I
Nasci em 74—eu, Teotónio Mendes, de muito boa família.
Tenho, portanto, actualmente (1906) trinta e dois anos.
A minha vila fica entre serras, na vertente dum vale, e o calor ali aperta sempre muito.
Naquele verão sobretudo (eu não sei se os senhores estão bem lembrados) no verão a que se referem êstes acontecimentos, mal se respirava. As fontes secaram; a vegetação, sequiosa, sufocava sob ardentes nuvens[{40}] de poeira, e as pedras nos caminhos quase estalavam com o sol.
Horrível!
Ha quatro mêses que não chovia. Moviam-se préces ao Altíssimo, celebravam-se procissões, missas—ad petendam pluviam—mas do céu afogueado e sêco... nem pinga!
Cumulus de trovoada, no horisonte longínquo, relampejavam em noites caladas, logo desaparecendo varridos dum bafo môrno de canículas.
Dizia-se, farejando as alturas:
—Isto é que vai ser! isto é que vai ser!
Os dias sucediam-se no emtanto ronceiros, bocejados, com um firmamento implacável, de bronze, e a aflição da terra calcinada e triste.
O termómetro de Anselmo continuava a marcar muitos graus. Êste Anselmo, farmaceutico, grande influente político na localidade, era com efeito uma figura curiosa e típica. Inteligente, astuto, conhecido árbitro em questões de pêso, dava as leis e orientava a mentalidade sertanêja da vilota.
Mesmo os mais orgulhosos e independentes,[{41}] senhores do seu nariz, sofriam a sugestão infalível daquela poderosa vontade.
—Ali, na Turquia...—dizia por exemplo êle.
E tinha a gente a impressão de que a Turquia era ali mesmo, a dois passos, que podiamos lá chegar se quiséssemos,—a pé!
Anselmo todavia nunca viajára. Perdão! foi uma vez a Lisboa por três dias, e viu a Galvâni no Coliseu.
—Que tal? perguntaram-lhe, quando voltou.
—Um rouxinol!
Já essa noite no club, o fidalgo da Véla, homem na verdade muito entendido de música, recomendava:
—-É preciso ir a Lisboa... à Galvâni. Diz o Anselmo que é um rouxinol.
Geradas nas bitesgas do seu cérebro e reveladas depois a um círculo de amigos no cantinho da farmácia, as suas ideias extravasavam cá por fóra, caudalosas, engrossando, impondo-se, fazendo opinião. Alvitre que trouxesse marca de tão abalisada procedência, dava sempre[{42}] coisa que se visse, convertia-se logo em rialidade: fôsse uma árvore, um baile, o itenerário num cortejo, um espectáculo—um urinol.
Casado, sem filhos (e sem esperanças já agora de os fabricar) Anselmo professava pela espôsa um amor e um respeito inconcebíveis. Se alguêm diante dêle referisse factos menos edificantes ou alarmasse a assistência com a nova dalgum moderno escandalo em supuração, comentava ruborisado e colérico:
—Deboche! Indecência! Quem quer mulher arranja-a, mas casa-se, que é o que todo o homem limpo deve fazer.
Ela, a D. Ermelinda, correspondia a essa louvável demonstração de bons sentimentos da parte do marido, com uma dedicação sem limites, a que a sua enorme fealdade—uma «fealdade específica», como diz Camilo—prestava fiança idónea.
Além do termómetro havia tambêm na farmácia um barómetro. E todos os dias amigo[{43}] Anselmo informava a vila e arredores com aquele rigor meticuloso, scientífico, aquela probidade verdadeiramente spartana, que era um dos ornamentos hereditários do seu caracter...
Ninguêm saía da terra, ninguêm projectava uma viajem, um passeio, que não fôsse primeiro consultar o Anselmo:
—Que diz você?
E Anselmo, do alto da sua importância quase divina, resolvia:
—Póde sair, homem; vá descançado que não chove.
Ou então:
—Deixe-se ficar; o barómetro desceu e temos água.
