II

Anselmo estava em Nagosa, fazendo a vindima, quando se declarou em Lisboa o movimento revolucionário de outubro.

Tinha vindo nesse momento de baixo, do lagar, aonde meia dúzia de homens hercúleos, de calça arregaçada e pernas ao léu, rôxas como canelas de perdiz, pisavam a uva, dançando ao som de ferrinhos e de adufe uma dança bárbara, grotesca, entre uivos e assobios.

O filho mais velho do caseiro fôra a Moimenta pelos jornais e por tabaco, e a encomendar[{68}] a carne do dia imediato, que era dia de matança na vila.

Não devia tardar.

D. Ermelinda arranjára a ceia: uma ceia de caldo verde e sardinhas assadas, raras naquela região e muito frêscas,—nem que Nagosa fôsse um braço de mar e as houvessem ali pescado nêsse instante... No fim, para assentar, chá,—um cházinho de cidade, loiro e aromático, dando a nota apurada da civilização após aquele menu de cavadores.

Viera a criada erguer a mesa, dobrando a toalha cautelosamente para não espalhar as migalhas pelo chão, quando chegou o portador de Moimenta com a notícia de que estalára a revolução em Lisboa. A notícia era vaga e incerta, sem pormenores, porque não havia jornais nem o telegrafo funcionava; um caixeiro de amostras chegado de Lamego essa madrugada, em deligência, espalhára a novidade e disséra que Lisboa, a essa hora, era um mar de sangue![{69}]

Desde o assassinato do rei que Anselmo sentia um forte desânimo por tudo isto... D. Carlos, tipo de sibarita sem escrúpulos, inteligente, mentiroso e gabarola, fôra a última trave que ruira do desmantelado edifício monárquico. A sua morte, cuja forma, êle, Anselmo—homem de processos sóbrios—veementemente reprovára, deixára o país em alvorôço, debatendo-se nas garras duma agonia cruciante, mal amparado por gente tímida, com um rei no trôno «que não era rei nem era rainha», figurita débil e epicena de maricas.

—Havemos de ir longe! profetisava com melancolia.

A nova da revolução na capital, trazida assim, de súbito, àquela hora da noite, por um labrego analfabeto, a um lugar sertanejo e ignorado, não o surpreendeu portanto, mas encheu-o de ansiedade e sobresalto.—Qual seria o resultado de tudo aquilo? Venceria o govêrno? Venceriam os insurrectos? E depois: a intervenção extrangeira?...[{70}]

Um calafrio de susto percorreu-lhe a espinha dorsal ao pensar nisso, nos horrores duma carnificina e dum saque. Viu-se desapossado dos seus bens, violentamente, à coronhada; viu-se escorraçado, prêso, fusilado a uma esquina! Êle estava dispôsto todavia a declarar, sob sua palavra de honra, que embora tivesse militado no partido franquista, não tinha a mínima sombra de responsabilidade no indigno decreto de 31 de Janeiro...

—Com que então Lisboa é um mar de sangue? perguntou de novo ao seu rústico informador, como para certificar-se de que não delirava. E confirmada a notícia, comentou:—Pois bem... Nós cá não temos nada com isso; lá é com êles. Acima de tudo o que eu sou é patriota. Rèpública ou Monarquia tanto se me dá; o que é preciso é haver quem nos governe. Boa noite!

Havia lua cheia.

Anselmo antes de se ir deitar saíu para o terraço da casa a respirar um pouco, à vontade. Arrotou. As sardinhas vieram-lhe à bôca.[{71}] Murmurou arreliado:—«A mania de comer a esta hora há de acabar.»

O arzinho do campo, porêm, reanimou-o, fez-lhe bem, descongestionou-lhe o rosto afogueado.

Sentou-se num banco, á fresca, de colête desabotoado e a fumar.

De dentro, atraves duma janela aberta, a voz de D. Ermelinda vibrou esganiçada:

—Ansèlminho, olha a bronquite!

