A bôca do sapo
Interior caseiro, modestamente mobilado. CARLOS e MARIA CELESTE conversam sentados, junto duma mêsa. A voz dêle tem um timbre imperativo e enérgico; a dela é aveludada, melodiosa, humilde.
Tarde de novembro. Ameaça chover.
CARLOS
Compreendes que me seria muito desagradável que alguêm soubesse o que tem havido entre nós...
MARIA CELESTE, como se despertasse:
Ah!... o que tem havido...
CARLOS
Ou o que possa porventura haver ainda... Porque eu, apesar do que vai acontecer, não[{20}] quero romper comtigo duma maneira absoluta. Não se vive impunemente três anos com uma mulher. És uma rapariga de coração—não to digo para que mo agradeças; e sinto que não devo abandonar-te...
MARIA CELESTE
Não, Carlos, enganas-te; eu nunca mais serei tua, haja o que houver. Nunca mais!
CARLOS
Endoidecêste?!
MARIA CELESTE
Creio que não endoideci. Vamos separar-nos, hoje, por toda a vida. Se alguma vez nos encontrarmos já não serás o mesmo homem... nem eu a mesma mulher. Não nos conheceremos.
CARLOS
Ora! ora!
MARIA CELESTE
Afirmo-to![{21}]
CARLOS
Terás essa coragem?!
MARIA CELESTE
Se terei essa coragem!...
CARLOS, após uns momentos de reflexão, conciliador:
Bem, não compliquemos as coisas: deixa-te de criancices.
MARIA CELESTE
Criancices?!
CARLOS
Decerto. Não consegues convencer-me que essa tua resolução seja inabalável.
MARIA CELESTE
Verás.
CARLOS
Ou nunca me tiveste amor.[{22}]
MARIA CELESTE
Seja: nunca te tive amor...
CARLOS, apreensivo:
E talvez. Se fosses minha amiga não te resignavas facilmente a perder-me. Havia de custar-te a suportar um abandono, quanto mais...
MARIA CELESTE
Por isso mesmo,—porque sou tua amiga...
CARLOS
Palavras...
MARIA CELESTE
Não quero tornar-me um fardo para ti.
CARLOS, que principia a indignar-se:
Palavras! Palavras![{23}]
Faz-se silêncio. Os dois ficam absortos, sem se olharem.
CARLOS, com uma serenidade forçada, momentos depois:
Não queres certamente atribuir-me a responsabilidade do que sucedeu...
MARIA CELESTE
Nem tenho êsse direito.
CARLOS
Sabes muito bem como as coisas se passaram.
MARIA CELESTE
Sei.
CARLOS
Não ignoravas que um dia eu havia de me casar.
MARIA CELESTE
Não ignorava.[{24}]
CARLOS
Tive a franqueza, a lialdade de to confessar muito antes de me pertenceres.
MARIA CELESTE
Tiveste.
CARLOS
Tentei até por varios meios evitar a tua falta. Lembra-te que fôste minha por tua livre e espontânea vontade!
MARIA CELESTE
Lembro, lembro...
CARLOS
O teu acto foi, portanto, premeditado...
MARIA CELESTE
Pois foi.
CARLOS
Não representa o cego impulso dum momento de paixão que eu ateasse, com a mira[{25}] numa conquista. Eu disse-te: «Maria Celeste, pensa, reflecte, olha o que te póde suceder... esquece-me». É isto verdade?
MARIA CELESTE
É.
CARLOS
Só tu fôste nêsse caso responsável. Fôste tu que assim o quiseste...
MARIA CELESTE
Fui eu que assim o quis.
CARLOS
Pois bem. E agora, quando podia abandonar-te sem remorsos, apenas com a amarga saùdade do que tens sido para mim; e que venho oferecer-te, desinteressadamente, a promessa de continuar a ser para ti um amigo, um protector... alguêm...[{26}]
MARIA CELESTE, com tristeza:
Alguêm!...
CARLOS
Sim! E repeles-me, afastas-me como se eu fôsse o pior, o mais grosseiro, o mais indigno dos homens!
MARIA CELESTE
Carlos!
CARLOS, fóra de si:
Oh! a ingratidão!... A ingratidão!
MARIA CELESTE cala-se, sucumbida. Os olhos arrasam-se-lhe de lágrimas; e ficam assim os dois numa nervosa hostilidade, êle a passear na sala, resmungando censuras, e ela chorando, muda e convulsivamente, sôbre o lenço molhado.
