Aquela família...
A princípio eu ia só, numa carruagem de segunda, o que me permitia desfrutar o panorama e gozar uma relativa comodidade. Mas mais adiante, numa estação qualquer, mal o comboio parou, a portinhola abriu-se e o meu compartimento foi invadido de assalto por uma família inteira que atravancava tudo: rêdes, bancos, o menor espaço disponível, com malas, embrulhos e cestinhos,—uma infinidade de volumes!
O chefe do rancho era um homem nédio, sanguíneo, que rebocava uma senhora pesada (onde eu adivinhei a espôsa) e mais duas raparigas e um garoto, de marinheiro, magrinho, linfático e triste.
Auxiliei-os. Fiz menção de ajudar as damas[{8}] a subir. E quando a máquina apitou e o trem se pôs em marcha com um ranger de molas e de engates, ainda nós todos dispúnhamos a bagagem amontoada nas proporções dum Himalaia.
Agradeceram, muito penhorados; e depois de instalados convenientemente, o dono de tudo aquilo, que limpava com um lenço enorme as bagas de suor, pediu-me licença para tirar o casaco e envergar o guarda-pó.
—Parece que estamos no Congo! justificou. Este calor está mesmo a exigir tanga...
Eu sorri, relanceando um olhar às donzelas, que sorriram tambêm, ruborizadas, daquela ideia africana do papá. E êste, farejando em mim uma índole comunicativa, inquiriu satisfeito:
—O cavalheiro vem de Lisboa?
—Não senhor. Eu sou da Beira.
—Da Beira!... Então é de Vizeu?
Sorri de novo, discretamente, respeitando as noções corográficas do viajante simplório, que o acaso colocára assim na minha presença.[{9}]
Apressei-me por isso a confirmar:
—Sou de Vizeu...
—Nesse caso conhece lá o Gastão?
—O Gastão?!
—Sim, o Gastão Vieira, dos Impostos.
Achei divertido conhecer o Gastão. Recordei-me:
—Ora se conheço! Estou doido! Conheço perfeitamente...
Mas depressa caí em mim, reflecti que podia ser colhido na mentira. Foi, portanto, para eximir-me a perguntas que ferviam já nos lábios do companheiro que eu perguntei do meu lado:
—E V. Ex.ª? V. Ex.ª é daqui dêstes sitios?
—Sim senhor. Mas agora vamos para banhos. Isto que o sr. aqui vê (com um gesto circular indicava a família) pertence-me. O rapaz é fraquito, tem escrófulas (apontava o pescoço do fedelho) olhe!—Dizia-me o dr. Maia... Conhece?
Declarei que não.
—Pois admira... Espere, agora me lembro: deve conhecer. Êle até costuma ir muito[{10}] a Vizeu. É irmão do padre Levi, Levi da Maia, duma família muito ilustre que tem uma irmã viscondessa. O sr. conhece com certeza...
E como eu insistisse na negativa:
—O padre Levi, homem! o que escreve no Vouga... Não conhece o senhor outra coisa!
Tive de lhe dizer que sim.
Havia-me insinuado já no ânimo duma das meninas com quem entretinha desde a última estação um namôro matreiro: e apontava-lhe como flechas os olhos amorudos, dardejando-me ela os seus, redondinhos, negros, sertanejos...
—Pois o dr. Maia,—tornava o pai—dizia-me muita vez: «Alves, leve você o rapaz ao mar; leve você o rapaz ao mar que se cura.»—Mas ó doutor, veja lá, tenho agora tantos afazeres (e tinha) se o rapaz fôsse coisa que se pudesse aí endireitar, que demónio, tomando umas drogas...«—Não, não, sem banhos não se põe direito.»—Que havia eu de fazer? Que fazia o senhor nas minhas condições?[{11}]
Esperou resposta; e como lha não désse:
—Saía, não é verdade?
—Pois claro!
—Foi o que eu fiz. Mando arranjar as malas, tranco a porta, meto toda esta tropa no comboio... e cá vamos!
—Faz muito bem.
—Acha?...—poisava a sua mão sapuda na minha côxa, todo familiar.—Acha então o cavalheiro que faço bem?...
—Mas isso nem se pergunta! aplaudi sem reservas.—-Mesmo que não houvesse precisão, que infelizmente há; bastava só a ideia de irem gozar!
—Gozar! Mas olhe que se gasta um dinheirão!
—Pois gasta. E isso que tem? A gente não vive só do que mete no estômago. É preciso ver, dar de comer aos olhos.
—Dar de comer a quê?
—Aos olhos...
—Huum! mugiu.
Não percebêra. Suava com o calor, nas fontes, nas bochechas, mórmente nos refêgos[{12}] do cachaço, duma grande riquêsa de tecidos celulares...