Não respondeu. A noite estava um encanto! Um luar muito claro punha em relevo as silhuetas da paisagem larga, beirôa, de vegetação sombria e de penedia hirsuta. Os cães ladravam na quinta. Milhões de estrelas scintilavam no céu opalino, levemente ofuscadas pela alvura do luar...

Murmurou, regalado:

—E é que já daqui não saio, emquanto a coisa se não decidir...

A 5 de Outubro estava a Rèpública definitivamente proclamada em Portugal, sabendo-se da nova em Nagosa quando o vinho[{72}] de Anselmo começava a ferver nas dornas.

De tarde Anselmo foi à lagariça para calcular com a vista a importancia da colheita. Bem boa! Sabia-se que em Moimenta os rèpublicanos tinham já içado na casa da Câmara o pavilhão revolucionário; ia um delirio na população. E o brazileiro de Cabaços deitára meia dúzia de foguetes que se viram perfeitamente de Nagosa subir e estalar no ar, deixando uns novelos de fumo branco, por momentos, no azul do céu e no oiro vivo do sol outonal.

Anselmo debruçou-se sôbre o lagar, farejou o môsto, teve um sorriso feliz de proprietário favorecido, e chamando o caseiro:

—Ó Jose, o vinhito êste ano parece-me bom, hein?

—Parece que sim, meu padrinho...

Era afilhado.

—A uvazita fundiu... dizias que não.

—Houve mais que eu sei lá!

—Pois sim, mas...

Não concluiu, não explicou o que queria dizer na sua.[{73}]

Tirou do bôlso a tabaqueira, um livrete de mortalhas; ofereceu uma na ponta dos dedos ao afilhado; deitou-lhe na palma da mão calosa duas pitadas de tabaco francês; limpou depois êle próprio as mãos sujas do rebordo da dorna a que se agarrára, a umas palhas que ali topou a geito, e pôs-se a fazer um cigarro, trauteando a Portuguesa.

O primeiro desgosto sério que êle sofreu depois da Rèpública, foi com a lei da Separação.

A mudança de regimen, como Anselmo a entendia, resumir-se-ia a abolir a realeza, causa imediata e suficiente de quantos cataclismos e desgraças assoberbavam êste pobre país. O resto era pó, ou melhor, era ódio, vingança, perseguição, fanatismo. Impressionára-o bem, ao começo, o facto de serem os próprios miseráveis, os pobretanas, os maltrapilhos, quem guardára, nos dias da Revolução, os bancos e as casas da gente endinheirada. Mas a questão da bandeira, logo a seguir, a picuinha de substituirem as antigas[{74}] côres constitucionais pelo vermelho e pelo verde (há quem diga que Anselmo sublinhava a palavra verde com intenção maliciosa; talvez) começou a indispô-lo, a irritá-lo. De mais a mais havia gente insuspeita a condenar as novas tintas! E os olhos sinceramente se lhe arrasaram de lágrimas quando viu tremular no edificio da câmara municipal da sua vila (da sua vila!) o hediondo trapo republicano.

Aos primeiros dias de harmonia e de entusiasmo começaram a suceder-se no país, pouco a pouco, outros, menos tranquilisadores e festivos. Tinham-se efectuado prisões, demissões; surgiam ali e aqui desacordos, antipatias, notas desafinadas no geral concerto; havia descontentes; principiava a falar-se vagamente de conspiradores. O capitão Paiva Couceiro saíra para Espanha, agressivo, no intuito de organisar um exército restaurador da monarquia. Os padres, dizia-se, tinham o povinho ignorante das aldeias na mão, e era só dizer-lhe:—«Vamos!» tudo marcharia à uma sôbre as[{75}] cidades e daí sôbre Lisboa, engrossando, rolando, com a fôrça duma vaga e o barulho dum trovão!

O Govêrno Provisório, sorrindo desdenhosamente, tomava no emtanto as suas medidas de defeza, ordenava prevenções rigorosas nos quarteis. As redacções dos jornais monárquicos eram assaltadas por magotes de homens armados e coléricos que partiam o mobiliário, empastelavam o tipo, espatifavam as maquinas de impressão, pondo tudo em fanicos, pelas janelas, no meio da rua.

