podes aspirar?!—exclamou o fidalgo, a quem a exaltação de espirito, que o pedido de Bertha produzira, quasi fazia esquecer os seus principios mais radicados—aqui, n'esta terra de selvagens, não podes aspirar a mais, porque não ha quem te mereça até. Aqui nem sequer por sonhos se sabe o que é delicadeza de sentimentos, nem sequer de longe se aprecia essas nobres qualidades de coração e de espirito de que Deus te dotou, e que tu queres perder na convivencia com um homem grosseiro, e que nem póde conhecer o thesouro que deseja possuir.

—Mas, snr. D. Luiz, que outra póde ser a minha sorte? Ora diga.

D. Luiz, fazendo um gesto de despeito, respondeu com vehemencia:

—Pois bem, queres ser mulher de Clemente, não é assim? queres ir sacrificar os teus merecimentos a esse homem? queres dedicar-lhe todo o teu futuro, consagrar todos os teus pensamentos, todas as tuas aptidões aos arranjos da casa da Anna do Védor? Pois bem, faze a tua vontade. Mas escusas de vir pedir o meu consentimento. Eu não quero ficar com remorsos de ter sanccionado um disparate d'essa marca. Tu mulher de Clemente! Vossês, as raparigas, a final são todas assim, as mais ajuizadas, ou tarde ou cedo, cahem em uma loucura, como para mostrarem que são mulheres. Para que vens pedir-me conselho, se formaste o proposito de não o escutares? Anda lá, faze a tua vontade, e Deus queira que te não arrependas, quando já não fôr tempo. Tu não necessitas do meu consentimento, faze lá o que quizeres.

E D. Luiz encostou-se á mesa com gesto e movimentos de amuado.

—Porém, meu padrinho—insistiu Bertha, poisando-lhe as mãos no hombro com a doce familiaridade de filha—não era esse consentimento de má vontade que eu lhe pedia; esse não me trará felicidade, bem vê.

—Queres talvez forçar-me a dizer que approvo um casamento, contra o qual se revolta a consciencia? É boa!

—Mas pense bem e talvez que a sua consciencia não ache motivos para revoltar-se.

—Sabes que mais? Dize que amas esse homem, que sentes por elle uma inclinação irresistivel, e então eu entenderei a tua insistencia.

—Não digo, porque não diria a verdade.

—Mas então onde está essa necessidade de casamento?

Bertha sentiu que devia fallar com toda a gravidade ao padrinho para convencêl-o.

—Olhe, snr. D. Luiz—disse ella—eu vou informal-o de todo o meu pensamento, e dirá depois se tenho razão. A educação que meu pae me deu não me cegou a ponto de illudir-me a respeito do meu futuro e do destino que me está reservado. O exemplo de minha mãe, que tem sabido em toda a sua vida ser a companheira fiel de um homem de trabalho e tem comprehendido que a sua missão era aquella, a de fazer-lhe esquecer em casa os desgostos de fóra e dar-lhe forças para continuar a sua tarefa, este exemplo nunca o perdi de vista; entendi sempre que terá de ser esse o meu papel n'este mundo, e nem me envergonhei nem me temi nunca d'elle. Sentia em mim forças para aceital-o e para cumpril-o.

—Mas nem só os homens do trabalho material e grosseiro são os que precisam d'esse conforto da casa e da familia. As lidas de intelligencia tambem cansam, Bertha, e á cabeça desfallecida á força de estudo tambem é grato encontrar um seio amigo aonde se encoste a descançar—redarguiu o fidalgo com uma animação excepcional.

Bertha tornou-lhe, sorrindo:

—E qual seria a cabeça cansada de muito pensar que viria procurar a esta aldeia o seio em que repoisasse? De longe é de crêr que não viessem, e as d'aqui… ha tão poucas que se sintam cansadas d'isso! Creia, snr. D. Luiz, só um lavrador como Clemente procuraria a filha do lavrador Thomé da Povoa, e Clemente é um homem digno de ser estimado.

—Só um lavrador! Que estás tu ahi a dizer?! E porquê? Tomaram-te para esposa esses doutores que por ahi estão ociosos, comendo e bebendo á custa dos paes, e esquecendo o pouco que aproveitaram em Coimbra na vida inutil que levam; olha que não te haviam de engeitar esses morgados vadios e perdularios, que passam a vida em caçadas e que arrastam o nome que herdaram pelas tavernas e por todos os logares de devassidão.

—Esses engeital-os-ia eu. Pois julga que lhes não devo preferir
Clemente?

—Pois não digo esses, mas… emfim… ainda por ahi ha gente… bem educada…

—Se não fosse a sua muita bondade para commigo, o meu padrinho mesmo acharia natural este casamento, e pelo contrario estranharia se algum dos filhos d'essas familias que diz fosse procurar noiva á casa de meu pae.

O sentido epigrammatico d'esta resposta, dictado a Bertha por a nobre e justa indignação do coração, que depois de se haver sacrificado aos preconceitos de um homem, via o proprio por quem fizera o sacrificio negar a necessidade d'elle, feriu certeiro o fidalgo, que se sentiu vencido.