MARIA CELESTE, dominando a comoção:
Não quero que me consideres uma despeitada. Justifico a tua cólera, as palavras severas[{27}] que me diriges, tudo, emfim, porque te compreendo... porque te estimo. Ainda bem que reconheces que eu não fui para ti uma amante vulgar. E não fui. Amei-te com um amor verdadeiro, livre, sem condições. É certo que me aconselhaste, que me preveniste a tempo, mas... de que servia? Só quem não ama sabe interpretar conselhos e ouvir razões... Quantas vezes, comigo, no isolamento do meu quarto, calculei a profundidade do abismo em que cairia se me deixasse levar pelo coração. Pobre de mim! Mil vezes deliberei não te receber, mil vezes não te falar mais, nunca mais! Mas apenas subias aquelas escadas e ouvia o ruido dos teus passos... oh! então, o meu juizo turbava-se, as minhas mãos arrefeciam, a minha alma, o meu corpo, a minha vida inteira, fugiam para ti! E pensava: é o Destino...—Uma tarde, uma noite, sabes bem o que se passou... Era o céu, era a felicidade que se me deparava. Sabia que isto não podia durar sempre, que tudo acabaria depressa... que havias de te casar: tu disséras-mo!... Mas achava-me tão bem, tão contente de viver[{28}] assim, que não pensava, não queria pensar que essa hora amarga chegaria breve! (Comovida:) O que me prendeu a ti, sobretudo, foi a tua franqueza, êsse mixto de compaixão e indiferença que por mim professavas, os melindres da tua consciência, a previsão do que poderia resultar, na certeza de lhe não dares remédio... Tudo isso me tentou, me seduziu como uma coisa terrível que se teme—e que irresistivelmente nos atrai...
CARLOS, condoído:
Fui para ti—pobre dòninha inconsciente e louca!—uma espécie de bôca do sapo, queres dizer...
MARIA CELESTE
Fôste o meu único, o meu exclusivo amor na vida! (Fita-o nos olhos penetrantemente). Anda, diz'-me lá se isto não é assim, se isto não é verdade?!...
CARLOS, impressionado:
Ouve-me, Maria Celeste, escuta...[{29}]
MARIA CELESTE
Não, não! não posso... não teimes.
CARLOS
Sê razoável...
MARIA CELESTE
Não teimes. Quero conservar-me sempre digna de ti.
Há um silêncio concentrado.
CARLOS, numa ideia repentina:
E se eu desistisse de casar? Ou antes, se te dissesse para casares comigo?...
Olha-a com ansiedade.
MARIA CELESTE, resolutamente:
Não aceitaria.
CARLOS
Quê!?[{30}]
MARIA CELESTE
Não aceitaria. Pelas cinzas de minha mãe, acredita!
CARLOS, abismado:
E porquê?!
MARIA CELESTE
Porquê?...
CARLOS
Sim.
MARIA CELESTE
Porque tens uma noiva, porque empenhaste a tua palavra. Depois...
CARLOS
Depois...
MARIA CELESTE
Porque me não amas, Carlos...[{31}]
CARLOS
Mentes!
MARIA CELESTE
Como queiras... (Pausa) Eu fui para ti apenas isto: uma pobre rapariga que te interessou: uma curiosidade, uma aventura...
CARLOS
Uma aventura! Mas devo-te o que não devo a ninguêm!
MARIA CELESTE
?!
CARLOS
A tua honra. Déste-me a tua honra!
MARIA CELESTE, com simplicidade:
Pois nada mais tenho que te dar...
CARLOS
Como dizes isso![{32}]
MARIA CELESTE
Digo o que sinto.
CARLOS, depois duma longa pausa:
E que has-de fazer agora? Queres continuar a viver como vivias?
MARIA CELESTE, encolhendo os ombros:
Sei lá!...
CARLOS
Podias ter sido feliz com outro homem...
MARIA CELESTE, convictamente:
Não o podia ser com mais ninguêm.
CARLOS
Sacrifício inutil...
MARIA CELESTE
Não há sacrifícios inuteis nêste mundo, meu amigo... Demais, tu fôste para mim o[{33}] que tinhas de ser... Não és culpado do meu infortúnio. Estou satisfeita, crê,—recompensada. (Tentando convencê-lo): Tu não fizeste mais do que aproveitar uma mulher que se te oferecia...
CARLOS, enternecido, toma-lhe as mãos, que beija:
És uma santa! (Com uma infinita saùdade a transparecer-lhe na voz) E lembrar-me que amanhã tenho de deixar-te!...
MARIA CELESTE
Paciência...
CARLOS
... que nunca mais tornarei a ver-te! que nunca mais porei aqui os pés em tua casa!
MARIA CELESTE
Nunca.
CARLOS
Nem que um dia precise de ti?[{34}]
MARIA CELESTE
Nem que um dia precises de mim.
CARLOS
É o fim de tudo, visto isso?
MARIA CELESTE
De tudo.
CARLOS, num movimento impulsivo, de protesto:
Não, Maria Celeste, não é! Renuncia a êsses teus propositos. Eu não posso, não quero deixar-te.
MARIA CELESTE, incrédula:
Não queres...
CARLOS
Não quero. Duvidas?[{35}]
MARIA CELESTE
Duvido. O que te impressiona agora é a minha presença. Quando saíres daqui tudo se desvanecerá como fumo...
CARLOS, sucumbido:
Tudo se desvanecerá!
MARIA CELESTE
Sim. Repara que eu fui para ti simplesmente—uma amante...
CARLOS
E então?
MARIA CELESTE
Acabou tudo nêste dia em que começo a tornar-me um embaraço para a tua felicidade...
CARLOS
Maria Celeste: juro-te![{36}]
MARIA CELESTE
Não jures. Tu no fundo sentes isto mesmo, mas não tens coragem de mo dizer... És bom, tens dó de mim. Mas nem todo o teu dó, nem toda a tua bondade conseguem dar-me a ilusão de que sou amada!...
A que horas partes amanhã?...[{37}]