E foi numa altura destas, num estado assim de insubordinação e de efervescência, que o govêrno se lembra de perseguir os bispos!

Anselmo indignava-se:

—O país é católico, dizia, o país é católico e não pode permitir semelhante arbitrariedade! É um atentado contra a religião de cada um.

Alguêm lhe ponderou que não, que o govêrno não pensava em perseguir ninguêm; que não era êsse o espírito da lei; que o Estado o que não devia era apadrinhar esta ou aquela religião. Eu mesmo, Teotónio Mendes,[{76}] republicano hereditário, apoiei com certa autoridade e firmêsa estas sensatissimas explicações.

—Cale-se! vociferava êle, exaltado, dirigindo-se-me; cale-se, que não diz se não asneiras. A Rèpública tem de ser tolerante se quizer viver! Os jacobinos, os carbonários como o senhor, não conseguirão por mais que se esforcem abafar os protestos da opinião pública; e a opinião pública está abertamente com a Igreja. Com a Igreja, fique-o sabendo!

Todos nos calávamos. Anselmo limpava a fronte donde o suor porejava.

—Pódem-me prender, se quizerem, que eu direi sempre a verdade. A verdade é só uma!

E cheio de provas, revoltado:.

—Admite-se lá que se tire assim o pão a tanta gente, que se lance na miséria tanto português, tanto padre com mulher e filhos... perdão (emendava): com família numerosa.

Em volta houve um silêncio aprovativo.

Tudo mudára, na verdade...

Um dia, Anselmo andava passeando na farmácia,[{77}] as mãos atrás das costas, a meditar no futuro do país. O barómetro marcava tempo sêco—e lá fora chovia! A coluna indicava uma temperatura alta, e Anselmo tinha a certeza de que era falso. Aquilo queria dizer que andava tudo às avessas, que ninguêm se entendia neste país, que a indisciplina reinava—até no tempo!

Não havia doentes: há 15 dias que o movimento farmacológico era insignificante. Assim, a própria ociosidade colaborava nos acontecimentos, gerando nos cérebros ideias insubmissas...

—V. Ex.ª é que é o sr. Anselmo Nogueira?—perguntou a meia voz um desconhecido que entrou, descobrindo-se.

—Eu mesmo em carne e osso. Ponha o seu chapéu. Que deseja?

Mas logo, reconsiderando, medindo-o, fez pé atrás como quem desconfia do sujeito e se prepara para se pôr a salvo, no caso de perigo.

—Não se assuste, disse-lhe o recem-chegado, observando aquele gesto,—eu não sou quem pensa... pelo contrário.[{78}]

—Ah!

—Sou dos fieis. Trago-lhe aqui uma carta da Galisa...

E levou a mão ao bôlso. Anselmo segurou-lhe no braço, palido:

—Ó diabo, espere... espere lá, tome cautela.

E foi à porta espreitar. Não havia ninguêm. Chovia.

—Tem a bondade de entrar ali para dentro, indicou.

E encostando a porta de vidro fôsco do laboratório:

—Estou às suas ordens, pode falar... Estamos sós.

Todo êle tremia.

O outro entregou-lhe a carta em que lhe pediam dinheiro para uma próxima incursão e lhe perguntavam se poderia auxiliar, a coberto da sua seriedade insuspeita, um pequeno contrabando de armas: pistolas e munições. Assinava a carta, em nome de Paiva Couceiro, «um amigo da Religião e da Pátria.»[{79}]

Anselmo gaguejou:

—Sim... sim... dinheiro, talvez, mais adiante... Agora as pistolas, desde já lhe digo, meu caro sr., que as pistolas não... Escusam de contar comigo para semelhantes aventuras. A minha casa é muito freqùentada, tudo meche e remeche... não há esconderijos...

—Nesse caso...

—Nesse caso, o melhor é ir bater a outra porta. Do meu lado podem contar apenas com o apoio moral.