Sei até de pessoas que atribuiam tamanha autoridade a Anselmo em assuntos meteorológicos, que havendo resposta negativa chegavam a observar-lhe:
—Demónio! Faz-me tanta falta agora não poder sair... Se isso fôsse coisa que se pudesse arranjar, sr. Anselmo...
Êle não se perturbava, não achava aquilo de mais, respondia:[{44}]
—Tenha paciência, homem, resigne-se; para outra vez será. Tenha paciência.
Quem é que sentia frio ou se queixava de calor emquanto Anselmo não manifestasse que sim, que estava calor ou que havia frio?—Anselmo batia o dente? Venham os jaquetões, os agasalhos, os capotes... Anselmo transpirava? As janelas logo se abriam e largavam-se os cobertores, as brazeiras...
Não era só respeito—era mêdo!
Nessa altura, por exemplo, o boticário decretára que havia um calor excessivo. Toda a gente entrou a dizer que era de mais, que uma tal temperatura se não aturava, uff! que havia um calor excessivo...
Certo dia Anselmo lembrou na farmácia que «talvez andando nu...». Pois surpreendi gente digna, disposta a seguir-lhe o conselho, quase a pôr-se como êle dizia...
Pela uma hora Anselmo examinava o termómetro (chamava-lhe: a coluna) primeiro à sombra, metódicamente, em seguida aos raios directos do sol, na soleira da porta.
Freguês que após esta operação penetrasse[{45}] na farmácia era antes de mais nada avisado pelo Anselmo dos graus que atingira a temperatura ambiente:
—Já sabe?... 30 à sombra e 50 ao sol!... É de rachar!
Depois é que aviava a receita limpando o suor da pescoceira ao mesmo pano com que enxugava as garrafas dos remédios.
A notícia circulava rápida. Perguntava-se por hábito:
—Já viu o termómetro? Quantos marcará hoje o termómetro do Anselmo?
E aí por volta das duas já se sabia, já constava cá por fóra:
—Então hoje, hein? 30 à sombra e 50 ao sol no termómetro do Anselmo!
Desapertavam-se os colêtes...
De facto, desta vez tinham razão. Havia umas horas no dia em que as ruas ficavam desertas, só as moscas e as abelhas faziam o seu giro zumbidor. Dos canos e das valetas onde levedavam detritos, subiam no ar quente exalações pestíferas. Eu esperava o correio com ansiedade, por causa dos jornais, as janelas[{46}] do quarto entre-abertas, o pavimento borrifado com água; ali me conservava naquela meia penumbra, estirado na cama, de papo para o ar... e nu, consoante o Anselmo preconisára.
Saía só à noitinha, que refrescava um pouco, quando a vila se punha a respirar às portas das lojas, ou passeava em grupos pelas estradas, os homens de chapéu na mão e as senhoras de vestidos claros, muito lânguidas, com as blusas desbotadas nos sovacos—da transpiração diurna.
Foi por essa época que eu recebi a carta do meu amigo Felizardo—Felizardo Antunes Vieira Leite, do Porto—convidando-me a ir passar com êle uma temporada numa quinta do Minho, para onde partia nêsse mesmo dia com a mãe, uma senhora respeitável que desejava muito conhecer-me.
No verão iam sempre para lá, dois mêses, a regalarem os pulmões viciados do ar urbano e a vigiarem de perto as colheitas naquela quadra mais intensa da vida agricola.[{47}]
Adorável amigo!
Acabei de ler a carta e ergui-me dum pulo. Abri as janelas de par em par, para que a luz entrasse amplamente. Depois puxei os gavetões e pus-me a atacar de roupa a minha maleta de viagem. Porque eu ia viajar, senhores! Eu ia emfim ver êsse Minho pitoresco de que ouvira sempre falar com tanto entusiasmo.
Fui ao telégrafo e expedi para dr. Vieira Leite o seguinte aviso: «Chego àmanha».
As delícias do progresso!
Jámais apreciára como nêsse jovial momento esta coisa cómoda e vulgar que se chama—o telegrama. E a descer as escadas dos correios eu ainda vinha a parafusar nas belezas da Civilisação,—contente, reconhecido...