Mudou pois de tactica, e com a eloquencia que lhe inspirava o receio de perder a companhia de Bertha, tornou:

—Muito bem, dizes que não amas esse homem, que não cedes a inclinação alguma do coração, aceitando-o por marido; que se o fazes é por julgares que é essa a tua missão de mulher, a de suavizar a vida de um homem, e de tornar-lhe mais facil o seu caminho no mundo. E para cumprires essa missão vaes deixar-me só, velho, doente, abandonado dos filhos, sem conforto algum na vida; só com as lembranças pungentes do meu passado, e isto depois de me habituares á tua companhia, depois de me haveres recordado as doçuras d'este viver ao lado de uma filha, doçura que o amargor das saudades me tirava dos labios havia muito tempo. Para que vieste então? Quem te chamou? Se eu tivesse ficado só, estaria morto talvez e seria feliz. Vieste para me obrigares a sentir agora esta separação; para me fazeres morrer de paixão no dia em que celebrares esse casamento. Que queres? Estava habituado a considerar-te quasi como uma segunda Beatriz que Deus me concedêra, e podes julgar se eu daria a Clemente uma filha minha.

—Meu padrinho!—exclamou Bertha, inquietando-se com a exaltação do fidalgo.

D. Luiz proseguiu sem a escutar:

—Mas que te importas commigo? Eu estou velho; as cabeças na minha idade vergam muito para a terra, pesam demasiado, não se póde exigir de umas mãos jovens a tarefa de as sustentarem. Ainda se fossem as de uma filha! Mas para que vieste? Julgas que me deixas forte? Estás enganada. Esta vida em mim é ficticia. É da tua presença que a recebo. Ámanhã que me deixes vêr-me-has mais prostrado do que me encontraste. Emquanto viveu a minha Beatriz, ninguem me viu fraquear. Dois mezes consecutivos, dois mezes, passei junto do leito onde ella agonisava, quasi sem dormir, quasi sem comer, e nunca me faltaram as forças, e desde o momento em que m'a tiraram dos braços para m'a encerrarem no tumulo, abandonou-me toda a minha energia, e cahi no leito quasi exhausto de vida. Mas vae, não quero sacrificar o teu futuro. A companhia de um velho cansa. Os corações na tua idade precisam de ar e de alegrias. Eu bem conheço isso; mas não me digas que é sómente a consciencia da missão que te compete na vida a que te impelle; essa bem a desempenharias tu aqui, e generosa e abençoada como nenhuma, porque nenhum coração receberá de ti consolação igual áquella que me dás; podes crêl-o, porque tambem poucos ha mais apertados de angustias e que ha tanto tempo abafassem como este meu. Mas queres deixar-me… Vae… vae, que eu não devo, nem quero impedir-te.

Havia tão sensivel commoção na voz com que D. Luiz pronunciára estas palavras, que Bertha sentiu o contagio d'ella, e pegando nas mãos do padrinho para as levar aos labios, disse-lhe sensibilisada:

—Ó meu padrinho, se é verdade o que diz, se a minha companhia lhe faz tão bem, ordene-me que fique, e ninguem me tirará de junto de si, e nenhuma sorte me será mais querida do que esta. Concorrendo para alliviar-lhe os seus soffrimentos, parece-me que estou cumprindo um encargo que Beatriz me deixou, e que ella do céo me sorri e agradece. Quer que não saia de ao pé de si? quer que lhe consagre todos os meus cuidados? fal-o-hei e fal-o-hei com prazer.

O velho cingiu a formosa cabeça d'aquella rapariga, que se lhe ajoelhava aos pés, e aproximando-lhe dos labios a fronte e as faces beijou-as a chorar.

—Obrigado, Bertha, obrigado por essas palavras que me entram pelo coração como um balsamo salutar. A minha vida não póde ser muito longa, filha, o teu sacrificio não duraria muito tempo… mas nem eu quero que faças promessas de cumpril-o. Só te peço que me dês algum tempo para responder á tua petição, e que até lá me não falles mais n'esse casamento. Eu pensarei e talvez… talvez me conforme com essa ideia, contra a qual ainda me revolto. Póde ser isto? Podes esperar na minha companhia alguns dias mais?

—Esperarei o tempo que quizer. E não pense por ora em tal casamento, se esse pensamento o afflige. Se soubesse nem lhe tinha fallado n'isto.

—Melhor foi que fallasses; é preciso pensar com vagar n'isso.

—Mas agora não, agora vamos até á quinta, que a manhã está bonita.

Em resultado d'esta conferencia nada ficou determinado emquanto á época do casamento. Thomé teve de dizer a Anna do Védor que o fidalgo ainda não podia prescindir da companhia de Bertha.

Anna não ouviu a noticia sem fazer-lhe commentarios, nos quaes havia algumas azedas allusões ao egoismo do fidalgo, que depois de offender o pae, assim se sabia apropriar dos serviços que lhe prestava a filha.

Cumpre porém notar que a boa Anna seria a primeira a aconselhar a Bertha que ficasse, porque sentia verdadeira pena do estado a que chegára D. Luiz.