O desconhecido ia retirar-se desanimado. Anselmo deu-lhe uma esperança;

—Ah! olhe: e estricnina e sal de azêdas, à descrição...

O enviado sorriu, agradeceu, despediu-se.

—Diga-me cá, inqueriu ainda Anselmo interessado, com a mão dêle apertada,—o nosso Paiva Couceiro como ficou?

—Bem.

—E o rei, tem-no visto?

Não o tinha visto. Estava em Londres.

—Coitado! aquele tambêm... Quando calhar, dê-lhe lá muitos recados meus, sim?[{80}]

O indivíduo misterioso prometeu, saíu da botica.

—Oiça, oiça! A Ermelinda, minha mulher, tambêm se recomenda. E à D. Amélia. Diga-lhe que cá os esperamos a todos, muito brevemente.

Fez-lhe uma mesura aparatosa:

—Meu caro senhor...

Uma vista de olhos, rápida, furtiva, pelas janelas dos prédios fronteiros, a ver se alguêm teria dado pela visita, e tornou ao laboratório, ruminando o caso, arreliado por se ter esquecido na perturbação que o invadira, de perguntar o nome do tipo. «E a gente às vezes a supôr que ninguêm nos conhece, que não consta, que se não sabe lá por fóra! Ai Anselmo, ai Anselmo!...»

Tirou do bôlso a carta comprometedôra, levemente amarrotada; acendeu um fosforo e ali mesmo, antes de outra coisa, queimou-a, com prudência, reduzindo-a a cinzas.

O documento!

Nisto, uma mulherzinha entrou na farmácia,[{81}] a correr, sem chaile, a pedir linhaça para o sr. administrador que estava a morrer com uma cólica.

Anselmo estremeceu. Para o sr. administrador? Fingiu que ia servir a mulher, e de repente:

—Oh co'a breca! esta agora! não tenho linhaça.

—Não tem linhaça?!

—Não tenho. Acabou-se-me.

—E agora?

—Agora... deve chegar amanhã.

—Amanha! Amanha pode o homem estar no outro mundo!

Anselmo sentiu que as pernas se lhe vergavam àquela ideia homicida; ia trair-se, não podia mais.

—No outro mundo?!

—Sim, no outro mundo; se o sr. o visse!

Anselmo, porêm, num abrir e fechar de olhos, raciocinou: «mas se êste é dos tais que a monarquia não poupa quando voltar; se êle está fatalmente condenado pela revindicta... Deixá-lo ir já!»[{82}]

—Pois tenha paciência, santinha; onde não há el-rei o perde...

—El-rei! exclamou a mulher, furiosa, voltando costas, de repelão,—o que o sr. precisava bem sei eu; não haver linhaça numa terra onde não há mais boticas!

Anselmo ainda ouviu a mulher a distância, queixar-se para alguêm, fazendo escândalo:

—É ali o boticário que não tem linhaça; anda só a pensar na monarquia, o talassa, e esquece-se das obrigações...

O epíteto de talassa custou-lhe os olhos da cara; mas emfim, tudo eram sacrifícios pela Causa. Mais tarde havia de saber-se e os juros viriam—se viriam!—com larga usura e gratidão...

—Talassa! Talassa!...—gritava a mulher.

—Pois sim...

A incursão falhou. Pela raia, em Vinhais, bandos de malfeitores assalariados tinham tentado um simulacro de luta contra a existência[{83}] do novo regimen. Fugiram. A notícia do fracasso voou por todo o país com rapidez. Anselmo soube-a de manhã, na cama, pela criada, e já se não quis levantar. Adoecera. Queixou-se de arrepios, gemeu, disse à mulher que mandasse vir o médico.

—E para a farmácia, quem vai?

—Vai a senhora, rosnou, de mau humor.

E abafou-se na roupa.

O médico veio e receitou: era intestino. Como republicano, falou do caso. Anselmo, mordido de curiosidade, desejou conhecer toda a acção nos mínimos detalhes: quantos eram, quem vinha, quem comandava e por último, convencido da derrota, da inanidade daquele esfôrço ridículo, perguntou:

—E dos nossos, quem foi?