De passagem, porque me ficava a caminho, entrei na farmácia. Nunca me dobrára em contumélias aparatosas de adulador ante a figura severa do boticário. Nunca balançára com mão subserviente o turíbulo da Fama com que a vila usava incensá-lo. Digo isto sem a menor[{48}] sombra de prosápia e sem querer censurar ninguêm,—apenas para estabelecer a verdade.
Eu sou um apóstolo da Verdade!
Mas que razões me déra Anselmo que justificassem, até à data, a minha frieza, o meu desdêm, quase? A valer, nenhumas! Ficar-me-ia mal, portanto, que eu tivesse desta vez uma atenção e pondo de parte caprichos, orgulhos, lhe perguntasse muito cortêsmente se queria alguma coisa «para êsse Minho»?
Anselmo estava só, absorvido na laboriosa manipulação duma pomada. Um enxame de moscas poisava na gaze suja que revestia o candieiro de metal suspenso do teto fuliginoso; e atrás, sôbre o pano fundeiro, lia-se no vidro fosco duma porta interior esta palavra em letras gordas debaixo dum emblema galénico:
LABORATORIO
Avancei, anunciei-lhe o objecto da minha visita. O boticário ergueu a fronte majestosa, reconheceu-me, e mergulhando de novo no trabalho, rosnou por entre dentes:[{49}]
—Boa viagem!...
Aquilo vexou-me; não eram formas de corresponder a uma delicadeza. Vai não vai estive para lhe dizer das boas, das fortes,—das minhas...
Mas não pude. Não sei porquê, mas não pude.
Dei umas voltas fóra do balcão, meio acobardado, com um terror supersticioso que não me deixava falar, nem me permitia arredar pé.
Coisa esquisita!
Baralhavam-se-me as ideias e, na confusão mental em que me via, uma só coisa me preocupava impertinentemente: se aquele Anselmo, aquele pigmeu! teria rialmente alguma influência no destino das chuvas, do vento ou das trovoadas?
Admitida a hipótese, podia muito bem, querendo, vingar-se de mim. Que mais não fôsse senão uma telha despenhada do alto dum prédio, no sopro duma rajada acintosa, sôbre a minha cabeça ímpia.
Mas...—protestava uma voz do fundo[{50}] de todo o meu ser angustiado—o Anselmo, que pisava linhaça, que eu via ali na minha humana presença a fazer pomada!? Insensata apreensão, pueril receio, que o falso, infundado prestígio de semelhante figurão, exercendo-se sôbre o meu espírito num inexplicável momento de fraqueza, havia logrado produzir!
Ah! mas a desforra ia ser tremenda! Eu ia resgatar, num gesto nervoso e varonil, a liberdade de pensar e de procedor de toda uma pequena aldeia de fanáticos, mostrando na hora augusta da emancipação, à luz da evidência e da subtil análise, o que êsse insignificante valia por dentro—como homem e como divindade!
Mas de novo uma dúvida, um vago temor se interpôs ao meu intento, quebrando-me as forças, jugulando-me,—nem que alguma poderosa mão invisível estivesse ali sôbre mim suspensa e pronta a estrangular-me à primeira voz.
—Ora esta! murmurava eu mentalmente, ora esta![{51}]
E passados instantes, tornando a olhar o boticário, que continuava indiferente e mudo a esmagar com a espátula, sôbre um pedaço de mármore polido, uma pasta esbranquiçada e fedorenta, perguntei-lhe com a mais cariciosa das maneiras:
—E que me diz o meu amigo do tempo?...
Ora! foi uma beleza: um milagre! Levantou de novo a cabeça, que me pareceu agora aureolada, e encarou-me. Tinha estampada no rosto a surpreza que a pergunta lhe causára. Vi-o sorrir; e mirando o barómetro (ou o termómetro: não sei...) veio até mim, afável, meigo, aliciador. Percebi que ia ter uma resposta, significando talvez o beijo tácito da reconciliação. Eu ia confraternizar com Anselmo, abraçá-lo, entrar-lhe na intimidade... Que bom! Que pechincha!
Nessa altura porêm, um sujeito baixo, agitado, nervoso, investe porta a dentro com os braços no ar, exclamando:
—Ó Anselmo! ó Anselmo! você já viu? você já sabe?
