XXXIII
A meio caminho da Herdade, a Anna do Védor, ao abrir uma cancella, para tomar por o atalho de um campo, deu de rosto inesperadamente com a pessoa que tanto lhe estava occupando o pensamento.
Jorge vinha em direcção opposta e preparava-se tambem para transpôr o portello.
Em um relance de olhos, a boa mulher verificou, na mudança de aspecto em Jorge, a exactidão das informações que lhe dera o filho, e com isso cresceram ainda mais as suas apprehensões, obrigando-a a exclamar consternada:
—Ó Virgem Mãe dos homens! que maus olhados te deitaram, meu filho, que parece mesmo que sahiste agora do cemiterio? Bem m'o tinham dito, mas tanto não esperava eu vêr!
—Então que lhe tinham dito, ama? Que me haviam desenterrado?
—O que me tinham dito? Queres sabêl-o? Pois olha que não ponho nenhuma duvida em t'o dizer. Tinham-me dito que tu não eras o rapaz de juizo que eu suppunha, que a final eras tão bom como os outros, e que por doidices de rapaz andavas mais morto que vivo, amarello e chupado, como quem tem já um pé na cova.
—E parece-lhe então que a informaram bem?
—De menos que não de mais. Que cara é essa com que tu me appareces? Tu queres ir atraz de tua irmã? Olha se queres. A coisa é facil se continuares n'esse andar.
—E então que lhe hei de eu fazer, ama? Uma pessoa não tem na sua mão o engordar e emmagrecer.
—É teres juizo, é não pensares em tolices, ou então, quando já não ha remedio, é andares para diante com a cara e não soffreres até rebentares.
—Agora é que não a entendo, ama.
—Entendes, entendes; mas, se queres que eu falle mais claro, sempre te perguntarei se era coisa que se fizesse dar por noiva ao meu Clemente, que se criou aos mesmos peitos que tu, a menina que o senhor fidalguinho da Casa Mourisca engeitou?
A impetuosidade do movimento com que Jorge respondeu a estas palavras da ama, a subita e intensa vermelhidão que lhe cobriu o rosto pallido, e o olhar indignado que fitou na boa velha, assustaram profundamente esta, que quasi se arrependeu do que dissera.
—Ama—disse-lhe Jorge commovido e com voz severa—quero acreditar que não pensou nas palavras que disse, nem sabe bem o que ellas significam. Vejo porém que conhece a meu respeito um segredo que eu desejaria que fosse ignorado. Não quero saber como lhe chegou ao conhecimento. Não negarei a verdade. Deixe-me porém dizer-lhe que mal sabe Clemente, mal imagina sequer a grandeza do sacrificio que eu fiz, facilitando-lhe o casamento em que elle me fallou.
Anna recuperou a sua presença de espirito.
—E quem foi que lhe pediu que fizesse esse sacrificio? O meu Clemente sabia lá o que vossemecê tinha no coração? Julgas tu que elle era homem que aceitasse de ti favores d'esses? Olha o outro, que assim que soube tudo, immediatamente deu o dito por não dito.
—O quê? Soube tudo… o quê? O que sabe Clemente?
—Sabe que o snr. Jorge da Casa Mourisca gosta da menina do Thomé da Herdade, e que a menina do Thomé da Herdade gosta do snr. Jorge, e o senhor meu filho, que é um rapaz de brio, não está resolvido a ser o trambolho que separe esses dois corações que morrem um pelo outro.
—Não sabe Clemente que essa affeição, que por infelicidade é verdadeira, está condemnada á morte e que não será a recusa d'elle que a salvará? Não estava seu filho resolvido a aceitar a amizade leal, que lhe offerecia Bertha, sentimento que mais tarde as affeições communs de familia por certo transformariam em verdadeiro amor conjugal? não me disse elle a mim que estava decidido a aceitar, se se convencesse de que a illusão de Bertha não podia ser nunca realidade? Pois essa certeza póde têl-a agora, se sabe tudo. E então porque hesita? Se não tem confiança em Bertha…
—Hesita e deve hesitar, sim senhor. Pois que vem cá a ser esses impossiveis? Olha agora a coisa do outro mundo que o snr. Jorge case com a Bertha da Povoa!