Entrou depois a divagar sôbre economias expondo-me numa franqueza saloia o orçamento da viagem; e tentou por último explicar pela hereditariedade a compleição mórbida do filho:
—Isto é de familia! O avô dêle, meu pai, tambêm assim era: sempre doente, sempre com remédios. Mas a avó, é curioso! robusta, còrada, parecendo que vendia saúde... Eu, aonde me vê, nunca tive uma dôr de cabeça! Mas já um tio que nos morreu há três anos...—Voltou-se para uma das filhas:—O tio Aristides...
—Ah!
E relatou o que era êsse tio, com os seus achaques, suas mazelas, seus ungùentos e seus tumores supurativos, em salvo lugar...
Alves dispunha-se em suma a fazer-me seguir todas as ramificações patológicas da sua ascendência! Passei a não lhe responder, dizendo-lhe a tudo que sim, com a cabeça.
E a rapariga, de lá, muito meiga...[{13}]
No meio desta felicidade, porêm, a certa altura—na altura de Ovar—passou-se um episódio triste, de que fui vítima, o qual produziu profundo desgôsto em todos nós. Fôra o caso que, sobranceira ao meu lugar, ia uma cesta; senão quando, aí se põe ela a mijar sôbre mim, no meu chapéu mole, qualquer gorduroso líquido em fio... Ergo-me dum pulo. Houve um alvoroço no compartimento. Alves gritou: «oh, demónio! oh, demónio!»
Entretanto alguêm explicava que tinha sido o môlho do peixe que se entornára...
O môlho do peixe!
Eu tinha então já tirado o meu chapéu e olhava desolado a nódoa negra, enorme, que alastrava, se embebia no feltro da aba, inutilizando-o sem remédio!
Côro de lamentações e desculpas:
—Ora esta!
—Uma assim!
—Só a nós é que acontece...
E de coração alanceado, com ancias de espancar aquela gente bárbara, eu ainda ganhei fôrças para lhes dizer:[{14}]
—Não faz mal; não se incomodem. Até tem graça! Pelo amor de Deus!...
Ocorreu todavia aqui uma coisa galante que me cativou: essa das duas meninas que me havia já endoidado o coração, num movimento impulsivo e no mais aceso da balbúrdia que se estabelecêra, tira do seio o lencinho de assoar e veio enxugar com êle a nódoa indelével.
Esquivei-me desvanecido:
—Oh, minha senhora...
E com o lenço enrolado à laia de esponja, ela ia chupando, chupando...
—Se calhar era novo...—disse-me, a meia-voz.
Respondi:
—Era novo.
—E bom?
Fiz um gesto de grandeza:
—Dezoito tostoes!
Alves voltou-se espantado para a espôsa, que segredou a importância a outra filha, a quem o irmãosito—que viera à janela do vagom a ver a máquina—pedia choramigando[{15}] e arregalando um dos olhos que lhe tirasse um algueiro...
Daí a momentos o comboio parava:
—Espinho!
Era a estação onde êles se apeavam. Alves foi o primeiro a levantar-se; tirou a carteira e entregando-me um bilhete ofereceu-me os seus «fracos préstimos», pedindo mais uma vez desculpa do desastre. As senhoras cumprimentaram igualmente e quizeram tambêm que eu as desculpasse. Eu desculpei-as. E a mãozinha da minha efêmera namorada, ao despedir-se, tremia como um passarinho, quando lha apertei numa pressão significativa. Segui-a com a vista até desaparecer pela porta da estação; e numa derradeira vez que ela se voltou a olhar-me, não sei, mas ia jurar que lhe vi lágrimas...
Encostei-me então a um canto, sorumbático, a fumar. O meu espírito oscilava como um pêndulo entre a suave lembrança daquela trigueira (eu ainda lhes não disse que ela era trigueira) e a ideia negra do meu chapéu manchado. Ambos perdidos já agora para mim![{16}] ambos, pela fôrça do Destino! Pela distância que ia separar-me dela para não mais talvez a tornar a ver; pela mácula que dêle me apartava para nunca mais porventura o poder usar!
Encarava eu filosoficamente a situação por êste lado, quando á janela do compartimento assomou de novo o focinho do Alves, a farejar-me, a dizer:
—V. Ex.ª faz-me um obséquio? Não se esquece, quando regressar a Vizeu, de me recomendar muito ao meu amigo Gastão. Eu, tambêm, quando lhe escrever, hei-de falar muito de V. Ex.ª e da simpatia que nos inspirou a todos. Criado de V. Ex.ª...
Ouviram-se os sinais da partida. Estendemos as mãos cordialmente; e ao pôr-se o comboio em andamento, Alves, com a minha dextra apertada, lembrou:
—Ah! E que lá recebi as pêras... Diga-lhe tambêm isso, sim? Deliciosas! Deliciosas!
Corria junto da carruagem, ao longo da gare, gritando ainda a plenos pulmões:
—Deliciosas![{17}]