Fitámo-lo surpresos.[{52}]
Era o Menezes, jornalista, que assim vinha estragar a doce situação.
—Que é, homem, que é?!... Conte lá, desabafe! disse o boticário sem encobrir o seu mau humor.
E o outro, com muitos gestos, esbaforido:
—O ministério! caiu o ministério!
E sentou-se por já não poder.
Anselmo largou a espátula:
—Que me diz?!
—Olhe, veja!...—murmurou sufocado.
E estendeu-lhe um papel, um telegrama, aonde vinha tudo explicadinho: «ministério em terra, chamado João Franco, parabens.» Não era preciso mais!
Anselmo ficou sem ar. E o Menezes, outra vez muito excitado, ia e vinha da porta ao balcão, do balcão à porta, a rir-se, transtornado da cabeça, doido com a história.
—Até que finalmente, dizia, ora até que finalmente: o João Franco! Ó Anselmo, ó menino, mas você já pensou bem no caso? O João Franco![{53}]
E esfregava as mãos de contente.
—Agora é que se vai ver o que é governar às direitas; agora sim, é que se vai ver o que é governar!
O boticário quase não queria acreditá-lo. «Ficára banzado!» E o Menezes, vociferando:
—Corja! Os outros por pouco que não põem o país a saque! Tudo a comer, tudo! E eu, e você, e os mais,—os que trabalhâmos—a pagarmos para aqueles piratas!
Anselmo sorria benévolo às considerações acerbas do jornalista que prosseguia irado, numa linguagem perversa:
—Súcia de gatunos! Pulhas! Pulhas!
E já frenético, em altos gritos:
—É bem feito, é bem feito: rua! É bem feito!
Começou a juntar-se povo, garotada, a quem o Anselmo, vindo à porta, enxotava, explicando:
—Que é? que é que vocês querem? Foi o ministério que caiu... Vão-se embora!
Um dos garôtos porêm, mais curioso e atrevido, foi a espreitar para dentro, pelos vidros[{54}] da outra porta,—a ver se via o ministério no chão...
A Anselmo continuava no emtanto a afigurar-se-lhe aquilo um sonho. Assim tão de repente, sem se falar em nada, sem ameaças de crise... Não seria balela?
O jornalista então pôs-se a raciocinar: Qual! era lógico; o Hintze fartára-se lá de fazer asneiras, e antes dêle toda a gente sabia que quem governava não era o Zé Luciano: era a mulher.
Tomou fôlego, prosseguiu:
—Quando aí veio o imperador da Alemanha, e a rainha Alexandra, e o outro... (fez um gesto com o polegar na direcção da raia) o de Espanha, nem sequer tínhamos um presidente do conselho em termos de se apresentar! Uma vergonha!
Cuspinhou, bateu com a bengala, consultou o relógio. Era tarde.
—Olha o Teotónio! Você aí!—disse, dando por mim.—Desculpe, não tinha reparado... Então que diz a isto?
—Eu?...[{55}]
—Sim, que diz você a isto?
Encolhi os ombros, sem responder, verdadeiramente embaraçado. E êle:
—Nem de encomenda, meu caro, nem de encomenda! O João Franco nestas alturas foi a sorte grande para o país!
Estendeu-me dois dedos a despedir-se; e quando se retirava:
—É verdade, ó Anselmo, você agora volta outra vez lá para cima, para a câmara. Creio que agora...
—Qual câmara nem qual carapuça, opôs o farmaceutico, modesto—o que eu quero é que me deixem. Teem aí muita gente...
Menezes não via, não achava:
—Muita gente! Aonde?...
Foi então que eu, Teotónio, julguei oportuno intervir:
—Se me dão licença, direi que sou tambêm do parecer do amigo Menezes...
—Diga, diga! aprovou êste.
—É impossivel na verdade encontrar por todo o concelho quem, como o sr. Anselmo, seja capaz de desempenhar com tanta capacidade[{56}] e proficiência o papel de presidente do município.
—Apoiado!