Jorge encolheu os hombros, sorrindo melancolicamente.
A Anna do Védor, interpretando mal aquelle sorriso, insistiu com mais acrimonia:
—É como eu digo. Ai, os escrupulos então são só para quando muito bem lhes parece? Os impossiveis vem só ao atar das feridas? Não que elle não ha mais. Tem um pobre homem uma filha, para quem deseja encontrar um marido trabalhador e honesto, que lhe sirva de arrimo; e vae senão quando apparece um fidalguinho que principia a olhar para a rapariga e a fazer-lhe gaifonas e a metter-lhe teias de aranha na cabeça, e ella, coitadinha, deixa-se ir e prende as azas na rede; e é então que o menino bonito se lembra dos impossiveis e a deixa, e por muito favor cede-a a um rapaz honrado que a estima com lizura e com as melhores intenções de fazer d'ella sua mulher, mas a quem ella já não póde dar o coração, porque o outro lh'o roubou. E diga-me uma coisa, ficava bem a este rapaz aceitar para mulher a rapariga que lhe diz que deu a outro o coração? Para que quer um homem em casa uma mulher sem coração, não me dirá vossemecê?
Jorge ouvia cada vez mais triste e pensativo as recriminações da ama. Dir-se-ia que algumas d'aquellas palavras lhe feriam o coração de remorsos, como se n'ellas sentisse o que quer que fosse verdadeiro; ao mesmo tempo protestava-lhe tambem contra a accusação a consciencia que não o havia accusado tão severamente.
Olhando com gesto melancolico para a mãe de Clemente, que levada pelo impulso da sua eloquencia, ia augmentando de severidade, Jorge disse-lhe com placidez:
—Tem razão em parte no que diz, ama, porém creia que trabalhei devéras para vencer isto em mim. Nem eu sei como me adivinharam; como ella o adivinhou. Ah! sim… lembro-me já… Disse-lh'o eu; mas não foi, como julga, no intento de illudil-a; disse-lh'o em um momento de desespero, quando ella com lagrimas me perguntava porque eu lhe queria mal. Eu querer-lhe mal! Disse-lhe então tudo. Ella soube de mim pela primeira vez este segredo e eu d'ella um segredo igual. Pedi-lhe então que me indicasse o que devia fazer. Da sua propria vontade nasceu a minha resolução, a nossa… Bem vê, ama, que não sou tão criminoso como suppôz. Acredita que eu fosse capaz da vileza que disse? O que fiz por Clemente não podia deshonral-o. Bertha sabel-o-ia fazer feliz, porque comprehende bem os seus deveres. Eu conheço a tempera d'aquella alma. Mas emfim, se me illudi, se nos meus actos ia offensa para Clemente, elle que me perdoe, que não houve n'isso intenção.
Anna do Védor sentiu que lhe vibrava a corda da sensibilidade no coração, ao escutar aquellas palavras sérias e tristes que lhe dizia Jorge.
—Vae-te d'ahi!—exclamou ella, disfarçando a sua commoção.—Quem falla aqui de offensas? Então acreditas que tudo isto que eu disse foi a sério? Era o que me faltava! Sim, que eu não te conheço, sim, que eu não te trouxe n'estes braços e te fiz saltar no meu collo e te vi brincar com os mais rapazes e sempre com mais juizo do que elles todos? Pateta de rapaz que me não entendeu! O que me faz enraivar é o vêr-te assim consumido por uma coisa d'estas. Logo te deu o diacho tambem para gostares da filha do Thomé, quando não faltavam raparigas que boa conta te fizessem. Que ella é boa pequena e poucas d'essa fidalgaria que por ahi ha merecem servir-lhe de criada, mas emfim… é filha do Thomé e teu pae era capaz de estoirar se… Mas adeus, minha vida, o tempo d'elle já passou e tu é que não has de definhar-te e entisicar só para fazer-lhe a vontade. Vê lá, se achas que isso em ti é do coração…
—Não, ama, não. A resolução está tomada. Hei de acabar com isto em mim, succeda o que succeder. Jurei.