—Dos nossos?! interrogou o médico, sem perceber.

—Sim, dos rèpublicanos: quem é que o govêrno mandou a correr aquela tropa fandanga a ponta-pé?

O médico, que era um homem distraído, respondeu com indiferença:[{84}]

—Não sei; creio que ninguêm; nem se pensou em tal, ilustre correligionário...

Á tarde, Anselmo poude sair. Não tinha febre. O intestino desatou a funcionar melhor e nem foi preciso medicar-se.

—Mas que ideia aquela, dizia êle, no club, a uma roda de amigos embasbacados,—que ideia aquela da restauração! São doidos!... A Rèpública tem, não há dúvida, alguns defeitos, sou eu o primeiro a reconhecê-lo; mas tirem-se-lhe! O que todos devemos fazer é trabalhar para que as novas instituições sejam aquilo para que as creámos.—Não é isso, Teotónio? rematou, voltando-se para mim, que o escutava transido.

E com descaramento:

—Você tem-me ouvido muita vez dizer isto mesmo; você sabe que eu já no tempo da monarquia era tanto ou mais liberal do que você, que se tem por histórico.

Eu, moita.

—Você não fala? não diz nada?

Afastei-me prudentemente. Notei que ia rebentar[{85}] de indignação contra aquele farçante; mas ao mesmo tempo sentia—como sentíamos todos aliás, diante dêle—que nem que fizesse ou dissesse o dôbro do que dizia e fazia, algum de nós teria a coragem de o desmentir!

Assim se consumou pois a adesão solene do sr. Anselmo a Rèpública. Tudo o que veio a seguir, gréves, intentonas, zaragatas, a incursão de julho... tudo, numa palavra, encontrou-o já pela frente, tão decidido e jacobino, ou mais ainda do que aqueles que se gabavam de o ser. Logo que se organizaram os partidos, Anselmo filiou-se nos democráticos. E o ódio ao padre, o horror ao padre, a fobia do padre obcecava-o de dia e de noite.

Uma vez, um dos ministros foi a Vizeu: pespegou-se lá, com o Teotónio e o administrador (aquele administrador que êle quis matar) e o Menezes jornalista, que tambêm já era democrático. Assistiu ao jantar, fez um brinde condenando o Clero, «êsse Clero infame a que pertencêra, não se sabe porque caprichos da sorte, o célebre, o liberalíssimo[{86}] bispo daquela terra!». Falou depois de Viriato, e terminou com um viva à Rèpública que atroou o vasto recinto do teatro onde o banquete se realizava.

O ministro, sensibilisado, ergueu-se para agradecer. Discursou pausadamente durante 20 minutos, empunhou a taça por fim, e pediu a todos que o acompanhassem e bebessem à saúde de Anselmo Nogueira, «figura prestimosa da Rèpública, homem de bem às direitas, livre pensador e companheiro fiel dos tempos da propaganda.—Hip! hip! hip! Hurrah!».

As taças tilintaram. Anselmo, carregado, chorou. E Teotónio, batendo com a mão no ombro do administrador de Moimenta, segredou-lhe:

—Lá intrujou o ministro, o patife! Companheiro fiel dos tempos da propaganda, ouviste? Que desafôro!

O administrador comentou:

—E livre pensador, filho! Parece que o estou ainda a ver de lanterna e de opa na procissão do Senhor dos Paços! O que é o mundo!...[{87}]

Eu puz-me a considerar, palitando os dentes.

—Então e nós? indaguei por fim, despeitado.

—Nós? nós? Essa agora! Nós não saìremos nunca da cêpa torta, meu velho... Este Anselmo, êste farmaceutico, que ali vês recostado numa cadeira, é o modelo do político português. Maioral no tempo da monarquia, maioral se vai tornando dentro da Rèpública. Era de esperar! Pois se os monárquicos é que prepararam isto com os seus erros, se êles é que deitaram a monarquia a terra, não achas justo que quem plantou a vinha pense tambêm agora em comer os cachos?...[{88}]
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