—Haja em vista,—justifiquei, voltando-me para êle,—o que V. Ex.ª fez da outra vez por ocasião da gréve das leiteiras!
—Ora, ora...—desdenhou Anselmo.
—É a verdade, é a verdade! aplaudiu o Menezes.—Está na memoria de todos. De todos!—repetiu, aprumando-se, nos bicos dos pés.
—Andava-se aterrado, continuei, como na véspera dos grandes acontecimentos. Dizia-se que ficaríamos sem leite na vila por uns poucos de dias!
—Um alimento de primeira necessidade...—avolumou o jornalista.
—Vai então o sr. Anselmo, num abrir e fechar de olhos, resolveu. Lembro-me como se fôsse hoje da memorável sessão a que assisti e em que V. Ex.ª sossegou a população, declarando que uma gréve dessa natureza seria para temer se em vez de ser feita pelas vendedeiras de leite, fôsse feita pelas próprias vacas...[{57}]
—Sim senhor...—confirmou o Menezes.—Lembro-me perfeitamente; eu tambêm lá estava. Por sinal que estreei um fato nêsse dia...
—Emfim, rematei, e quantas coisas mais!? A quem se deve por exemplo o melhoramento entre nós do carro do lixo?
Menezes coadjuvou-me, indicou o boticário:
—A êle!
—A quem se deve a construção do coreto na Praça Nova?
—A êle!
—A quem se deve a compra dum irrigador para o hospital civil?
—A êle! a êle só!
—Ó senhores, pelo amor de Deus! confundem-me!—bradou o boticário rialmente confundido, levando as mãos ao crâneo—Eu sou um humilde trabalhador, com desejos de acertar, de bem servir a minha terra e os amigos. Nada mais!
—Êsse pouco...
—Mas quanto a política, francamente, confesso—estou farto; estou farto dela até aos olhos![{58}]
—Isso diz êle agora, isso diz êle agora, murmurou o Menezes, piscando-me o ôlho.—Olha quem, o régulo!
Depois, despediu-se; chegou mesmo a descer o passeio; mas voltando atrás afogueado:
—Ouça lá, Anselmo, e hoje? o termómetro?
Anselmo foi verificar. Inclinando para o solo o dedo indicador, hirto, num gesto omnipotente, informou:
—Desce!
—Ah! Ótimo... Assim era duma pessoa morrer!
E muito meneado, o jornalista lá se foi de vez a semear notícias.
Dispus-me então a comentar o caso a sós com o Anselmo. Do seu facundo e preclaro espírito viria até mim, triste mortal, o bom conselho, a opinião autorisada e justa...
Ministério em terra, o João Franco inesperadamente no poder... Era com efeito um extravagante acontecimento.
Eu nunca fôra, porêm, um político interessado. A dizer a verdade, não sabia mesmo[{59}] se aquele facto, na aparência sensacional, representava uma vantagem ou um inconveniente para o país. Não me encontrára jámais inclinado para êstes ou para aqueles. A ser um franquista, um progressista ou um regenerador, preferia não ser coisa nenhuma—que é para o que eu me sinto rialmente com vocação...
Naquele momento todavia achei o João Franco simpático. Decerto vinha animado de bons propósitos, decerto; e era um homem rico, o que—seja dito de passagem—significava uma grande segurança para a inviolabilidade do Tesouro... Menezes tinha razão.
Todas estas considerações eu adusi a Anselmo, que me fitava e sorria satisfeito.
—Mas porque caíria o Hintze? indaguei.
Anselmo torneou o balcão, veio dizer-me ao ouvido:
—O rei, entende? que tem um medo dos rèpublicanos que se fina (isto aqui para nós) e quer lá no poder um homem de envergadura, um homem que os tenha no seu lugar, ora entende o senhor? Para isso, ninguêm mais nas[{60}] condições de que o João Franco. O João Franco é um valente! Se lhe constar, verbi gratia, estando aqui, que lá fóra a uma esquina há um homem com um cacete á espera dêle—acredite—é quando lá passa mais depressa. Olha quem!... Nem o Bismarck!
Eu ia acompanhando com interjeições o caloroso panegírico do ministro. E quando Anselmo terminou:
—Efectivamente, o João Franco...