A ama tornou com maior vehemencia:
—E a mim é que se me importa com os teus juramentos! Ora veja eu o caso mal parado, e veremos o que por ahi vae. Vou-me ter com o fidalgo… Na, na, na, na, escusas lá de bulir com a cabeça, que isso para mim não vale nada. Eu bem sei o que me pediu tua mãe á hora da morte. Deus a chame lá. Coitadinha! levou-vos atravessados no coração para a sepultura. Sabia o genio do pae e via-vos tão criancinhas!… «Ó ama—disse-me ella, e parece-me que ainda a estou a ouvir—o que me não deixa morrer em socego são estes tres meninos.» Vossês brincavam na outra sala: «Olhe-me por elles, ama, lembre-se de que ficam sem mãe.» Ai! E eu que tanto gostava d'aquella senhora, havia agora de te vêr assim consumido e ficar-me de braços cruzados? Pois sim, espera que logo.
—Ama, peço-lhe que não dê passo algum junto de meu pae sem me consultar.
—Ai, estava bem aviada se esperava pelo teu conselho. Olha agora!
—Veja que póde causar-me um grande mal, ama!
—Olha, eu só te digo uma coisa. Queres que eu me deixe ficar socegada? tracta de me apparecer com outra cara. Senão, não te queixes.
Jorge, que conhecia por experiencia os repentes da ama, ainda insistiu por muito tempo. Ella porém, respondendo-lhe com evasivas, conseguiu separar-se sem haver promettido coisa alguma.
A Anna do Védor seguiu por muito tempo com olhos tristes Jorge que se afastava lentamente. Depois que o perdeu de vista na volta de um caminho, suspirou e foi murmurando:
—Nada, isto assim não vae bem. O rapaz está que faz pena vêl-o. Ainda se fosse com o irmão, era coisa que passava, mas com este!… Lembra-me que, já em pequenino, se a mãe ou o pae lhe ralhavam, ficava aquella criança entalada e sem chorar, mas era sabido que o tinham doente por uma semana. Foi sempre assim. Brioso como uma pessoa de juizo. Agora é capaz de estalar de paixão e deixar-se morrer por ahi sem se queixar. Pois, ao poder que eu possa, tal não ha de succeder. Isso lhe prometto eu.
N'este soliloquio foi vencendo a boa mulher a distancia que a separava da Herdade, onde chegou na occasião em que Thomé e a sua companheira examinavam e discutiam juntos na sala de jantar as vantagens da acquisição de um campo, que o lavrador trazia em vista.
A Anna do Védor foi recebida como quasi parenta que era da familia.
—Viva a ti'Anna!—exclamou folgadamente Thomé—a mais guapa das raparigas do meu tempo, sem querer fazer desfeita á Luiza.
—Lá se viu qual das duas elle escolheu—acudiu com igual humor a mãe de
Clemente.
—Então que quer? Tudo n'este mundo é sorte. Além de que a ti'Anna já estava tentada com aquella alma lavada do João Védor, e não se lhe dava volta.
—Foi o que te valeu, Luiza, senão bem perdias esta boa joia.
Luiza sorriu bonacheironamente como sempre fazia quando o marido gracejava.
—Mas que sancta a trouxe a esta sua casa?—perguntou Thomé—Olá, vamos cá a saber, quer tomar alguma coisa?
—Qual historia! De almoçar venho eu, e isso mesmo sabe Deus o que me custou.
—Então andas doente, Anna?—informou-se Luiza com bondosa solicitude.
—Eu doente? Ora essa! Eu sou lá creatura que adoeça?!
—E como vae o Clemente? o nosso Clemente?—perguntou Thomé—porque eu e
Luiza tambem já o podemos chamar nosso.
—Devagar, devagar, o melhor é não se costumarem a isso, para não lhes custar depois a perder o costume.
—A perder o costume? E porque o havemos nós de perder?
—Porque já lá vae o afilhado de quem eramos padrinhos.
—Não a entendo, ti'Anna.
—Ora a coisa é simples. E vossês o que devem é erguer os olhos mais para o alto.
—Ó ti'Anna, se quer que a entenda, falle-me claro, e cá á nossa moda; pão pão, queijo queijo.
—Prompto. Para ahi vou eu. Pois ahi tem: o casamento da sua rapariga com o meu rapaz foi caso fallado e acabou-se.
—Acabou-se? Como acabou-se? Porquê?
—Porque Bertha não tem para ahi o sentido.
—Ora essa! Então ella não disse…
—Disse, sim senhor, disse que casava, e tambem o disse a meu filho, mas acrescentou que não lhe levaria o coração comsigo.
—Bertha disse isso? Quando? A quem? A Clemente? Não póde ser!… Mas não leva o coração… Porquê?
—Porque já não o tem.
—Como já não o tem?
—Porque já fez presente d'elle.
—Que está a dizer, ti'Anna? Já fez presente do coração! Bertha? A quem?
—Ora diga a verdade, Thomé, não suspeita mesmo, mesmo de ninguem?
—Na minha salvação, que não.
—Pois olhe que é verdade.
—Mas a quem?
—A uma pessoa que vinha por aqui.
—A uma pessoa que vinha…
—Ai, Thomé, que bem o suspeitava eu—exclamou Luiza, juntando as mãos.
—Cala-te, mulher; ahi voltas tu com as tuas tolices; mas diga, ti'Anna…
—Que suspeitavas tu, Luiza?—perguntou Anna do Védor.
—Que elles tinham alguma inclinação um para o outro.
—Elles quem?
—Ninguem, ninguem. Esta minha mulher de vez em quando tem visões.
—Elles quem?—insistia a Anna do Védor.
—A nossa rapariga e…
—Cala-te, Luiza, tu não tens vergonha?—atalhou o marido.
—E quem mais? acaba—repetiu Anna.
—E o fidalgo—completou timidamente Luiza.
—Jorge? Pois adivinhaste.
—Ah!—exclamou Luiza, com natural satisfação.
—O quê?—bradou Thomé, erguendo-se com impeto e córando—adivinhaste? adivinhou? Quem?… Luiza? Então… Bertha… a ti'Anna diz que Bertha… Não disse que Bertha…?
—Ó Thomé, escusa de fazer tanto espanto. Eu disse que Bertha gosta do fidalgo e que elle gosta da rapariga.
—Tão doida está a ti'Anna, como está a minha mulher.
—O seu juizo, Thomé, é que não me parece muito seguro. Olhem o grande milagre que a sua filha goste do rapaz, que não tem por ahi outro que se lhe ponha ao pé, e que o rapaz, emfim, que o rapaz tambem tenha a sua inclinação por a pequena, que não é para engeitar. Olhem a grande admiração!
—Eu bem prégava a este homem, mas coisa que lhe diga, é o mesmo que nada—observou Luiza.
—Mas quem lhe metteu essas patranhas na cabeça?—perguntou o lavrador com um riso contrafeito, já interiormente inquieto, e tentando resistir á convicção que se lhe estava formando no espirito.
—Ora quem havia de ser? Uma pessoa que me parece que tem obrigação de estar bem informada. Foi o mesmo Jorge.
—Jorge?! Jorge disse-lhe…
—Agora mesmo o deixei na Corredoura, onde lhe estive fallando bem bem um quarto de hora talvez.
—Ti'Anna, eu não quero offendêl-a, mas ha coisas tão incriveis! Ora diga-me, não sabe quem me fallou na pretenção do seu filho?
—Sei, sei muito bem que foi Jorge, e vae d'ahi? E sei que Bertha tambem disse que sim. Então que mais quer? Mas sei tambem que o rapaz, quando Clemente lhe fallou n'isso, ia rompendo com elle; sei que depois do casamento ajustado, emmagreceu e anda como desenterrado; sei que a sua pequena disse aquillo, que eu já contei, ao meu Clemente, e que o rapaz teve as suas suspeitas, e que eu fallei claro ao Jorge, que não teve cara para negar. Ora aqui tem.