Anselmo benzeu-se:
—Ah! meu amigo: é um colôsso!
Fez-se silêncio. O boticário acondicionava numa caixinha a pomada preparada. Assoou-se. Escreveu um rótulo e colou-o na tampa, a assobiar o hino da carta.
—Diga-me uma coisa, inquiri; o Menezes não era progressista?
—Era; mas passou-se para os nossos há-de haver um mês. É um convicto.
—Parece.
—E brioso; um cavalheiro.
—Parece.[{61}]
—Ali o Souto dos telégrafos mijou-lhe um dia fóra do têsto...
—O Souto? Ah! sim... Mas êsse é um trampolineiro!
—É. O sr. fala-lhe?
—Ás vezes, por cortesia...
—Pois uma ocasião teve o descaramento de afirmar, no club, diante de quem o quis ouvir, que um artigo que o Menezes publicára não era do Menezes e que era... sabe o senhor de quem? imagine!—do Navarro, do Emídio Navarro!
—Patife!
—... que tinha vindo nas Novidades já não sei há quantos anos, e que o Menezes o fôra copiar, alterando apenas ligeiramente a forma.
—Patife! patife!
—O Menezes, mal aquilo lhe chega aos ouvidos—êle que é um esturrado!—agarra num vergalho e onde encontra o Souto prega-lhe uma destas coças...
—Bem feito.
—De manhã já o Menezes aqui me tinha[{62}] dito a mim, furioso: «Juro-lhe, Anselmo, que onde encontro aquele tratante, quebro-lhe um côrno».—Se bem o disse melhor o fez: vai e quebrou-lho.
—Anda-me.
—No domingo imediato, quando tudo supunha a questão arrumada, zás: sai o jornal? Eu cheguei a saber aquilo tudo de cór, homem!
Concentrou-se, os olhos fechados, a mão na testa, a ver se se lembrava.
E com pesar:
—Já não vai; paciência!
—É pena.
—Mas digo-lhe o final, descance, que êsse é daqui...—e beliscava o lóbulo da orelha. Então, o braço estendido, em atitude declamatória, o polegar e o índice aplicados num gesto precioso, recitou, com uma pontinha de malicia nos olhos: «Diz D. Bazílio que da calúnia alguma coisa fica. Não temêmos, porêm, etc., etc., etc....» Repare agora: «Os aleives resvalam na consciência dos justos como zagalotes no aço.» (Anselmo sublinhava: como zagalotes no aço...). «Todo o mundo sabe que só[{63}] usamos o que nos pertence...» (Piscadela de ôlho do Anselmo) «Não costumamos botar figura com coisas alheias: o dinheiro dos amigos ou as joias das amantes: Meneses dos Santos».
—Isso é medonho! comentei.
Emquanto Anselmo repetia, vibrante de entusiasmo:
—«O dinheiro dos amigos ou as joias das amantes»! Refere-se á mulher do notário... Genial! genial!
Rimos depois muito, com aplausos efusivos ao jornalista e censuras ao procedimento do Souto, que fôra indecente.
A conversa decaíu. Anselmo bocejava. Eu peguei num jornal, percorri-o com a vista, distraído.
—Então sempre vai amanhã? perguntou-me.
—Sempre vou amanhã.
—Pois o tempo está firme. A coluna desceu, mas descance que não há-de haver novidade. Isto conserva-se.
Bateu-me no ombro palmadinhas amigáveis:[{64}]
—Pode ir descançado...
—O sr. Anselmo não quer para lá nada?—perguntei.
—Não; quero que tenha muita saúde.
Fitou-me carinhosamente:
—E veja se engorda, coma-lhe! Parece que anda magro, homem... Dê cá um abraço.
Estreitá-mo-nos peito com peito. Éramos dois amigos velhos... Comovi-me; e visto que se faziam horas de jantar, segui rua abaixo.
—Até à volta!
—Até à volta!...
O sol abrasava. Quando dobrei a esquina, olhei. O boticário tinha vindo à porta, dizia-me adeus de lá,—com a mão...[{65}]