Thomé da Povoa ficou assombrado com a revelação. Nunca o lavrador dera importancia ás suspeitas da mulher, cujos instinctos tinham visto melhor do que a razão clara do marido.
—Pois se isso é verdade—disse Thomé, medindo a sala a passos largos—é uma grande desgraça!
—Oh! Ahi vem o outro!—respondeu-lhe a Anna do Védor com o seu animo intemerato—Credo! Parece-me um sino a tocar a defuncto. Então que grande desgraça vem a ser essa?
—Nem vossê pensa o que d'ahi póde resultar, ti'Anna. Mas sempre se lembre de que n'essa historia entro eu, o fidalgo velho, o rapaz e a minha pequena. Se nos conhece bem a todos, supponha o que d'ahi póde sahir de bom.
—Quer vossê dizer na sua: «Nós os velhos somos dois caturras e os novos são capazes de morrer de paixão.» Mas se os novos tiverem juizo, não se lhes importa com as caturrices dos velhos, e estes o mais que podem fazer é irem um anno mais cedo para a sepultura, o que é bem feito para não serem teimosos. Olha agora!
—Eu bem o suspeitava—repetia de quando em quando a boa Luiza.
—Nem eu quero pensar n'isso para não me arrepender pelo pouco que tenho feito por aquella familia—tornava Thomé.—Se o fidalgo soubesse que o filho mais velho se agradára da minha pequena, o que havia de pensar? O que eu no seu logar pensaria. Que isto em mim fôra tudo um calculo, que procurei trazer o rapaz a minha casa, depois de mandar buscar a filha á cidade, que lh'a metti á cara, que levei a rapariga para o pé do velho com o fim de o dispôr para a approvação dos meus planos… Ó que vergonha! que vergonha! Então é que elle teria razão de me olhar com desconfiança, e quem lh'a não daria? Mas que cegueira a minha! Cegueira! Mas se elles mal se fallavam, se Jorge parecia tão occupado nos seus negocios, que a nada mais dava attenção!
—Ai, eu cá bem o suspeitava—repetiu Luiza.
—Isso não póde ser! Cada vez mais me convenço de que isso é impossivel.
—Pois digo-lhe eu que é verdade, como dois e dois serem quatro. Ora agora elles dizem que decidiram acabar a todo o custo com aquillo por causa do velho, e d'ahi veio a historia toda do casamento; mas no andar em que vão as coisas, parece-me que elles acabam mas é comsigo.
—É uma desgraça! mas que remedio? Ainda que eu cuidasse de vêr morrer-me a filha, havia de oppôr-me a esses amores. E mais depressa a recolheria em um convento…
—O que ahi vae! o que ahi vae! Ó homem de Deus, ia-lhe talvez muito mal se a filha lhe casasse com o rapaz.
—Era uma desgraça, repito. E eu nunca mais poderia olhar de frente para o fidalgo, como o fiz até agora, graças a Deus! porque então teria elle razão de me suspeitar de intriguista.
—Se a sua consciencia o não accusa, não lhe dê canceira o que os outros pensam.
—Eu bem t'o dizia, Thomé, não que tu não querias crêr!—insistia Luiza, entre pezarosa e satisfeita.
—Já me tarda vêr a rapariga para fóra dos Bacellos. Mal sabia eu quando a levei para lá, que um dia podiam vir a julgar que eu o fizesse por calculo!
—Deixe estar a rapariga onde está; Deus que conduziu as coisas assim, lá sabe para que o fez.
—A ti'Anna não sabe o que o fidalgo velho tem sido para commigo? Não sabe que elle mal me póde perdoar o eu ter levantado a casa defronte do seu palacio? e melhorado de anno para anno a minha, ao passo que a d'elle ia cahindo por terra? Não viu o que elle fez só porque soube que o filho tinha vindo ter commigo para o ajudar a livrar-se da usura e das dividas, que lhe deitavam a perder a casa? E agora então julga que eu hei de soffrer que elle suspeite sequer que as minhas tenções eram ou são as de engrandecer á custa dos seus a minha familia? A ti'Anna soffria isto?
—Mas não se está a vêr como o velho gosta da sua pequena, que nem de ao pé de si a deixa sahir? Quem sabe? Ás vezes…
Luiza suspirou, entrevendo a risonha perspectiva que a Anna do Védor assim em confusas tintas lhe pintára.
—Não sou eu que me illudo com essas coisas, ti'Anna—proseguiu Thomé.—O meu plano está feito. Hoje mesmo Bertha ha de dormir na Herdade. Se o seu Clemente a não quizer, paciencia. Nem eu quero obrigal-o, nem á rapariga, a casar contra vontade. Apesar de tudo confio no juizo de Bertha, que ha de vêr as coisas como ellas são, e por isso não me dá cuidado. Que se assim não fosse, eu lhe affirmo que a levaria outra vez para Lisboa. O Jorge é tambem um rapaz honrado. Tudo se ha de remediar ainda, querendo Deus.
—Olhem que homem este! Escusa de tomar essas cautelas todas se o que quer é separal-os. O perigo não está aonde pensa. Elles mesmos resolveram esquecerem-se um do outro e não precisam que vossê os separe. Olha agora! O perigo está em que Jorge já anda doente, e que provavelmente a rapariga não ha de ficar com muita saude se elle lhe morre. Veja lá se isso não é bem peior do que o casamento.
—Deus nosso Senhor nos acuda!—exclamou Luiza assustada.
—Não falle em casamento, ti'Anna, que até me envergonha essa palavra!
—Pois então não se envergonhe e prepare o enterro de sua filha, que o do rapaz não tardará muito. Olha agora! Este homem parece que não tem coração de pae! Eu não sei que diacho de coração é o d'elle! Deixe que quando lhe quizer acudir, já não ha de ser tempo. Ha de vêr a filha morrer-lhe e então é que hão de ser os arrependimentos.
—E que quer que eu faça, mulher?—exclamou Thomé já exasperado.—O meu dever é este. Deus que determine depois o que fôr da sua vontade. E julga que se eu pensasse como pensa a ti'Anna, que isso me serviria de alguma coisa? Parece que não conhece o fidalgo! Pois tantos annos que conviveu com aquella familia ainda lhe não fizeram conhecer o genio d'elle?
—Mas que me importa a mim o genio do velho? Ora essa é que está muito boa! O velho tem um ou dois annos de vida, e lá para o não zangar, não hão de um rapaz e uma rapariga fazer a sua infelicidade. Olha agora!
—Pois sim, pois sim, vossemecê falla bem; mas o que lhe digo é que não tardo nos Bacellos, e que já de lá não venho sem a rapariga.
E sahindo da sala devéras preoccupado, Thomé ia murmurando:
—Foi uma desgraça! uma verdadeira desgraça, meu Deus!…
A Anna do Védor viu-o sahir e meneou a cabeça com certo ar de benevola ameaça.
—Sim? Elle é isso? Pois já que tu és teimoso, eu te prometto que me has de vêr pela frente. Vae, vae aos Bacellos, que quando lá chegares já has de encontrar novidades. Olha agora! Adeus, Luiza, adeus.
Luiza ergueu-se, e abraçando-se na amiga, desatou a chorar.
—Ó mulher, vossê porque chora? Olha agora! Tenha juizo, mulher. Deixe lá que ha de viver para vêr a sua filha bem casada e feliz. E deixe-me que preciso de ir adiante do Thomé para elle não fazer tolices.
—Ai, eu sempre suspeitei isto, elle é que não queria acreditar.
—Pois agora já acredita. E o mais confie em Deus e deixe-me sahir.
E a Anna do Védor sahiu apressada, e murmurando de instante a instante:
—Olha agora!